A Viagem

Danielle Steel




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Sempre-Lendo, o melhor grupo de troca de livros da Internet!


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Traduo de GABRIELA CORTE-REAL
Crculo de Leitores
Ttulo original: JOURNEY
Fotografia da capa: CASA DA IMAGEM
ISBN 972-42-3195-X
Copyright 2000 by Danielle Steel Impresso e encadernado para Crculo de Leitores
por Printer Portuguesa Casais de Mem Martins, Rio de Mouro
em Abril de 2004
Nmero de edio: 6029
Depsito legal nmero 207 389/04
Digitalizao e arranjo:
Ftima Chaves

Aos meus filhos, Beatie, Trevor, Todd, Sam, Victoria, Vanessa, Maxx e Zara, que viajaram para longe comigo, com f, muito humor e imenso amor.
E a Nick, que repousa em paz nas mos do Senhor
com todo o meu amor, d. s.
O meu percurso foi longo. No o lamento. Por vezes, obscuro, um caminho arriscado. Outras, alegre, inundado de sol. Foi rduo com maior frequncia do que fcil.
A estrada abriu-se-me cheia de perigos desde o incio, a floresta densa, as montanhas altas, a escurido aterradora. E atravs de tudo isso, mesmo em plena bruma, 
uma pequena luz, uma tnue estrela para me guiar.
Fui sensata e tonta. Fui amada, e trada, e abandonada. E para meu grande desespero, inadvertidamente, feri outros, e peo-lhes perdo com toda a humildade. Perdoei 
aos que me magoaram e rogo que eles me perdoem ter-lhes permitido magoar-me. Amei muito, entreguei-me de alma e corao. E, mesmo quando profundamente ferida, continuei 
o meu caminho, com f, com esperana, at com uma crena cega, rumo ao amor e  liberdade. O percurso continua, mais fcil do que j foi.
Aqueles de vs ainda perdidos nas trevas, que os vossos companheiros de viagem vos tratem bem. Que se lhes deparem abrigos seguros quando precisarem deles, e com 
clareiras na floresta; com guas frescas para que possam beber tranquilos, mitigar a vossa sede e banhar as vossas chagas; e, um dia,
com a cura.
Quando nos encontrarmos, daremos as mos e conhecer-nos-emos uns aos outros. A luz est l,  nossa espera. Cada um de ns deve,  sua maneira, prosseguir at a 
achar. Para tanto, necessitaremos de determinao, fora e coragem, gratido e pacincia. E, para alm de tudo isso, de sensatez. No fim do percurso, encontrar-nos-emos, 
encontraremos a paz, e o amor com que, at ento, apenas teremos sonhado.
Que Deus apresse o vosso percurso e vos proteja.
d. s.
[
"A Viagem"
"... Durante toda a minha vida
Procurei a paz;
E agora de boa vontade me deitaria nesta erva extensa
E fecharia os olhos."
EDNA ST. VINCENT MILLAY
CAPTULO 1
A comprida limusina preta afrouxou lentamente e acabou por parar, numa extensa fila de carros semelhantes. Era uma noite amena dos princpios de Junho. Dois marinheiros 
deram, em simultneo, um passo em frente quando Madeleine Hunter saiu graciosamente do carro diante da entrada leste da Casa Branca. Uma pequena bandeira flutuava 
com a brisa de Vero, e Madeleine sorriu a um dos marinheiros quando este a saudou. Era alta e esguia, trazia um vestido de noite branco que lhe pendia de um dos 
ombros num elegante drapeado. O seu cabelo escuro estava penteado num rolo alto que lhe realava na perfeio o pescoo longo e o ombro nu.
Tinha a pele clara, os olhos azuis, e movia-se com aprumo e delicadeza sobre umas sandlias prateadas de salto alto. Brilharam-lhe os olhos, sorriu, desviou-se para 
o lado quando um fotgrafo disparou a mquina. E depois outro, quando o marido saiu do carro e se lhe juntou. Jack era um homem de quarenta e cinco anos, bem constitudo, 
fizera a sua fortuna no decurso de uma carreira no futebol profissional, investira-a proveitosamente, e em tempos transaccionara, vendera e comprara primeiro uma 
estao radiofnica, depois acrescentara-lhe uma de televiso, e aos quarenta possua uma das maiores redes por cabo. Jack Hunter h muito que transformara a sua 
bela fortuna num grande negcio. Num muito, muito grande negcio.
O fotgrafo disparou uma segunda vez, aps o que ambos entraram rapidamente na Casa Branca. H j sete anos que formavam um casal notvel. Madeleine estava com trinta 
e quatro anos e tinha vinte e cinco quando ele a descobrira em Knoxville. H muito que o seu sotaque arrastado se perdera, tal com o dele. Jack era de Dallas e falava 
num tom forte, incisivo, que convencia de imediato os seus interlocutores de que sabia exactamente o que queria. Tinha olhos escuros que seguiam a sua presa por 
todos os cantos da sala e conseguia prestar ateno a vrias conversas ao mesmo tempo, isto arranjando maneira de parecer atento  pessoa com quem falava.
Havia ocasies em que, diziam os que o conheciam bem, os seus olhos pareciam perfur-los, e outras em que davam a impresso de os acariciar. Emanava dele algo poderoso 
e quase hipnotizante. Bastava observ-lo, impecvel no seu smoking e camisa muito bem passada a ferro, com o cabelo negro e liso, para que apetecesse travar relaes 
com ele, tornar-se seu ntimo
Produzira esse efeito em Madeleine quando se encontraram, era ela pouco mais do que uma rapariga, em Knoxville. Tinha ento o sotaque do Tennessee, viera de Chattanooga 
para Knoxville. Fora recepcionista numa estao de televiso, at uma greve a obrigar a passar primeiro para a meteorologia e depois para o noticirio. Apesar de 
desastrada e tmida, era to bonita que os espectadores que a viam ficavam hipnotizados ao olh-la. Mais parecia um modelo ou uma estrela de cinema, mas havia nela 
qualquer coisa de "vizinha do lado" que todos adoravam, e uma arte pessoal para ir direita ao mago das histrias. Jack ficou subjugado ao v-la pela primeira vez. 
Tanto a voz como os olhos dela queimavam.
O que faz voc aqui, beleza? Arrasar o corao de todos os rapazes, aposto dissera-lhe ele. No parecia ter mais de vinte anos, embora fosse cerca de cinco mais 
velha. Jack parara para lhe falar no fim da emisso.
Nada disso rira-se ela. O homem estava a negociar a compra da estao. E comprara-a, dois meses mais tarde. Mal o fez elevou-a a locutora e maridou-a para Nova Iorque 
para que primeiro lhe fosse ensinado tudo o que precisava de saber acerca de noticirios e depois, como se pentear e maquilhar. E o efeito, quando voltou a v-la 
no ar, foi impressionante. Em poucos meses, a carreira dela estava em marcha.
Foi Jack quem a ajudou a libertar-se do pesadelo em que vivera, com um marido com quem estava casada desde os dezassete anos e que a maltratara de todas as maneiras 
possveis. Sem a mnima diferena daquilo que em criana vira passar-se com os pais, em Chattanooga Bobby Joe fora seu namorado no liceu e estavam casados h oito 
anos quando Jack Hunter comprara a rede de televiso por cabo na cidade de Washington, e lhe fizera uma proposta irresistvel. Queria-a para sua colaboradora do 
horrio nobre e prometeu-lhe
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que, se aceitasse, a ajudaria a mudar de vida e a cobrir os acontecimentos mais importantes.
Jack chegou a Knoxville numa limusina e encontrou-se com ela na estao de autocarros da Greyhound, com uma pequena mala Samsonite e uma expresso aterrorizada. 
Entrou no carro com ele sem dizer palavra e fizeram juntos todo o percurso at Washington. Bobby Joe levou meses a interrogar-se sobre o paradeiro da mulher, que 
entretanto lhe pedira o divrcio, ajudada por Jack, com o qual, um ano depois, se casara. H sete anos que era Mrs. Jack Hunter, e Bobby Joe e as suas impensveis 
afrontas no passavam de um pesadelo que se ia esbatendo. Agora, era uma estrela. Vivia uma vida de conto de fadas. Era conhecida, respeitada, adorada em todo o 
pas. E Jack tratava-a como a uma princesa. Ao entrarem na Casa Branca de brao dado, parando na recepo, mostrava-se descontrada e feliz. Madeleine Hunter no 
tinha preocupaes. Era casada com um homem importante, poderoso, que a amava, e sabia-o. Sabia que nada de mau voltaria jamais a acontecer-lhe. Jack Hunter no 
o permitiria. Agora, estava a salvo.
O presidente e a primeira-dama apertaram-lhes a mo na Sala Leste e o presidente disse baixinho a Jack que queria estar um momento a ss com ele, mais tarde. Jack 
anuiu com um aceno de cabea e sorriu-lhe, enquanto Madeleine tagarelava com a primeira-dama. Conheciam-se bem. Maddy entrevistara-a vrias vezes e os Hunter eram 
com frequncia convidados para a Casa Branca. E quando Madeleine penetrou na sala pelo brao do marido, ambos encarando os outros convidados, as pessoas sorriram 
e cumprimentaram-nos, todos a reconhecendo. Como era extenso o percurso desde Knoxville! No sabia onde parava agora Bobby Joe, o que alis lhe era indiferente. 
A vida que vivera com ele parecia-lhe actualmente irreal. A sua realidade era aquela, um mundo de seres poderosos, importantes, entre os quais brilhava como uma 
estrela.
Misturaram-se com os outros convivas, e o embaixador francs conversou amigavelmente com Madeleine e apresentou-a  esposa, enquanto Jack se afastava para falar 
a um senador que era o dirigente do Comit de tica do Senado.
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Havia um assunto relacionado com o comit que Jack esperara discutir com ele. Madeleine viu-os pelo canto do olho quando se aproximava dela o embaixador brasileiro, 
acompanhado por uma atraente congressista do Mississipi. Como sempre, uma noite interessante.
Os seus vizinhos de mesa, ao passarem para a sala de jantar oficial, eram um senador do Illinois e um congressista da Califrnia, que j anteriormente conhecera, 
e que toda a noite competiram entre si para atrair a ateno dela. Jack sentou-se entre a primeira-dama e Barbara Walters. S bastante mais tarde, voltou a juntar-se 
 mulher, dirigindo-se ento ambos para o salo de baile.
Quem era ele? perguntou o marido sem grande interesse. Raramente perdia o rasto aos que o rodeavam, e era seu hbito ter uma agenda com os nomes dos que queria ver, 
encontrar e reencontrar, quer por qualquer histria quer por assuntos de negcios. Raramente, se  que alguma vez acontecia, deixara fugir oportunidades, e nunca 
perdera uma noite sem ter planeado o que faria. Passara uns escassos minutos tranquilamente a ss com o presidente Armstrong, que o convidara a almoar no prximo 
fim-de-semana em Camp David para continuarem a conversa. Mas, agora, estava concentrado na mulher.
Ento, como  o senador Smith? O que tinha a dizer?
O habitual. Falou sobre o novo imposto. Sorriu ao seu marido. Agora, era uma mulher do mundo, consideravelmente sofisticada e muitssimo requintada. Como Jack gostava 
de acentuar, uma criao inteiramente dele. Atribua-se todos os crditos pelo ponto a que ela chegara, pelo enorme sucesso de que gozava na sociedade dele, e adorava 
espica-la nesse sentido.
Isso parece muito sexy comentou, referindo-se ao imposto. Os Republicanos atacavam-no, mas Jack estava convencido de que os Democratas ganhariam a batalha, especialmente 
sendo escudados pelo presidente, firme nessa matria. E quanto ao congressista Wooley?
 to giro! Sorriu outra vez a Jack, como sempre, embora um pouco ofuscada pela presena dele. Havia qualquer coisa no aspecto do marido, o seu carisma, a aura que 
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rodeava, que ainda a impressionava. Falou do co e dos netos. Fala sempre. Apreciava isso no senador, que era louco pela mulher com quem estava casado h quase sessenta 
anos
 espantoso ele ainda ser eleito comentou Jack quando a msica acabou
Acho que toda a gente gosta dele. O corao caloroso da "vizinha do lado" de Chattanooga no a abandonara, apesar da sua grande sorte Nunca se esquecera de onde 
provinha, conservava uma certa ingenuidade, ao contrrio do marido, que era mordaz e por vezes at contundente e agressivo. Mas ela gostava de falar com as pessoas 
acerca dos filhos. No tinham nenhum. Jack era pai de dois rapazes que raramente via e que frequentavam a universidade no Texas, ambos eram amigos de Maddy E a despeito 
do enorme sucesso de Jack, a me dos rapazes poucas coisas boas tinha a dizer do pai deles, ou de Maddy. Haviam-se divorciado h quinze anos e a palavra que com 
maior frequncia usava para o descrever era desumano
Pronta para dar por finda a noite? interrogou Jack, avaliando de novo a sala e decidindo que contactara com todos os que lhe interessavam, e que a recepo estava 
prestes a terminar. O presidente e a primeira-dama acabavam de retirar-se, o que dava aos seus convidados liberdade para partirem. Jack no via qualquer razo para 
ficar mais tempo E a Maddy agradava-lhe ir para casa na manh seguinte tinha de estar cedo no estdio para se dedicar aos noticirios
Abandonaram calmamente a reunio, o motorista esperava-os perto da porta, por onde saram com graciosidade E Maddy instalou-se confortavelmente na limusina ao lado 
do marido. Era longo o trajecto desde o velho camio Chevy de Bobby Joe, as festas a que iam no bar local, os amigos que visitavam em atrelados. Por vezes ainda 
lhe custava a acreditar que as suas duas vidas, to diferentes, faziam parte de uma s existncia. No havia qualquer semelhana. Movimentava-se no mundo de presidentes 
e reis e rainhas, polticos e prncipes, e magnatas como o seu marido
De que falaste com o presidente esta noite. perguntou, reprimindo um bocejo. Estava to encantadora e to
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bem arranjada como ao princpio da noite. Era, muito para alm do que imaginava, uma verdadeira bno para o marido Mais do que reconhecido como o homem que a inventara, 
era visto como o marido de Madeleine Hunter e, se tinha conscincia disso, nunca o admitira perante Madeleine.
O presidente e eu discutimos uma coisa muito interessante respondeu Jack vagamente. Eu conto-te quando me for permitido falar no assunto.
E quando ser? Reacendera-se o interesse dela. No era apenas sua esposa, tornara-se uma jornalista muito competente, e adorava o que fazia, as pessoas com quem 
trabalhava e os noticirios. Tinha a sensao de tomar o pulso do pas.
Ainda no tenho a certeza. Vou almoar com ele no sbado em Camp David.
Deve ser importante. Mas tudo o era. O que quer que envolvesse o presidente era potencialmente uma grande notcia
Percorreram a curta distncia at R Street, comentando o sero. E Jack perguntou-lhe se vira Bill Alexander.
S ao longe. No o imaginava de volta a Washington. O homem mantivera-se afastado os ltimos seis meses, aps a morte da mulher na Colmbia no ano anterior. Fora 
uma histria terrvel, de que Maddy se recordava perfeitamente. A senhora fora raptada por terroristas e o prprio embaixador Alexander conduzira as negociaes, 
ao que parecia desastradamente. Aps receberem o resgate, os terroristas entraram em pnico e mataram-na. E o embaixador demitiu-se pouco depois.
 um idiota sentenciou Jack sem qualquer prembulo ou pena dele. Nunca devia ter tentado ser ele a conduzir o caso. Qualquer pessoa preveria o que iria acontecer
No creio que ele calculasse tal coisa retorquiu Maddy calmamente, olhando o exterior pela janela
E passado um momento estavam em casa, ela e Jack subiam as escadas, este ia tirando a gravata.
Amanh, tenho de estar no estdio cedo observou ela, enquanto, j no quarto, o marido desabotoava a camisa e ela tirava o vestido, ficando parada  frente dele apenas 
de
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cols e sandlias prateadas de salto alto. Tinha um corpo espectacular que Jack no desperdiava nunca, tal como no fora desperdiado antes, embora os dois homens 
com quem se casara fossem extraordinariamente diferentes. Um brutal, grosseiro e violento com ela, indiferente aos seus sentimentos, ou gritos de dor quando a magoava, 
o outro to doce, to carinhoso, aparentando respeit-la tanto. Bobby Joe partira-lhe uma vez os braos, e ela quebrara uma perna quando ele a empurrara pelas escadas 
abaixo. Acontecera precisamente quando conhecera Jack e o marido entrara numa raiva ciumenta contra este. Madeleine jurara-lhe que no andava com Jack, e nessa altura 
correspondia  verdade. Jack era o seu patro e no passavam de amigos, o resto viera mais tarde, depois de ela deixar Knoxville e se mudar para Washington a fim 
de trabalhar para ele na sua empresa de televiso por cabo. Um ms depois de chegada a Washington haviam-se tornado amantes, mas j ento estava em curso o seu divrcio.
Porque tens de ir cedo? perguntou Jack por cima do ombro ao entrar na sua casa de banho de mrmore preto. Tinham comprado a casa, cinco anos antes, a um diplomata 
rabe milionrio. Havia um ginsio completo e uma piscina no andar inferior, belos sales que Jack gostava de usar para receber, e as seis casas de banho existentes 
eram todas forradas a mrmore. A casa possua ainda quatro quartos, uma suite e trs aposentos para hspedes
No havia plano algum de transformar qualquer das divises em quarto de crianas. Jack fora logo de incio muito claro ao dizer-lhe que no queria filhos. No gostara 
de assistir ao crescimento dos dois que tivera e no tinha o mnimo desejo de ter mais, na verdade no o aceitaria de modo nenhum. E aps um breve perodo em que 
se lamentara pelas crianas que nunca teria, Maddy fizera, por insistncia de Jack, uma laqueao das trompas. Achou que de certa maneira era o melhor; passara por 
meia dzia de abortos durante os anos que vivera com Bobby Joe e j nem sequer tinha a certeza de poder ter um beb normal. Parecia mais simples ceder aos desejos 
de Jack e no arriscar. Ele dera-lhe tanto, e desejava para ela coisas to grandiosas, que conseguia admitir o seu ponto de vista de que os filhos no passariam 
de um
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obstculo que ela teria de transpor e de um fardo para a sua carreira. No entanto, por vezes deplorava a irreversibilidade da deciso que tomara Aos trinta e quatro 
anos, muitas das suas amigas ainda tinham bebs e ela tudo o que agora tinha era Jack. No iria lamentar ainda mais esse facto quando fosse mais velha e no tivesse 
netos, nem filhos? Mas havia um pequeno preo a pagar pela vida que partilhava com Jack Hunter. E fora to importante para Jack! Ele insistira tanto!
Reencontraram-se na grande e confortvel cama de casal. Jack puxou-a para si, ela aninhou-se ternamente a seu lado e repousou a cabea no seu ombro. Era habitual 
ficarem assim deitados um bocado antes de adormecerem, conversando acerca dos acontecimentos do dia, dos stios onde iam, das pessoas com quem se tinham encontrado, 
das festas a que haviam assistido. Como agora, e Maddy tentou adivinhar o que se passava com o presidente.
J te disse, conto-te quando puder. Deixa-te de palpites
Os segredos pem-me maluca Riu-se.
Tu pes-me maluco replicou ele, voltando-a gentilmente para si e sentindo o acetinado da sua pele por baixo da camisa de noite de seda. Nunca se cansava dela, ela 
nunca o aborrecia, na cama ou fora da cama, era para ele um prazer sab-la sua, de corpo e alma, no apenas na estao noticiosa mas tambm no quarto de cama. Especialmente 
a, tinha por ela um apetite insacivel e s vezes parecia a Maddy que ele queria devor-la. O marido adorava tudo nela, sabia tudo o que ela fazia, gostava de estar 
a par do stio onde se encontrava a cada momento do dia e de como se sentia. E tinha muito a dizer a esse respeito. Mas tudo aquilo em que de momento pensava era 
no corpo de que jamais se saciava e, quando a beijou e enlaou, ele gemeu docemente. Nunca demonstrou melindre ou objeco  forma como ele a possua ou  quantidade 
de vezes que o fazia. Agradava-lhe que a desejasse tanto, saber que ainda o excitava to intensamente. Era tudo to diferente do que fora com Bobby Joe. Bobby mais 
no quisera do que us-la, e mago-la. O que excitava Jack era a beleza e o poder. Ter "criado" Maddy fazia-o sentir-se poderoso, e "possuir" Maddy na cama quase 
o enlouquecia
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CAPTULO 2
Como sempre fazia, Maddy levantou-se s seis horas e deslizou silenciosamente para a sua casa de banho. Tomou duche e vestiu-se, sabendo que a penteariam e maquilhariam, 
como todos os dias, no estdio E quando Jack desceu  cozinha s sete e meia, acabado de pentear e barbear, de fato cinzento-escuro e uma impecvel camisa branca, 
encontrou-a muito bem-disposta, vestida com um fato de cala e casaco azul-escuro, a beber caf e a ler o jornal da manh
Ao ouvi-lo entrar, ergueu o olhar e comentou o ltimo escndalo conhecido. Um dos congressistas fora preso na noite anterior, em consequncia do seu relacionamento 
com um traficante
D para pensar que sabem mais alguma coisa concluiu, passando-lhe o Post e pegando em The Wall Street Journal. Gostava de ler os jornais antes de entrar no estdio 
onde se ocupava dos noticirios. Habitualmente lia The New York Times a caminho do trabalho e, se tinha tempo, o Herald Tribune
Saram juntos s oito horas e Jack perguntou-lhe se estava a trabalhar nalguma pea que a obrigasse a sair to cedo. s vezes s entrava s dez. Era seu costume 
ocupar-se de diversos temas o dia inteiro e gravar entrevistas durante o almoo. No entrava no ar antes das cinco, e de novo s sete e meia. Pelas oito, estava 
despachada e, quando saam  noite, mudava de roupa numa sala de vestir do estdio. O dia era comprido para ambos, mas gostavam do que faziam
O Greg e eu andamos a trabalhar numa srie de entrevistas com mulheres. Queremos chegar a uma estatstica de quem anda com quem, e quando. J temos cinco mulheres 
na calha. Penso que vai ser uma boa histria. Greg Morris era um colaborador, um jovem reprter negro de Nova Iorque, que cooperava com ela h dois anos. Eram amigos 
e adoravam trabalhar juntos
No achas que podias conseguir a reportagem sozinha. Para que precisas do Greg para isso?
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Torna as coisas mais interessantes respondeu ela calmamente. O facto de existir uma perspectiva masculina. Tinha as suas prprias ideias sobre o programa, muitas 
vezes diferentes das do marido, e acontecia no gostar de lhe falar muito naquilo que andava a fazer. No queria que interferisse no seu trabalho. Por vezes, era 
um desafio ser casada com o patro.
A primeira-dama falou-te a noite passada em colaborares com ela na Comisso de Violncia contra as Mulheres? perguntou Jack despreocupadamente; Maddy abanou a cabea. 
Haviam-lhe chegado aos ouvidos uns rumores sobre a comisso que a primeira-dama estava a criar, mas ela no lhe falara nisso.
No, no falou.
H-de falar. Disse-lhe que pensava que tu adorarias fazer parte dela.
Adorava, se tivesse tempo. Depende do empenhamento que exigir.
Garanti-lhe que aceitarias cortou Jack, brusco.  bom para a tua imagem.
Maddy ficou em silncio um momento, de olhar fixo na janela. Conduzia-os ao trabalho o motorista de Jack, com quem trabalhava h anos e no qual ambos confiavam inteiramente.
Gostaria de ser eu a decidir retorquiu ela, muito calma. Porque lhe disseste que eu aceitaria? Fazia-a sentir-se uma criana quando Jack agia assim. Era apenas onze 
anos mais velho do que ela, mas por vezes tratava-a como se ela fosse a filha e ele o pai.
Eu fui claro. Ser bom para ti. Considera a coisa como uma deciso do foro executivo tomada pelo chefe da empresa. Como muitas outras. Detestava-o quando o fazia, 
e ele sabia-o. Uma situao que realmente lhe desagradava! Alm disso, acabaste de dizer que gostarias.
Se tiver tempo. Deixa-me ser eu a decidir. Mas entretanto tinham chegado  estao e Charles abrira-lhes a porta do carro. No havia mais tempo para prosseguir a 
conversa. E alis, de qualquer maneira, Jack no parecia disposto a continu-la. Era bvio que formara a sua ideia. Beijou-a rapidamente 
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ao despedirem-se. Ele enfiou-se no seu elevador privado e Maddy, depois de passar pelo segurana e pelo detector de metais, entrou no elevador para a zona do noticirio.
Tinha um gabinete envidraado, uma secretria e um assistente de pesquisas; Greg Morris estava instalado num gabinete ligeiramente mais pequeno, muito perto do dela. 
Acenou-lhe com a mo quando a viu entrar, rpida, no seu local de trabalho, e um minuto depois foi levar-lhe uma caneca de caf.
Bom dia... ou no? Observou-a minuciosamente e pareceu-lhe detectar qualquer coisa quando ela lhe retribuiu o olhar. Embora fosse difcil dar por isso, a menos que 
a conhecessem bem, estava a ferver por dentro. Maddy no gostava de se enfurecer. Na sua vida passada, fria significara perigo, o que nunca esquecera.
O meu marido acaba de tomar uma "deciso do foro executivo". Olhou Greg de relance, visivelmente agastada. Greg era como um irmo para ela.
Oh, oh! Vou ser despedido? Estava a brincar, era bvio; a sua categoria era quase to elevada como a dela, mas nunca ningum se sentia inteiramente seguro quando 
se trabalhava com Jack, que era capaz de decises inopinadas, aparentemente irracionais e no negociveis. Tanto quanto Greg sabia, porm, Jack gostava dele.
Nada de to dramtico, felizmente. Maddy apressou-se a sossegar-lhe o esprito. Disse  primeira-dama que eu colaboraria na sua nova Comisso de Violncia contra 
as Mulheres, sem sequer pedir a minha opinio.
Pensei que gostavas desse gnero de coisas comentou Greg, instalado numa cadeira em frente dela, diante da secretria  qual Maddy se sentara, visivelmente agastada.
No  esse o ponto, Greg. Gosto de ser consultada. J sou crescidinha!
Provavelmente, o teu marido sups que era o que tu querias. Sabes como os homens so patetas. Esquecem-se de dar os passos todos entre A e Z: supor basta-lhes.
Ele sabe como detesto isso. No entanto, ambos tambm sabiam que Jack tomava imensas decises por ela.
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Era assim que as coisas sempre se tinham passado entre ambos. Dizia saber o que era melhor para ela.
Detesto ser eu a contar-te, mas chegou-me aos ouvidos outra "deciso do foro executivo" que ele deve ter tomado ontem. A informao desceu do Olimpo antes de tu 
entrares. Ao dizer estas palavras, Greg no parecia muito satisfeito. Era um afro-americano bem-parecido, de ar despreocupado, pernas e braos longos e expressivos. 
Quando criana, desejara ser bailarino, mas em vez disso fora parar"aos noticirios, trabalho de que gostava imenso
Ests a falar de qu? indagou Maddy, preocupada
Cortou uma seco inteira do noticirio. O nosso comentrio poltico das sete e meia.
Fez o qu? As pessoas adoram esse programa. E a ns agrada-nos faz-lo.
Quer mais notcias de choque s sete e meia. Diz que foi uma deciso baseada nas audincias. Querem que tentemos assim.
Porque no nos falou sobre isso?
E desde quando ele pede a nossa opinio, Maddy? Ora, ora, mida, tu conhece-lo muito melhor do que eu. O Jack Hunter toma as suas decises sem consultar os apresentadores. 
No  novidade nenhuma.
Gaita! Serviu-se de nova caneca de caf, zangada.  bonito! Ento, agora, acabaram-se os editoriais? Que estupidez.
Tambm pensei o mesmo, mas o pap  quem sabe. Disseram que poderiam voltar a p-los no ar s cinco da tarde, se houver reclamaes. Mas no para j
ptimo. Por amor de Deus, convirs que devia ter-me avisado.
Como faz habitualmente, no , Pocahontas? No brinques comigo. Vamos em frente, ns limitamo-nos a trabalhar aqui.
E, tens razo. Ficou um momento a remoer em silncio o assunto, aps o que se atirou ao trabalho com Greg, discutindo em conjunto quem, da lista das congressistas 
que j haviam seleccionado, entrevistariam em primeiro lugar. Eram quase onze quando acabaram e Maddy saiu para fazer
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uns recados e comer uma sanduche.  uma estava de regresso, de novo ocupada com a lista de entrevistas das congressistas. Ficou  secretria at s quatro, hora 
a que se dirigiu  sala de penteado e maquilhagem, onde encontrou Greg com quem tagarelou acerca das histrias da tarde. Por enquanto, no havia nada de importante.
J arrancaste a cabea ao Jack por causa dos nossos editoriais?
No, mas arranco mais tarde, quando estiver com ele. Nunca o via durante o dia, embora fosse hbito sarem juntos do trabalho, a menos que ele tivesse onde ir sem 
ela; nesse caso, Maddy ia para casa sozinha e esperava por ele.
O noticirio das cinco correu bem, e ela e Greg ficaram a conversar, como de costume, antes de voltar a entrar no ar s sete e meia. s oito haviam terminado, e 
Jack apareceu quando ela abandonava o estdio. Maddy deu as boas-noites a Greg, tirou o microfone, pegou na mala e partiu com o marido um minuto depois. Tinham prometido 
ir a um cocktail em Georgetown.
O que diabo aconteceu aos nossos editoriais? interrogou-o a mulher, a caminho de Georgetown.
As taxas de audincia demonstraram que as pessoas estavam fartas deles.
Uma ova, Jack, adoram-nos!
No foi isso que nos foi dito retorquiu Jack com firmeza, indiferente ao comentrio dela.
Porque no me disseste nada a esse respeito, de manh? Continuava aborrecida com o caso.
Tinha de passar pelas vias adequadas.
Nunca me consultas. Teria sido bom estar a par do facto. Acho que desta vez tomaste a deciso errada.
Vamos a ver o que dizem as taxas de audincia. Chegaram  festa em Georgetown e durante algum tempo perderam-se de vista no meio da multido. S voltou a ver Jack 
quando ele foi ao seu encontro duas horas mais tarde e lhe perguntou se queria ir-se embora. Ambos queriam, o dia fora cheio e tinham estado a p at tarde na noite 
anterior, na Casa Branca.
No falaram muito durante o caminho; ele lembrou-lhe
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que ia a Camp David almoar com o presidente no dia seguinte.
Encontro-me contigo no avio s duas e meia disse, parecendo distrado. Iam para a Virgnia todos os fins-de-semana. Jack comprara l uma quinta no ano anterior 
quele em que conhecera Maddy, um lugar que adorava e a que ela acabara por se habituar. A casa, cheia de corredores e recantos, era confortvel, com quilmetros 
de terreno  volta. Havia cavalarias, e Jack possua alguns cavalos de raa. Porm, a despeito do agradvel cenrio, Maddy aborrecia-se sempre quando l iam.
No queres ficar na cidade este fim-de-semana? sugeriu, esperanosa, ao segui-lo para casa depois de Charles lhes ter aberto a porta do carro.
No podemos. Convidei o senador McCutchinse a mulher para o fim-de-semana. No a avisara.
Tambm era segredo? Maddy estava irritada. Detestava que ele no lhe pedisse o seu acordo sobre coisas daquelas, ou pelo menos no a informasse.
Desculpa, Maddy. Tenho andado ocupado, com milhentos problemas na cabea toda a semana. H complicaes no escritrio. A mulher suspeitou de que o que o distraa 
era o encontro em Camp David. Mas mesmo assim, podia ter-lhe falado no fim-de-semana com os McCutchms. Ele sorriu-lhe gentilmente ao acrescentar: Foi desleixo meu. 
Desculpa-me, querida. Era difcil continuar zangada perante tal atitude. Jack era cativante e, por muito que comeasse a enfurecer-se com ele, Maddy acabava sempre 
por capitular.
Tudo bem. S gostaria de ter sido avisada. No se deu ao trabalho de dizer que no suportava Paul McCutchms. Jack sabia-o. Era um homem gordo, autoritrio e arrogante, 
e a mulher parecia sempre aterrorizada por ele. Demasiado nervosa para dizer mais do que duas palavras quando se encontrava com Maddy, dir-se-ia que a prpria sombra 
a apavorava. At os filhos deles denotavam nervosismo. Levam os filhos? Tinham trs, plidos e chores, cuja companhia Maddy nunca apreciara, embora geralmente gostasse 
de crianas. Mas no as dos McCutchms. 22 
Disse-lhes que no os levassem respondeu Jack, com uma careta. Sei que no os suportas, o que no te censuro. Alm disso, assustam os cavalos.
J  alguma coisa comentou Maddy ao entrarem em casa. A semana fora sobrecarregada para ambos, e estava cansada. Nessa noite adormeceu nos braos de Jack e nem o 
ouviu levantar-se na manh seguinte. O marido estava vestido e a ler o jornal quando ela desceu para o pequeno-almoo.
Jack beijou-a de fugida e uns minutos depois partiu para a Casa Branca, onde o helicptero presidencial o esperava para o levar a Camp David.
Diverte-te. Maddy sorriu-lhe enquanto se servia de uma chvena de caf. Ele parecia de excelente humor. Nada excitava mais Jack do que o poder. Era um vcio.
E quando o viu no aeroporto nessa tarde, resplandecia, literalmente. Dir-se-ia que passara uns momentos gloriosos com Jim Armstrong.
Ento, resolveram todos os problemas do Mdio Oriente, ou planearam uma guerrazita algures? perguntou, brincalhona. S de olh-lo ao sol de Junho, apaixonou-se uma 
vez mais por ele. Era to terrivelmente atraente e to bonito!
Foi mais ou menos isso. Sorriu, misterioso, seguindo-a para o avio que comprara nesse Inverno, um Gulfstream, com o qual estava muito satisfeito. Usavam-no todos 
os fins-de-semana, e ele tambm em servio.
Contas-me? Morria de curiosidade, mas ele abanou negativamente a cabea e olhou-a a rir. Gostava de lhe fazer pirraa com qualquer facto que conhecesse e ela no.
Ainda no. Brevemente.
Havia dois pilotos; levantaram voo vinte minutos depois, enquanto Jack e Maddy conversavam instalados nos confortveis assentos da traseira do avio, e rumaram para 
sul, em direco  quinta na Virgnia. E para grande desgosto de Maddy, quando l chegaram j os McCutchinsos esperavam. Tinham sado de Washington de manh, de 
carro.
Como era de prever, Paul McCutchinsaplicou sonoras pancadinhas nas costas de Jack e apertou de mais Maddy num
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abrao; a esposa, Janet, no abriu a boca. Os seus olhos mal pousaram em Maddy. Era como se temesse que Maddy pudesse ler neles qualquer segredo sombrio. Algo em 
Janet provocara sempre em Maddy uma certa falta de -vontade, embora nunca conseguisse definir o qu, e no se desse grandemente ao trabalho de pensar no assunto.
Jack quis discutir com Paul um assunto de negcios. Tinha a ver com controlo de armas, um problema ultra-sensvel e eternamente alvo de notcia. Os dois homens dirigiram-se 
para os estbulos praticamente quando Jack e Maddy chegaram, o que deixou a Maddy o fardo de aturar Janet. Sugeriu-lhe que entrassem, ofereceu-lhe limonada fresca 
e biscoitos feitos pela cozinheira da quinta, uma italiana encantadora que trabalhava para eles h anos. Jack contratara-a antes de casar com Maddy. A quinta sempre 
dera a impresso de ser mais dele do que deles, e ele apreciava-a mais do que ela. Era afastada e demasiado isolada, e Maddy nunca fora uma apaixonada por cavalos. 
Jack usava-a com frequncia para encontros com pessoas de cujo convvio necessitava por causa dos negcios, como por exemplo Paul McCutchms.
Enquanto se sentava, na sala, Maddy perguntou a Janet pelos filhos e, quando acabaram de beber a limonada, sugeriu-lhe um passeio pelo jardim. Pareceu decorrer uma 
eternidade at que Jack e Paul regressassem dos estbulos. Maddy divagou ao acaso sobre o tempo, a quinta e a sua histria, e as novas roseiras que o jardineiro 
plantara. E foi grande a sua surpresa quando, ao olhar Janet, viu que esta chorava. No podia ser considerada uma mulher atraente, tinha peso a mais, era plida, 
e havia nela qualquer coisa de infinitamente triste. Naquele momento, mais do que nunca, com as lgrimas a correrem-lhe descontroladamente pela cara abaixo, o seu 
aspecto era absolutamente pattico.
Sente-se bem? perguntou Maddy, atrapalhada. Era bvio que Janet no estava bem. Posso ajudar?
Janet McCutchinsabanou a cabea e o seu choro redobrou.
Desculpe-me foi tudo o que conseguiu articular.
De nada replicou Maddy com suavidade. Parou
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junto a uma cadeira de jardim, para que a outra pudesse sentar-se e recompor-se. Quer um copo de gua? De novo Janet abanou a cabea; assoou o nariz e encarou Maddy. 
Inesperadamente, explodiu, num impulso muito forte, quando os olhares de ambas se cruzaram.
No sei o que hei-de fazer. A sua voz insegura tocou Maddy.
Posso ajud-la de qualquer maneira? Interrogava-se sobre se a mulher estaria doente, ou se se passaria algo de grave com um dos filhos; parecia to perturbada e 
to profundamente infeliz. Maddy nem sequer imaginava qual seria o problema.
No, no pode. Demonstrava desespero e insegurana. No sei o que fazer repetiu.  o Paul. Ele odeia-me.
Claro que no, tenho a certeza de que no contraps Maddy sentindo-se estpida, sem o mnimo conhecimento da situao. Tanto quanto sabia, ele de facto no mostrava 
gostar da mulher. Porque havia de odiar?
Tem-me dio h anos. Tortura-me. Teve de casar comigo porque eu engravidei.
Ele no estaria ainda hoje a seu lado se no quisesse estar. O filho mais velho de ambos tinha doze anos, os outros dois eram mais pequenos. Embora Maddy tivesse 
de admitir que nunca vira Paul ser gentil com Janet. Era uma das coisas que lhe desagradava nele.
No podemos dar-nos ao luxo de um divrcio, o Paul diz que isso o prejudicaria politicamente. Uma possibilidade, decerto, mas outros polticos haviam sobrevivido 
a um divrcio. Ento, Janet respirou fundo e acrescentou: Ele bate-me. Gelou-se o sangue nas veias de Maddy ao ouvir tal revelao. E como prova, Janet arregaou 
a manga e Maddy pde ver equimoses horrveis. Ouvira histrias desagradveis sobre o temperamento violento e a atitude arrogante de Paul ao longo dos anos. Agora, 
tinha a confirmao.
Lamento tanto, Janet. No sabia o que dizer, mas sentia uma grande simpatia e pena da mulher e s lhe apetecia abra-la. No consinta aconselhou serenamente.
No o deixe fazer isso. Eu estive casada oito anos com
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um homem do mesmo gnero. Sabia bem de mais como era, apesar de ter passado os ltimos sete anos a tentar esquec-lo.
Como escapou. De repente, pareciam dois prisioneiros da mesma guerra, a segredar no jardim
Fugi. Maddy assumia mais coragem do que a que tivera na altura, e quis ser honesta com a outra. Estava aterrorizada. O Jack ajudou-me Mas para aquela mulher no 
havia nenhum Jack Hunter. No era jovem nem bonita, no tinha esperana alguma, nem carreira, nem escapatria, e havia trs filhos a seu cargo. Era muito diferente.
Ele diz que me mata se eu me for embora e levar as crianas E diz que, se eu contar a algum, me mete num manicmio. J o fez uma vez, depois do nascimento da minha 
filha mais nova. Trataram-me com electrochoques. Maddy disse para consigo que Paul  que devia ter levado electrochoques, em stios com real significado para ele, 
mas absteve-se de expressar o seu pensamento. S de imaginar o que a mulher estava a passar e tendo visto as equimoses, sentia-se invadida por uma grande pena.
Tem de arranjar ajuda. Porque no vai para uma casa de acolhimento? sugeriu-lhe
Sei que ele me encontrar. E mata-me. Janet soluava.
Eu ajudo-a disponibilizou-se Maddy sem hesitao. Tinha de fazer qualquer coisa por aquela mulher. Sentia-se culpadssima por nunca ter gostado dela. Mas agora Janet 
precisava de ajuda e, qual sobrevivente de idntica agonia, sentiu que devia prestar-lhe apoio. Vou encontrar stios para onde voc possa ir com os seus filhos
Vai aparecer nos jornais argumentou Janet, ainda a chorar, desamparada.
Tambm vai aparecer nos jornais se ele a matar replicou Maddy com firmeza. Prometa-me que far qualquer coisa. Ele bate nos filhos? Janet negou com um aceno de cabea, 
mas Maddy compreendeu que era mais complicado do que isso. Mesmo que no lhes tocasse, estava a distorcer-lhes o esprito e a aterroriz-los, e um dia as raparigas 
casariam com homens semelhantes ao pai, tal como
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Maddy fizera, e talvez o filho viesse a achar admissvel bater nas mulheres que tivesse. Ningum escapa imune de um lar em que a me leva pancada. Fora isso o que 
atirara Maddy para os braos de Bobby Joe e a levara a crer que era um direito dele agir como agia.
E quando Maddy segurava na sua a mo de Janet, ouviram aproximar-se os homens. Janet retirou rapidamente a mo e, um instante depois, exibia a sua mscara de pedra. 
Era como se a conversa nunca tivesse existido, quando os dois homens chegaram ao jardim.
Nessa noite, ao ficarem ss, Maddy contou tudo a Jack.
Ele bate-lhe! exclamou, ainda revoltada.
O Paul? Jack mostrava-se surpreendido. Duvido.  um tipo rude, mas no penso que fizesse uma coisa dessas. Como sabes?
A Janet abriu-se comigo respondeu Maddy, agora resolutamente amiga da outra. Existia entre elas qualquer coisa em comum.
Se eu fosse a ti, no levava a coisa muito a srio retorquiu Jack calmamente. O Paul disse-me h anos que ela tem problemas mentais.
Eu vi as equimoses. Maddy estava furiosa. Acredito nela, Jack. J passei pelo mesmo.
Sei que passaste. Mas no sabes como  que ela arranjou as equimoses. Pode t-las feito ela prpria para o denegrir. Eu sei que ele andou uns tempos com outra. A 
Janet est provavelmente a vingar-se, dizendo coisas horrveis a respeito dele. No mesmo instante, Maddy achou o homem ainda pior, e no duvidou nem por sombras 
da histria de Janet. Odiava Paul.
Porque no acreditas nela? perguntou, irada. No percebo.
Eu conheo o Paul. Ele no faria isso. Ao ouvi-lo, Maddy teve vontade de gritar. Discutiram o caso at se deitarem. To zangada estava pelo facto de o marido no 
acreditar nela, que ficou aliviada por nessa noite no fazerem amor. Sentia-se muito prxima de Janet McCutchins, e, nesse momento, com mais afinidades com ela do 
que com o prprio Jack. Mas este no pareceu notar como a esposa estava aborrecida.
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E antes de o casal partir no dia seguinte, Maddy lembrou a Janet que a contactaria para lhe transmitir informaes. Janet manteve-se porm inexpressiva. Temia por 
de mais que Paul as ouvisse. Limitou-se a inclinar a cabea num acordo mudo e entrou no carro, que arrancou passados uns minutos. Quanto a Maddy e Jack, durante 
o voo de regresso a Washington nessa noite, a mulher fixou o olhar na janela contemplando em silncio o panorama. S conseguia pensar em Bobby Joe e no desespero 
que sentira nesses anos solitrios em Knoxville. Recordou ento Janet e as equimoses que ela lhe mostrara. Era como se Janet fosse uma prisioneira sem coragem nem 
energia para fugir ao marido. Na verdade, estava convencida de que ela no o faria. Ao aterrarem em Washington, Maddy fez um voto silencioso de a ajudar.
CAPTULO 3
Quando foi trabalhar na segunda-feira seguinte, Maddy correu para junto de Greg mal chegou ao escritrio, seguiu-o at ao seu gabinete e serviu-se de uma chvena 
de caf.
Como foi o fim-de-semana da mais glamorosa apresentadora laureada? Gostava de se meter com ela sobre a vida que levavam e sobre o facto de ela e Jack frequentarem 
assiduamente a Casa Branca. Passaste o fim-de-semana com o nosso presidente, ou limitaste-te a ir s compras com a primeira-dama?
Muito engraadinho, meu idiota! Bebeu um gole de caf. Ainda a obcecavam as confisses de Janet McCutchins. Por acaso, o Jack almoou com ele no sbado, em Camp 
David.
Graas a Deus, nunca me desiludes! Partia-se-me o corao se vos imaginasse a lavar o carro, como ns outros, simples mortais. Eu... vivo por vosso intermdio. Espero 
que o saibas. Todos ns.
Acredita-me, no  to excitante como julgas. Na realidade, nunca se sentia a gozar a sua prpria vida, era como se vivesse  luz de um projector emprestado pelo 
marido. Tivemos os McCutchins a passar o fim-de-semana na Virgnia. Ele  nojento!
Um tipo bem-parecido, o senador Muito distinto. Greg sorriu-lhe, matreiro
Maddy ficou calada um longo momento, ento, decidiu pr Greg a par do segredo. Tinham-se tornado muito ntimos, como irmos, desde que haviam comeado a trabalhar 
juntos. Ela no tinha muitos amigos em Washington, nunca tivera tempo para os fazer e, daqueles que fizera, Jack nunca gostara e acabara por presssion-la para que 
no se desse com eles. Nunca objectara porque Jack a mantinha ocupadssima, trabalhando continuamente. Ao princpio, quando conhecera mulheres com quem simpatizava, 
Jack tinha sempre um reparo a fazer: ou eram gordas, ou muito feias, ou inadequadas, ou indiscretas, ou em sua opinio invejavam-na. Madeleine
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estava cuidadosamente protegida, mas bastante isolada. As nicas pessoas de quem tinha uma possibilidade real de se aproximar eram apenas as do trabalho. Sabia que 
ele julgava agir bem protegendo-a, e no se importava, mas, como consequncia, praticamente s se dava com Jack e, nos ltimos anos, com Greg Morris.
Aconteceu uma coisa horrvel neste fim-de-semana.
Comeou cautelosamente, sentindo-se ainda um pouco desconfortvel por divulgar o segredo de Janet. No ignorava que esta no quereria que algum o comentasse.
Partiste uma unha? ironizou ele; habitualmente ela ria-se com aquele tipo de graas, mas desta vez ficou sria.
Foi a Janet.
 muito plida e enfadonha. S a vi umas duas vezes, em recepes do Senado.
Maddy suspirou e decidiu mergulhar a fundo. Confiava totalmente em Greg.
Ele bate-lhe.
O qu? O senador? Tens a certeza? Isso  uma brutalidade.
Se ! Acredito nela, mostrou-me as equimoses.
Ela no tem problemas mentais? indagou Greg, cptico. Reaco idntica  de Jack, o que a aborreceu.
Porque  que vocs, homens, dizem sempre essas coisas quando se trata de mulheres maltratadas? Como seria se eu te dissesse que ela lhe dera com um taco de golfe? 
Acreditavas em mim? Ou respondias-me que o filho da me estava a mentir?
Provavelmente teria acreditado nele, lamento diz-lo. Porque os homens no mentem acerca de coisas desse gnero.  muito raro um homem ser agredido por uma mulher.
As mulheres tambm no mentem. Mas gente como tu, e o meu marido, fazem-nas sentir-se culpadas.  por isso que guardam segredo. E sim, ela esteve num manicmio, 
mas eu no a considero maluca e aquelas equimoses no eram fruto da sua imaginao. Tem pavor dele. Sempre ouvi dizer que era um sacana para o pessoal, mas no um 
agressor.
Nunca falara abertamente do seu passado, com Greg. Como outras mulheres na mesma situao, achava que de certo
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modo a culpa era sua e tambm ela guardava ferozmente o seu segredo. Disse-lhe que a ajudaria a arranjar uma casa de acolhimento. Por onde hei-de comear? Tens alguma 
ideia?
Que tal a Coligao pelas Mulheres?  uma amiga minha que a dirige. E desculpa o que eu disse. Devia estar melhor informado. Mostrava-se contrito.
Devias, pois. Mas obrigada, vou telefonar-lhe. Lanou-lhe um nome que lhe soou familiar. Fernanda Lopez. Lembrava-se vagamente de ter feito uma reportagem sobre 
ela logo ao princpio de trabalhar na estao. Fora h uns bons cinco ou seis anos mas recordava-se de que a mulher a impressionara. Porm, quando ligou para o seu 
escritrio, responderam-lhe que Fernanda Lopez se encontrava de licena sabtica e a sua substituta, na maternidade. A nova mulher que ocuparia o cargo no se apresentaria 
seno da a duas semanas, e dar-lhe-iam conhecimento do telefonema mal ela chegasse. Indicaram a Maddy alguns nomes quando ela explicou o que pretendia. Tentou contact-los 
mas de todos os nmeros obteve respostas gravadas e, quando experimentou a Linha de Mulheres Maltratadas, estava ocupada. Teria de ligar mais tarde. Depois, ps-se 
a trabalhar com Greg e esqueceu-se do assunto at entrar no ar s cinco horas, prometendo ento a si prpria que voltaria a tentar de manh. Se Janet aguentara tanto 
tempo, decerto sobreviveria at  manh seguinte, mas Maddy queria fazer qualquer coisa. Era bvio que Janet estava demasiado paralisada pelo medo para se ajudar 
a si prpria, o que alis no era caso raro.
Quando Greg e Maddy foram para o ar s cinco, transmitiram o habitual sortido de histrias locais, polticas, nacionais e internacionais, e a queda de um avio no 
JFK ocupou a maior parte do noticirio das sete e meia.
Nessa noite foi para casa sozinha no carro de Jack, o qual tinha outro encontro com o presidente; por mais tratos que desse  imaginao, no percebia o que tanto 
ocuparia ambos. Ao chegar a casa, pensou de novo em Janet. Deveria telefonar-lhe? Receou, porm, que Paul escutasse os telefonemas da mulher e decidiu-se pela negativa.
Leu uma quantidade de artigos que guardara e passou os
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olhos por um novo livro acerca das ltimas tcnicas de tratamento do cancro da mama, para ver se lhe interessava entrevistar o autor durante um noticirio. Arranjou 
as unhas e foi para a cama cedo. E ouviu Jack entrar cerca da meia-noite. Mas sentia-se cansada de mais para conversar, voltando a adormecer antes de ele se deitar 
a seu lado. S acordou de manh e ouviu-o dirigir-se  casa de banho e abrir o chuveiro
Jack estava na cozinha a ler The Wall Street Journal quando ela desceu; olhou-a com um sorriso. A mulher vestia umas calas de ganga, uma camisola vermelha e sandlias 
Guca de um encarnado-vivo. Tinha um aspecto fresco, jovem, sexy.
Fazes-me lamentar no te ter acordado ontem  noite. Sorria, e ela riu-se, servindo-se de uma chvena de caf e pegando no jornal
Tu e o presidente devem andar a tramar alguma das boas, com todos estes encontros. Oxal seja qualquer coisa mais interessante do que uma remodelao do gabinete.
Talvez seja respondeu ele, prudente E ambos voltaram aos seus jornais. Inesperadamente, ouviu Maddy suster a respirao e fitou-a. O que ? Por um momento, a mulher 
foi incapaz de falar; enchiam-se-lhe os olhos de lgrimas enquanto tentava continuar a ler o artigo. O choro cegava-a quando se virou para o marido
A Janet McCutchins suicidou-se a noite passada. Cortou os pulsos na casa deles de Georgetown. Um dos filhos encontrou-a e chamou o Cento e Doze, mas quando chegaram 
ela j estava morta. Disseram que tinha equimoses nos braos e nas pernas e de incio recearam que se tratasse de crime, mas o marido explicou que ela cara pelas 
escadas abaixo na noite anterior. Escorregou no patim de um dos filhos. O sacana... Ele matou-a. Estava chocada, mal conseguia respirar e sentia-se tensa da cabea 
aos ps
Ele no a matou, Maddy replicou Jack calmamente, foi ela que se matou. Tu prpria o disseste.
Achou que no tinha outra sada articulou Maddy em voz estrangulada, recordando bem esse sentimento. Olhou para o marido. Eu podia ter feito o mesmo, se tu no me 
tivesses arrancado de Knoxville
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Que disparate! Tu matava-lo primeiro. Ela estava perturbada, tinha uma histria de problemas mentais. Provavelmente, havia inmeras outras razes para fazer o que 
fez.
Como diabo podes dizer isso? Porque no queres acreditar que aquele sacana gordo a agredia?  assim to incrvel? Acha-lo assim to encantador? Porque no  possvel 
que ela estivesse a dizer a verdade? Por ser uma mulher? Enfurecia-a ouvi-lo, e at Greg duvidara da histria quando lha contara. Por que razo a mulher est sempre 
a mentir?
Talvez no estivesse. Mas o facto de se ter suicidado apoia a teoria de ser desequilibrada.
Apoia a teoria de que pensou que no tinha qualquer alternativa e estava desesperada. Suficientemente desesperada para deixar os filhos sem me e at para arriscar 
que um deles a encontrasse. Chorava copiosamente ao falar e na sua respirao perpassavam soluos de terror. Conhecia a sensao de se estar to torturada, to atemorizada, 
em tantas dificuldades que nos parece no haver escapatria. Se ela no fosse jovem e bonita, e Jack no a tivesse querido na estao, o seu destino poderia ter 
sido idntico ao de Janet McCutchins. E no estava muito segura da razo de Jack ao dizer que ela teria primeiro morto Bobby Joe. Pensara em suicdio mais do que 
uma vez, em noites negras em que ele estava bbedo e os lbios e olhos dela inchados em consequncia dos ltimos actos de agresso que sofrera. Era-lhe faclimo 
perceber o que Janet sentira. Lembrou-se ento dos telefonemas que fizera do escritrio, na vspera. Eu ontem telefonei  Coligao pelas Mulheres por causa dela, 
e a outros. Gaita, quem me dera ter-lhe ligado a noite passada! Mas tive medo, tive medo de que o Paul interceptasse a chamada e eu fosse met-la em sarilhos.
No podias ajudar, Mad. No te tortures por causa disso. O que aconteceu prova-o.
No prova nada, com um raio, Jack. Ela no estava maluca. Estava aterrorizada. E como sabes tu onde parava ele, ou o que lhe fez antes de ela se matar?
O Paul  um asno, no um assassino. Apostava na minha vida. Expressava-se com calma, ao contrrio de Maddy, cada vez mais exaltada.
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Desde quando so vocs dois to amigalhaos? Como diabo sabes como a tratava ele? No tens a mnima ideia do que tudo isto . Estremecia com soluos ao sentar-se 
 mesa da cozinha, chorando por uma mulher que mal conhecia, mas que percorrera um caminho idntico ao dela, e do qual sabia ser uma das afortunadas sobreviventes, 
Janet no tivera tanta sorte
Sei o que tudo isso , sim. Continuava muito calmo. Quando me casei contigo, tu tinhas pesadelos terrveis, e dormias em posio fetal com os braos por cima da 
cabea. Eu sei, querida, eu sei. Eu salvei-te.
Salvaste concordou ela, assoando-se e olhando-o tristemente. Nunca o esqueo.. S que... tenho tanta pena dela... Pensa em como ter sofrido para fazer uma coisa 
daquelas. A sua vida deve ter sido uma agonia pavorosa
Acho que foi admitiu ele friamente, e lamento pelo Paul e pelos filhos. Vai ser duro para todos eles. S espero que os mdia no explorem o caso.
Pois eu espero que um qualquer jovem reprter agressivo faa uma investigao e ponha a nu o que o marido andava a fazer-lhe. No s por ela, mas por todas as outras 
mulheres que ainda esto vivas e se encontram na mesma situao.
 difcil perceber por que motivo ela no se foi embora, se era assim to mau. Podia ter ido. No precisava de se matar.
Talvez pensasse que precisava comentou Maddy, compreensivamente, mas Jack no se deixou convencer.
Tu conseguiste, Maddy. Tambm ela poderia ter conseguido!
Levei oito anos..., e tu ajudaste-me. Nem todas tm essa sorte. E s consegui com a graa de Deus, e por um triz. Talvez um ano mais e era bem possvel que ele me 
tivesse morto.
Tu no permitirias que isso acontecesse. Jack afirmava-o com segurana, mas Maddy no tinha tanta certeza.
Permiti que acontecesse durante imenso tempo, at tu apareceres. E a minha me permitiu-o at  morte do meu pai. E juro-te que teve saudades de tudo aquilo, e dele, 
at
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morrer. Relaes deste gnero so muito mais doentias do que se imagina, tanto para o agressor como para o agredido.
Uma perspectiva interessante. Mostrava-se de novo cptico. Eu acho que h algumas pessoas que apenas esperam... ou deixam que acontea, por serem demasiado fracas 
para reagir.
Ests fora do assunto, Jack retorquiu ela em voz tensa. Saiu da cozinha, foi ao andar de cima buscar a mala e um casaco. Ao descer, trazia um bonito blazer azul-escuro 
e pusera uns brincos pequenos de diamantes. Andava sempre bem vestida e arranjada, em casa ou no trabalho; nunca sabia o que se lhe iria deparar e as pessoas reconheciam-na 
onde quer que fosse.
Nessa manh, foram juntos para o trabalho em silncio. Aborreciam-na algumas das coisas que Jack dissera e no queria entrar em discusso com ele. Mas Greg esperava-a, 
e lera a notcia, o que o angustiara.
Tenho muita pena, Maddy, deves sentir-te um farrapo. Sei que querias ajud-la. Talvez no pudesses de modo nenhum. Tentava reconfort-la, mas Maddy voltou-se e retorquiu-lhe 
com brusquido mal ele se calou:
Porqu? Porque ela era uma psicopata, como todas as outras mulheres agredidas, e quis cortar os pulsos?  isso que pensas?
O que eu queria dizer  que talvez ela estivesse demasiado ferida para fugir daquilo de qualquer maneira, como uma pessoa em estado de choque numa zona de guerra. 
No pde impedir-se de acrescentar: Por que razo achas que fez o que fez? S porque ele a maltratava, ou era realmente uma psicopata? Maddy ficou furiosa com a 
pergunta.
Isso  o que o Jack pensa,  o que a maioria das pessoas pensa, que as mulheres em tais situaes so basicamente malucas, independentemente do que os maridos lhes 
fazem. Ningum consegue entender por que motivo no abandonam a casa. Pois bem, algumas muito simplesmente no podem... no podem,  tudo... Desfez-se em soluos; 
Greg abraou-a.
Eu sei, querida, eu sei... Desculpa-me... Talvez no
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pudesses salvar esta, foi s o que eu quis dizer. Falou em tom suave e Maddy sentiu-se grata pelo abrao.
Eu queria... ajud-la. Os soluos provocavam-lhe estremecimento em todo o corpo: pensava na dor de Janet para chegar quele ponto, e no sofrimento por que os filhos 
estavam agora a passar, tendo perdido a me.
Que cobertura vamos dar a este caso? perguntou Greg quando a viu recomposta.
Gostava de fazer um editorial sobre mulheres vtimas de violncia respondeu ela, pensativa, enquanto Greg lhe servia uma chvena de caf.
Essa hiptese foi-nos retirada, lembras-te?
Vou dizer ao Jack que quero fazer um editorial, seja l como for. Demonstrava firmeza; Greg abanou a cabea. Apetece-me desmascarar esse sacana do McCutchins.
Eu no agiria assim se estivesse no teu lugar. E o Jack no vai deixar-te fazer esse editorial. No me interessa o facto de dormires com ele todas as noites, a ordem 
veio de cima. Nada de editoriais, nem de comentrios sociais ou polticos, apenas notcias secas. Relatamos a coisa como aconteceu, sem apartes nossos.
O que  que ele pode fazer? Dar-me um tiro? Alis,  uma notcia seca: A esposa de um senador suicidou-se, aps ter sido maltratada pelo marido.
Mesmo assim, o Jack no te permitir diz-lo, ou fazer um editorial, se bem o conheo, a menos que tomes a estao  bala. E honestamente, no me parece que isso 
lhe agradasse, Maddy.
No brinques. No sei como, mas vou faz-lo. Estamos em directo, santo Deus. No podem tirar-me do ar sem provocar um distrbio ou um escndalo. Por isso, vamos 
fazer mais um editorial e depois apresentamos as nossas desculpas. Se ele ficar acagaado, eu aguento-me.
s uma mulher corajosa declarou Greg com o seu sorriso rasgado que dava a volta  cabea das mulheres com quem saa. Era um dos mais assediados celibatrios de Washington, 
e com boas razes. Era esperto, bem-parecido, gentil e um homem de sucesso, combinao rara e altamente apetecvel; Maddy era louca por ele, num sentido puramente
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de camaradagem e adorava trabalhar com ele. No tenho a certeza de ser capaz de desafiar o Jack Hunter e ir contra uma das suas ordens
Eu tenho os meus meios retorquiu ela com o primeiro sorriso desde que lera a notcia sobre Janet McCutchins
Sim, e as melhores pernas da empresa O que tambm ajuda gracejou o rapaz
s cinco horas, quando ela e Greg entravam no ar pela primeira vez nesse dia, Maddy estava nervosa. Mostrava-se to fria e impassvel como sempre, com a sua camisola 
vermelha, o cabelo imaculadamente tratado, e os brincos com um simples diamante. Greg, porm, conhecia-a o suficiente para se aperceber de como estava ansiosa durante 
a contagem decrescente para o incio da emisso
Vais por diante com a tua? sussurrou ao aproximar-se a hora. Ela acenou-lhe afirmativamente, de seguida, sorriu quando a cmara a focou e apresentou-se, a si prpria 
e ao seu colaborador. Foram dando as notcias como sempre, trabalhando em perfeita harmonia, alternando factos e acontecimentos, ento, Greg, sabendo o que ia seguir-se, 
afastou a sua cadeira e o rosto de Maddy ficou instantaneamente ssrio ao fixar as cmaras que a evidenciavam
H no noticirio de hoje um caso que afecta cada um de ns, uns mais do que outros,  a histria do suicdio de Janet Scarbrough McCutchins, na sua casa de Georgetown, 
deixando sem me os seus trs filhos. Sem dvida uma tragdia, e quem pode dizer quais os desgostos que obrigaram Mistress McCutchins a acabar com a prpria vida, 
mas h interrogaes que no podem ser ignoradas e  muito possvel que nunca obtenham resposta. Porque o fez ela? Por que imenso sofrimento passava nesse momento, 
e antes? E por que razo ningum ouviu, ou viu, o que deve ter sido o seu desespero? Numa conversa recente, Janet McCutchins contou-me que uma vez estivera hospitalizada 
uns dias, com uma depresso. Mas uma fonte prxima de Mistress McCutchins afirmou que poderia ter sido uma consequncia de violncia sofrida o que a levou ao suicdio. 
Se  esse o caso, Janet McCutchins no seria a primeira mulher a pr termo 
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vida, preferindo isso a sofrer maus tratos. Tragdias como esta ocorrem vezes sem conta.  possvel que Janet McCutchins tivesse outras razes para acabar consigo. 
Talvez a sua famlia saiba porque o fez, ou o marido, ou os amigos mais ntimos, ou os filhos. Mas so claros, para todos ns, os problemas que algumas mulheres 
enfrentam, de dor, de medo, de desespero. No posso dizer-vos por que motivo morreu Janet McCutchins. No me compete especular. Constou-nos que deixou uma carta 
aos filhos: estou certa de que nunca teremos conhecimento dela.
"No podemos porm impedir-nos de pensar por que razo, quando uma mulher grita, o mundo se recusa a ouvi-la e muitos de ns dizemos: "Deve haver alguma coisa que 
se passa com ela... talvez ela seja maluca." E se no for? Morrem mulheres todos os dias, pelas suas prprias mos e s mos dos seus algozes. E com demasiada frequncia 
no acreditamos nelas quando nos contam o sofrimento em que vivem, ou simplesmente rejeitamo-lo. Talvez nos seja por de mais doloroso prestar ateno.
"As mulheres que fazem isto no so loucas, na sua maioria, nem perturbadas. No so preguiosas nem estpidas, o que poderia impedi-las de fugir. Tm medo de o 
fazer. No podem faz-lo. Por vezes essas mulheres preferem morrer pelos seus prprios meios. Ou ficam tempo de mais e deixam que sejam os maridos a mat-las. Acontece. 
 real. No podemos virar as costas a tais mulheres. Devemos ajud-las a encontrar uma sada.
"Peo-vos que se recordem de Janet McCutchins. E da prxima vez que tiverem conhecimento de uma morte como esta, interroguem-se: porqu? Ao interrogarem-se, faam 
silncio e atentem na resposta, por mais assustadora que possa ser.
"Boa noite. Convosco esteve Maddy Hunter.
Passaram de imediato  publicidade. Todos no estdio estavam boquiabertos. Ningum ousara interromp-la e, hipnotizados pelas suas palavras, no tinham metido mais 
cedo a publicidade. Greg, de p, abria-se num grande sorriso e felicitou-a calorosamente quando tambm ela lhe sorriu.
Que tal foi? perguntou Maddy, num sussurro abafado.
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Dinamite. Eu diria que vamos ter a visita do seu marido dentro de cerca de quatro segundos.
Foram dois, at ele irromper pelo estdio como um tornado, a tremer de fria e precipitando-se para ela.
Ests totalmente doida? O Paul McCutchins vai dar cabo de mim! Parou a uns centmetros de Maddy e gritava-lhe. Maddy empalideceu, mas no recuou um passo. Manteve-se 
impassvel, embora tambm ela tremesse. Apavorava-a quando ele, ou qualquer outra pessoa, se enfurecia, mas desta vez afigurou-se-lhe pior do que isso.
Eu disse que uma fonte prxima dela afirmou que podia ser uma consequncia de violncia sofrida. Bolas, Jack, eu vi-lhe as equimoses. Ela contou-me que ele lhe batia. 
Que concluso tiras de tudo isto, quando ela se suicida um dia depois? Tudo o que eu fiz foi pedir s pessoas que pensem nas mulheres que se suicidam. Ele no pode 
atacar-nos legalmente. Estou pronta a testemunhar o que ela me disse, se for preciso.
E provavelmente ser, raios? s surda, no sabes ler? Eu disse nada de editoriais, e era para cumprir!
Desculpa, Jack. Tive de o fazer, devia-lho, a ela e a outras mulheres na sua situao.
Oh, por amor de Deus... Passou uma mo frentica pelo cabelo, incapaz de acreditar no que Maddy lhe fizera, e que os responsveis pelo estdio a haviam deixado fazer. 
Podiam t-la interrompido, mas no o tinham feito. Gostavam das suas palavras sobre mulheres agredidas. E Paul McCutchins tinha fama de ser uma pessoa e um patro 
verbalmente agressivo, e quando jovem participara em inmeras brigas de bar. Era um dos mais odiados senadores de Washington e manifestava com frequncia o seu temperamento 
violento. Ningum se apressara a defend-lo, parecia-lhes perfeitamente plausvel, embora Maddy nunca o tivesse citado, que ele maltratasse a esposa. Jack andava 
ainda s voltas pelo estdio a gritar com toda a gente quando Rafe Thompson, o produtor, lhe veio dizer que o senador McCutchins o chamava ao telefone. Maddy! berrou 
 mulher. Quanto queres apostar em como vai processar-me?
Lamento muito, Jack respondeu Maddy calmamente, 
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mas sem remorsos, enquanto o produtor assistente chegava para informar de que a primeira-dama se encontrava ao telefone. Ambos desapareceram para telefones diferentes, 
e para conversas muito diferentes. Maddy reconheceu de imediato a voz de Phyllis Armstrong, e ouviu-a agitadssima
Estou to orgulhosa de si, Madeleine A voz calorosa da mulher mais velha atravessou a linha com vivacidade
Foi uma coisa muito corajosa o que fez, e muito necessria. Uma emisso formidvel, Maddy
Muito obrigado, Mistress Armstrong. Maddy fingia uma serenidade que no sentia. No lhe referiu a fria de Jack
Tenho andado a pensar em telefonar-lhe por causa da Comisso de Violncia contra as Mulheres. Pedi ao Jack que lhe falasse nisso
Ele falou. Estou muito interessada
Claro, ele disse-me que voc adoraria, mas eu queria ouvi-lo da sua prpria boca. Os nossos maridos tm tendncia a empurrar-nos para aquilo que menos queremos fazer. 
O meu no  excepo. Maddy sorriu ao ouvi-la, sentindo-se melhor quanto ao facto de Jack a ter dado como disponvel com tanto -vontade. Era com tanta frequncia 
prepotente e to liberal nas opinies e decises que tomava em seu nome. s vezes, parecia uma falta de respeito por ela
Neste caso, ele teve razo. Eu adoraria
Ainda bem. Vamos reunir-nos pela primeira vez nesta sexta-feira Na Casa Branca, no meu gabinete particular. Mais tarde arranjaremos um local mais apropriado. Ainda 
somos muito poucos, s uma dzia. Estamos a tentar idealizar o melhor meio de provocar impacto no pblico, um verdadeiro impacto, acerca da violncia cometida contra 
as mulheres. E acho que voc deu o primeiro passo a nosso favor. Parabns.
Uma vez mais obrigado, Mistress Armstrong. Maddy, quase sem flego, precipitou-se para o gabinete de Greg logo que desligou
Pareces ser o nmero um na classificao Armstrong
comentou ele, orgulhoso. Adorara o que ela fizera. Era precisa muita coragem, mesmo sendo o patro da rede o seu
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marido. Agora, teria de ir para casa e engolir a plula. E como toda a gente sabia, Jack Hunter nem sempre era uma doura, especialmente quando algum se atravessava 
no seu caminho. A imunidade de Maddy no era superior  de qualquer outro.
Comeara Maddy a contar a Greg a conversa com Mrs. Armstrong, quando Jack se lhes lanou em cima como um furaco. Furioso.
Sabia disto? berrou a Greg, ansioso por culpar algum, qualquer pessoa, todo o mundo! Dava a impresso de querer estrangular Maddy.
No exactamente, mas andava l prximo. Sabia que a Maddy ia dizer qualquer coisa respondeu Greg com sinceridade. No tinha medo de Jack e, embora fosse um segredo 
bem guardado, que nunca revelara a Maddy, no gostava dele. Achava-o arrogante e desptico e desagradava-lhe o modo como dava a volta a Maddy. Nunca, todavia, comentara 
nada com ela. Bastava-lhe lidar com o facto, no ia impor-lhe ainda a defesa do marido.
Podia t-la impedido acusou-o Jack. Devia ter falado a srio com ela e acabar com o caso antes de ela comear.
Tenho demasiado respeito pela Maddy para fazer tal coisa, Mister Hunter. Alm disso, concordo com o que ela disse. No acreditei nela quando me falou da Janet McCutchins, 
na segunda-feira. No entanto, considero o que ela disse um alerta para todos ns, os que no querem ter de pensar at que ponto se sentem desesperadas algumas mulheres 
vtimas de violncia. Acontece todos os dias,  nossa volta. Ns apenas no queremos v-lo, ou ouvi-lo. Mas, por causa da pessoa com quem era casada, o caso da Janet 
McCutchins adquire um grande significado e talvez ajude algum. Com o devido respeito, acho que a Maddy agiu correctamente. Tremeu-lhe a voz ao pronunciar as ltimas 
palavras, e Jack Hunter lanou-lhe um olhar indignado.
Tenho a certeza de que os nossos patrocinadores vo adorar se formos processados.
Foi isso o que o McCutchinsdisse ao telefone? perguntou Maddy, denotando preocupao. No estava arrependida, 
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mas detestava causar tamanho contratempo a Jack. No seu esprito, porm, agira como devia. Vira com os seus prprios olhos o que McCutchinsj fizera  esposa, e 
estava disposta a testemunh-lo, se necessrio. Lanara para o ar um assunto, sem atender ao custo potencial para si ou para a estao. Assunto que, em sua opinio, 
merecia ser divulgado.
Fez algumas ameaas veladas, mas o vu era muito fino. Disse que ia telefonar aos seus advogados mal desligasse respondeu-lhe Jack em tom brusco.
No me parece que v to longe comentou Greg, pensativo. A prova  aparentemente condenatria. E a Janet McCutchinsfalou directamente com a Maddy. Isso salvaria 
as nossas peles.
As nossas peles! Que nobreza a sua, Greg! rosnou-lhe Jack. Tanto quanto sei, a minha  a nica em risco. Foi um acto estpido, irresponsvel. E dito isto, atravessou 
com arrogncia o estdio e subiu de novo aos seus domnios.
Ests bem? Greg olhou para Maddy apreensivo e ela acenou-lhe afirmativamente.
Eu sabia que ia aborrec-lo, mas espero que no sejamos processados. Mostrava-se constrangida. Tinha a esperana de que McCutchinsno se atrevesse a process-los, 
arriscando-se a expor-se ele prprio.
Contaste-lhe o telefonema da Phyllis Armstrong?
No tive tempo. Conto-lhe a caminho de casa.
Porm, nessa noite Maddy foi sozinha para casa. Jack telefonara aos seus advogados para rever com eles a gravao e discuti-la; era uma da madrugada quando chegou 
a Georgetown. Maddy ainda estava acordada, mas o marido no lhe dirigiu a palavra ao atravessar intencionalmente o quarto rumo  sua casa de banho.
Como correu? perguntou ela, cautelosa, ao v-lo voltar e olh-la
No consigo acreditar que me fizeste o que fizeste. Foi uma coisa to imbecil. Bem podia t-la esbofeteado. Mas limitou-se a zurzi-la com olhares furibundos e com 
palavras. Era bvio que se sentia trado.
A primeira-dama telefonou mal samos do ar. Estava
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excitadssima com a emisso e achou que fora um acto de coragem. Vou para a comisso dela esta semana informou-o, como que a desculpar-se. No sabia muito bem que 
caminho tomar para se harmonizar com ele, mas tinha de tentar naquele momento. No queria que Jack a odiasse ao ponto de isso interferir no trabalho de ambos.
J tomei a deciso por ti. Lanara-lhe um olhar irado ao ouvi-la referir-se  Comisso de Violncia contra as Mulheres.
Fui eu quem a tomou corrigiu Maddy calmamente.  um direito que me assiste, Jack.
Agora tambm te ocupas dos direitos das mulheres, em simultneo com a violncia? Devo esperar por um editorial sobre isso? Porque no te entretns com um raio de 
um programa teu, onde possas dizer o que te vier  cabea o dia inteiro, mas esquecendo as notcias?
Se agradou  primeira-dama, pode ter sido assim to mau?
Pior do que mau, se os advogados de McCutchins decidirem nesse sentido.
Talvez tudo acalme em meia dzia de dias proferiu em tom esperanoso enquanto ele andava devagar pelo quarto, acabando por parar e baixar para ela o olhar com uma 
fria mal contida. A sua raiva no se dissipara nem diminura.
Se voltares a fazer uma coisa idntica, no me interessa que sejas minha mulher... Despeo-te de imediato. Fui claro? Ela acenou afirmativamente, em silncio, sentindo-se 
de repente no como algum que agira correctamente, mas como se o tivesse trado. Nunca na sua relao com ele o marido se mostrara to encolerizado, e Maddy perguntava-se 
se ele alguma vez lhe perdoaria, especialmente se a estao fosse processada.
Pensei que estava a fazer o que era correcto.
Estou-me nas tintas para o que tu pensas. No te pago para pensares. Pago-te para te apresentares bem e leres as notcias com o teleponto.  tudo o que pretendo 
de ti. Entrou na sua casa de banho e atirou com a porta, enquanto Maddy se debulhava em lgrimas no quarto. Fora uma noite esgotante para ambos. Mas, bem l no fundo, 
continuava a
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achar que fizera o que devia ser feito, fosse qual fosse o preo a pagar. E pelo menos, de momento, dava a impresso de que iria ser um preo altssimo.
Quando Jack saiu da casa de banho, meteu-se na cama sem dizer palavra. Apagou a luz, virou-lhe as costas, e o silncio instalou-se at ela o ouvir ressonar. Ento, 
pela primeira vez em anos, Maddy sentiu um arrepio de terror. A ira dele, mesmo controlada, trouxe-lhe velhas recordaes e apavorou-a. E nessa noite, tambm pela 
primeira vez dsde h muito tempo, teve pesadelos.
Jack no lhe dirigiu a palavra ao pequeno-almoo e partiu sozinho no carro, com o motorista.
Como  que vou para o trabalho? perguntou ela, perplexa, vendo que o marido a deixava no passeio.
Ele olhou-a nos olhos, atirou com a porta do carro e respondeu-lhe, como se de uma estranha se tratasse:
Apanha um txi.
CAPTULO 4
O funeral de Janet McCutchins teve lugar na sexta-feira de manh e Jack mandou a Maddy uma mensagem por intermdio da sua secretria informando-a de que tencionava 
ir com ela. Saram do escritrio no carro dele, Jack de fato escuro e gravata preta s riscas, ela com um saia-casaco Chanel preto e de culos escuros, e seguiram 
para a Igreja de So Joo, atravessando o Parque Lafayette desde a Casa Branca. O servio fnebre foi longo e doloroso, uma missa solene, com o coro a cantar a ave-maria. 
O banco da frente estava cheio de sobrinhas e sobrinhos de Janet, alm dos filhos. At o senador chorou e parecia estarem presentes todos os polticos importantes 
da cidade. Maddy deu por si de olhos fixos no senador, incrdula, a v-lo chorar, e o seu corao voltou-se para os filhos. Impensadamente, no fim do servio deu 
o brao a Jack. Este olhou-a de relance e afastou-se de imediato. Continuava em fria, mal lhe falando desde a noite de tera-feira.
Juntaram-se aos outros nos degraus enquanto a urna era carregada para o carro funerrio e a famlia entrava em limusinas que seguiriam para o cemitrio. Os Hunter 
sabiam que depois haveria uma refeio ligeira em casa dos McCutchins, mas nenhum deles quis ir, porque no eram muito ntimos da famlia. E voltaram para a estao 
lado a lado, num silncio sepulcral.
Quanto tempo vai isto durar, Jack? perguntou ela finalmente, incapaz de suportar aquela situao.
Enquanto eu me sentir como me sinto em relao a ti foi a resposta brusca que obteve. Tu ignoraste-me,
Maddy. No! Para ser preciso, tu lixaste-me.
Foi mais importante do que isso, Jack. Uma mulher maltratada matou-se, e ia passar  histria como um caso de loucura. Tratava-se de lhe conceder, a ela e aos filhos, 
um momento de justia. E de trazer  luz do dia o seu carrasco, mesmo que apenas por uns minutos.
E, pelo meio, de me lixar. Nada do que fizeste altera
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o facto de que ela passar  histria como um caso de perturbao mental. Os factos esto a. Esteve num hospital psiquitrico e foi tratada com electrochoques durante 
seis meses. A que ponto pensas que ela era normal, Mad. E merecia transformar-me num alvo fcil para um procedimento legal?
Lamento, Jack Tive de fazer o que fiz. Continuava a achar que procedera bem
s to doida como ela era ripostou Jack com um ar de repugnncia, fixando o exterior pela janela. Fora srdido no que dissera e fizera num tom que feria, o tom em 
que se lhe dirigia nos ltimos trs dias
Podemos fazer trguas no fim-de-semana. Ia ser horrvel na Virgnia se ele continuasse na mesma, e comeava at a pensar em no o acompanhar
Acho que no. Alm disso, tenho assuntos a tratar aqui. Umas reunies no Pentgono. Tu podes fazer o que quiseres. No vou ter tempo para estar contigo
Que ridculo, Jack. Aquilo foi trabalho. Isto  a nossa vida
No nosso caso, as duas coisas interligam-se na perfeio. Devias ter pensado nisso antes de abrires a boca
ptimo. Ento, castiga-me Mas no entremos em criancices
Se o McCutchinsme processar, podes crer que a soma no ser uma "criancice"
No me parece que o faa, especialmente com a primeira-dama a aplaudir a emisso. Alis, ele no pode defender-se Se houver uma investigao, o relatrio do mdico 
legista pode mencionar as equimoses dela
Talvez a primeira-dama no o impressione tanto como a ti
Porque no fazes uma pausa por uns tempos, Jack? Eu no posso apagar o que est feito, e alis no apagaria. Sendo assim, porque no tentamos atirar tudo para trs 
das costas.
Enquanto ela falava, ele olhava-a com um olhar gelado
Talvez te fosse til refrescar um pouco a memria, Joana d'Arc, e recordar que, antes de te lanares nas cruzadas a favor dos oprimidos, no eras ningum nem nada 
quando eu te encontrei. No eras nada, Mad, Zero. Eras uma provinciana 
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vinda de nenhures, encaminhavas-te em linha recta para uma vida de canecas de cerveja e maus tratos num parque de atrelados. Quem raio pensas tu que s agora? No 
te esqueas de que fui eu quem te fez. Deves-me isso. Estou enjoado dessa trampa idealista e das choraminguices e lamentaes por causa de um monte de merda pouco 
atraente como a Janet McCutchins. No era digna de me meter em apuros, ou a ti, ou  estao.
Maddy olhou o marido como se de repente lhe fosse um estranho, e talvez fosse, e ela nunca tivesse dado por isso.
J chega. inclinou-se para a frente e bateu no ombro do motorista. Pare o carro. Eu saio aqui.
Jack ficou instantaneamente sobressaltado
Pensei que voltavas para o trabalho.
E volto, mas prefiro ir a p do que aqui sentada a ouvir-te falar assim. Recebi a mensagem, Jack. Tu fizeste-me e eu devo-te tudo. Quanto? A minha vida? Os meus 
princpios. A minha dignidade? Qual  o preo por salvar algum de ser um miservel trapo at ao fim dos seus dias? Informa-me, quando chegares a uma concluso. 
Quero ter a certeza de que no fico a dever-te nada. Dito isto, saiu do carro e afastou-se calmamente em direco ao seu local de trabalho. Jack no disse nada; 
subiu em silncio o vidro da janela. Ao chegar ao seu gabinete, no lhe telefonou. Ela estava apenas a cinco andares de distncia, a comer uma sanduche com Greg.
Como correu o funeral? perguntou o rapaz olhando-a, apreensivo. Achava-a tensa e exausta
Deprimente. Aquele imbecil chorou durante toda a missa
O senador. Com a boca cheia, Maddy acenou afirmativamente. Talvez se sinta culpado.
Deveria sentir-se. Bem podia ter sido ele a mat-la. O Jack ainda est convencido de que ela era uma psicopata
E, comportando-se como estava a comportar-se, era Maddy quem comeava a pensar o mesmo a respeito dele.
O Jack continua chateado? indagou Greg cautelosamente, passando-lhe os picles da sua sanduche, sabendo que ela os apreciava imenso.
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Chateado  pouco. Est convencido de que o meu propsito foi irrit-lo.
H-de passar-lhe. Greg recostou-se na cadeira e fitou-a. Era to esperta e honesta, e incrivelmente bela! Adorava o facto de ela estar sempre disposta a lutar por 
aquilo em que acreditava; mas parecia-lhe preocupada e infeliz. Maddy detestava quando Jack se zangava com ela e nunca, nos seus sete anos de casamento, o marido 
se mostrara to irritado.
O que te leva a crer que h-de passar-lhe? Agora, no estava muito segura disso e pela primeira vez sentia o seu casamento em perigo, o que na verdade a aterrorizava.
H-de passar-lhe porque te ama respondeu Greg com firmeza. E precisa de ti. s uma das melhores profissionais do pas, se no a melhor. Ele no  louco.
No me parece que seja uma razo vlida para me amar. Outras haveria com mais significado para mim.
D graas pelo que obtiveste, garota. Ele vai acalmar. Talvez no fim-de-semana.
No fim-de-semana, vai ter reunies no Pentgono.
Deve estar na forja algo de grande comentou Greg com interesse.
H j algum tempo, acho eu. No me contou nada, mas encontrou-se com o presidente algumas vezes.
Talvez vamos atirar uma bomba sobre a Rssia gracejou Greg com um sorriso, nenhum deles acreditando em semelhante hiptese.
Isso est um bocado ultrapassado, no est. Maddy retribuiu-lhe o sorriso. Aposto que vo pr-nos a par, mais cedo ou mais tarde. Olhou o relgio de pulso e levantou-se. 
Tenho de ir  comisso da primeira-dama. A reunio  s duas horas. Volto a tempo de me maquilhar para o noticirio das cinco.
Ficas bonita mesmo sem maquilhagem. A voz de Greg era suave. Diverte-te. D cumprimentos meus  primeira-dama. Maddy esboou um sorriso, disse-lhe adeus com a mo, 
saiu do gabinete e desceu as escadas para chamar um txi. Era uma corrida de cinco minutos at  Casa Branca, e a primeira-dama, que acabava precisamente de chegar 
no meio de uma fila de automveis vinda de casa dos
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McCutchins, encontrou-se com Maddy e entraram juntas na Casa Branca, cercadas por membros dos Servios Secretos. Mrs. Armstrong perguntou-lhe se fora ao funeral 
e, perante a sua resposta afirmativa, fez um comentrio relacionado com o espectculo triste dos filhos dos McCutchins.
O Paul tambm parecia muito abalado acrescentou, pesarosa. Depois, no elevador que as levava aos aposentos privados, perguntou-lhe: Cr de verdade que ele a maltratava? 
No a interrogou quanto s fontes de onde provinha a informao.
Maddy hesitou, mas por experincia anterior sabia que podia confiar na discrio de Mrs. Armstrong.
Creio, sim. Ela prpria me contou que ele lhe batia e tinha pavor dele. Mostrou-me as equimoses nos braos na semana passada. Sei, pelo que ela disse, que me falava 
verdade, e acho que o Paul McCutchinsno o ignora. Vai querer que toda a gente esquea as minhas palavras. E era por isso que no acreditava que ele fosse processar 
a estao.
A primeira-dama abanou a cabea tristemente, suspirando quando saam do elevador ao encontro da sua secretria e de mais agentes dos Servios Secretos.
Lamento o que ouvi. No duvidava nem por um momento do que Maddy lhe contara, ao contrrio de Greg e Jack. Como mulher, estava predisposta a aceitar. E alis nunca 
gostara de Paul McCutchins: parecia-lhe um tirano.  por essas e por outras que estamos hoje aqui, no ? Que exemplo perfeito de um acto de violncia impune contra 
uma mulher, Maddy. Houve muitas reaces a ele? Maddy sorriu ao ouvir a pergunta.
Recebemos milhares de cartas de espectadoras, aplaudindo-o. Quase nenhuma de espectadores. E o meu marido Por pouco no se divorciava de mim.
O Jack? Que mesquinho da parte dele. Surpreende-me o que me diz. Phyllis Armstrong mostrava-se genuinamente admirada. Tal como o marido, sempre fora amiga de Jack 
Hunter.
Tem medo de que o senador o processe explicou-lhe Maddy.
No me parece que se atreva, se for verdade
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respondeu Phyllis Armstrong ao entrarem na sala onde os outros membros da recm-formada comisso as esperavam. Especialmente se for verdade. A propsito, ela deixou 
algum bilhete.
Parece que existe uma carta para os filhos, mas no sei quem a leu, se  que algum o fez. A polcia entregou-a ao Paul quando a encontrou.
Aposto que vai ficar tudo por a. Diga ao Jack que se descontraia O que voc fez est certssimo. Trouxe  luz essa zona escura, a dos maus tratos, e da violncia 
cometidos contra as mulheres.
Vou repetir-lhe as suas palavras. Maddy sorriu, enquanto o seu olhar varria a sala. Havia oito mulheres e quatro homens, e a oitava mulher era ela prpria Entre 
os homens, reconheceu dois juizes federais, entre as mulheres, uma juza do tribunal de apelao e outra, membro da imprensa. A primeira-dama apresentou-lhe as mulheres 
e explicou que eram duas professoras, uma advogada, uma psiquiatra e uma mdica. O terceiro homem era tambm mdico e o ltimo do grupo a quem Maddy foi apresentada 
era Bill Alexander, o antigo embaixador na Colmbia que perdera a mulher s mos de terroristas. A primeira-dama informou-a de que ele gozara algum tempo livre aps 
ter deixado o Departamento de Estado, e agora estava a escrever um livro. Formavam um grupo interessante e eclctico: asiticos, afro-americanos e brancos; uns jovens, 
outros mais idosos, todos profissionais, vrios bastante conhecidos, Maddy era a mais nova de todos, talvez cerca de meia dzia de anos, e possivelmente a mais famosa, 
com excepo da primeira-dama.
Phyllis Armstrong deu rpida e sucintamente incio  sesso e a sua secretria sentou-se para tomar apontamentos. Deixara l fora os agentes dos Servios Secretos; 
os membros da comisso estavam sentados numa salinha confortvel na qual havia uma grande bandeja de prata com caf, ch e um prato de biscoitos, sobre uma bonita 
mesa inglesa antiga Conversava com cada pessoa interpelando-a pelo seu nome e olhava toda a sala com uma expresso maternal. J lhes falara do corajoso editorial 
de Maddy de tera-feira  noite, sobre Janet McCutchins, embora muitos deles o tivessem ouvido e o aprovassem sinceramente
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Tem a certeza de que ela foi maltratada? perguntou-lhe uma das senhoras, e Maddy hesitou antes de responder.
No sei bem como responder-lhe. Acredito que foi, embora no pudesse prov-lo em tribunal. Seria tido como boato. Foi ela quem me contou. Voltou-se para a primeira-dama 
com um olhar interrogativo. Presumo que o que dizemos aqui  confidencial... Era assim que se passava muitas vezes com as comisses presidenciais.
, sim assegurou-lhe Phyllis Armstrong.
Acreditei nela, apesar de as duas primeiras pessoas a quem relatei o caso no terem acreditado em mim. Trata-se de dois homens, um colabora comigo na televiso, 
o outro  o meu marido, e ambos deviam estar melhor informados.
Estamos hoje aqui para discutir o que podemos fazer acerca do problema de crimes cometidos contra as mulheres comeou Mrs. Armstrong. Ser uma questo de legislao, 
de incutir nas pessoas em geral a percepo da violncia? Como podemos lidar com isto com maior eficcia? E, de seguida, gostaria de ver o que podemos fazer. Acho 
que todos ns gostaramos. Os presentes anuram com um aceno de cabea. Hoje, pretendo fazer uma coisa um pouco fora do comum. Apreciaria que cada um expusesse a 
razo por que est aqui, quer seja por motivos profissionais ou pessoais, se no lhes custar falar nisso. A minha secretria no tomar notas e, se no quiserem 
falar, nada os obriga a faz-lo. Mas penso que seria interessante para ns. E, embora no o tenha dito, sabia que criaria um elo forte entre eles. Estou disposta 
a ser a primeira, se preferirem.
Todos esperaram respeitosamente, e ela contou-lhes uma coisa a seu respeito que nenhum deles sabia.
O meu pai era um alcolico e todos os fins-de-semana, sem falha, batia na minha me, depois de ter recebido o salrio  sexta-feira. Estiveram casados quarenta e 
nove anos, at ela acabar por morrer de cancro. O facto de lhe bater era como que um ritual para todos ns, eu tinha trs irmos e uma irm. E todos aceitvamos 
aquilo como algo de inevitvel, tal como ir  igreja ao domingo. Eu costumava esconder-me no meu quarto para no ter de assistir, mas de qualquer modo sabia o que 
estava a passar-se. E depois ouvia-a
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soluar no quarto Mas ela nunca o deixou, nunca o obrigou a parar, nunca lhe retribuiu a pancada. Todos ns odivamos aquilo e, quando cresceram, os meus irmos 
foram-se embora e tambm eles comearam a embebedar-se. Mais tarde, um deles maltratava a mulher, o mais velho, o que se lhe seguia era abstmio e veio a ser ministro, 
o mais novo morreu, alcolico, aos trinta anos. Eu no, eu no tenho problemas de lcool, se  que se interrogam a esse respeito. No gosto muito de bebidas, bebo 
muito pouco, a mim o lcool no me afectou. O que me tem afectado a vida inteira  a ideia, a realidade de mulheres agredidas em todo o mundo, muito frequentemente 
pelos maridos, e ningum mexer um dedo contra isso. Sempre prometi a mim prpria que um dia me envolveria, e gostaria de fazer qualquer coisa, fosse o que fosse, 
para provocar uma mudana, e j. Todos os dias h mulheres molestadas nas ruas, atacadas e perseguidas sexualmente, violadas e espancadas pelos companheiros e maridos 
e, por qualquer razo, ns aceitamo-lo. No gostamos, no aprovamos, choramos quando ouvimos falar num caso, especialmente se conhecemos a vtima. Mas no pomos 
um ponto final, no estendemos o brao para afastar a arma, ou a navalha, ou a mo, tal como eu nunca obriguei o meu pai a parar. Talvez no saibamos como, talvez 
no nos preocupemos o suficiente Ou preocupamo-nos Simplesmente, no gostamos de pensar no assunto. O que pretendo  que as pessoas comecem a pensar, se ergam e 
actuem. Acho que j no  sem tempo, h muito que devia ter acontecido. Quero que me ajudem a travar a violncia contra as mulheres, por mim, por vs, pela minha 
me, pelas nossas filhas e irms e amigas. Quero agradecer a todos pela vossa presena aqui, pela ajuda que se prestaram a dar-me. Tinha lgrimas nos olhos quando 
acabou de falar e por um instante todos a fitaram. No era uma histria rara Mas tornava Phyllis Armstrong muito mais real para todos
A psiquiatra que crescera em Detroit contou um caso semelhante, s que o pai matara a me e em consequncia fora para a priso. Acrescentou que era lsbica e fora 
violada e espancada aos quinze anos por um rapaz junto do qual crescera. Vivia com a mesma mulher h catorze anos, acrescentando
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que conseguira ultrapassar os maus tratos que sofrera em jovem, mas preocupava-a a tendncia para o aumento de crimes violentos contra as mulheres, mesmo na comunidade 
homossexual, e a capacidade de todos virarem as costas quando eles aconteciam.
Alguns dos outros no possuam experincia pessoal de violncia, mas ambos os juizes federais referiram que tinham tido pais agressivos que s vezes esbofeteavam 
as mes e que, at crescerem e mudarem de opinio, achavam normal o procedimento do pai. Chegou ento a vez de Maddy, que hesitou momentaneamente. Nunca at a contara 
a sua vida em pblico; sentia-se insegura.
A minha histria no  assim to diferente das outras comeou. Cresci em Chattanooga, no Tennesee, e o meu pai sempre bateu na minha me. s vezes ela retribua-lhe, 
a maior parte delas, no. Por vezes, estava bbedo quando o fazia; noutras alturas, apenas furioso com ela, ou com qualquer outra pessoa, ou com qualquer coisa que 
sucedera nesse dia. ramos pauprrimos e ele sempre pareceu incapaz de manter um emprego, e tambm por isso batia na minha me. Tudo o que lhe acontecia era culpa 
dela. E quando ela no estava por perto, batia-me a mim, mas no com muita frequncia. As zangas deles foram uma espcie de msica de fundo da minha infncia, um 
tema familiar com o qual cresci. Sentia-se um pouco ofegante, e pela primeira vez em anos a sua pronncia sulista se fez ouvir, enquanto prosseguia. Tudo o que eu 
queria era fugir daquilo. Odiava a minha casa, e os meus pais, e o modo como se tratavam. Por isso casei-me, aos dezasseis anos, com o meu namorado do colgio, e 
mal nos casmos ele comeou a bater-me. Bebia de mais e no trabalhava quase nada. Chamava-se Bobby Joe e eu acreditei nele quando disse que a culpa era toda minha; 
que se eu no fosse to insuportvel e m esposa, e to estpida e desmazelada, uma imbecil, ele no "teria" de me bater. Mas tinha de o fazer. Uma vez empurrou-me 
pela escada abaixo e parti uma perna. Eu trabalhava ento numa estao de televiso em Knoxville, que foi vendida a um homem do Texas, que por acaso comprou uma 
rede de televiso por cabo em Washington e me trouxe com ele. Julgo
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que a maioria de vocs o conhece. Jack Hunter. Deixei a minha aliana de casamento e um bilhete na mesa da cozinha em Knoxville e encontrei-me com o Jack na estao 
de autocarros da Greyhound, levando comigo apenas uma mala Samsomte com dois vestidos l dentro, e voei como louca at Washington para trabalhar com ele. Divorciei-me 
e casei com o Jack passado um ano e desde ento ningum levantou a mo contra mim. Eu no o permitiria. Agora sei defender-me. Basta que por acaso algum me parea 
mal-intencionado para eu fugir como do demnio. No sei porque tive sorte, mas tive. O Jack salvou-me a vida. Fez de mim tudo aquilo que hoje sou. Sem ele, provavelmente 
estaria morta. Acho que o Bob me teria morto uma noite, empurrando-me pelas escadas at eu partir o pescoo ou pontapeando-me na barriga. Ou talvez simplesmente 
porque eu quisesse por fim morrer. Nunca contei nada disto por vergonha, mas agora quero ajudar mulheres como eu, mulheres que no tm tanta sorte como eu tive, 
mulheres que se julgam acorrentadas e que no tm um Jack Hunter  espera delas com uma limusina para as levar para outra cidade. Quero estender a mo a essas mulheres 
e ajud-las. Elas precisam de ns acrescentou, com os olhos rasos de lgrimas. Devemos-lhes isso
Obrigada, Maddy. A voz de Phyllis Armstrong soava docemente. Todos eles tinham um elo em comum, ou a maioria deles, advogados e mdicos e juizes e at uma primeira-dama, 
casos de violncia e ultraje, e s por muita sorte e determinao haviam sobrevivido E todos tinham plena conscincia de que havia muitas outras pessoas com menos 
sorte, que precisavam de ser ajudadas. O grupo sentado nos aposentos da primeira-dama estava ansioso por pr em aco algo nesse sentido.
Bill Alexander foi o ltimo a falar, e a sua histria foi a mais rara, como alis Maddy suspeitava que seria. Crescera num bom lar em Nova Inglaterra, com pais que 
o amavam e se amavam. E conhecera e casara com a sua esposa quando ela estava em Wellesley e ele em Harvard. Doutorara-se em Poltica Estrangeira e Cincias Polticas 
e ensinara vrios anos em Dartmouth, depois em Princeton e dava aulas em Harvard quando fora nomeado embaixador no Qunia aos cinquenta 
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anos. O seu posto seguinte foi em Madrid e da foi transferido para a Colmbia. Disse que tinha trs filhos adultos que eram respectivamente mdico, advogado e banqueiro. 
Todos muito respeitveis e com boas carreiras acadmicas. Fora uma vida calma, "normal", de facto, acrescentou com um sorriso, uma existncia algo aborrecida mas 
satisfatria
A Colmbia fora para ele um desafio interessante a situao poltica l era delicada, e o trfico da droga infiltrava-se no pas por todos os lados. Estava intrincadamente 
entrelaado com todas as formas de comrcio, os polticos no prestavam, a corrupo disparava. Fascinara-o a tarefa que se propunha levar a cabo e sentia-se  altura 
at a sua esposa ser raptada. Tremeu-lhe a voz ao dizer a palavra. A mulher fora mantida prisioneira durante sete meses, prosseguiu, lutando contra as lgrimas que 
acabaram por venc-lo. A psiquiatra sentada a seu lado ps-lhe a mo no brao, como que para o amparar, e ele sorriu-lhe. Todos eram agora amigos, conheciam-se mais 
intimamente, partilhavam segredos ocultos
Tentmos tudo para a recuperar explicou em voz rouca, perturbada. Maddy calculara, pelo tempo que passara nos seus postos diplomticos, que andaria pelos sessenta 
anos. Tinha o cabelo branco, olhos azuis, um rosto jovem e um porte atltico. O Departamento de Estado mandou negociadores especiais para falar com representantes 
do grupo terrorista que tinha a refm em seu poder. Propunham uma troca, negoci-la contra cem prisioneiros polticos, e o Departamento de Estado no ia aceitar 
tal coisa. Compreendo as razes que lhe assistiam, mas no queria perd-la. A CIA tambm tentou, pretendeu por seu turno rapt-la, mas a tentativa falhou e ela foi 
levada para as montanhas e a partir da no conseguimos encontr-la. Acabei por pagar o resgate que eles pediam e depois fiz uma coisa muito idiota. De novo se lhe 
embargou a voz enquanto continuava a sua histria, e o corao de Maddy, tal como o de todos os que o ouviam, compadeceu-se dele. Tentei negociar eu prprio com 
eles. Fiz tudo o que podia. Quase enlouqueci, a tentar t-la de volta. Mas eles eram demasiado espertos, demasiado rpidos, demasiado demonacos para serem batidos. 
Pagmos o resgate e, trs dias mais tarde, mataram-na. Largaram o corpo
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dela nas escadas da embaixada. Gaguejava a cada palavra e chorava abertamente. E tinham-lhe cortado as mos. Sentou-se por um momento desfeito em soluos e ningum 
se mexeu, ento, Phyllis Armstrong incllinou-se e tocou-lhe, ele respirou fundo. Todos os outros murmuravam o quanto sentiam a sua dor. Uma histria horrenda e um 
trauma que todos se perguntavam como teria ele ultrapassado. Senti-me totalmente responsvel pelo meu mau trabalho. Nunca devia ter tentado negociar directamente 
com eles, foi como se os tivesse enlouquecido ainda mais. Pensei que podia ajudar, mas acho que se me tivesse mantido afastado e deixado a aco aos peritos, eles 
a teriam guardado um ano ou dois, como fizeram com outros, e depois a libertariam Mas, tendo eu interferido, de certo modo matei-a
Isso  um disparate, Bill interrompeu Phyllis com firmeza. Espero que no duvide. No pode pr-se a adivinhar o que poderia ter acontecido. Essa gente  implacvel 
e amoral, para eles uma vida no significa nada. Podiam muito bem t-la morto fosse l como fosse. Na verdade, tenho a certeza de que provavelmente o teriam feito
Acho que toda a vida sentirei que a culpa foi minha retorquiu Bill, desolado, e a imprensa insinuou-o. De sbito, ao ouvi-lo, Maddy recordou-se de Jack a afirmar-lhe 
que Bill Alexander era um idiota. Agora que conhecia a histria, perguntava a si prpria como podia o marido ser to desumano
A imprensa adora o sensacionalismo. A maior parte do tempo no sabem do que falam interveio Maddy, enquanto Bill levantava para ela um olhar repleto de sofrimento. 
Nunca na sua vida Maddy vira tanta mgoa. Gostaria de inclinar-se e tocar-lhe, mas estava sentada demasiado longe dele. O que eles querem  vender uma histria. 
Digo-lhe por experincia prpria, embaixador Lamento imenso tudo o que lhe aconteceu acrescentou gentilmente
Tambm eu. Obrigado, Mistress Hunter. Assoou-se ao leno impecvel que tirou da algibeira
Todos ns temos as nossas histrias.  por isso que estamos aqui. No foi porm por isso que lhes pedi que viessem. Phyllis Armstrong repunha serenamente a ordem
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Eu no conhecia a maior parte desses casos quando recorri a vocs. Fi-lo porque so pessoas inteligentes e devotadas. Foi essa a razo por que vieram e por que querem 
ajudar a comisso. Todos ns aprendemos por experincia prpria, da pior maneira, ou pelo menos a maioria de ns. Sabemos do que estamos a falar, e o que est implicado. 
Do que precisamos agora  de descobrir o que fazer a esse respeito, como ajudar as pessoas ainda a passar pelo que passmos. Ns somos sobreviventes, todos ns, 
mas elas podem no vir a s-lo. Temos de chegar depressa at elas, at  imprensa, ao pblico em geral. O relgio no pra, h que acudir-lhes antes de as perdermos. 
Morrem mulheres todos os dias, assassinadas pelos maridos; so violadas nas ruas, raptadas e torturadas por estranhos, mas a maior parte dessas mulheres so mortas 
por homens, homens que conhecem, e o mais frequente  serem os seus cnjuges ou namorados. Precisamos de educar o povo e de indicar s mulheres onde devem ir procurar 
ajuda antes que seja tarde de mais para elas. Temos de mudar as leis, torn-las mais fortes. Temos de fazer com que as penas de priso correspondam ao crime cometido, 
com que seja bem pesado praticar um acto de violncia contra uma mulher, ou contra seja quem for.  uma guerra de classes, uma guerra que temos de travar e vencer. 
E quero que cada um de vocs v para casa e pense no que podemos fazer para alterar o estado actual das coisas. Sugiro que voltemos a reunir-nos daqui a duas semanas, 
antes de a maioria partir para as frias de Vero, e tentemos chegar a algumas solues. Hoje, quis em primeiro lugar que se conhecessem. Eu conheo-vos a todos, 
a alguns at bastante bem, mas agora sabem com quem trabalharo e porque esto aqui. Encontramo-nos aqui todos essencialmente pela mesma razo, tendo alguns de ns 
ssofrido na pele o problema, mas todos queremos que haja uma mudana, e podemos consegui-la No plano individual, todos somos capazes disso; colectivamente, formaremos 
uma fora irresistvel. Deposito em vocs toda a minha confiana e eu prpria quero pensar maduramente antes de voltarmos a reunir-nos. Levantou-se, com um sorriso 
caloroso que envolvia cada um dos presentes. Obrigada por terem comparecido hoje. Fiquem  vontade se
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quiserem conversar mais um bocado. Eu, infelizmente, tenho de me ir embora, devido a um compromisso.
Era cerca das quatro horas, e Maddy mal podia acreditar em tudo o que ouvira no espao de duas horas. Fora to emocionante para todos, que se sentia como se tivesse 
passado dias com eles. E foi para si ponto de honra ir at junto de Bill Alexander antes de partir. Parecia um homem gentil e a sua histria era to trgica! Dava 
a impresso de ainda no se ter recomposto, o que no era estranho, pois o trauma por que passara dera-se apenas sete meses antes. Surpreendia-a, sim, a sua coerncia.
Lamento tanto, embaixador. Lembro-me do caso, mas  diferente ouvi-lo da sua boca. Que pesadelo!
No tenho a certeza de vir um dia a super-lo disse Bill com sinceridade. Ainda sonho com tudo aquilo. Contou-lhe que tinha pesadelos recorrentes, e a psiquiatra 
perguntou-lhe se estava em tratamento, ao que ele respondeu que estivera alguns meses, mas agora contava s consigo.  certo que parecia so e normal, e era obviamente 
muitssimo inteligente, mas Maddy no conseguia impedir-se de pensar em como lhe era possvel sobreviver a uma experincia daquelas e continuar a agir com sensibilidade 
e calma. Sem dvida, uma pessoa extraordinria.
Estou ansiosa por trabalhar consigo disse, com um sorriso.
Obrigado, Mistress Hunter. E retribuiu-lhe o sorriso.
Trate-me por Maddy, por favor.
Eu sou Bill, e vi a sua pea no noticirio, sobre a Janet McCutchins. Foi muito perturbante, no podia deixar de o ser.
Maddy sorriu, pesarosa, ao cumprimento e agradeceu-lho.
O meu marido ainda no me perdoou. Ficou muito apreensivo com as implicaes para a empresa.
Temos de ser corajosos e fazer as coisas que consideramos correctas. Voc sabe to bem como eu. Deu ouvidos ao seu corao, tal como os seus adjuntos. Tenho a certeza 
de que o seu marido compreender. Era o caminho certo a tomar e voc tomou-o.
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No me parece que ele concorde consigo, mas agrada-me ter feito o que fiz admitiu ela.
O pblico precisa de ouvir estas coisas acentuou Bill, numa voz de novo forte. E parecia mais novo ao conversar com ela. Sentia-se muito impressionada, quer pela 
presena dele, quer pela forma como se comportara naquela primeira reunio. Percebia bem a razo por que Phyllis o convocara.
Acho que precisa mesmo concordou Maddy, e olhou para o relgio. Passava das quatro e tinha de ir para o estdio tratar do cabelo e da maquilhagem. Infelizmente, 
tenho um programa a fazer s cinco horas. At  prxima reunio. Maddy apertou a mo a vrias pessoas antes de abandonar a sala, aps o que saiu da Casa Branca o 
mais rapidamente que pde e apanhou um txi para o estdio.
Greg estava j a ser maquilhado quando ela chegou.
Ento, que tal correu? perguntou, entabulando conversa. Intrigava-o a comisso da primeira-dama e pensava que dela poderia ser extrada uma boa histria.
Muito interessante. Adorei. Conheci o Bill Alexander, o ex-embaixador na Colmbia cuja esposa foi morta por terroristas no ano passado. Que coisa horrorosa!
Lembro-me vagamente. Vi uma foto. O homem era um autntico trapo quando levaram o corpo dela para a embaixada... No  que eu o critique. Pobre tipo! Como est agora?
Parece bem, embora eu ache que ainda est bastante abalado. Est a escrever um livro sobre o assunto.
Uma boa histria. Quem mais l estava? Ela citou alguns nomes, mas no lhe contou nenhuma das histrias pessoais que ouvira: sabia que era essa a sua obrigao e 
cumpria-a. E, mal a maquilhagem ficou pronta, entrou no estdio e passou os olhos pelas peas que iam ser apresentadas. No havia nada sensacional ou terrvel, s 
assuntos banais, e uma vez no ar deram as notcias serenamente. Depois, Maddy voltou para o seu gabinete. Queria ler algumas peas e tinha umas pesquisas a fazer 
antes do jornal das sete e meia. s oito, terminara. Fora um dia cheio e, quando ficou pronta Para deixar o trabalho, ligou para Jack. Ele continuava l em cima, 
a terminar uma reunio.
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Tenho boleia, ou queres que v a p para casa? perguntou-lhe, e ele sorriu mesmo contra vontade. Continuava zangado com ela, mas sabia que no seria por muito tempo.
Vou obrigar-te a correr atrs do carro durante os prximos seis meses, para expiares os teus pecados e aquilo que poders custar-me.
A Phyllis Armstrong no pensa que ele nos processe.
Espero que tenha razo. Se no tiver, o presidente pagar a conta? Vai ser bem avultada.
Vamos esperar que no acontea nada replicou ela, muito calma. A propsito, a reunio da comisso foi formidvel. Tem gente de grande valor. Era a primeira conversa 
real entre eles desde tera-feira, e Maddy ficou contente por v-lo quebrar um pouco da sua frieza.
Encontramo-nos ao fundo da escada daqui a dez minutos. Tenho umas coisas a acabar aqui.
Quando dez minutos mais tarde desceu  recepo, no se mostrou feliz por v-la, mas tinha um aspecto menos feroz do que nos trs dias anteriores, desde a "transgresso" 
dela. E ambos tiveram o cuidado de no aflorar o assunto no trajecto at casa. Pararam para comer uma piza, enquanto ela lhe falava na reunio da comisso. Mas tambm 
a ele no deu pormenores; s o essencial e o que esperavam obter. Sentia-se protectora das pessoas que l conhecera.
H um lao comum a todos vocs, ou so todos apenas inteligentes e interessados no tema?
As duas coisas.  espantosa a violncia que pode abater-se sobre a vida de cada um. Todos foram muito sinceros nesse ponto. Era tudo o que podia, ou queria dizer-lhe.
No lhes contaste a tua histria, pois no? Olhou-a com interesse.
Por acaso, contei, sim. Todos fomos muito francos.
Isso  estpido, Mad comentou ele sem cerimnias. Ainda estava aborrecido com ela, e no refreava os seus impulsos. E se algum o transmite  imprensa?  essa a 
imagem que queres dar de ti? O Bobby Joe a deitar-te pelas escadas abaixo em Knoxville? Era uma crtica, de que Maddy no gostou mas que no comentou.
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Talvez seja bom, se ajudar algum a aperceber-se de que os maus tratos tambm atingem pessoas como eu. Um pouco de exposio pode valer a pena se salvar a vida de 
algum, ou lhe der a esperana de poder vir a escapar.
Tudo o que te dar a ti  uma dor de cabea, e uma triste imagem que me custou uma fortuna a apagar. No consigo entender como pudeste ser to idiota.
Fui franca. Toda a gente o foi. Algumas das histrias eram bem piores do que a minha. A da primeira-dama no era decerto bonita e ela no a escondera. Todos tinham 
sido muito francos, e era a que residia a beleza do que haviam partilhado. O Bill Alexander faz parte da comisso. Contou-nos o rapto da mulher. Era do conhecimento 
pblico pelo que podia falar no caso a Jack, mas como resposta este limitou-se a encolher os ombros e mostrou-se nitidamente hostil.
Bem pode ter sido ele a mat-la. O que fez foi uma burrice, tentar ser ele o negociador. Todo o Departamento de Estado o avisou, mas o tipo recusou-se a dar-lhes 
ouvidos.
Estava desesperado, provavelmente nem conseguia raciocinar. A mulher foi mantida como refm sete meses antes de a matarem. A espera deve t-lo deixado meio louco. 
Ainda sentia pena ao pensar no assunto, mas Jack manteve-se impassvel, o que a aborreceu. Demonstrava total indiferena pelos sentimentos do homem e pelo que ele 
passara. O que tens contra ele? D-me a sensao de que embirras com o homem.
Foi um dos conselheiros do presidente, por pouco tempo, a seguir a ter sido professor em Harvard. Tem ideias medievais e  intransigente quanto a princpios e moralidade. 
Um autntico romeiro. Uma maneira antiptica de descrev-lo, que irritou Maddy.
Penso que h mais a dizer sobre ele. Parece muito sensvel e inteligente, e uma pessoa muito honesta.
No gosto dele,  tudo. Acho que o tipo no tem vivacidade suficiente, ou sex appeal, ou seja l o que for. ma coisa estranha o que dizia, porque Bill era um homem 
bem-parecido e interessante. No entanto, Jack falava com
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sinceridade. Claro que Bill era o oposto da multido espampanante com que Jack Hunter gostava de se dar, mas Maddy no estava muito certa de a incomodarem o estilo 
e as ideias de Bill. Apesar de este no parecer suficientemente glamoroso aos olhos do marido.
Chegaram a casa pelas dez horas e, o que no era seu hbito, Maddy ligou para o noticirio, ficou paralisada quando viu que tropas dos Estados Unidos tinham invadido 
de novo o Iraque. Voltou-se para Jack e leu no seu olhar algo de estranho
Sabias disto, no sabias? perguntou-lhe sem rodeios.
Eu no aconselho o presidente quanto s suas guerras, Mad. Apenas quanto a assuntos dos mdia.
Uma gaita! Tu sabias. Foi por isso que foste para Camp David na semana passada, no foi? E  por isso que neste fim-de-semana vais para o Pentgono. Porque no me 
contaste? Vrias vezes o marido partilhara com ela informaes altamente confidenciais, mas desta no o fizera. Pela primeira vez, sentiu falta de confiana da parte 
dele e isso feriu-a.
Era demasiado delicado e demasiado importante.
Vamos perder l uma quantidade de homens, Jack. Havia preocupao na sua voz. A cabea andava-lhe  roda. Tambm para ela ia ser uma pea importante, na segunda-feira.
Por vezes  um sacrifcio que tem de ser feito retorquiu Jack friamente. Achava que o presidente tomara a deciso certa. Ele e Maddy j antes haviam divergido de 
opinio a esse respeito, e ela no estava to convencida como o marido
Assistiram ao resto das notcias; o apresentador disse que dezanove fuzileiros navais tinham morrido nessa manh num recontro com soldados iraquianos. Jack desligou 
o aparelho e Maddy seguiu-o at ao quarto
 interessante que o presidente Armstrong te meta nisto. Porqu, Jack? Mostrava-se desconfiada ao fazer a pergunta
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Porque no? Ele confia em mim.
Confia em ti, ou est a usar-te como mdico de servio que obriga o povo americano a engolir esta plula sem que a imagem dele seja afectada?
 um direito seu opinar sobre o comportamento dos mdia. No  crime.
No  crime, mas talvez tambm no seja muito honesto impingir ao pblico qualquer coisa que a longo prazo possa vir a revelar-se uma muito m ideia.
Poupa-me s tuas opinies polticas, Mad. O presidente sabe o que est a fazer. Ps ponto final sumariamente, o que lhe desagradou, e intrigou-a o facto de Jack 
estar em to bons termos com a administrao em curso. Teria o facto a ver, em parte, com a sua fria contra a pea dela na tera-feira acerca de Janet McCutchins? 
Talvez temesse qualquer dificuldade que pusesse em causa o seu delicado equilbrio de poder. Jack mantinha sempre os olhos bem abertos, via o que potencialmente 
podia vir a perder. Calculava cada passo que dava e ainda mais atentamente os que os outros davam. Porm, nessa noite, ao meter-se na cama com ela, foi mais caloroso 
do que vinha sendo h dias e, quando a puxou para bem junto de si, Maddy pde sentir quanto ele a desejava.
Lamento que tenha sido uma semana to m para ns disse ela meigamente, enquanto ele a agarrava.
No repitas, Mad. Da prxima vez no perdoo e sabes o que aconteceria se eu te despedisse? A sua voz soava dura e fria. No dia seguinte estarias na lama. Estarias 
acabada, Mad. A tua carreira depende de mim, nunca o esqueas. No brinques comigo, Maddy. Posso apagar a tua carreira como se fosse uma vela. No s a estrela que 
gostas de pensar que s. Tudo provm de estares casada comigo. As palavras dele enjoaram-na e entristeceram-na, no por aquilo que poderia perder se o marido corresse 
com ela, mas pelo modo como se expressara. No respondeu nada; beliscou-lhe os mamilos com fora, com demasiada fora, e ento, sem uma palavra, possuiu-a, mostrando-lhe 
quem mandava. Nunca era Maddy, sempre Jack. Maddy comeava a pensar que poder e mando eram tudo o que contava para ele.
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CAPTULO 5
No sbado, quando Maddy acordou, Jack j estava vestido e prestes a sair para a sua reunio. Disse-lhe que passaria o dia inteiro no Pentgono e que no o esperasse 
at  hora do jantar
Porque vais l? perguntou ela ainda da cama, observando-o Bem-parecido, bem vestido, com calas desportivas, blazer e uma camisola cinzenta de gola alta. Estava 
calor na rua, mas ele sabia que estaria todo o dia numa sala com ar condicionado, bastante fria.
Eles andam a pr-me a par de alguns dos seus assuntos. Isso ajuda-me a ter uma melhor perspectiva do que por l se passa. Podemos noticiar o que eu ouo, mas  informao 
til e o presidente quer, penso eu, dar a sua opinio sobre como transmitir as notcias aos mdia. Acho que posso ajud-lo nesse ponto. Era exactamente o que ela 
supusera na noite anterior. Jack estava a servir de pronto-socorro ao presidente.
Contar a verdade aos Americanos podia ser um modo interessante de agir. Seria certamente algo de novo, de diferente comentou ela, olhando para o marido. s vezes 
no lhe agradava a sua prontido em camuflar a verdade para dar a volta "certa" s coisas. Tinha uma maneira de o fazer que a enervava. Maddy era muito mais do gnero 
preto no branco. Era verdade, do seu ponto de vista, ou no era. Mas Jack via um arco-ris de oportunidades e sombras subtis. Para ele, a verdade tinha um milho 
de matizes e significados.
H diversas verses da verdade, Mad. Apenas queremos encontrar aquela com que o povo melhor se acomode.
Isso  uma treta e tu bem o sabes. A verdade  a verdade.
Acho que  por isso que vou estar l hoje e tu no. A propsito, o que vais fazer? Passava uma esponja pelo que acabara de dizer-lhe e pelas implicaes subsequentes.
No sei. Vou ficar por aqui, creio. Descansar. Talvez v s compras com uma amiga. Mas h anos que no o fazia. 
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J nem oportunidades tinha para cultivar amizades, Jack monopolizava todo o seu tempo livre e mantinha-a ocupadssima, ou ento estava a trabalhar. E as nicas pessoas 
com quem mantinha relaes sociais estavam de qualquer forma ligadas aos negcios, como por exemplo os McCutchins, na Virgnia durante o fim-de-semana.
Porque no vais no avio at Nova Iorque e passas assim o dia? Podes fazer compras l. Ias gostar. Ela abanou a cabea, a pensar na sugesto.
Podia ser divertido. H uma exposio no Whitney que eu tambm gostava de ver. No te importas mesmo se eu me servir do avio? Era uma vida fantstica e ela nunca 
se esquecia disso. O marido proporcionava-lhe luxos e oportunidades com que nunca sequer sonhara quando vivia em Knoxville. Ocorreu-lhe o que lhe dissera na noite 
anterior, que ela no teria de todo feito carreira se no fosse ele. Era doloroso ouvi-lo, mas no podia negar o facto. Tudo o que de bom lhe acontecera devia-o, 
sem dvida, a Jack.
Este telefonou ao piloto antes de sair, dizendo-lhe que esperasse Madeleine cerca das dez horas e obtivesse autorizao para um voo at La Guardia com regresso a 
Washington  noite.
Diverte-te desejou-lhe com um sorriso ao sair, e ela agradeceu-lhe. Uma vez mais tomou conscincia de que havia pequenos sacrifcios que fazia por Jack, mas em contrapartida 
o marido dava-lhe tanto! At aborrecer-se com ele era difcil de justificar.
Chegou ao aeroporto s dez e quinze, com o cabelo preso atrs, vestindo um fato branco de cala e casaco. O piloto esperava-a, e meia hora depois levantaram voo 
e rumaram a Nova Iorque. Aterraram em La Guardi s onze e meia, e ao meio-dia estava na cidade. Foi at ao Goodman and Saks, de oergdorf, e depois subiu a Madison 
Avenue, parando nas suas lojas preferidas. Saltou o almoo e chegou ao Museu Whitney s trs e meia. Uma vida dourada, que ela adorava. Jack tambm a levara a Los 
Angeles, Nova Orlees, So Francisco, Miami, e de vez em quando a passar o fim-de-semana em Las Vegas. Sabia que era estragada com mimos, mas estava-lhe grata por 
isso. Nunca perdia de vista os muitos 
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benefcios da sua vida com Jack, ou a carreira que ele lhe proporcionara. E sabia tambm que era verdade o que ele dissera, que tudo acontecia por ela ser Mrs. Jack 
Hunter. Concordava em absoluto: sem Jack no seria nada. Acreditar nisso dava-lhe uma espcie estranha de humildade, que outros achariam ingnua e atraente. Um pouco 
insegura, no tinha a mnima sensao da sua prpria importncia, s da dele. Jack at a convencera de que os prmios que ganhara haviam sido uma ddiva sua.
Estava de regresso a La Guardi s cinco; tiveram autorizao de partida s seis, e entrou em casa na R Street s sete e meia. Fora um dia perfeito, divertira-se. 
Comprara calas, fatos de banho, e um belo chapu novo, e estava bem-disposta quando entrou em casa com os seus trofeus e viu Jack sentado no sof com um copo de 
vinho, a assistir  emisso das sete e meia. Mais uma quantidade de notcias sobre o Iraque e Jack parecia interessado no que ouvia.
Ol, querido saudou-o ela com ar natural; a animosidade da semana anterior parecia haver-se dissipado durante a noite, e ele estava de melhor humor. Alegrava-a ver 
Jack, e este voltou-se para ela com um sorriso no primeiro intervalo do noticirio
Como correu o teu dia, Mad. Serviu-se de outro copo de vinho.
Divertido. Fiz imensas compras e fui ao Whitney. E o teu? Era emocionante para ele ser o brao direito do presidente, Maddy sabia-o.
Formidvel. Acho que pus uma data de coisas em ordem. Mostrava-se contente, como se se sentisse muito importante, e era-o. Ningum que o conhecesse ignorava isso, 
e Maddy muito menos.
Qualquer coisa que possas contar-me ou  tudo secreto?
Muitssimo. A mulher devia sab-lo pelo que eles lhe davam para transmitir no noticirio. O que nunca saberia, nem ela nem ningum, era a realidade, ou a verso 
original no filtrada. O que  o jantar?
Posso arranjar uma omoleta, se quiseres respondeu ela, pousando os embrulhos. Continuava impecvel e bonita
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aps o seu longo dia de compras. Ou posso encomendar qualquer coisa.
Porque no samos? Estive todo o dia fechado, com uma quantidade de tipos. Sabia-me bem ver pessoas autnticas... Pegou no telefone e fez uma reserva para as nove 
horas no Citronelle, de momento o restaurante mais em voga em Washington. Veste qualquer coisa bonita.
Sim, meu senhor. Sorriu-lhe e desapareceu escada acima direita ao quarto, com todas as coisas que comprara em Nova Iorque; voltou passada uma hora, banhada, penteada, 
perfumada, com um vestido de cocktail preto, simples, e sandlias de salto alto, os brincos de diamantes e um colar de prolas. Jack comprava-lhe coisas bonitas 
de vez em quando e todas lhe ficavam bem. Os brincos de diamantes e o anel de noivado de oito quilates eram os seus galardes. Nada mal para uma garota vinda de 
um parque de atrelados de Chattanooga, disse-o muitas vezes ao marido, que lhe chamava "meu lixinho branco" quando queria realmente espica-la. Maddy no gostava, 
mas era a verdade. No podia neg-lo, apesar de ter ido to longe, subido tanto. Era bvio que ele achava engraado chamar-lhe aquilo, mas ao ouvir tais palavras 
Maddy estremecia sempre, dada a imagem evocada.
Ficas muito bonita lavada brincou ele,  laia de cumprimento, e ela sorriu-lhe. Adorava sair com ele, ser dele, e deixar que todo o mundo visse isso. A emoo de 
ser casada com Jack nunca a ofuscara, nem agora que era uma estrela por mrito prprio. Naquele momento, havia mais pessoas que conheciam Maddy do que Jack ou o 
nmero equiparava-se. Ele era o magnata atrs do cenrio, o homem com quem o presidente se aconselhava para assuntos dos mdia, mas ela era a mulher que outras mulheres 
e raparigas queriam ser, e o rosto com que muitos homens sonhavam. Uma presena nas suas salas de estar, a voz em que confiavam, a mulher que lhes dizia a verdade 
sobre coisas penosas o melhor que podia, como fizera relativamente a Janet McCutchins e inmeras outras mulheres como ela. Maddy era ntegra e a sua integridade 
transparecia. Alm de que vinha numa embalagem tremendamente atractiva. Como Greg dizia repetidamente a seu respeito, era "deslumbrante". E estava-o quando saram 
para o restaurante onde iam jantar.
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Foi o prprio Jack quem guiou, o que era raro fazer, e pelo caminho conversaram acerca de Nova Iorque. Era bvio que sobre as suas reunies no podia dizer nada. 
Chegados ao Citronelle, foram conduzidos pelo chefe a uma mesa bastante em evidncia. Viraram-se cabeas e houve comentrios sobre quem eram e sobre a beleza dela. 
As mulheres tambm olhavam para Jack, era um bonito homem, com um sorriso sexy, olhos perscrutadores e uma presena marcante. Tudo no casal irradiava sucesso e poder, 
e em Washington isso era importante. Dzias de pessoas pararam  sua mesa para conversar, na maioria polticos, e um dos conselheiros do presidente E a intervalos 
de minutos algum se aproximava, hesitante, e pedia a Maddy um autgrafo, que ela concedia com um ssorriso caloroso e trocando meia dzia de palavras
No ests farta disto, Mad? interrogou-a Jack enquanto lhe servia o vinho. O criado deixara-o a arrefecer num frapp junto da mesa. Era um Chateau Cheval Blanc de
1959, Jack era perito em bons vinhos e aquele era ptimo
Na verdade, no Acho amoroso saberem quem eu sou e ligarem-me suficiente importncia para vir ter comigo. Era sempre gentil nessas ocasies e as pessoas afastavam-se 
dela com a sensao de ter feito uma nova amiga e apreciando-a ainda mais em pessoa do que no ecr da televiso. Aproximar-se de Jack intimidava um pouco mais, era 
muito menos amistoso
Quase  meia-noite saram do restaurante e no domingo voaram para a Virgnia. Jack detestava perder um minuto que pudesse passar l. Andou um bocado a cavalo, almoaram 
fora. O dia estava quente, e ele comentou que o Vero ia ser ptimo
Vamos para algum stio? perguntou Maddy no regresso. Sabia que ele detestava fazer planos, gostava de decidir no ltimo minuto e limitar-se a dizer-lho ento Arranjava-lhe 
um substituto para os noticirios e arrastava-a a toda a velocidade. Mas ela preferia ser avisada com um pouquinho de antecedncia. s vezes, o marido s a informava 
na vspera ou na prpria manh E Maddy no podia nunca dizer-lhe que precisava de mais tempo. No tinham filhos e ele era o patro, por isso, se resolvia que se 
iam embora juntos,
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no havia maneira de lhe dizer que era impossvel. Estava sempre livre para o acompanhar.
Ainda no decidi nada para o Vero respondeu vagamente. Nunca lhe perguntava onde quereria ir, mas arranjava sempre lugares que ela acabava por adorar. Com Jack, 
a vida era cheia de surpresas. E quem era ela para se queixar? Sem ele, nunca teria conhecido tais lugares. Acho que vamos  Europa. Maddy compreendeu que seria 
toda a informao que obteria, e talvez toda aquela de que precisava.
Informa-me quando forem horas de fazer as malas brincou, como se no tivesse ocupao alguma e pudesse largar tudo de um momento para o outro. Muitas vezes, era 
exactamente o que Jack esperava dela.
Informarei acedeu o marido, tirando em seguida uns papis da pasta, sinal de que de momento no tinha nada a acrescentar.
No resto do voo para casa, Maddy leu um livro que a primeira-dama lhe recomendara, uma obra sobre crimes de violncia contra mulheres, cheio de estatsticas deprimentes 
mas interessantes.
O que  isso? perguntou Jack, apontando para o livro, ao aterrarem.
Deu-mo a Phyllis.  sobre crimes de violncia contra mulheres.
De que gnero? Cancelar-lhes os cartes de crdito? Sorria; ao ouvi-lo, sentiu-se decepcionada. Detestava quando o marido depreciava temas que para ela eram relevantes. 
No sofras de mais com essa comisso, Mad.  ptima para a tua imagem, foi por isso que a sugeri, mas no ds cabo da cabea por causa dela. No precisas de te tornar 
a campe das mulheres maltratadas.
Gosto do que esto a fazer e do modo como querem actuar.  uma coisa com que realmente me preocupo, e tu sabes que sim. Falava-lhe calmamente mas com emoo, enquanto 
o avio deslizava j pela pista.
O que eu sei...  como tu s. Capaz de te deixares empolgar pelas coisas. Trata-se da tua imagem, Mad, no de ser a Joana d'Arc. Mantm a tua perspectiva. Muito 
do que se diz sobre mulheres violentadas no passa de palavreado sem sentido.
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Como, por exemplo? Percorreu-lhe a espinha um arrepio gelado. O que queria ele dizer efectivamente?
Toda essa conversa sobre agresso e assdio sexual no passa disso, e provavelmente mais de metade das mulheres espancadas, ou alegadamente assassinadas pelos maridos, 
mereceram-no. Denotava a maior convico, e Maddy olhou-o fixamente
Ests a falar a srio. No posso acreditar. E eu? Achas que eu mereci o que o Bobby Joe me fez. Achas mesmo?
Ele era um z-ningum que no prestava para nada, e um bbedo, e s Deus sabe o que poders ter dito para o provocar. Imensa gente se zanga, Mad, alguns trocam uns 
socos entre si, alguns saem magoados, mas isso no justifica uma cruzada e no  uma emergncia nacional. Acredita em mim. Se lhe perguntares em particular, tenho 
a certeza de que a Phyllis se meteu nisto pelas mesmas razes por que eu pretendo que tu o faas. Parece bem. Maddy sentiu-se enojada ao escut-lo
No posso acreditar no que estou a ouvir. A me dela toda a vida foi maltratada pelo pai, e a Phyllis cresceu nesse ambiente. Eu tambm E muita gente, Jack. Nalguns 
casos, bater no basta, tm que as matar s para provar como so fortes, e como as mulheres valem pouco. Isto soa-te ao teu banal dia-a-dia? Quando foi a ltima 
vez que deitaste uma mulher pela escada abaixo a pontap, ou lhe atiraste com um ferro quente, ou com lixvia para os olhos, ou a queimaste com um cigarro? Fazes 
alguma ideia de como actua essa gente?
Ests a comear a exaltar-te, Mad. Essas so as excepes, no a regra. Claro, h por a alguns loucos, mas tambm matam homens. Ningum disse que o mundo no est 
cheio de malucos
A diferena  que algumas dessas mulheres vivem com os seus agressores, ou mesmo eventuais assassinos, durante dez ou vinte ou cinquenta anos e deixam-nos continuar 
a brutaliz-las, possivelmente a mat-las
Ento, so mulheres doentias, no ? Podem pr um ponto final indo-se embora, mas no vo. Que diabo, talvez at gostem. Maddy jamais se sentira to frustrada na 
sua
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vida como ao escut-lo, mas ele no era apenas a voz da ignorncia, era a voz da maioria das pessoas. Conseguiria faz-lo entender? Poucas esperanas tinha.
Esto demasiado assustadas para fugir, na maior parte das vezes. A maioria dos homens que ameaa matar as mulheres geralmente f-lo. As estatsticas so devastadoras 
e as mulheres sabem-no instintivamente. Esto assustadas de mais para se irem embora, para fugir. Tm filhos, no tm para onde ir, muitas delas no esto empregadas, 
algumas, ou a maioria, no tm dinheiro. A vida delas  um beco sem sada, e h um tipo que lhes diz que, se do um passo, as mata ou mata os filhos, ou ambos. O 
que fazias tu num caso destes? Chamavas o teu advogado?
No, punha-me a milhas, como tu fizeste. Maddy tentou ento outra abordagem.
Esse gnero de violncia  um hbito.  familiar. Torna-se normal para ns. Cresce-se com ele, v-se continuadamente, dizem-nos que somos reles e ms e que o merecemos, 
e ns acreditamos nisso.  como um hipnotizante: paralisa-nos. Estamos isoladas, ss e assustadas e no temos para onde ir, talvez at queiramos morrer, porque a 
morte nos parece ser o nico meio de evaso. Tinha os olhos cheios de lgrimas. Porque achas que deixei o Bobby Joe espancar-me? Porque gostava imenso? Pensava que 
no tinha outra opo, e acreditava que merecia. Os meus pais diziam-me que eu era m, o Bobby Joe dizia-me que a culpa era toda minha, eu no conhecia mais ningum 
at te encontrar, Jack. Ele nunca lhe levantara a mo e, no seu esprito, no lhe bater era o suficiente para ser um bom marido.
Lembra-te disso da prxima vez que me fizeres passar um mau bocado, Mad. Nunca levantei a mo para ti, e nunca o faria. s uma mulher de sorte, Mistress Hunter. 
Sorriu-lhe e levantou-se. Chegados ao terminal, desinteressara-se do tema que to importante era para Maddy.
Talvez seja essa a razo por que acho que tenho deveres para com as outras, as que no tm tanta sorte, que preciso de ajud-las... Gostaria de saber porque lhe 
haviam soado to mal as palavras do marido. Mas era bvia a sua indiferena pelo assunto, e nenhum deles voltou a abord-lo.
Saram do avio e regressaram  sua casa em Georgetown.
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Passaram uma noite calma; ela fez massa para o jantar, ambos leram e fizeram amor quando se deitaram mas, sem saber bem porqu, Maddy sentia que o seu corao no 
estava envolvido. Achava-se distante, estranha... e deprimida; depois, estendida na cama, pensou nas coisas que ele dissera acerca das mulheres agredidas. Tudo o 
que sabia era que qualquer coisa que fora dita, ou o modo como lha dissera, a magoara. E quando por fim adormeceu, sonhou com Bobby Joe e acordou a meio da noite, 
aos gritos. Quase podia v-lo  sua frente, com um olhar cheio de dio, socando-a repetidamente; e no sonho Jack, de p, abanava a cabea e observava-a... E, ao 
afastar-se, Maddy sabia que a culpa de tudo era dela, e Bobby Joe seguiu-a e voltou a bater-lhe.
CAPTULO 6
O dia seguinte foi de grande azfama na estao televisiva. Havia resmas de coisas para ler sobre o combate no Iraque e os acidentes ocorridos nos Estados Unidos 
durante o fim-de-semana. Mais cinco fuzileiros tinham sido mortos, um avio fora abatido causando a morte a dois pilotos. Pouco importava a interveno de Jack para 
ajudar o presidente a mostrar o lado positivo, no havia maneira de alterar os factos, ou a realidade deprimente de que pessoas de ambos os lados iam morrer naquela 
guerra.
Nessa noite, Maddy trabalhou at s oito, horas a que terminou a sua emisso. Iam a um jantar de cerimnia em casa do embaixador do Brasil e Maddy trouxera consigo 
um vestido de noite para poder mudar-se no gabinete. Precisamente quando estava a vestir-se, o intercomunicador tocou; era o marido.
- Estou pronta daqui a cinco minutos.
- Tens de ir sem mim. Acabam de me telefonar, h uma reunio. - Mas desta vez ela soube porqu. Tinha a certeza de que o presidente estava preocupado com a reaco 
pblica s mortes ocorridas no Iraque desde o incio dos combates.
- A tua reunio  na Casa Branca, presumo eu.
- .
- Vens tarde? - Estava habituada a ir a recepes sozinha, mas preferia que Jack a acompanhasse.
- Duvido. Temos umas coisas a tratar. Encontramo-nos em casa. Se acabar cedo apareo no jantar, mas j telefonei a inform-los de que no vou. Desculpa, Maddy.
- No faz mal. No est a correr nada bem no Iraque, pois no?
- Vai correr.  um facto com o qual temos de viver. E se desempenhasse bem o seu papel, ia convencer disso o povo americano, mas Maddy no caa no embuste, nem Greg 
cara quando tinham falado. No fizeram, porm, nenhum editorial a propsito. As suas opinies no tinham cabimento nas emisses. - At logo.
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Acabou de se arranjar: um vestido rosa-plido que combinava lindamente com a sua maquilhagem suave e o seu cabelo escuro, brincos de topzio rosa-plido muito brilhantes, 
uma echarpe de cetim cor-de-rosa pelos ombros. Saiu da estao; Jack deixara-lhe o carro e fora para a Casa Branca num automvel de aluguer com motorista
A embaixada ficava na Massachusetts Avenue e dava a impresso de se encontrar l uma centena de pessoas. Falavam espanhol, portugus e francs, e havia, como msica 
de fundo, muito agradvel, o samba. O embaixador brasileiro e a esposa recebiam com muita elegncia e bom gosto, e toda a gente em Washington gostava deles. Ao olhar 
em redor, foi com prazer que Maddy avistou Bill Alexander.
Ol, Maddy cumprimentou-a ele com um sorriso caloroso, aproximando-se. Como est?
Bem, obrigado Como foi o seu fim-de-semana? Podia consider-lo um amigo, depois de tudo o que sabiam um do outro
Rotineiro. Fui a Vermont ver os meus midos. O meu filho tem l casa. Foi interessante a reunio do outro dia, no foi?  incrvel verificar quantos de ns somos 
atingidos pela violncia domstica, ou por crimes violentos, de uma forma ou de outra O espantoso  que todos ns pensamos que as restantes pessoas tm vidas normalssimas, 
o que de facto no corresponde  verdade, no ? Tinha olhos azuis, profundos, quase da cor dos dela, mas mais escuros, a cabea toda branca muito bem penteada e 
estava elegantssimo no seu smoking. Com cerca de um metro e noventa, a seu lado Maddy parecia uma boneca.
Aprendi isso h muito tempo. Nem a primeira-dama escapara  violncia na infncia. Por ser muito nova, costumava sentir-me culpada, e s vezes ainda sinto, mas compreendo 
finalmente que tambm acontece a outras pessoas. O facto  que achamos sempre que a culpa  nossa
Penso que o truque  perceber que no  assim Pelo menos, no no seu caso. Quando regressei a Washington, de incio, tinha a sensao de que todos os que me olhavam 
diziam ou pensavam que eu matara a Margaret. Surpresa com as suas palavras, Maddy ergueu para ele o olhar e perguntou com doura:
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Porque haveria de sentir isso?
Porque acho que tinham razo. Apercebo-me agora muitssimo bem de que o que fiz foi uma idiotice.
O desfecho poderia ter sido o mesmo de qualquer maneira e possivelmente teria sido. Os terroristas no fazem jogo franco, Bill. Voc sabe que no.
 difcil de admitir quando o preo a pagar  algum que amamos. No sei se alguma vez o compreenderei, ou o aceitarei. A sua franqueza e sinceridade aumentavam 
o apreo de Maddy. E tudo nele sugeria tratar-se de uma pessoa gentil.
No creio que a violncia possa ser compreendida. Aquilo com que lidei foi muito mais simples, e tambm no me parece que o tenha entendido. Porque quereria algum 
fazer semelhante coisa a uma pessoa? E porque permiti eu que ele fizesse tal coisa?
Falta de opes, de escolha, de sada, ningum para a ajudar, nada para onde se virar. Estou certo? perguntou, e ela concordou com um aceno de cabea. Bill parecia 
ter apreendido perfeitamente a situao. Muito melhor do que o seu marido e muitas outras pessoas.
Est certssimo. Sorriu-lhe. O que pensa da questo do Iraque? perguntou, mudando de assunto.
 vergonhoso termos sido obrigados a voltar para l. No  uma situao de vitria e acho que o povo vai ter perguntas muito duras a fazer. Especialmente se comearmos 
a perder rapazes ao ritmo a que perdemos neste fim-de-semana. Maddy concordava em absoluto com ele, a despeito da certeza de Jack de que poderia dar a volta de modo 
a que o povo aceitasse e continuasse a apoiar a aco do presidente. Jack era bastante mais optimista do que ela nesse ponto. Odeio ver-nos agir assim continuou 
Bill. Acho que as pessoas temem que os ganhos no justifiquem as perdas. Quereria dizer-lhe que ele podia agradecer a Jack, mas no o fez. Agradava-lhe que Bill 
concordasse com ela, e ficaram um bocado a conversar; ele perguntou-lhe quais os seus planos para o Vero.
Ainda no sei. Tenho um trabalho para acabar. Mas o meu marido detesta fazer projectos. Limita-se a dizer-me quando devo fazer a mala, geralmente no dia da partida.
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Bem, isso deve dar interesse e cor  sua vida. Bill sorriu, a imaginar como lidaria ela com esse facto. A maioria das pessoas precisava de saber com alguma antecedncia. 
E como reagiriam os filhos? Tem filhos?
Maddy hesitou uma fraco de segundo antes de responder
No, de facto no tenho
No ficou surpreendido. Ela era jovem, a sua carreira exigente, tinha muitssimo tempo pela frente para ter filhos E seria difcil numa conversa de ocasio explicar-lhe 
que j no podia, por ter laqueado as trompas, uma condio de Jack para se casarem
Na sua idade, tem imenso tempo para pensar em filhos E sabendo o que sabia, interrogava-se se no seria o seu trauma de infncia que a levava a adiar a deciso. 
No caso dela, decerto o comprenderia
O que faz neste Vero, Bil? Maddy decidiu mudar de assunto. Normalmente, amos para Martha's Vineyard Mas acho que agora seria difcil para mim. Emprestei a casa 
 minha filha, durante o Vero. Ela tem trs filhos, que adoram l estar, e se me apetecer aparecer posso sempre ficar no quarto de hspedes. Parecia um homem encantador 
e era bvio que se dava bem com os filhos
Continuaram a conversar, um casal francs muito interessante juntou-se-lhes. Eram diplomatas e bastante jovens. Um momento depois, o embaixador da Argentina parou 
para cumprimentar Bill com quem conversou em espanhol, lngua que Bill falava com uma fluncia absoluta. Uns minutos mais tarde, Maddy ficou surpreendida ao descobrir 
que era ele o seu par no jantar e desculpou-se por ter j monopolizado tanto do seu tempo
No sabia que ficaramos juntos
Gostaria de lhe dizer que maquinei tudo disse ele a rir-se, mas no tenho assim tanta influncia. Acho que apenas tive sorte
Tambm eu retorquiu ela com -vontade, enquanto Bill lhe oferecia o brao e entravam na sala de jantar
Foi uma noite agradabilssima. Junto de Maddy, no lado oposto ao de Bill, ficou o mais antigo senador democrata do
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Nebrasca, com quem ela nunca se encontrara e que sempre admirara. E Bill manteve-a entretida com histrias dos tempos em que ensinara em Princeton e em Harvard. 
Agradava-lhe, obviamente, a sua curta carreira de diplomata, fora interessante e compensadora, at ao seu fim trgico.
E o que pensa fazer agora? perguntou-lhe Maddy  sobremesa. Sabia que estava a escrever um livro, e ele disse-lhe que ia quase no fim.
Para ser sincero consigo, Maddy, no sei bem. Pensei em voltar a ensinar, mas j o fiz. Foi interessante escrever o livro. A seguir, no tenho bem a certeza do rumo 
que vou tomar. Recebi vrias propostas de instituies acadmicas, uma delas evidentemente de Harvard. Na verdade, estou tentado a ir algum tempo para o Oeste, talvez 
dar aulas em Stanford. Ou passar um ano na Europa. A Margaret e eu sempre adormos Florena. Ou eventualmente Viena. Tambm me foi oferecida a oportunidade de ensinar 
um ano em Oxford, poltica externa americana, mas no tenho a certeza de me apetecer e os Invernos so um pouco rigorosos. A Colmbia estragou-me com mimos, pelo 
menos no que respeita ao clima.
Tem muito por onde escolher comentou ela com admirao, percebendo porque todos o queriam. Era inteligente, caloroso e aberto a ideias novas e a conceitos diferentes. 
E Madrid, uma vez que fala um espanhol to perfeito?
 uma opo que j me ocorreu. Talvez aprendesse a tourear. Ambos riram perante a imagem inverosmil, e Maddy sentiu-se pesarosa quando o jantar terminou. Bill fora 
um parceiro encantador e findo o sero ofereceu-se para a acompanhar a casa, mas ela disse-lhe que tinha um carro e um motorista  sua espera.
V-la-ei na prxima reunio da comisso.  um grupo intrigante, e ecltico, no ? Eu no creio ter muito para dar. No sou grande conhecedor do assunto, pelo menos 
na rea dos maus tratos, ou da violncia domstica. Temo que o meu combate  violncia seja um pouco desusado, mas lisonjeia-me que a Phyllis me tenha chamado.
Ela sabe o que est a fazer. Acho que formaremos uma boa equipa, uma vez decidido o rumo a tomar. Espero
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que consigamos alguma ateno por parte dos mdia. As pessoas precisam de ter os olhos abertos acerca das consequncias das ofensas corporais contra as mulheres.
Voc ser uma excelente porta-voz para ns. Maddy voltou a sorrir-lhe, trocaram mais meia dzia de palavras e ela foi por fim para casa, onde encontrou Jack a ler 
na cama, aparentemente descontrado e calmo.
Perdeste uma boa recepo disse, tirando os brincos e os sapatos enquanto parava para o beijar.
 hora a que acabmos, imaginei que o vosso jantar j estivesse no fim. Algum interessante por l?
Montes de gente. Estive com o Bill Alexander. Uma pessoa encantadora.
Sempre pensei que fosse um chato. Jack desinteressou-se do homem e fechou o livro com um olhar apreciativo  mulher que, mesmo sem brincos nem sapatos, tinha um 
aspecto formidvel. Ests um espanto, Mad. Falava com espontaneidade e Maddy inclinou-se e beijou-o de novo.
Obrigada.
Anda para a cama. Havia nos seus olhos um brilho familiar que ela reconheceu de imediato e, quando uns minutos depois se lhe juntou, ele estava mais do que desejoso 
de lho confirmar. Havia alguns benefcios em no ter filhos. Nunca tinham de prestar ateno a mais ningum, apenas concentrar-se um no outro, quando no estavam 
a trabalhar.
E depois de terem feito amor, Maddy aconchegou-se-lhe nos braos, sentindo-se bem e protegida.
Como correram as coisas na Casa Branca? perguntou, sonolenta, com um bocejo.
Muito bem. Acho que tommos algumas decises sensatas. Ou melhor, tomou-as o presidente. Eu limito-me a dizer-lhe o que penso, e ele pe isso na balana em conjunto 
com o que dizem os outros, e extrai do todo o que pretende fazer. Mas  um tipo esperto, e faz a coisa certa a maior parte das vezes.  um lugar difcil, o dele.
O pior emprego do mundo, na minha opinio. No o aceitava nem por todo o dinheiro do planeta.
Serias formidvel a ocup-lo brincou ele. Todos na Casa Branca andariam bem vestidos, seriam bonitos, a
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casa Branca um encanto, todos corteses e compreensivos, ponderando bem o que diziam, e os membros do teu gabinete teriam todos um grande corao. Um mundo perfeito, 
Mad. Embora parecesse um cumprimento, ela considerou-o uma humilhao e no respondeu. Quando se afastou para dormir, esqueceu tudo, e a prxima coisa de que teve 
conscincia foi de que era manh e precisavam ambos de ir cedo para o trabalho
Chegaram  estao pelas oito horas, Maddy e Greg sentaram-se a trabalhar juntos numa pea especial que ele estava a preparar sobre bailarinos americanos. Ela prometera 
ajud-lo e encontrava-se ainda no seu gabinete ao meio-dia quando se aperceberam de vozes e tumulto no corredor
O que h agora? interrogou-se Greg e levantou o olhar procurando ver o que se passava
Gaita Talvez as coisas estejam a aquecer no Iraque. O Jack esteve com o presidente a noite passada. Podem ter estado a tramar qualquer coisa. Ambos se dirigiram 
para o corredor a fim de ouvir o que diziam as pessoas. Maddy foi a primeira a interpelar um dos produtores associados. Alguma coisa importante?
Um avio para Paris explodiu, desfez-se em pedaos, vinte minutos depois de descolar do Kennedy. Dizem que a exploso se ouviu em Long Island. No h sobreviventes. 
Era a verso abreviada do que sucedera, mas ao consultarem o painel de notcias Greg e Maddy ficaram a saber melhor o que se passara. Ningum reivindicara o atentado 
mas Maddy tinha a certeza de que havia mais qualquer coisa por trs daquilo, embora no se conhecessem ainda pormenores
Recebemos um telefonema annimo de algum que parecia saber do que falava informou-os o produtor. Dizem que a companhia de aviao teve conhecimento antes de iniciar 
o voo de que havia uma ameaa. Devem mesmo t-lo sabido j ontem ao meio-dia, e no o suspenderam. Greg e Maddy entreolharam-se. Era uma loucura. Ningum Poderia 
ter permitido que tal coisa acontecesse. Tratava-se de uma companhia independente americana
Qual  a vossa fonte de informaes perguntou Greg, de sobrolho franzido
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No sabemos. Mas eles estavam elucidados. Deram-nos uma quantidade de pormenores facilmente detectveis. Tudo o que sabemos  que o FAA recebeu um aviso qualquer 
ontem, e parece que no fizeram nada
Quem est a investigar o caso para si? perguntou Greg com interesse
Voc, se quiser Algum ficou com uma lista de pessoas a quem telefonar. O tipo que ligou deu-nos alguns nomes e endereos. Greg olhou Maddy, erguendo uma sobrancelha
Conta tambm comigo disse ela e, ao encaminhharem-se para o assistente de produo que supostamente tinha a lista, comentou. No acredito nisto. Eles no embarcam 
passageiros em avies em que haja ameaas de bombas
Talvez o faam e ns o ignoremos resmungou Greg
Levaram a lista, e duas horas mais tarde sentaram-se frente a frente,  secretria de Maddy, a olhar um para o outro com incredulidade. De todos aqueles a quem haviam 
telefonado, a histria era coincidente. Houvera um aviso, mas no um aviso especfico. A FAA fora informada de que, dentro dos prximos trs dias, haveria uma bomba 
num avio de longo curso com partida do Kennedy. Era tudo o que lhe fora dito, e tudo o que sabiam, e tinha sido tomada a deciso, ao mais alto nvel, de reforar 
a segurana mas no de cancelar os voos de longo curso, a menos que se encontrassem provas da existncia de uma bomba ou se obtivessem mais informaes. No houvera, 
porm, mais nenhum aviso
 tudo muito vago admitiu Maddy, defendendo-os. Talvez tenham pensado que se tratava de uma falsa ameaa. Mas tambm poderiam ter imaginado que a ameaa provinha 
de um de dois grupos terroristas, ambos tendo j anteriormente cometido atrocidades semelhantes, tendo, por isso, razes para a levar a srio
H mais do que o que salta  vista afirmou Greg, desconfiado. Cheira-me a esturro. Quem poderemos
1 Sigla de Federal Aviation Agency, Departamento Federal da Aeronutica
(N do T)
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contactar para obter uma boa fonte dentro da FAA? Tinham esgotado todos os recursos ao seu alcance, de repente, Maddy teve uma ideia e levantou-se de um salto da 
cadeira. O que te ocorreu?
Talvez nada. Demoro-me cinco minutos. No o disse a Greg, mas subiu no elevador particular do marido. Este estivera na Casa Branca na noite anterior e com uma ameaa 
de tal magnitude decerto ouvira alguma coisa. Queria perguntar-lhe.
Jack encontrava-se numa reunio quando ela chegou. Interrompeu-a passado um minuto, apreensivo.
Ests bem?
ptima. Estou a trabalhar no caso do avio que caiu. Temos indicaes de que houve um aviso sobre a bomba, mas mesmo assim o voo manteve-se. Julgo que ningum sabia 
em que aparelho estaria a bomba A explicao foi rpida, mas ele no se mostrou demasiado preocupado ou surpreendido
So coisas que acontecem, Mad. No havia muito a fazer. O aviso era muito vago e podia ser infundado
Podemos dizer a verdade agora, pelo menos. Ouviste alguma coisa a noite passada. Olhava-o intencionalmente. Algo nos seus olhos lhe dizia que o caso no lhe era 
estranho.
No exactamente foi a resposta vaga.
Isso no  uma resposta a srio, Jack, e o assunto  importante. Se eles estavam avisados, deviam ter suspendido os voos. Quem tomou a deciso?
Eu no te disse que estou metido no caso. Mas se estavam avisados de uma forma vaga, o que achas que deviam ter feito. Suspender todos os voos de longo curso com 
partida do Kennedy durante trs dias? Santo Deus, tambm podiam ter parado toda a aviao dos Estados Unidos. No lhes era possvel fazer isso
Como soubeste que se tratava de todos os voos de longo curso, e que a ameaa cobria um perodo de trs dias. Estavas a par, no estavas? E de sbito veio-lhe  ideia 
que talvez fosse por isso que ele fora chamado  pressa  Casa Branca, para os aconselhar sobre a forma de informar o povo
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americano, se fosse caso disso, ou talvez mesmo sobre o que fazer ou no fazer E como ilib-los, se a certa altura um avio se despenhasse. No entanto, apesar de 
a deciso no ter sido dele, e no o era decerto, podia ter tido uma palavra a dizer quanto  deciso final de alertar ou no o pblico
Maddy, no podem suspender-se todas as descolagens de longo curso do Kennedy durante trs dias. Sabes o que isso significa. A ser assim, tambm teriam de ser suspensas 
as aterragens, no fosse a exploso atingi-los. O pas ficaria em pnico, para j no mencionar a nossa economia
No acredito no que oio exclamou furiosa. Tu e sabe Deus quem mais decidiram ir em frente normalmente com o negcio e no avisar ningum, porque a nossa economia 
seria afectada. E no interromperam escalas de voo. Diz-me que as coisas no se passaram como eu julgo. Diz-me que no perderam a vida quatrocentas e doze pessoas 
para poupar uma ruptura na nossa indstria aeronutica  isso o que ests a dizer-me. Que se tratou de uma deciso de negcios? Quem raio decidiu isso.
O nosso presidente, pateta. O que achas. Que eu tomo decises dessas. Era uma coisa da maior importncia, mas a ameaa no era suficientemente especfica. Eles no 
podiam fazer nada, excepto passar cada avio a pente fino antes da partida E se me culpas, Mad, mato-te.
Estou-me nas tintas para o que fizeres. Trata-se de pessoas, de vidas, de bebs e crianas, de gente inocente que entrou num avio com uma bomba l dentro, porque 
ningum teve tomates para interditar o Kennedy por trs dias. Cos diabos, Jack, deviam t-lo feito.
No sabes o que dizes. No se encerra um aeroporto internacional de primeira categoria durante trs dias por causa de uma ameaa de bomba. No se pode fazer isso 
e continuar depois com o negcio
Eles encerram-nos por causa dos neves e a economia no se afunda. Porque no o fazem devido a uma ameaa de bomba.
Porque teriam parecido parvos e toda a gente teria entrado em pnico
Ah, tudo bem. Presumo que centenas de vidas  um
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preo baixo a pagar para evitar o pnico. Meu Deus, no acredito no que estou a ouvir. No posso crer que tu sabias e no mexeste um dedo.
O que esperavas que eu fizesse? Que fosse para o JFK lanar folhetos?
No, burro, tu s dono de uma estao noticiosa. Podias ter insinuado o que sabias, anonimamente se quisesses, e t-los forado a encerrar o aeroporto.
E a porta da Casa Branca ter-me-ia sido fechada na cara para sempre. Pensas que eles no adivinhariam a origem da fuga? No sejas ridcula e nunca mais... Agarrou-lhe 
o brao e deu-lhe um violento safano... Nunca mais me chames burro. Eu sabia o que estava a fazer.
Tu e os tipos com quem estiveste a noite passada mataram quatrocentas e doze pessoas ao meio-dia de hoje. Quase lhe cuspia as palavras, e tremia-lhe a voz. No conseguia 
acreditar que o marido participara naquilo. Porque  que vocs no compram armas e comeam a disparar a torto e a direito?  mais prtico e bastante mais honesto. 
Sabes o que isto significa? Significa que os negcios valem mais do que as pessoas. Significa que, cada vez que uma mulher apanha um avio com os seus filhos, no 
sabe se algum foi avisado de que h uma bomba a bordo, mas, para benefcio dos grandes negcios, ela e os filhos no passam de um sacrifcio ocasional, por ningum 
achar que sejam importantes o suficiente para merecer um "encerramento".
E no o so, se queres saber. Tu s ingnua. No percebes nada. s vezes as pessoas tm de ser sacrificadas a interesses superiores. Ao ouvi-lo, Maddy sentia-se 
agoniada.
E digo-te uma coisa: se deixas escapar uma palavra a este respeito, vou eu pessoalmente levar-te de volta a Knoxville e largar-te  porta do Bobby Joe. Se deixares 
escapar nem que seja uma palavra, vais ter de responder perante o presidente dos Estados Unidos e espero que te enfiem atrs das grades Por traio. Foi um caso 
de segurana, tratado por pessoas que sabiam o que estavam a fazer e o mais independente possvel. No estamos a falar de uma qualquer dona de casa chorona e psicopata, 
ou de qualquer gordo senador baboso. Se tocas neste vespeiro, vais ter o presidente  perna, e o FBI, e
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a FAA, e todas as maiores agncias do pas, e eu vou observar como te queimas. No entres nesta batalha. No sabes nada de nada e eles viram-se contra ti to depressa 
que ardes em cinco minutos. Esta guerra no irs ganhar nunca.
Maddy sabia que havia uma certa verdade no que Jack dizia; todos mentiriam, seria o maior conluio desde o caso Watergate, e era provvel que ningum acreditasse 
nela. Era uma pequena voz no meio de outras muito mais audveis, e que no s abafariam a sua, como a desacreditariam para sempre. At podiam mat-la. Imaginar isso 
era assustador, mas pensar em no ligar qualquer importncia ao pblico, ocultando-lhe a verdade, fazia-a sentir-se traidora. O pblico tinha o direito de saber 
que as pessoas do Voo 263 haviam sido sacrificadas a interesses econmicos. E que para aqueles que tinham tomado a deciso, a sua morte no significava nada.
Ouviste o que eu acabei de te dizer? gritou-lhe Jack com um olhar raivoso. Comeava a aterroriz-la. Seria o primeiro a derrub-la, antes mesmo que outros o fizessem, 
se ela pusesse em jogo a sua estao noticiosa.
Ouvi respondeu ela, estarrecida. E detesto-te por isso.
Estou-me nas tintas para o que pensas ou sentes neste caso. S me interessa o que fizeres, e o melhor  agires correctamente desta vez, ou est tudo acabado para 
ti. Comigo, e com a televiso. Ests a perceber, Mad? Maddy olhou-o longamente aps o que lhe virou as costas e desceu rapidamente as escadas, de retorno ao seu 
andar. Nem esperou pelo elevador e entrou no gabinete, plida e trmula.
O que aconteceu? Ele sabia alguma coisa? interrogou-a Greg. Percebera imediatamente onde ela fora e nunca lhe vira um aspecto semelhante quele com que chegara ao 
gabinete. Estava de uma palidez mortal e parecia doente; levou um momento a responder.
No, no sabia foi tudo o que disse, e tomou trs aspirinas com meia chvena de caf. Como no era de surpreender, dez minutos mais tarde o chefe de produo entrou 
e olhou ambos com severidade antes de fazer o seu aviso:
Tenho de ver o vosso texto antes de entrarem no ar
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esta noite. Ambos. Se alterarem minimamente o que foi aprovado, cortamo-los e passamos  publicidade. Percebido?
Percebido aquiesceu Greg calmamente e, tal como Maddy, no teve dvidas de onde vinha o recado. Greg ignorava o que fora dito l em cima, mas sabia que no fora 
nada de agradvel. Bastava olhar para a cara de Maddy. Esperou que o produtor sasse e ento fitou-a com um olhar pleno de interrogaes. Vejo que ele sabia. No 
tens de me contar nada se no quiseres. Maddy olhou longa e profundamente para Greg e acenou com a cabea afirmativamente.
No posso prov-lo. E no podemos falar nisso. Todos os implicados o negaro.
Acho que o melhor  no tocar em nada, Maddy.  uma batata muito quente, grande de mais para ns, em minha opinio. Se falssemos, podes ter a certeza de que toda 
a gente envolvida lavaria as mos.  um caso a ser tratado pelos grandes. Impressionou-o aperceber-se de que Jack Hunter era agora considerado um deles. Chegara-lhe 
aos ouvidos que Jack se tornara imprescindvel ao presidente. Era bvio que participava nos grandes concilibulos.
Disse que me punha na rua se eu tocasse no assunto. Mostrava-se menos impressionada do que Greg imaginaria. No me interessa nada, odeio mentir ao pblico.
s vezes tem de ser disse Greg, cauteloso, embora eu tambm no goste. Mas, desta vez, os grandes senhores penduravam-nos pelos ps.
O Jack disse que eu ia para a cadeia, ou qualquer amabilidade semelhante.
Ele no est a ficar um bocado desaparafusado? Greg sorriu de esguelha, e Maddy riu-se mesmo contra sua vontade; nesse momento, recordou a forma como o marido lhe 
agarrara o brao e a abanara. Nunca o vira to enraivecido, nem to assustado.  que aquilo era uma coisa em grande.
Escreveram o seu texto para a emisso dessa tarde, e o produtor reviu-o minuciosamente. E, meia hora mais tarde, foi-lhes devolvido com alguns cortes. A notcia 
do desastre areo era to suave quanto possvel, e os poderes dos andares
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superiores, ordenaram que eles ilustrassem o acontecimento com vdeos
Tem cuidado, Mad sussurrou-lhe Greg quando se sentaram no estdio,  espera de ir para o ar, depois do incio da contagem decrescente. E ela limitou-se a um aceno 
de cabea afirmativo. Greg sabia at que ponto a colega era uma lutadora, e uma pessoa honesta, bem capaz de se atirar como um camicase para a zona de perigo, expondo 
a verdade acima de tudo. Todavia, estava certo de que desta vez no o faria
Ela leu a pea sobre a exploso do Voo 263 e quase se lhe embargou a voz, triste e pesarosa ao mencionar as pessoas a bordo e o nmero de crianas. E o vdeo que 
passaram acentuou ainda mais a tragdia. Tinham acabado de transmitir as ltimas imagens de um vdeo amador que algum de Long Island obtivera da exploso. Maddy 
estava prestes a finalizar a emisso quando Greg a viu pousar as mos na secretria e desviar os olhos do teleponto. Ficou apavorado.
Maddy, no. murmurou. Via no monitor que a sua prpria imagem no estava a ser focada, mas ela sim. Olhava a direito para a cmara que tinha em frente, a direito 
para as caras, coraes e lares do povo americano
Correm muitos boatos acerca da exploso de hoje comeou, cautelosa, alguns deles muito perturbadores. Greg viu o produtor levantar-se por trs da cmara, com o pnico 
estampado no rosto Mas no mudaram para a publicidade. Disse-se que a FAA foi avisada com antecedncia de que "um qualquer" voo de longo curso com partida do Kennedy 
poderia transportar uma bomba, "num qualquer dia" desta semana. Mas no h provas que apoiem tal boato. De momento, apenas sabemos que quatrocentas e doze vidas 
se perderam, e conclumos que, se a FAA tivesse sido prevenida, teria partilhado a informao com o pblico. Aproximava-se da linha limite, mas no a atravessou, 
e Greg suspendeu a respirao e observou-a, enquanto ela prosseguia: Todos ns aqui na WBT apresentamos as nossas condolncias aos amigos e familiares dos que pereceram 
no Voo Duzentos e Sessenta e Trs.  uma tragdia descomunal. Boa noite. Convosco, Maddy Hunter. Passaram ento  publicidade.
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Greg estava plido quando Maddy se sentou, carrancuda, e retirou o microfone.
Gaita, apavoraste-me. Pensei que ias explodir tudo. Estiveste perto, no estiveste? Ela aflorara uma interrogao, mas deixara-a sem resposta. E podia t-la dado.
Disse o que podia... O que no era muito, ambos o sabiam. E, ao levantar-se, agora fora do alcance da cmara, viu o produtor  entrada da porta a falar com o marido. 
Jack veio ao seu encontro e parou junto dela.
Aproximaste-te muito do limite, no foi, Maddy? Estvamos prontos a cortar-te a qualquer momento. No parecia muito contente, mas j no estava encolerizado. Ela 
no o trara, e poderia t-lo feito. Ou pelo menos poderia ter tentado, embora eles no a tivessem deixado adiantar-se muito.
Sei que estavam retorquiu ela friamente, com uns olhos que ao fit-lo pareciam pedras azuis brilhantes. Algo de terrvel acontecera entre eles nessa tarde e Maddy 
nunca o esqueceria. Ests satisfeito? perguntou num tom to gelado quanto o seu olhar.
Salvaste a tua pele, no a minha. Falava baixo para que ningum mais pudesse ouvi-los. O produtor j se fora embora e Greg voltara para o seu gabinete. A visada, 
aqui, eras tu.
O pblico foi aldrabado.
Teria perdido a cabea se todas as descolagens e aterragens do Kennedy tivessem sido canceladas durante trs dias.
Bem, estou contente por tal no ter acontecido. Tu no ests? Aposto que as pessoas do Voo Duzentos e Sessenta e Trs tambm ficaram contentes.  muito melhor matar 
pessoas do que irrit-las.
No desafies a sorte, Maddy advertiu-a ele, ameaador, e Maddy viu que o marido no estava a brincar. Sem dizer nada, passou por ele ao dirigir-se para o seu gabinete. 
Greg ia precisamente a sair quando ela entrou.
Tudo em ordem? sussurrou, sem saber muito bem se Jack estaria por perto; ficara no estdio a falar com o produtor.
Nem por isso. No sei como estou. Nauseada, sobretudo. 
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Eu vendi-me, Greg. Combateu as lgrimas. Odiava-se a si prpria.
No tinhas escolha. Esquece. Era demasiado, no podias meter-te nisso. Como est ele? Referia-se ao marido. Chateado? No devia estar. Deste-lhe uma prenda e sem 
a menor dvida safaste a FAA e, com ela, toda a gente.
Acho que o assustei observou ela, sorrindo por entre lgrimas.
No te rales com ele. A mim, assustaste-me  brava. Pensei que ia ter de te pr o meu casaco por cima da cara para te calar, antes que algum te matasse. Podiam 
t-lo feito, bem sabes. Diriam que sofreras um ataque de loucura, que andavas instvel h meses, sob cuidados psiquitricos, esquizofrnica, que tinham tentado tudo 
o que era possvel. Ainda bem que no fizeste nada de realmente estpido. Maddy ia comear a falar precisamente quando Jack entrou no gabinete.
Pega nas tuas coisas. Vamo-nos embora. Nem se deu ao trabalho de cumprimentar Greg. Estava satisfeito com os ndices de audincia de Greg, mas nunca gostara dele 
e nunca fingira que gostava. Dirigia-se agora a Maddy como se esta fosse uma criada, apenas algum que recebe ordens sem dizer uma palavra. No sabia bem como, mas 
apercebia-se de que a partir desse dia as coisas seriam diferentes entre eles. Cada um se sentia trado pelo outro.
Jack seguiu-a at ao elevador, desceram em silncio e s no carro ele voltou a falar-lhe.
Estiveste muito perto de pr fim  tua carreira, hoje. Espero que o saibas.
Tu e os teus amigos mataram quatrocentas e doze pessoas. Mal consigo imaginar o que isso deve custar. Em comparao, a minha carreira no significa muito.
Agrada-me que penses assim. Andas a brincar com o fogo. Foi-te dito que te limitasses a ler o teu texto.
Pensei que a morte de mais de quatrocentas pessoas mereceria um pequeno comentrio. No disse nada a que possas pr objeces.
Instalou-se de novo o silncio, que durou at casa. A, ele olhou-a com desdm, como que a recordar-lhe a sua insignificncia.
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Faz as tuas malas, Mad. Partimos amanh.
Para onde? perguntou ela, desinteressada.
Europa. Como sempre, no dera pormenores e no a consultara.
No vou. Foi firme na resposta, determinada desta vez a fazer-lhe frente.
No te perguntei nada. Informei-te. Ests fora da emisso por duas semanas. Quero que te acalmes e te lembres de quais as regras antes de voltares a ir para o ar. 
A Elizabeth Watts substitui-te. Pode faz-lo em permanncia, se o preferires. No eram palavras vs. Elizabeth Watts era a apresentadora cujo lugar Maddy ocupara 
ao ingressar na estao. Continuava a substituir Maddy durante as frias dela. Fazia parte do seu contrato, embora ainda fosse amargo para si ter sido destituda 
para dar lugar a Maddy.
No me ralo com isso, Jack replicou Maddy friamente. Se queres despedir-me, despede. Palavras corajosas, embora estremecesse de terror ao observ-lo. De certa forma, 
apesar de nunca a ter violentado fisicamente, sempre a assustara. O poder que exsudava por todos os poros no se dirigia s aos outros, mas tambm a ela.
Se eu te despedir, vais lavar pratos para qualquer stio. Era melhor pensares nisso antes de abrires a boca. E sim, vais comigo. Vamos para o Sul de Frana, Paris 
e Londres. E se no arrumares as tuas coisas, arrumo-as eu. Quero-te fora do pas. No vais emitir comentrios, dar entrevistas, ou fazer editoriais de qualquer 
espcie. Agora, ests oficialmente de frias.
A ideia foi do presidente ou tua?
Minha. Eu dirijo o espectculo, aqui. Tu trabalhas para mim. s casada comigo. s propriedade minha. A intensidade com que falou cortou a respirao a Maddy.
Tu no s meu dono, Jack. Eu posso trabalhar para ti e ser casada contigo, mas no s meu dono. Calma, firme, mas assustada. J em criana odiava confrontos e conflitos.
Ento, fao eu as malas ou fazes tu? indagou ele, sem mais comentrios.
Maddy hesitou um longo momento, depois, atravessou o quarto, foi at  sala de vestir e pegou numa mala. Havia lgrimas
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nos seus olhos ao faz-lo e chorava abertamente ao atirar para dentro dele fatos de banho, cales, T-shirts e sapatos. S conseguia pensar que as coisas nunca mudavam 
muito. Bobby Joe podia t-la empurrado pelas escadas abaixo, mas Jack fizera um belo trabalho naquele dia, apesar de praticamente nem lhe ter tocado. O que se passava 
com os homens daquele gnero? O que os levara a pensar que possuam as mulheres? Era culpa dos homens que escolhera, ou a culpa seria sua? No conseguia discernir. 
Dobrou quatro vestidos de linho e meteu na mala trs pares de sapatos de salto alto. Vinte minutos mais tarde terminara e foi tomar um duche. Jack estava na casa 
de banho dele, tambm a guardar as coisas de toilette.
A que horas partimos amanh? perguntou-lhe quando voltou a v-lo no quarto.
Samos daqui s sete da manh. Apanhamos o avio para Paris. Foi tudo o que ela soube da viagem, mas na realidade pouco lhe importava. Ele decidira, ela submetera-se. 
Apesar das suas palavras corajosas, s provara a ambos que era de facto pertena dele.
Acho que h uma vantagem em ter um avio particular comentou, ao entrarem na cama.
Qual? perguntou pensando que ela dizia aquilo apenas para meter conversa.
Pelo menos sabemos que no transporta uma bomba  um ponto positivo. Deitada a seu lado, virou-lhe as costas. Jack no ripostou, apagou a luz e, por uma vez, no 
lhe tocou.
CAPTULO 7
Chegaram a Paris s dez da noite; esperava-os um carro. Uma bela e clida noite. Seguiram para o Ritz onde entraram s onze horas. A Place Vendme estava profusamente 
iluminada, e o porteiro reconheceu-os imediatamente. Mas, a despeito da beleza do cenrio, Maddy no via nele nada de romntico. Pela primeira vez em anos, tinha 
a impresso de estar prisioneira. Jack ultrapassara os limites. E ao segui-lo na recepo, sentia-se vazia e entorpecida.
Habitualmente, adorava visitar Paris com o marido, mas no dessa vez. Mais no havia entre eles do que gelo e mgoa. Pela primeira vez em anos, teve a sensao doentia 
de estar a ser agredida e, embora ele no lhe tivesse batido, era como se o houvesse feito. Existia em Jack uma faceta com que nunca se confrontara e agora perguntava 
a si prpria com que frequncia e de quantas maneiras algo de semelhante acontecera. Nunca antes se permitira pensar no assunto, mas hoje os seus sentimentos no 
diferiam do que tivera em Knoxville com Bobby Joe. O pano de fundo era mais imaginativo, mas apercebia-se de que ela era a mesma pessoa. Cara na ratoeira, como 
anteriormente. Enquanto as malas eram trazidas para o hotel, as palavras de Jack na noite anterior ecoavam aos seus ouvidos: "s propriedade minha."
A suite no Ritz era to bonita como de costume. Tinha vista para a Place Vendme, uma sala de estar, um quarto e duas casas de banho. A decorao era em cetim amarelo-plido. 
E o hotel enchera trs jarras com rosas amarelas. Maddy t-la-ia adorado se no estivesse to magoada com Jack.
H alguma razo especial para estarmos aqui? interrogou-o, desanimada; o marido encheu para si uma taa de champanhe e ofereceu-lhe uma a ela.  apenas para me manter 
longe das cmaras ou h alguma razo mais forte? Achei que precisvamos de frias. A resposta foi simples, e toda a fria do dia anterior parecia ter-se desvanecido. 
Maddy aceitou a taa de cristal; nem sequer lhe apetecia 
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beber, mas precisava de qualquer coisa que a entorpecesse. Sei quanto gostas de Paris e pensei que seria divertido para ns.
Depois de todas as tuas palavras dos ltimos dois dias como podes dizer tal coisa? A perspectiva de algo ser "divertido para ambos" era absurda.
Nessa altura, tratava-se de negcios. Agora, no retorquiu ele calmamente Intrometeste-te numa coisa que era um assunto de segurana nacional e que no te dizia 
respeito. Maddy, eu estava a tentar proteger-te
Lrias! Sorveu um gole de champanhe. No estava ainda pronta para lhe perdoar as suas ameaas, as suas palavras, ou o ter-lhe dito que era propriedade sua. Mas tambm 
no queria discusses. Estava exausta e deprimida
Porque no atiramos tudo para trs das costas e nos limitamos a usufruir de Paris? Ambos precisvamos de frias.
Quanto a ela, do que precisava era de uma lobotomia, ou talvez de um marido novo. Nunca se sentira trada por ele em todos os seus anos de casados. Como iriam, ou 
no, recompor-se? Eu amo-te, Mad Aproximou-se dela e passou-lhe sensualmente os dedos pelo brao que na vspera abanara. Ela recordava ainda a sensao e sabia que 
essa lembrana iria permanecer
No sei o que dizer-te. Falava-lhe com sinceridade. Estou zangada e ferida e talvez mesmo com um pouco de medo de ti. Causara-me nuseas tudo o que aconteceu.
Era sempre escrupulosamente sincera com ele, muito mais do que ele com ela.
 por isso que estamos aqui, Mad Para esquecermos os nossos empregos, o nosso trabalho, os nossos problemas, as nossas diferenas de opinio. Viemos aqui. Aconchegou-se 
a ela e pousou a taa na mesa Lus XV Viemos aqui para ser amantes. Mas a mulher no se sentia nada amante. Tudo o que queria era esconder-se e lamber as suas feridas, 
ficar algum tempo s at perceber os seus prprios sentimentos. Ele porm no lho permitiria. Beijava-a, comeou a abrir-lhe o fecho do vestido e, antes que Maddy 
pudesse impedi-lo, tirara-lhe o suti
Jack, no. Preciso de algum tempo.. No posso.
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Podes, sim. Calou-a com um beijo, quase a sufocando; ento, a sua boca procurou-lhe os seios, e o vestido desapareceu levando consigo a roupa interior, enquanto 
ele a deitava no cho, beijando-a e acariciando-a. E a sua lngua era to potente e eficaz que Maddy tentou reunir todas as suas foras para lhe resistir, mas viu 
que no conseguia. E para seu grande desgosto, passado um momento j no quereria que ele parasse. Foi ali que ele a possuiu, no cho, abraados, atingiram um clmax 
to rpido e to intenso como ela jamais esperara. Pertencia-lhe de novo, pensou, ainda deitada e sem flego, agarrada a ele e interrogando-se sobre como acontecera 
e porqu.
Bem,  uma maneira como outra qualquer de comear umas frias comentou, sentindo-se idiota. Haviam feito amor por pura sensualidade e fora to forte como uma vaga 
que a submergisse, mas no houvera no acto nada de amor. Se alguma coisa existira, fora a prova repetida de que era propriedade dele. Sentia-se porm impotente para 
combater esse facto. No sei como aconteceu disse, olhando-o, nu, deitado a seu lado no cho.
Posso demonstrar-te, se quiseres. Talvez mais um pouco de champanhe ajudasse. Apoiou-se num cotovelo e sorriu-lhe. Maddy no estava agora certa de o odiar ou no, 
mas de uma coisa, quanto a Jack, no restavam dvidas, era fatalmente belo, e ela nunca fora capaz de lhe resistir. Ele no lhe permitia escolher.
Triste, soergueu-se para o olhar quando ele lhe deu outra taa de champanhe. Na realidade no lhe apetecia, mas pegou nela e bebeu-a.
Ontem, detestei-te. Foi a primeira vez que senti dio por ti confessou, e Jack pareceu embaraado
Eu sei,  um jogo muito perigoso. Espero que tenhas aprendido a lio. Uma advertncia velada.
E qual  a lio que eu devo ter aprendido?
A de no meteres o nariz onde no s chamada. Ocupa-te apenas daquilo que sabes, Mad. Tudo o que tens a fazer  ler as notcias. No te compete julg-las.
 assim que funciona. Sentiu-se levemente bria e Por uma vez no se importou
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 assim que deve funcionar. O teu papel consiste em apresentares-te bonita e ler o teu texto no teleponto. Deixa que algum se preocupe com o que l est escrito.
Parece muito simples. Por entre risadinhas, reprimiu um soluo. Era como se tivesse sido no apenas rebaixada, mas diminuda na sua qualidade de pessoa. E fora-o.
 simples, Mad. E  simples entre ns. Eu amo-te. s a minha mulher. No  bom para ns zangarmo-nos, ou para ti desafiares-me daquela forma. Quero que me prometas 
que nunca mais o fars.
No posso, Jack respondeu ela honestamente. No queria mentir-lhe, por muito que detestasse conflitos. Ontem, foi um caso de tica profissional, de mbito moral. 
Sou responsvel perante as pessoas que me ouvem.
s responsvel perante mim replicou ele num tom melfluo, e por um instante a mulher sentiu-se outra vez assustada, embora sem saber bem porqu. No havia agora 
nele nada de ameaador; de facto acariciava-a de novo e de um modo muito persuasivo. Eu disse-te o que quero... Quero que me prometas que vais ser uma linda menina... 
A sua lngua percorria-lhe as partes mais sensveis do corpo, enquanto ia dizendo coisas que a deixavam confusa.
Eu sou uma linda menina, no sou? Ria-se, descontrolada.
No, no s, Mad... Ontem foste uma menina feia, muito feia, e se voltares a fazer o mesmo tenho de te castigar... Talvez deva castigar-te agora... Provocava-a, 
mas no se mostrando odioso, apenas sedutor. No quero castigar-te, Mad... Quero dar-te prazer. E dava, talvez at de mais. No teve foras para o obrigar a parar; 
estava demasiado cansada e confusa, e o champanhe entontecia-a. Excepcionalmente, no a incomodou sentir-se embriagada. Ajudava.
Tu ds-me prazer articulou em voz rouca, esquecendo momentaneamente a que ponto estivera furiosa com ele. Mas isso fora antes, e agora era agora, e estavam em Paris. 
Difcil de recordar... a sua fria anterior, como se sentira trada e amedrontada. E quando tentava recordar-se, descobriu que no lhe era possvel porque ele recomeara 
a fazer amor e o corpo dela estava em brasa. 94
Vais ser uma linda menina? Zombava dela e torturava-a com prazer. Prometes?
Prometo respondeu Maddy quase sem flego.
Promete outra vez, Mad. Era um mestre naquilo que estava a fazer, tendo tido longos anos de prtica. Promete-me outra vez..
Prometo... prometo., prometo.. Serei boa, juro. Tudo o que agora queria era agradar-lhe e, muito no ntimo, sentia que se odiava por isso. Vendera-se-lhe uma vez 
mais, entregara-se-lhe uma vez mais, mas ele era uma fora demasiado poderosa para conseguir resistir-lhe.
A quem pertences, Mad.. Quem te ama. Eu sou o teu dono.. Eu amo-te Repete, Maddy.
Eu amo-te. tu s o meu dono... Jack entrava e saa dela e, quando Maddy falou, comeou a fazer amor com tanta energia que a magoou. Soltou um pequeno grito de dor 
e tentou afastar-se, mas ele manteve-a fortemente pregada ao cho e continuou a penetr-la enquanto ela gemia, dorida; nada o fazia parar, cada vez o seu movimento 
de vaivm era mais intenso. Tentou dizer-lhe alguma coisa e ele esmagou-lhe a boca com a sua, enquanto continuava, to energicamente quanto lhe era possvel, at 
atingir o orgasmo com um intenso estremeo, ao mesmo tempo que se deixava cair e lhe mordia o mamilo at o pr a sangrar. Maddy estava to entorpecida que nem gritou. 
No entendia bem o que acontecera. Estava zangado, ou amava-a de verdade? Castigava-a, ou desejava-a tanto que nem percebia que a magoava? J no entendia se o que 
sentia por ele era amor ou desejo ou averso
Magoei-te. Mostrava-se inocente e preocupado Oh, meu Deus, Mad, ests a sangrar. Desculpa-me. Escorria uma gota de sangue pelo seu seio esquerdo cujo mamilo ele 
mordera, e Maddy tinha a impresso de as suas entranhas terem sido agredidas E tinham sido. Talvez ele quisesse dizer o que dissera e a tivesse castigado, mas os 
seus olhos transpiravam amor quando tirou o guardanapo molhado que envolvia a garrafa de champanhe e lho colocou sobre o mamilo. Perdoa-me, querida. Desejava-te 
tanto. Fiquei louco!
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No tem importncia. Ainda se sentia confusa e mais do que ligeiramente tonta. Ele ajudou-a a levantar-se, deixaram as roupas no cho e foram para o quarto. Tudo 
o que apetecia a Maddy era ir para a cama. Nem foras teve para tomar um duche E sabia que, sem ajuda, poderia ter desmaiado
Jack deitou-a com toda a gentileza e ela sorriu-lhe, enquanto via o quarto girar  sua volta
Amo-te, Maddy. Fitava-a e ela tentou concentrar-se em olhar para ele, mas o quarto girava muito depressa
Eu tambm te amo, Jack. As palavras saam indistintas, e passado um momento dormia, Jack contemplava-a. Apagou a luz, voltou  sala de estar, serviu-se de um usque. 
Bebeu-o puro enquanto olhava a Place Vendme, contente consigo prprio. A lio fora dada. Ela aprendera
CAPTULO 8
Jack levou Maddy a jantar ao Taillevent,  Tour d'Argent, ao Chez Laurent e ao Lucas Carton. Jantavam todas as noites em lugares elegantes e almoavam na margem 
esquerda em pequenos cafs. Faziam compras e iam a antiqurios e a galerias de arte. E comprou-lhe uma pulseira de esmeraldas no Carrier. Dir-se-ia uma segunda lua-de-mel, 
e Maddy lamentava ter-se embriagado na primeira noite, da qual tinha ainda recordaes muito estranhas, algumas muito sexy, outras coloridas com uma aura de algo 
sinistro, assustador e triste. Depois disso, passou a beber muito pouco. No precisava de beber. Com Jack a inund-la de atenes e presentes, havia uma sensao 
de embriaguez constante. O marido fazia tudo o que podia para a seduzir. E na altura em que partiram para o Sul de Frana, estava de novo completamente dominada 
pelo fascnio dele. Era um perito nesse jogo.
Alojaram-se no Hotel du Cap em Cap d'Antibes, numa fabulosa suite sobre o oceano. Tinham uma cabana privativa onde passavam os dias, suficientemente isolada para 
que pudessem fazer amor, e ele no a poupava. Mostrava-se mais apaixonado e mais amoroso do que nunca. Por vezes, Maddy sentia-se estonteada. Era como se tudo o 
que anteriormente experimentara, a raiva, o ultraje, a traio, fossem uma espcie de iluso, e aquilo, a nica realidade que conhecia. Ficaram l cinco dias; Maddy 
detestou partir e ir para Londres. Tinham alugado um barco e ido a Saint-Tropez, feito compras em Cannes e jantado em juan ls Pins e, quando  noite voltaram para 
o Hotel du Cap, ele levou-a a danar. Tudo era calmo, feliz, romntico. E nunca o marido fizera com tanta frequncia amor com ela. Mal podia sentar-se, quando partiram 
para Londres.
Londres foi mais uma viagem de negcios, mas mesmo assim Jack esforou-se por andar com ela. Levou-a s comPras e a jantar ao Bar Harry's. Foram danar ao Annabel's, 
comprou-lhe no Graffs um anel com uma esmeralda pequena para condizer com a pulseira que lhe oferecera em Paris.
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Porque  que ests a estragar-me com tantos mimos perguntou ela, a rir, quando saam do Graffs para a New Bond Street
Porque te amo e s a minha apresentadora preferida
Ah, So subornos para substituir um aumento? Estava bem-disposta, mas apesar de tudo confusa. Ele andava to encantador e precisamente antes da viagem fora to cruel
Deve ser isso. Fui mandado vir pelo inspector para te seduzir replicou Jack fingindo-se austero, e ela riu-se. Queria am-lo, e queria que ele a amasse
Deves querer qualquer coisa, Jack brincou E queria. Queria o corpo dela dia e noite. Maddy comeava a sentir-se uma mquina de sexo e, uma vez ou duas, quando faziam 
amor, ele lembrou-lhe que era o seu "dono". O termo no agradava a Maddy, mas diz-lo parecia excit-lo, pelo que optou por no lhe fazer qualquer reparo. Se significava 
assim tanto para ele, que o dissesse, embora de vez em quando perguntasse a si prpria se o marido acreditava no que dizia. Ele no era dono dela. Amavam-se E era 
seu marido. Comeo a sentir-me uma Lady Chatterley comentou, a rir, quando ele lhe arrancou uma vez mais as roupas no momento em que regressavam ao quarto do hotel. 
Que vitaminas andas a tomar. Talvez tomes demasiadas
No h nada como o sexo, Maddy  bom para ns. Gosto de fazer amor contigo quando estamos de frias. Mas tambm no se abstinha quando estavam em casa. Parecia ter 
um apetite insacivel por Maddy E a maior parte das vezes isso agradava-lhe, excepto quando era bruto com ela, ou a agarrava  fora, como fizera em Paris
Voltou a faz-lo na ltima noite que passaram no Claridge's. Tinham estado a danar no Annabel's e, mal entraram na suite e fecharam a porta, empurrou-a com fora 
contra a parede, baixou-lhe as calas e quase a violou. Maddy tentou faz-lo esperar, ou ir para o quarto com ela, mas ele pressionou-a de encontro  parede e no 
parava, arrastou-a para a casa de banho e possuiu-a no cho de mrmore, enquanto ela lhe suplicava que parasse. Estava de novo a mago-la, mas a sua excitao era 
tal que nem a ouviu. Depois, desculpou-se e colocou-a delicadamente na banheira cheia de gua quente
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No sei o que me fazes, Mad. A culpa  toda tua. Esfregou-lhe as costas e passado um momento meteu-se na gua com ela. Maddy olhou-o desconfiada, receosa de que 
ele voltasse a quer-la, mas desta vez quando comeou a acarici-la foi o mais meigo possvel. A vida com Jack era um constante carrossel de prazer e dor, terror 
e paixo, gentileza infinita misturada com uma pitada de algo aterradoramente brutal e cruel. Seria difcil explicar a quem quer que fosse, e a explicao embaraosa 
para ela. s vezes obrigava-a a fazer coisas que a deixavam perturbada. Mas garantia-lhe que no havia nisso nada de mal, eram casados e ele amava-a, e quando a 
magoava alegava sempre que ela o punha louco, que a culpa era dela. Lisonjeiro, sim, mas apesar de tudo s vezes muito doloroso. E Maddy vivia continuamente confusa.
Quando por fim regressaram a casa, as duas semanas mais pareciam ter sido um ms de frias. H muito que Maddy no se sentia to chegada ao marido. Fora estranho 
e divertido. Durante duas semanas toda a ateno de Jack se concentrara nela. No a deixava sozinha um minuto, mimara-a de todas as formas possveis, fizera amor 
com ela tantas vezes que Maddy j nem conseguia ter a mnima noo do que haviam feito.
Na noite em que voltaram para casa em Georgetown, era para Maddy como se tivessem estado em lua-de-mel, e Jack beijou-a ao segui-la no corredor. Trouxe para cima 
as bagagens de ambos, alm da mala de viagem que ela adquirira para meter as coisas que comprara em Londres e Paris. Enquanto Jack descia a buscar o correio, a mulher 
ps-se a ouvir as mensagens telefnicas e foi com surpresa que escutou quatro mensagens do seu companheiro de trabalho, Greg Morris. Pela voz, parecia-lhe srio. 
Olhou o relgio. Era tarde de mais para lhe telefonar.
No havia nada de interessante no correio e, depois de comerem qualquer coisa ambos, tomaram um duche, foram Para a cama e levantaram-se cedo na manh seguinte.
Conversaram a caminho do trabalho, separaram-se na recepo e Maddy subiu para o seu gabinete. Estava ansiosa Por falar a Greg na viagem e foi com surpresa que no 
o viu no gabinete. Entrou no dela e leu todas as mensagens e correspondncia 
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Como de costume, havia um monte de cartas de fs. s dez horas, ainda no vira Greg, o que a preocupou. Perguntou  sua secretria se ele estava doente, e Debbie 
olhou-a, obviamente embaraada:
Eu bom... ele.. Aposto que ningum lhe contou nada disse finalmente.
Ningum me contou o qu? Maddy denotava pnico. Aconteceu-lhe alguma coisa? Talvez tivesse sofrido um acidente e ningum tivesse querido preocup-la durante a sua 
ausncia.
Ele foi-se embora explicou a secretria abruptamente.
Para onde? Maddy no percebia o que ela queria dizer.
J no trabalha c, Mistress Hunter. Pensei que algum lhe tivesse dito. O seu novo colaborador comea na segunda-feira. Acho que est sozinha. O Greg foi-se embora 
no dia seguinte  sua partida para frias.
Ele o qu? No acreditava no que ouvia. Discutiu com algum e abandonou o emprego?
No sei pormenores. Mentia, mas no queria ser ela a contar-lhe. E nem terminara a frase j Maddy se precipitava para o gabinete do produtor.
O que diabo aconteceu ao Greg? perguntou, quando aquele olhou para ela
Rafe Thompson era um homem alto, de aspecto cansado, que parecia carregar s costas o peso do mundo, e s vezes carregava
Foi-se embora respondeu sumariamente.
Eu sei isso. Para onde? E quando? E porqu. Quero respostas a estas perguntas. Os olhos de Maddy chispavam
O formato da emisso foi alterado. Ele no se enquadrava no novo formato. Creio que agora est na seco desportiva da NBC. No sei pormenores
Uma ova! A Debbie disse-me o mesmo. Quem sabe os pormenores? Mas j conhecia a resposta  sua pergunta e no esperou um minuto para se precipitar para o gabinete 
de Jack. Entrou directamente, sem se fazer anunciar, e encarou-o. 
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Este acabara de pousar o telefone e tinha a secretria cheia de papis, o preo a pagar por umas frias de duas semanas. Despediste o Greg? disparou ela sem prembulos; 
o marido ficou um longo momento a fit-la, aps o que respondeu calmamente:
Tomei uma deciso do foro executivo.
O que quer isso dizer? E porque no me contaste na Europa? Sentia-se lograda.
No quis apoquentar-te, Mad. Achei que merecias umas verdadeiras frias.
Tinha o direito de saber que despediras o meu colaborador. Estavam explicadas as quatro mensagens no gravador e o tom de voz de Greg. Apercebia-se agora de que era 
o tom de uma pessoa magoada, o que no era de estranhar. Porque o despediste? Ele  formidvel. E os nveis de audincia tambm eram.
No somos dessa opinio. Ele no  to bom como tu, querida. Precisvamos de algum mais forte para te contrabalanar.
O que queres dizer com "mais forte"? No percebia o significado do que ouvia e preocupava-a a deciso e a forma como fora conduzida.
O Greg  demasiado brando, demasiado efeminado; tu consegues ofusc-lo e s muito mais profissional do que ele. Desculpa. Precisas de algum com um pouco mais de 
personalidade e muito mais experincia.
Ento, quem contrataste? Continuava aborrecida por causa de Greg, adorava trabalhar com ele, alm de que era o seu melhor amigo.
O Brad Newbury. No sei se te lembras dele. Costumava dar as notcias do Mdio Oriente na CNN.  estupendo. Penso que vais gostar imenso de trabalhar com ele. Jack 
falava com firmeza.
O Brad Newbury? Maddy estava estupefacta. Ele nem sequer de uma zona de guerra consegue atrair a Beno do pblico! De quem foi a ideia?
Foi uma deciso colectiva.  um profissional e um reprter com maturidade. Achamo-lo perfeito como contraponto para ti. Maddy odiava o estilo do homem, e nunca
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gostara dele. E nas poucas vezes em que se haviam encontrado mostrara-se arrogante e condescendente para com ela
E seco, enfadonho e... chato. No tem o mnimo carisma protestou, furiosa. Por amor de Deus, vai pr os espectadores a dormir. At o problema do Mdio Oriente transformou 
numa chatice, sem qualquer interesse.
 um jornalista muito experiente.
Tambm o Greg. As nossas audincias nunca tinham sido to elevadas.
As tuas audincias nunca tinham sido to elevadas, Mad As dele comeavam a baixar. No quis alarmar-te, mas ele ter-te-ia arrastado consigo para o fundo.
No percebo, e no sei porque no me contaste nada.
Porque no quis perturbar-te. Isto  negcio, Mad. O negcio do espectculo. Temos de manter os olhos bem abertos. Mas Maddy continuava deprimida quando regressou 
ao seu gabinete e telefonou a Greg.
No posso acreditar nesta histria, Greg. Ningum me disse nada. Julguei que estavas doente ou coisa no gnero quando no te vi c s dez horas. O que raio aconteceu 
depois da minha partida? Pisaste os calos a algum?
Que eu saiba, no. Continuava com uma voz desolada. Adorava trabalhar com ela e ambos sabiam que a emisso deles era um sucesso. Mas percebia melhor do que ela o 
que estava a acontecer. Na manh a seguir  tua partida, o Tom Helmsley, o produtor executivo, como sabes, chamou-me e disse que me deixavam ir embora, mais exactamente 
que me despediam Acrescentou que nos tnhamos tornado demasiado informais, demasiado chegados, que comevamos a lembrar uma actuao antiga do Abbott e Costello.
De onde raio partiu isso? Quando foi a ltima vez que brincmos durante a emisso?
No ultimamente, mas acho que a palavra-chave  chegados. Penso que algum sente que ramos demasiado pessoais, demasiado ntimos. Com mil diabos, Maddy, tu s A 
minha melhor amiga. Acho que h na tua vida algum que no gosta desse facto. No soletrou o nome, mas foi como se o fizesse.
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Referes-te ao Jack? Greg, isso  uma loucura. No acreditava em tal coisa. No havia razo alguma para o despedir e Jack nunca poria em jogo os nveis de audincia 
da emisso por razes pessoais. Mas no restavam dvidas de que Brad Newbury era uma estranha escolha. Talvez Greg achasse que Jack tinha cimes dele, mas Maddy 
no pensava assim.
Pode parecer-te loucura, Mad. Mas chama-se a isto... isolamento. Alguma vez te passou pela cabea? Quantas vezes te permite ele que te encontres com algum? Comigo 
no tinha opo, trabalhvamos juntos. Mas tratou do assunto, no tratou? Pensa nisso.
Porque quereria ele isolar-me? Estava confusa, e Greg perguntava-se at onde poderia avanar. H muito que se apercebera, mas ela obviamente no, e Greg achava que 
ela rejeitaria a ideia.
Ele quer isolar-te, Mad, porque quer controlar-te.  ele quem comanda a tua vida, toma todas as decises por ti, nunca te consulta acerca do programa. Nem sequer 
te disse que iam para a Europa seno na noite anterior. Trata-te como a uma boneca de trapos... Por amor de Deus! E quando no lhe agrada o que fazes diz-te que 
vieste de uma miservel lixeira e que sem ele voltarias para um parque de atrelados. Quantas vezes te disse que, sem ele, no serias nada? Tens conscincia da burrice 
que isso ? Sem ti, ele teria o noticirio com menos audincia de qualquer canal. Se alguma vez sasses da WBT, seria esmagado por qualquer estao noticiosa que 
tu quisesses. A que se assemelha tudo isto, Mad? A um marido amoroso ou a algo muito mais familiar? Maddy nunca se permitira encarar os factos por tal prisma, mas 
ao ouvi-lo ficou subitamente aterrorizada. E se ele pretendesse isol-la? De repente, recordou todas as vezes em que recentemente lhe dissera que era "dono" dela. 
Estremeceu ao pensar nisso.
Parece um comportamento abusivo, no ? respondeu, num tom quase inaudvel.
Agora, ests a abrir os olhos. E o que h mais? Queres dizer que nunca te fez recordar algo j conhecido?  verdade que no te corre ao pontap aos sbados  noite, 
mas no
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precisa de o fazer, controla-te de todas as formas e, quando te portas mal e no gosta do que fazes, arrasta-te para a Europa, tira-te do ar duas semanas e despede-me. 
Eu diria que ests casada com uma aberrao, um manaco do controlo. No quis dizer "um tipo que te maltrata", mas para ele o significado era idntico.
Talvez, Greg. Hesitava entre defender Jack e concordar com o seu colaborador. Este pintara-lhe um belo quadro, do qual ela no discordava. Contudo, no sabia o que 
fazer.
Desculpa-me, Maddy. Ela representava muito para ele, e h imenso tempo que detestava as coisas que Jack lhe fazia. E o que lhe partia o corao era ver que Maddy 
parecia no dar por nada. Mas Greg dava. E tinha a certeza de que tudo aquilo fazia parte da razo por que o tinham despedido. Era perigoso de mais t-lo perto de 
Maddy. O que ele anda a fazer-te  ofensivo.
Assim parece admitiu ela, tristemente. Mas no tenho a certeza. Talvez estejamos a exagerar, Greg. Ele no me bate. Percebia perfeitamente, s que no queria ver, 
nem ouvir. Era demasiado difcil de admitir.
Achas que ele te respeita?
Acho que me ama foi a sua resposta imediata, especialmente depois da recente viagem  Europa. Acho que quer o que  melhor para mim, mesmo que nem sempre proceda 
da maneira correcta. Greg discordava, e tudo o que pretendia era que ela pensasse e examinasse melhor a vida que levava com Jack. Creio que mesmo os homens que maltratam 
as mulheres as amam. Achas que o Bobby Joe te amava?;
No, no acho. No podia acreditar que Greg estava a comparar Jack a Bobby Joe. Era um pensamento pavoroso, que nem queria admitir. Uma coisa era pensar que Jack 
era dominador e possessivo, outra era ouvir Greg ir to longe. Tornava-lhe de novo real o horror dos maus tratos.
Bem, talvez o Bobby Joe no te amasse. Mas pensa nalgumas das coisas que o Jack te faz. Dispe de ti como de uma coisa, um objecto que comprou e pagou. A que ponto 
se deleita ao dizer-te que sem ele no serias nada? E quer que
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tu acredites nele. E o pior  que ela acreditava, e Greg sabia-o. Maddy, ele quer que tu penses que lhe pertences. A tais palavras, percorreu-lhe a espinha um arrepio 
gelado. Na Europa, Jack dissera-o.
O que te leva a essa concluso. Ele no me maltrata, e eu no lhe perteno.
Maddy, quero que faas uma coisa por mim. Pensou que ele ia pedir-lhe que falasse com Jack acerca da reintegrao no emprego e estava disposta a faz-lo, embora 
lhe parecesse que Jack no lhe daria ouvidos.
Fao o que quiseres prometeu.
Vou cobrar-te a promessa. Quero que entres para um grupo de mulheres sujeitas a maus tratos.
Que disparate! No preciso. Surpreendeu-a a sugesto.
Decidirs depois de l teres ido. No me parece que faas a mnima ideia do que est a acontecer-te, ou de quem est a provocar-to. Era exactamente o que ela tentara 
fazer por Janet McCutchins, mas essa estava coberta de equimoses e Maddy no. Acho que te abrir os olhos, Mad. Posso mesmo ir contigo.
Sim... talvez... se encontrares algum. E se algum me reconhecer?
Podes dizer que vieste para me apoiar. Maddy, a minha irm passou por isso. Tentou suicidar-se duas vezes antes de compreender o que estava a acontecer-lhe. Eu tambm 
fui com ela. Parecia uma reposio de Meia Luz e a minha irm tinha quatro filhos dele.
O que lhe aconteceu?
Divorciou-se e agora est casada com um homem formidvel, mas passou por trs anos de terapia. Achava que, pelo facto de ele no a espancar como o meu pai fazia 
 minha me, era um heri. Nem todas as formas de maus tratos deixam equimoses. Maddy sabia-o, mas parte dela ainda queria crer que o que o Jack fazia era diferente. 
No desejava sentir-se uma vtima, nem ver em Jack um agressor.
Ttulo original Gaslight, filme realizado por George Cukor em 1944, com Bergman e Charles Boyer. (N do T )
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Penso que s maluco, mas gosto muito de ti. O que vais fazer agora, Greg? Preocupava-se com ele e tentava no pensar nas suas palavras acerca de Jack. Eram demasiado 
ameaadoras para ela. J comeara de novo a convencer-se de que Jack no tentava control-la de uma forma abusiva. Greg estava aborrecido e confuso, dizia ela para 
consigo
Vou para as notcias de desporto na NBC. Fizeram-me uma oferta fabulosa e comeo daqui a duas semanas. J sabes quem tm para ti?
O Brady Newbury respondeu, abatida. Ia sentir a falta de Greg, mais do que podia dizer-lhe E talvez valesse a pena ir a um grupo de vtimas de maus tratos com ele, 
s para poderem estar juntos. Tinha a certeza de que Jack no ia deix-la dar-se com o amigo. Havia de arranjar maneira de afastar completamente Greg da sua vida, 
"para teu prprio bem", e tornar-lhe impossvel qualquer encontro. Conhecia o marido
O tipo da CNN? Greg nem acreditou ao ouvi-la mencionar o nome de Brad. Ests a brincar. Ele  horrvel
Penso que os nossos nveis de audincia vo cair a pique sem ti
No, no vo. Eles tm-te a ti. Vai correr tudo bem, mida Mas pensa no meu conselho.  tudo quanto eu quero que faas. Pensa nisso. Fazer o noticirio com Brad 
era o ltimo dos problemas dela
Vou pensar prometeu, mas sem grande convico E, durante o resto da manh, de cada vez que se lembrava de Greg ficava ansiosa. As coisas que ele lhe dissera haviam-na 
afectado e ia fazer tudo o que pudesse para as repudiar. Quando Jack dissera que lhe "pertencia", o que queria dizer era que a amava com paixo. Todavia, agora que 
pensava no assunto, at a forma de fazerem amor era estranha, em especial ultimamente. Magoara-a mais do que uma vez, e em Paris muito. O mamilo levara-lhe uma semana 
a sarar, e quando fizera amor com ela no cho de mrmore do Claridge's magoara-lhe as costas, o que ainda sentia. Mas no fora intencional, Jack apenas era insacivel 
e com grande apetncia sexual, e desejava-a. Alm disso, no gostava de fazer projectos
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At que ponto era uma atitude abusiva lev-la para Paris, instalarem-se no Ritz, mesmo sem qualquer pr-aviso? Comprara-lhe uma pulseira no Cartier, um anel no Graffs. 
Greg estava louco, provavelmente bastante magoado por ter sido despedido, o que era compreensvel. E a maior loucura era comparar Jack a Bobby Joe. No tinham absolutamente 
nada em comum e Jack salvara-a do outro. A nica coisa que no conseguia entender era a razo por que se sentia mal ao recapitular as coisas que Greg dissera. Deixara-a 
incrivelmente nervosa. S de pensar em maus tratos, ficava assim.
Ainda a perseguiam as palavras de Greg quando na segunda-feira foi  comisso da primeira-dama e se sentou ao lado de Bill Alexander. Este estava bronzeado e contou-lhe 
que voltara a visitar o filho em Vermont desde a ltima vez em que se haviam encontrado, e a filha em Marthas Vineyard, no fim-de-semana
Como vai o livro? perguntou-lhe ela baixinho, porque a reunio comeava
Devagar, mas bem. Sorriu-lhe, fitando-a com admirao. Maddy usava um camiseiro de algodo azul e calas de linho branco, com um aspecto estival e bonito.
A primeira-dama convidara uma oradora para lhes falar sobre o tema principal. Chamava-se Eugenia Flowers. Era psiquiatra, especializada em vtimas de maus tratos, 
e apoiava numerosas causas de mulheres. Maddy j ouvira mencionar o nome dela, mas nunca a conhecera. Do seu lugar, a Dra. Flowers conversou com cada uma. Atraente, 
calorosa, assemelhava-se a uma av, mas o seu olhar era penetrante e parecia saber exactamente o que dizer a cada pessoa. Fez perguntas a todos sobre o que pensavam 
ser um comportamento abusivo e a maioria respondeu o mesmo, que tinha a ver com violncia fsica, com pancada
Bem, isso  verdade concordou ela, amigvel. So comportamentos abusivos Enumerou ento vrios outros, alguns dos quais to perversos e obscuros que assustaram os 
presentes. E quanto a outras formas? O que acham que podem ser? Entre os que maltratam so muitas as diferenas. Por exemplo, controlar algum, cada um dos seus 
actos, dos seus movimentos, dos seus pensamentos. Destruir-lhe 
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a autoconfiana, isolando essa pessoa e assustando-a? Talvez apenas conduzir depressa de mais numa situao perigosa at a assustar? Ou amea-la. Desrespeit-la? 
Levarem os outros a acreditar que o branco  preto e o preto  branco, at os baralhar por completo, ou tirar-lhes dinheiro, ou dizer-lhes que sem eles no seriam 
nada, que lhes "pertencem"? Roubar-lhes a vontade prpria, ou for-los a opes que eles no querem, como ter bebs uns atrs dos outros, ou talvez impedi-los em 
absoluto de ter filhos? Algumas destas coisas se vos afiguram maus tratos? Pois bem, so de facto formas clssicas, e to dolorosas, to perigosas e letais, como 
as que deixam equimoses. Maddy mal conseguia respirar ao ouvi-la. Ficou plida de morte e Bill Alexander reparou mas no lhe disse nada
H muitas espcies de violncia contra as mulheres continuou a oradora, algumas bvias, todas elas perigosas. Umas mais insidiosas do que outras. As mais insidiosas 
so as subtis, porque as vtimas no s acreditam como se culpabilizam por elas Se o agressor for suficientemente esperto, seja homem ou mulher, pode usar todos 
estes tipos de violncia e convencer a sua vtima de que a culpa  toda dela. A vtima de um agressor pode ser levada ao suicdio, ao consumo de drogas, a depresses 
incapacitantes, ou at ao assassnio. Qualquer atitude abusiva  potencialmente fatal para a vtima Mas as formas mais subtis so as mais difceis de travar, porque 
 mais difcil dar por elas. E o pior de tudo  que, na maior parte das vezes, a vtima est to convencida de ser sua a culpa, que aceita mais, e espera que o agressor 
o faa, pois sente que lhe pertence e julga-se to culpada e to m e to intil que sabe que ele est correcto e que ela merece aquilo que tem. Acredita que sem 
ele no seria nada. Maddy sentia perder as foras ao escut-la: a oradora descrevia em pormenor o seu casamento com Jack. Jamais este levantara a mo contra ela, 
excepto quando lhe agarrara o brao, mas fizera tudo o que a psiquiatra descrevia. Apeteceu-lhe fugir da sala aos gritos. Em vez disso, ficou colada  cadeira, paralisada.
Eugenia Flowers continuou a falar durante meia hora, altura em que a primeira-dama deu incio  reunio para permitir
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perguntas. Na sua maior parte, tinham a ver com o que poderia ser feito para proteger essas mulheres no s dos agressores, mas tambm de si prprias, e qual o modo 
de pr um ponto final a tal estado de coisas.
Bem, primeiro tm de tomar conscincia do que se passa. Tm de se dispor a isso. Tal como as crianas vtimas de violncia, a maioria dessas mulheres protege os 
seus agressores, negando os factos e acusando-se a si prprias.  quase sempre muito penoso admitir o que est a acontecer-lhes, e torn-lo pblico. O que sentem 
 vergonha, porque acreditam em tudo o que o agressor lhes diz. Portanto, o primeiro passo  ajud-las a tornar-se conscientes; depois, a sair dessa situao, e 
isso tambm no  fcil. Tm as suas vidas, tm filhos, tm lares. -lhes pedido que saltem barreiras e fujam de um perigo que no vem nem tm a certeza de que 
seja um perigo real. O problema consiste em que  to real e to perigoso como se lhes fosse apontada uma arma, mas a maioria ignora-o. Algumas fazem-no, mas quase 
sempre esto to assustadas como as outras. E estou a falar de mulheres inteligentes, educadas, por vezes at profissionais competentes, que se julgaria serem mais 
informadas. Mas ningum est isento de ser vtima deste tipo de maus tratos. Pode acontecer a qualquer, e acontece, nos melhores empregos, nas melhores escolas, 
em camadas elevadas ou baixas da sociedade. s vezes, mulheres lindas, espertas, que ningum acreditaria capazes de cair numa dessas situaes. So por vezes os 
melhores alvos. As mulheres do povo so as menos aptas a aceitar, as que levam pancada. As outras so torturadas com maior subtileza. Este tipo de violncia no 
distingue cor, raa, classe social ou regras socioeconmicas. Toca a todos. Pode acontecer a qualquer de ns, especialmente se tivermos antecedentes que predisponham 
a tal.
"Por exemplo, uma mulher que em criana presenciou violncia domstica em casa, digamos, com um pai dominador, pode pensar que um homem que nunca a agride fisicamente 
 um tipo formidvel, embora ele possa ser dez vezes mais violento do que o seu pai, muito mais subtil e muito mais perigoso. Controla-a, isola-a, ameaa-a, aterroriza-a, 
insulta-a, amesquinha-a, humilha-a, desrespeita-a, recusa-lhe
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afecto ou dinheiro. Abandona-a, ou ameaa tirar-lhe os filhos, mas no deixa nela marcas fsicas; diz-lhe que  uma mulher de sorte e, o que  pior, ela acredita 
nisso. E ningum poder met-lo na cadeia, porque, quando se acusa o safado por aquilo que lhe fez, ele dir que a mulher  louca, estpida, desonesta, psicopata, 
e mentir no que a si diz respeito. E mais uma vez ela, provavelmente, acreditar nele. Essas mulheres tm de ser lentamente afastadas da relao e., postas em segurana. 
Mas vo combater-vos de todas as formas, defend-los com unhas e dentes e abrir os olhos muito devagar.
Maddy estava  beira das lgrimas antes do fim da reunio, e mal foi capaz de manter uma calma aparente at ao momento de se ir embora; tremiam-lhe os joelhos quando 
finalmente se levantou. Bill Alexander olhou-a, interrogando-se sobre se o calor estaria a incomod-la. Vira-a empalidecer meia hora antes e estava quase verde quando 
o tempo da reunio se esgotou.
Quer um copo de gua? perguntou-lhe, gentil. Foi uma reunio interessante, no foi? Embora eu no saiba l muito bem como se deve ajudar mulheres em situaes daquelas, 
excepto talvez educ-las e apoi-las. Maddy voltou a sentar-se, acenando-lhe afirmativamente. Comeava a ver a sala a girar; felizmente, ningum mais notara que 
no se sentia bem.
Continuava sentada,  espera dele, quando a oradora convidada se aproximou.
Sou uma grande admiradora sua, Mistress Hunter disse, sorrindo a Maddy, a qual, incapaz de se pr em p, lhe retribuiu com dificuldade o sorriso. Vejo o seu programa 
todas as noites.  a nossa nica maneira de saber o que se passa no mundo. Apreciei muito em especial o seu editorial sobre a Janet McCutchins.
Muito obrigada articulou Maddy com a boca seca, precisamente no momento em que Bill apareceu com um copo de papel cheio de gua, sem poder deixar de imaginar que 
talvez ela estivesse grvida. A oradora observou-a a beber um gole e o seu olhar ao fit-la intensamente era gentil e caloroso. Maddy levantou-se quando acabou de 
beber, e no
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admitiria perante ningum quanto as pernas lhe vacilavam. Comeava a pensar em como iria conseguir sair e apanhar um txi, e Bill Alexander deu mostras de pressentir 
a sua angstia.
Precisa de boleia para qualquer stio? perguntou-lhe, cavalheiresco e, sem pensar, Maddy assentiu com a cabea.
Tenho de voltar para a estao televisiva. Nem sequer tinha a certeza de poder ir para o ar; por momentos, imaginou se seria de alguma coisa que comera. Mas agora 
percebia melhor. Era de algum com quem se casara.
Gostaria de me encontrar consigo um dia disse a Dra. Flowers quando Maddy se despedia dela e da primeira-dama. Entregou um carto a Maddy, que lhe agradeceu e saiu, 
guardando o carto no bolso do camiseiro. A acrescer ao que Greg lhe dissera, tinha sido uma dose dupla e no sabia bem se tudo aquilo era real ou um pesadelo. Fosse 
o que fosse, atingira-a como um comboio de mercadorias. E o seu aspecto reflectia-o, ao descer no elevador com Bill, que estacionara o carro  porta. Seguiu-o em 
silncio.
Bill abriu-lhe a porta e Maddy entrou; um momento depois sentou-se ele ao volante e olhou-a com preocupao. Tinha um aspecto horrvel.
Sente-se bem? Pensei que ia desmaiar l dentro. Maddy acenou afirmativamente e por um instante no disse nada. Pensou em mentir-lhe, em dizer-lhe que estava engripada, 
mas no foi capaz. Sentia-se totalmente perdida e absolutamente s, como se tudo aquilo em que confiara e acreditara, e em que quisera acreditar, lhe tivesse sido 
arrancado, deixando-a rf. Nunca se sentira to apavorada nem to vulnervel como naquele momento. Comearam a deslizar-lhe lgrimas pelo rosto; Bill estendeu um 
brao e tocou-lhe no ombro. E sem que fosse essa a sua vontade, Maddy rompeu em soluos a que no conseguia pr fim.
 muito perturbante ouvir coisas daquelas comentou ele com gentileza e instintivamente passou-lhe a mo pelo ombro e amparou-a. No sabia o que mais fazer, mas fora 
esse o gesto dos outros quando estava destroado por causa da esposa, e o que usara para com os filhos na mesma situao.
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Limitou-se a ampar-la enquanto ela chorava at os soluos se extinguirem e Maddy erguer para ele o olhar. O que leu nos seus olhos foi puro terror. Eu estou aqui, 
Maddy. No vai acontecer-lhe nada de mau. Est tudo bem consigo, agora. Mas ela abanou a cabea e recomeou a chorar. Nada estava bem, no estava bem h anos, e 
talvez nunca viesse a estar. Apercebia-se inesperadamente do perigo que correra, de como fora humilhada e isolada de quem quer que tivesse visto isso ou tivesse 
podido ajud-la. Jack eliminara, sistematicamente, todos os seus amigos, at mesmo Greg, e ela era a sua presa solitria, desprotegida. De repente, tudo o que lhe 
fizera e dissera ao longo dos anos, inclusive recentemente, ganhou um novo e odioso significado. O que posso fazer para a ajudar perguntou-lhe Bill, enquanto ela 
se abraava a ele e chorava, como nunca fora capaz com nenhum homem na sua vida, a comear pelo pai.
O meu marido faz todas as coisas que aquela psiquiatra referiu hoje. Algum me disse exactamente o mesmo h uns dias, e eu acho que nunca dei por isso. Mas quando 
ela comeou a falar no assunto, eu vi... Ele isolou-me completamente e violentou-me durante os ltimos sete anos, e eu achava-o um heri porque nunca me bateu. Sentou-se, 
encostou-se ao assento e fitou Bill, chocada e descrente. Bill demonstrava uma grande perplexidade.
Tem a certeza?
Absoluta. At abusara dela sexualmente, apercebera-se agora. No era bruto por acaso, ou em consequncia da sua paixo por ela. Tratava-se de uma outra forma de 
a rebaixar e controlar. Era um modo aparentemente aceitvel de a magoar, e praticara-o durante anos. Incrvel, agora, nunca ter percebido. No posso comear a enumerar 
as coisas que ele me fez. Parece-me que no lhe escapou uma nica. Tremiam-lhe os lbios. O que vou eu fazer agora? Ele diz que sem ele no serei nada. s vezes 
chama-me "miservel lixo branco", e diz que sem ele volto a correr para um parque de atrelados. Exactamente o que Eugenia Flowers descrevera, Bill olhou-a, estarrecido.
O seu marido est a brincar?! Voc  o maior nome dos noticirios em todo o pas. Poderia arranjar trabalho em
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qualquer stio. A nica possibilidade que tem de voltar a ver um parque de atrelados,  se comprar algum. Ela riu-se da piada e ficou um longo momento a olhar pela 
janela. Era como se a sua casa acabasse de arder e no tivesse a mnima ideia sobre para onde ir viver. Nem sequer podia imaginar-se a voltar para casa, para junto 
de Jack, ou encar-lo, tendo visto como vira a imagem ntida do que ele lhe fizera. Mas ainda lhe custava a acreditar. Disse para si prpria que talvez no tivesse 
sido com inteno, que talvez estivesse errada.
No sei o que fazer. Falava com calma. Ou o que dizer-lhe. S quero perguntar-lhe porque age assim.
Talvez no seja capaz de agir de outra maneira, mas isso no  desculpa para a humilhar. Em que poderei eu ajud-la? Sentia-se to perdido como ela.
Tenho de pensar no que vou fazer respondeu, pensativa, enquanto Bill girava a chave na ignio, aps o que de novo olhou para ela.
Quer parar pelo caminho para tomar um caf? Era tudo o que lhe ocorria para a acalmar.
Gostava. Fora um autntico amigo para ela, e estava-lhe grata. Transmitia-lhe calor humano e sinceridade; sentada a seu lado, sentia-se a salvo. E sentira-se a salvo 
e em paz quando ele a enlaara. Sabia instintivamente que era um homem que nunca a magoaria. E ao pensar em Jack, notou a diferena. Havia sempre no marido um ngulo, 
uma aresta, dizia sempre coisas que a acabrunhavam e a levavam a sentir-se inferior quilo que era, como se lhe prestassem um favor enorme. Bill Alexander agia como 
se estivesse grato pela oportunidade de a ajudar e Maddy compreendeu, com justeza, que podia ser sincera com ele.
Pararam num pequeno caf. Maddy continuava plida quando se sentaram a uma mesa de canto. Bill pediu ch, ela um capuchino.
Desculpe-me. No era minha inteno envolv-lo nos meus dramas pessoais. No sei o que me aconteceu. O que a senhora disse deixou-me de rastos.
Talvez fosse esse o objectivo. O destino a empurr-la Para l. Maddy, o que vai fazer agora? No pode continuar a viver com um homem que a maltrata. Ouviu-a,  como 
ter
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uma arma apontada  cabea. Pode no o ver ainda muito claramente, mas corre um risco grave.
Acho que comeo a perceber isso Mas no posso ir-me embora assim sem mais nem menos.
Porque no? A ele, parecia fcil. Precisava de se ir embora, para que Jack no pudesse mago-la nunca mais. Era claro para Bill, mesmo que no o fosse para Maddy.
Devo-lhe toda a minha carreira, e o que possuo. Ele fez de mim aquilo que sou. Trabalho para ele. E para onde ia? O que faria? Se o deixar, tenho de deixar tambm 
o meu emprego. No saberia para onde ir, ou o que fazer. Alm disso... Encheram-se-lhe de novo os olhos de lgrimas. Ele ama-me.
No tenho tanto a certeza como voc retorquiu Bill com firmeza. Ameaar algum como a doutora Flowers nos descreveu no  amar. Acha mesmo que ele a ama?
No sei. Subjugavam-na emoes conflituosas de terror e remorso. Sentia-se culpada pelo que pensava e dizia do marido. Se estivesse errada? Se, no caso de Jack, 
fosse diferente?
Acho que est com medo e uma vez mais se recusa a crer. E quanto a si, Maddy, voc ama-o?
Julgava que sim. O meu anterior marido partiu-me os dois braos e uma perna vrias vezes. Torturou-me, atirou-me pelas escadas abaixo. Uma vez encostou-me um cigarro 
aceso s costas. Ainda tinha a cicatriz, embora pouco visvel. E o Jack salvou-me dele. Levou-me para Washington numa limusina e deu-me um emprego, uma vida. Como 
posso eu virar-lhe as costas?
Porque no  um indivduo correcto, segundo voc disse.  apenas mais subtil, mesmo bvio perante si, do que o seu primeiro marido, mas voc ouviu a doutora Flowers' 
 igualmente letal. E no estava a fazer-lhe um favor quando se casou consigo. Voc  a melhor coisa que alguma vez lhe aconteceu e uma pea de peso no seu negcio. 
No  um filantropo,  um homem de negcios, e sabe exactamente o cho que pisa. Voc ouviu a doutora. Ele controla-a.
E se eu me for embora?
Substitui-a na emisso por outra pessoa e vai torturar
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outra pessoa qualquer. Voc no pode cur-lo, Maddy. Tem de se salvar a si prpria. Se ele quiser modificar-se, pode tratar-se. Mas primeiro voc tem de se ir embora, 
antes que ele encontre outra maneira de a magoar, ou voc fique demasiado desmoralizada para partir. Viu isso agora. Sabe o que est a acontecer. Tem de se salvar, 
sem pensar em mais ningum. Est a pr em risco a sua vida e o seu bem-estar. Pode no ter equimoses desta vez. Mas se ele faz tudo o que voc diz, no se arrisque 
a perder um minuto. Afaste-se dele.
Ele mata-me se eu o deixar. A ltima vez que lho dissera fora h nove anos, mas tomou conscincia subitamente de que continuava a ser verdade. Jack investira muito 
nela, e no ia aceitar de boa mente que ela o abandonasse ou desaparecesse.
Voc tem de ir para qualquer lugar seguro. Tem famlia? Maddy negou, abanando a cabea. Os pais haviam morrido h anos e perdera o contacto com os seus familiares 
em Chattanooga. Podia ficar com Greg, mas seria provavelmente o primeiro stio onde Jack a procuraria, e depois acusaria Greg da partida dela; e Maddy no queria 
pr o amigo em perigo. E no tinha outros verdadeiros amigos, Jack tratara de que assim fosse. Parecia ridculo que algum to conhecido como ela fosse para um estabelecimento 
de abrigo. Talvez, porm, a tal fosse obrigada. E que tal ficar com a minha filha e a famlia dela em Martha's Vineyard? Ela anda pela sua idade e h l espao para 
si. E os midos so adorveis. Estas palavras recordaram-lhe o procedimento de Jack e, antes dele, o de Billy Joe. Fizera seis abortos quando estava casada com Billy, 
os dois primeiros porque ele dissera no estar preparado para ter filhos e os outros porque ela no quisera filhos dele, ou pr no mundo uma criana para viver uma 
vida igual  sua. Quanto a Jack, insistira em que ela laqueasse as trompas quando se casaram. Os dois haviam determinado que ela nunca tivesse filhos. Ambos a tinham 
convencido de que era o melhor para si e ela acreditara neles. De repente, no se sentia apenas destruda, mas incrivelmente estpida por lhes ter dado ouvidos. 
Ambos lhe tinham roubado a oportunidade de ser me.
No sei o que pensar, Bill, ou para onde ir. Preciso de algum tempo.
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Talvex no se possa permitir. Rememorava tudo o que a Dra. Flowers dissera. Se estava certa, Maddy tinha de agir muito depressa. No podia esperar mais. No me parece 
que deva levar muito tempo a decidir-se. Se o seu marido procurar ajuda, se as coisas mudarem, se resolver os seus problemas, pode sempre voltar atrs.
E se ele no mo permitir?
Ento, quer dizer que no mudou e no tem interesse por si. Era exactamente o que teria dito  filha, queria fazer tudo o que pudesse para a proteger e ajudar, e 
Maddy estava-lhe grata por isso. Quero que voc pense e aja rapidamente. Ele tambm pode aperceber-se de que as coisas mudaram e que voc est mais consciente. Se 
assim for, sentir-se- em perigo e tudo se tornar pior para si. Voc no se encontra numa situao muito cmoda. Era verdade, e ela tinha conscincia disso. Olhou 
o relgio de pulso, viu que tinha de estar na maquilhagem dentro de dez minutos e disse a Bill, cheia de pena, que precisava de voltar para o trabalho.
Saram do caf, entraram no carro e ele levou-a  estao televisiva. Mas antes de a deixar fitou-a, preocupado.
Vou ficar raladssimo consigo, at a ver fazer qualquer coisa. Prometa-me que no vai tentar ignorar tudo. Se acordou, agora tem de fazer algo de construtivo.
Prometo. Sorriu-lhe, mas no tinha ainda a mnima ideia de como proceder.
Telefono-lhe amanh e quero que haja progressos. Ou ento sou eu prprio quem a rapta e a leva para a minha filha. 
Isso parece-me bem, de momento. Como posso agradecer-lhe? Estava-lhe grata, fora como um pai para ela, sentia-o um amigo. Confiava totalmente nele, nem por um momento 
lhe passando pela cabea que pudesse divulgar o que ela lhe confidenciara.
A nica forma de me agradecer, Maddy,  agir. Conto que o faa. E estou aqui, se precisar de mim. Escreveu o seu nmero de telefone num pedao de papel, ela guardou-o 
na mala, agradeceu-lhe uma vez mais, beijou-o na face e entrou a correr no edifcio.
Ia ser o seu primeiro dia no ar com Brad Newbury e tinha
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de mudar de roupa, pentear-se e ser maquilhada. Sentado ao volante, Bill viu-a desaparecer, angustiado por tudo o que ela lhe contara. Era difcil imaginar que uma 
mulher daquelas pudesse ser intimidada por algum, ou imagin-la sem amigos, sem emprego, e de regresso a um parque de atrelados se alguma vez deixasse o marido. 
Nada estava mais longe da verdade, s que Maddy ignorava-o. Era a prova evidente de tudo quanto Eugenia Flowers dissera sobre maus tratos de ordem psquica, e isso 
espantava-o. Quando ps o carro em marcha, Maddy encaminhava-se para a sala de maquilhagem.
Encontrou l Brad Newbury e ficou a olh-lo enquanto o penteavam e maquilhavam. Parecia-lhe incrivelmente pretensioso; ainda no podia crer que Jack o contratara 
para trabalhar com ela. Mas o homem fez um esforo por lhe ser agradvel enquanto conversavam e a via pentear-se. Dissera-lhe que era um prazer trabalhar com ela, 
mas agia como se estivesse a fazer-lhe um favor. Delicadamente, Maddy replicou que aguardava, impaciente, o momento. Sentiu ainda mais a falta de Greg e deu por 
si a pensar nele e depois, quando voltou ao escritrio para se vestir, em Bill Alexander. Quanto a Jack, no fazia a mnima ideia do que fazer. No tinha porm tempo 
para pensar nisso. Estaria no ar dentro de menos de trs minutos, apenas o suficiente para descontrair a respirao antes que comeasse a contagem decrescente.
Mas a emisso teve incio, apresentou Brad e seguiram em frente. Brad tinha um estilo seco, formal, mas, ao trabalharem em conjunto, Maddy teve de reconhecer que 
o homem era inteligente e culto, mas com um estilo to diferente do dela que pareciam totalmente dessincronizados e particularmente contrastantes. Ela era calorosa 
e com uma presena cativante, ele indiferente e distante. No existia minimamente a harmonia e a desenvoltura que partilhara com Greg. O que iriam dizer os nveis 
de audincia, pensava.
Andaram por ali um bocado a trocar umas palavras at voltarem para o ar, ele desta vez um pouco mais afvel, mas no o suficiente para impressionar fosse quem fosse. 
A emisso afigurou-se-lhe inspida e o produtor estava de sobrolho franzido quando ela saiu do estdio. Recebera a mensagem de que Jack tinha reunies at tarde 
nessa noite e lhe deixava
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o carro. Afinal, decidiu-se por caminhar uns quarteires e, depois apanhar um txi. A noite estava quente e ainda havia luminosidade na rua, mas Maddy teve a curiosa 
sensao de que algum a observava. Pensou que estava paranica. Fora um dia to enervante que a sua imaginao galopava. E tambm talvez por causa de Jack. Comeava 
a pr em causa a concluso a que chegara e sentia-se desleal para com ele por ter dito o que dissera a Bill. Talvez Jack no fosse nada daquilo de que o acusara, 
havendo milhentas explicaes para o seu comportamento.
Ao sair do txi, viu dois polcias parados perto da sua casa, e um carro sem identificao do outro lado da rua. O que poderia ter sucedido? A caminho de casa, parou 
e perguntou-lhes.
Estamos s a vigiar o local. Sorriram, e ela seguiu em frente. Mas duas horas mais tarde viu que ainda l se encontravam e mencionou o facto a Jack quando ele chegou, 
 meia-noite.
Tambm vi. Ao que parece, um dos vizinhos tem um problema qualquer de segurana. Disseram que iam ficar algum tempo e que no me preocupasse com isso. Talvez o juiz 
do supremo, que mora na rua, tenha recebido alguma ameaa de morte. Seja pelo que for, o local fica muito mais seguro para todos ns. Ento, ralhou-lhe por no ter 
vindo com o motorista mas sim de txi. Disse-lhe que queria que ela se servisse do carro e do motorista deles sempre que sasse.
No  muito importante. Apeteceu-me andar a p contraps Maddy, subitamente pouco  vontade. Se o marido era aquilo que imaginava, ela nem sabia o que dizer-lhe. 
E de novo se sentiu culpada. Era to amvel da parte dele... a histria do carro!
Como correram as coisas com o Brad esta noite? perguntou Jack ao deitar-se. E inesperadamente, Maddy quase estremeceu, s de pensar que ele iria fazer amor com ela. 
Tudo o que sabia era que no queria.
Inspido, acho eu. Ele  bom, mas no muito excitante  vista. Vi a gravao das cinco horas, faltava vida  emisso.
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Ento, d-lhe alguma. De um modo brusco, atirava-lhe com a responsabilidade para cima. E Maddy deu por si a fit-lo como se de um estranho se tratasse. Nem sequer 
sabia como abord-lo, onde estava a verdade. Era ele um agressor, ou fazia-o unicamente para ter o controlo das coisas, e orientava-lhe a vida por se preocupar com 
ela. O que fizera exactamente de assim to mau? Dar-lhe uma carreira fabulosa, ou uma casa encantadora, ou um carro com motorista para ir para o trabalho, roupas 
lindas, jias formidveis, viagens  Europa, e um avio particular que podia usar para ir s compras a Nova Iorque sempre que lhe apetecesse. Estava maluca, ou ento 
porque o imaginara como um agressor? Dizia precisamente para consigo que tudo no passava de imaginao sua, sentindo-se desleal apenas por ter tido aqueles pensamentos, 
quando Jack apagou a luz e se virou devagar para ela com uma estranha expresso. Sorriu-lhe e com a mo tocou-lhe gentilmente no seio; ento, antes que ela pudesse 
impedi-lo, agarrou-a com tanta fora que lhe cortou a respirao e Maddy pediu-lhe que parasse.
Porqu? perguntou, num tom em que havia crueldade; depois, riu-se Porqu, boneca. Diz-me porqu? No me amas?
Amo-te, mas ests a magoar-me. Havia lgrimas nos seus olhos ao diz-lo. Jack arrancou-lhe a camisa de noite deixando-a totalmente nua; depois, afundou a cabea 
entre as pernas dela levando-a a gemer de excitao. Era o mesmo jogo que praticara com ela anteriormente, um alternar de dor e prazer. No quero fazer amor hoje 
balbuciou Maddy, mas ele no lhe deu ouvidos. Agarrou-lhe uma mancheia de cabelos e puxou-lhe impetuosamente a cabea para trs; beijou-lhe o pescoo to sensualmente 
que todo o corpo dela tremeu, penetrou ento nela com tanta fora que dava a impresso de querer dilacerar-lhe as entranhas. Era tanta a sua brutalidade que Maddy 
gritou e, quando o arranhou para o fazer parar, o marido retomou uma atitude delicada e ela ficou nos seus braos a chorar de desespero enquanto ele atingia o clmax 
e estremecia violentamente dentro dela.
Amo-te, querida murmurou, enquanto Maddy se interrogava sobre o significado da palavra para ele, ou sobre
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o modo de lhe escapar. Havia algo de violento e assustador na forma de se amarem. Era uma forma subtil de a aterrorizar que ela h muito conhecia e nunca reconhecera. 
Agora, porm, estava consciente: o que mais sentia no amor que ele lhe tinha era perigo. Amo-te repetiu Jack, desta vez numa voz ensonada.
Tambm eu te amo sussurrou ela, enquanto lgrimas se lhe desprendiam dos olhos. O pior de tudo  que de facto o amava..
CAPTULO 9
Quando no dia seguinte sara para o trabalho, ainda tinham dois polcias ao p de casa e a segurana parecia mais apertada do que o habitual quando chegaram  estao. 
Pediam a identificao a toda a gente e ela teve de passar trs vezes pelo detector de metais at admitirem que o alarme que disparava era devido  sua pulseira 
e a mais nada.
O que se passa? perguntou a Jack.
Apenas rotina, acho eu. Algum deve ter-se queixado de que estvamos a ficar desleixados. Maddy no pensou mais no caso e subiu ao encontro de Brad. Tinham combinado 
passar algum tempo juntos a preparar a emisso. Os seus estilos eram to diferentes que Maddy pedira alguns ensaios para se adaptarem melhor um ao outro. Um noticirio 
era mais do que apenas ler um teleponto, contrariamente ao que Jack dizia.
A seguir, telefonou a Greg para lhe relatar a reunio com a Dra. Flowers, mas ele no estava. Decidiu sair para ir buscar uma sanduche. A tarde estava fantstica, 
uma brisa atenuava o calor tpico dos Veres de Washington. E uma vez mais, quando saiu, teve a sensao de estar a ser seguida. Voltou-se, olhou em redor, no notou 
nada de suspeito. Tudo o que viu foram dois homens que deambulavam atrs dela, a rir e a conversar. E mal regressou ao gabinete, Bill telefonou-lhe.
Queria saber como estava e se tomara alguma deciso.
No sei confessou ela. Talvez eu esteja errada. Talvez ele seja apenas difcil. Devo parecer-lhe maluca. Mas amo-o e sei que ele me ama.
Voc  quem melhor pode julgar, mas, depois de ouvir ontem a doutora Flowers, no posso deixar de pensar que se encontra num processo de rejeio. Talvez devesse 
telefonar-lhe, pedir-lhe uma opinio.
Ela deu-me um carto e eu estou a pensar nisso.
Telefone-lhe.
Telefono. Juro. Agradeceu-lhe uma vez mais pela
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vspera e prometeu ligar-lhe no dia seguinte, s para o tranquilizar. Era um homem encantador, e agradecia sinceramente a sua amizade e preocupao. Durante o resto 
da tarde, trabalhou nas peas em curso do dia-a-dia e no noticirio das cinco. Brad foi um pouco mais cordial, mas no muito. Irritava-a a sua inaptido. O que dizia 
era inteligente, mas exprimia-o como um principiante. Nunca antes fora apresentador de um noticirio e, a despeito da sua inteligncia, faltava-lhe em absoluto encanto 
ou carisma ou estilo
O facto ainda a aborrecia quando saiu do trabalho. Jack ia a uma reunio na Casa Branca. Disse-lhe que fosse no carro e fechasse bem as portas de casa, o que lhe 
pareceu idiota. Nunca as deixava abertas E com polcias estacionados to perto, a segurana era maior do que jamais fora. Estava uma noite to boa que mandou o motorista 
parar antes de casa e fez a p os ltimos quarteires. Cara j o crepsculo, e sentia-se mais feliz e mais descontrada do que na vspera. Pensava em Jack. Quando 
dobrava a ltima esquina, de algures surgiu uma mo e, antes que ela pudesse afastar-se, algum a agarrou e a puxou para os arbustos. Nunca fora agarrada com tanta 
fora. No conseguia ver-lhe a cara quando ele a segurou e lhe puxou os braos para trs das costas. Comeou a gritar mas o homem tapou-lhe a boca com a mo, lutou 
como uma leoa, pontapeou-o com fora nas canelas, enquanto tentava equilibrar-se no outro p E continuou a debater-se, cada vez mais assustada. Tanto lutaram que 
se desequilibraram e caram, num instante, o homem estava em cima dela a puxar pelo seu camiseiro, tentando arranc-lo com uma mo enquanto com a outra se esforava 
por lhe baixar as calas. Mas precisava das duas mos para fazer o que queria, o que deixou de novo livre a boca de Maddy que gritou o mais alto que pde. De sbito 
ouviu gente a correr por perto. Precisamente quando ele lhe baixava as calas e comeava a desapertar as suas, algum o arrancou de cima dela, com tanta violncia 
que o homem quase voou pelos ares. Maddy ficou uns momentos deitada no cho, ofegante
No mesmo instante, havia polcias por toda a parte, e luzes, e algum a ajudou a levantar-se enquanto ela compunha!
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as roupas e retomava a respirao normal. Tinha o cabelo em desalinho e as costas do camiseiro imundas, mas estava ilesa, e a tremer. Um dos polcias amparou-a.
Est bem Mistress Hunter?
Estou, julgo. Meteram o atacante numa furgoneta e toda ela tremia ao observ-los. O que aconteceu?
Apanhmo-lo. Eu tinha a certeza de que o apanharamos. Era s uma questo de tempo, at ele dar um passo em falso.  um malandro doentio, mas vai voltar para a priso 
pelo que fez. No podamos actuar at ele a agarrar.
Tm andado a espi-lo? Parecia estarrecida; pensara tratar-se de um atacante ocasional.
Desde que ele comeou a mandar-lhe cartas.
Cartas? Que cartas?
Uma por dia durante mais ou menos toda a semana passada, julgo. O seu marido falou com o tenente. Ela abanou a cabea no querendo parecer to estpida como se sentia. 
Porque no lhe falara Jack no assunto? O mnimo que podia ter feito era avis-la. Ento, lembrou-se das coisas que ele dissera, como servir-se do carro e fechar 
as portas quando estivesse em casa. Mas no lhe explicara porqu, razo pela qual se sentira perfeitamente segura ao fazer a p os ltimos quarteires at casa, 
direita aos braos de um violador.
Ainda estava abalada quando Jack chegou  noite, j conhecedor do que se passara. A polcia telefonara-lhe para a Casa Branca para o informar de que o assaltante 
fora capturado.
Ests bem? perguntou-lhe, com um ar inquieto. At abandonara a reunio um pouco mais cedo, persuadido pelo presidente, o qual ficara preocupado com o telefonema 
da polcia e aliviado por Maddy no ter sido molestada.
Porque no me disseste? Maddy estava plida ao fazer a pergunta ao marido.
No quis alarmar-te.
No te parece que eu tinha o direito de saber? Vim a p at casa ontem  noite e foi por isso que ele me apanhou.
Disse-te que viesses no carro. Mostrava-se simultaneamente irritado e apreensivo.
Eu no sabia que andava a ser perseguida, por amor de Deus! Jack, eu no sou uma criana. Devias ter-me contado.
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No vi razo para isso. Aqui, a polcia vigiava-te, e no trabalho apertaram a segurana. Isso explicava a sensao que tivera nos ltimos dias de estar a ser seguida 
Estivera, de facto.
No quero que tomes por mim todas as minhas decises.
Porque no? No eras capaz de as tomar, se eu te deixasse. Precisas de ser protegida.
Aprecio muito os teus cuidados. Tentava mostrar-se grata, mas sentia-se sufocada. Sou uma mulher adulta, tenho o direito de decidir e de optar. Preciso de amigos 
E mesmo que no gostes das decises que eu possa tomar, tenho o direito de as tomar.
No, se forem erradas. Porque haverias de sobrecarregar-te com isso. Nos ltimos nove anos tenho sido eu a tomar todas as tuas decises. O que  que mudou.
Talvez eu tenha crescido. O que no significa que no te ame.
Tambm eu te amo e  por isso que te protejo, para no cometeres patetices. Jack no iria, em absoluto, admitir que ela tinha o direito e pelo menos alguma independncia. 
Maddy tentava cham-lo  razo, provar-lhe que o que temia no era real, mas ele mostrava-se inabalvel quanto a renunciar a um pouquinho que fosse do seu controlo 
sobre ela, at sobre a sua vida pessoal. s uma rapariga linda, Mad, mas  tudo o que s, querida. Deixa-me pensar por ti. Tudo o que tens a fazer  ler as notcias 
e apresentar-te bonita
Eu no sou uma mentecapta, Jack. Foi zangada que o disse e ainda estava abalada pelo que lhe acontecera nessa tarde. Sou capaz de fazer mais do que pentear-me e 
ler as notcias. Por amor de Deus! At que ponto achas que sou estpida?
Pergunta complicada respondeu ele sorrindo-lhe ironicamente; pela primeira vez na vida, apeteceu a Maddy dar-lhe uma bofetada.
Isso  insultuoso.
 a verdade. Recordo-te, Mad, que nunca frequentaste a faculdade. Nem sei se terminaste o liceu. Era o rebaixamento
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mximo, insinuar que ela era demasiado estpida e ignorante para poder pensar. Disse-o para a humilhar, mas dessa vez apenas conseguiu enfurec-la. J antes lhe 
dissera coisas semelhantes e ela nunca lhe pagara na mesma moeda.
Isso no te impediu de me contratares, pois no? Ou de obter os melhores nveis de audincia?
Eu disse-te As pessoas reagem a caras bonitas. E agora vamos para a cama?
O que quer isso dizer? Que ests cheio de desejo e a sentir-te de novo apaixonado? J fui molestada uma vez esta tarde.
Cuidado, Maddy Deu um passo na direco da mulher e esta viu a fria nos seus olhos. Tremia, mas no recuou um milmetro. Estava cansada de ser ofendida, fosse qual 
fosse o nome que ele desse ao facto Mas a paixo j no a convencia. Ests a passar dos limites sibilou-lhe na cara
Tambm tu, quando me magoas.
Eu no te magoo. s tu que o queres, e adoras que eu o faa.
Eu amo-te, mas no gosto da maneira como me tratas
Com quem andaste a falar? Aquele pretinho punk com quem trabalhaste. Sabes que ele  bissexual, ou isto constitui uma surpresa para ti. Tentava humilhar Greg e choc-la, 
mas em vez disso ultrajou-a ainda mais.
Sim, de facto eu sabia E no tenho nada com isso, nem tu. Foi por isso que o despediste.
Despedi-o porque era uma pssima influncia para ti. Corriam boatos a vosso respeito. Poupei-te ao embarao de os abordar contigo e pu-lo na rua, que  o lugar dele
Que coisa nojenta. Sabes que nunca te enganei.
Tu o dizes. Mas, para o que desse e viesse, achei por bem afastar a tentao.
Foi por isso que contrataste aquela mmia pretensiosa que nem  capaz de ler as notcias? Usa um teleponto do tamanho de um cartaz de cinema. E vai mandar os teus 
nveis de audincia pela sanita abaixo.
Se forem, menina, vais com eles. Por isso, o melhor que tens a esperar  que ele ponha alguma animao no seu
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desempenho. Tinhas mais juzo se o apoiasses, como fizeste com o teu amiguinho preto. Porque se as audincias derraparem, pode bem ser que fiques sem emprego e vs 
para casa esfregar soalhos, porque no h mais nada que saibas fazer, pois no? Dizia-lhe coisas repelentes e toda a sua pretenso de fazer amor com ela ia por gua 
abaixo. Ao ouvi-lo, o que lhe apetecia era bater-lhe.
Porque procedes assim, Jack? Tinha lgrimas nos olhos, mas isso no parecia incomod-lo. Deu uns passos em frente, agarrou-lhe um punhado de cabelo e puxou-a, para 
que lhe prestasse ateno.
Procedo assim, beb-choro, porque precisas de te lembrar quem manda aqui. D a impresso de o teres esquecido. No quero ouvir nunca mais as tuas ameaas, ou as 
tuas exigncias. Eu te direi o que quero, quando o quero, se o quero. E se te ocultar qualquer coisa, no  da tua conta. Tudo o que tens a fazer  o teu trabalho, 
ler as notcias, de vez em quando dar uma informao especial, e  noite ir para a cama e no te pores com lamrias a respeito de estar a magoar-te. Nem sequer sabes 
o que  ser magoada e reza para que nunca venhas a sab-lo. Tens sorte por eu me dar ao trabalho de fornicar contigo.
s repugnante. Sentia nuseas: o marido no a respeitava minimamente, e decerto no a amava. Quis dizer-lhe que se ia embora, mas teve medo. E a polcia desaparecera, 
agora que tinham apanhado o assaltante. De sbito, teve medo de Jack, e soube que ele se apercebera disso.
Estou farto de te ouvir, Mad. Agora vai para a cama, e fica l. E eu dir-te-ei o que quero fazer. Maddy permaneceu um longo momento de p  sua frente, a tremer; 
pensou em recusar-se a ir para a cama com ele, mas achou que seria pior se o fizesse. O que em tempos fora um estilo algo rude de fazer amor tornara-se incrivelmente 
violento desde que ela o desafiara com a pea sobre Janet McCutchins. Estava a castig-la.
Subiu as escadas e meteu-se na cama sem pronunciar uma palavra, rezando para que ele no tencionasse fazer amor. E por milagre, quando por fim foi deitar-se, Jack 
virou-lhe as costas sem lhe falar... e nada fez. Maddy ficou tremendamente aliviada.
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CAPTULO 10
No dia seguinte, Maddy no foi para o trabalho com Jack. Ele precisava de sair cedo e a mulher disse que tinha umas chamadas a fazer antes de ir trabalhar. Jack 
no perguntou nada. No foi feita qualquer aluso  noite anterior; o marido no lhe pediu desculpa e Maddy no se referiu ao caso. Mal ele partiu, ligou para o 
gabinete de Eugenia Flowers e marcou uma entrevista. A psiquiatra concordou em receb-la no dia seguinte. Maddy ficou a pensar em como iria passar mais uma noite 
com Jack. Era agora claro para si que tinha de fazer qualquer coisa antes que ele a agredisse a valer. J no parecia ao marido suficiente rebaix-la, chamar-lhe 
"miservel lixo branco", comeava a atac-la abertamente, e ela comeava a pensar que tudo o que Jack sentia por ela era averso e desprezo.
Acabava de chegar ao escritrio quando Bill lhe telefonou:
Como vai isso?
No muito bem respondeu, sincera. As coisas parecem estar a tornar-se um pouco complicadas.
Vai piorar se voc no se afastar, Maddy. Ouviu o que a doutora Flowers disse.
Tenho uma marcao para ela amanh. E ento contou-lhe o que se passara com o assaltante. Sabia que a histria sairia no jornal da tarde e que teria de identificar 
o suspeito numa formao em linha.
Santo Deus, Maddy, ele podia t-la morto.
Tentou violar-me. Aparentemente, o Jack estava a par de tudo, mas nunca me contou. No me julga suficientemente esperta para tomar decises, por eu nunca ter frequentado 
a faculdade.
Voc  uma das mulheres mais brilhantes que eu conheo, Maddy. O que vai fazer?
- No sei. Estou assustada admitiu. Tenho medo das consequncias se me for embora.
Eu tenho medo das consequncias se no for. Ele pode mat-la.
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No faria isso. E se eu no arranjar outro emprego. Se eu voltar para Knoxvill. Estava apavorada. As ideias entrechocavam-se na sua cabea
Nada disso vai acontecer. Vai encontrar um emprego melhor. Knoxville acabou para si, Maddy Tem de se consciencializar disso
E se ele tem razo. Se eu sou estpida de mais para ser contratada por outra pessoa. O Jack est certo, eu nunca andei na faculdade. O marido induzira-a a achar-se 
uma fraude
E da, por amor de Deus. Ouvi-la frustrava-o. A mulher entravava qualquer ajuda. Voc  bonita, jovem e talentosa. Obteve os nveis mximos para a sua emisso. Maddy, 
mesmo se ele estivesse certo e voc tivesse de esfregar soalhos, o que no ser nunca o caso, ainda assim estaria melhor do que agora. Ele trata-a como lixo e pode 
vir a agredi-la
Nunca at hoje o fez. Mas no era inteiramente verdade. No a magoara to brutalmente como Bobby Joe, mas tinha uma cicatriz no mamilo que lhe mordera em Paris. 
A sua forma de violncia era apenas mais subtil e mais perversa do que a do seu anterior marido, mas de igual modo arrasadora psiquicamente
Penso que a doutora Flowers vai dizer-lhe o mesmo que eu lhe disse. Conversaram mais uns minutos e Bill convidou-a para almoar, mas ela tinha de ir ver a formao 
em linha  hora do almoo
E, quando mais tarde Greg lhe telefonou, repetiu-lhe as palavras de Bill
Ests a brincar com o fogo, Mad O sacana  louco  sua maneira e um dia destes apanha-te. No esperes que isso acontea. Pe-te a cavar depressa Mas, por qualquer 
razo, a dvida paralisava-a, era impossvel seguir o conselho. E se ele ficasse realmente furioso com ela. E se de facto a amava. Depois de tudo o que fizera por 
ela, no podia abandon-lo. Era uma imagem clssica de agressor e agredido, tal como a Dra Flowers lhe dissera ao telefone, mas tambm compreendera que Maddy estava 
imobilizada pelo medo. A Dra Flowers no a pressionara tanto como Bill e Greg.
128 
Sabia que Maddy tinha de aguardar at estar pronta. E Maddy sentiu-se aliviada depois de terem conversado. Ia a pensar nessa conversa, e na hora do encontro que 
haviam combinado, quando saiu para almoar. E, no regresso, vinha distrada. Ao entrar no edifcio, nem reparou na rapariga que a observava do outro lado da rua. 
Era nova e bonita, trazia mini-saia preta e sapatos de salto alto, e no tirou os olhos de Maddy.
Estava l outra vez no dia seguinte, quando Maddy saiu para o almoo com Bill. Encontraram-se  entrada e foram almoar ao 701 da Pennsylvania Avenue, sem fazer 
segredo disso. No tinham nada a esconder. Trabalhavam juntos na comisso da primeira-dama, Maddy sabia que nem Jack poderia objectar o que quer que fosse.
O almoo foi agradvel, e abordaram vrios assuntos. Ela contou-lhe a conversa que tivera com a Dra. Flowers, uma pessoa muito compreensiva.
Espero que ela a ajude comentou Bill, inquieto. Pelo que podia avaliar, Maddy estava numa situao muito perigosa e ele sentia medo por ela.
Tambm eu. Algo mudou entre o Jack e eu explicou a Bill, como se tentasse faz-lo a si prpria e no fosse capaz. Mas havia agora uma perversidade no seu relacionamento 
com Jack que nunca antes existira. A Dra. Flowers achava que isso se devia a ele senti-la a afastar-se, e que Jack iria fazer tudo o que pudesse para a aterrorizar 
at ela voltar a deixar-se controlar. Quanto mais independente, e mais saudvel ela fosse ficando, menos contente ele se sentiria. A Dra. Flowers aconselhara-a a 
ser cautelosa. Mesmo agressores no violentos poderiam mudar de tctica a qualquer momento, e Maddy apercebera-se disso em Jack de vez em quando.
Ela e Bill falaram bastante tempo do assunto e ele disse-lhe que ia para Vineyard na semana seguinte, mas que detestava deix-la sozinha.
Dou-lhe o meu nmero de telefone antes de partir. E se acontecer alguma coisa, posso sempre regressar. Era como se agora se sentisse responsvel por ela, sobretudo 
desde que sabia que Maddy praticamente no tinha amigos para a apoiar, excepto Greg que fora para o seu novo emprego em Nova Iorque.
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Fico bem garantiu ela, sem convico, mas no querendo sobrecarreg-lo com os seus problemas. Quem me dera poder acreditar nisso. Ia ficar fora duas semanas e esperava 
acabar o seu livro enquanto l estivesse. Ansiava tambm por navegar com os filhos. Era um navegador exmio. Bem desejava que voc aparecesse. Estou convencido de 
que gostava. Vineyard  um encanto.
Adorava. Devemos ir passar uns dias  nossa fazenda na Virgnia, mas ultimamente o Jack anda to envolvido com o presidente que nunca vamos a parte nenhuma, com 
excepo da nossa viagem  Europa. Ao escut-la, Bill admirava-se com o facto de um homem que possua uma estao de televiso, e era to ntimo do presidente, poder 
ser um agressor E de uma mulher, que era literalmente uma estrela por mrito prprio, famosa, muito bem paga, bonita e inteligente, lhe permitir a agresso. Tratava-se 
na verdade de um flagelo que no respeitava classe, dinheiro, poder ou educao, tal como a Dra Flowers afirmara
Espero que quando regressar voc esteja fora de tudo isto. At l, vou continuar ralado consigo disse, e olhou-a intensamente. Era to encantadora, e to digna, 
desprendia-se dela tanta cordialidade e seduo, que no entendia como podia algum fazer-lhe semelhante coisa. Dava-lhe prazer a sua companhia, tencionava falar 
com ela diariamente. A amizade que os unia transformava-se rapidamente num forte lao entre ambos
Se a sua filha vier v-lo a Washington, adorava conhec-la
Decerto gostaria dela. Sorriu. Achava curioso o facto de Maddy e a filha serem da mesma idade, mas os seus sentimentos para com Maddy comeavam lentamente a evoluir 
para algo diferente. Via-a mais como uma mulher do que como uma mida e, sob muitos aspectos, ela era muito mais adulta e sofisticada do que a filha. Maddy passara 
por tantas coisas, algumas delas nada agradveis. Parecia-lhe mais uma amiga e companheira do que algum da idade da sua prpria filha
Saram s trs horas do restaurante. Quando Maddy voltou
130
ao trabalho, uma bonita rapariga com cabelo escuro, comprido, e de mini-saia, encontrava-se na entrada. Olhou a direito para Maddy e esta teve a esquisita sensao 
de haver nela qualquer coisa de familiar, mas no foi capaz de localiz-la. A rapariga fitou-a e depois afastou-se, como se quisesse ver Maddy mas no ser reconhecida 
por ela. E, mal Maddy comeou a subir as escadas, perguntou ao guarda em que andar ficava o gabinete de Miss Hunter. O guarda, porm, em vez de a informar indicou-lhe 
o de Jack. Era as instrues que tinha. Quaisquer visitas para Mrs. Hunter eram directamente encaminhadas para o marido, e filtradas por ele, embora Maddy o ignorasse. 
Nunca ningum lho dissera. E no chocava quem quer que perguntasse por ela. Afinal, tratava-se de um processo razovel de seleco.
A rapariga de mini-saia subiu no elevador, e uma secretria perguntou-lhe o que pretendia.
Gostava de falar com Mistress Hunter. Aparentava vinte e poucos anos.
Assunto pessoal ou de trabalho? perguntou a secretria, a tomar nota. O nome da rapariga era Elizabeth Turner.
Pessoal. Hesitou um breve instante antes de responder.
Mistress Hunter no recebe ningum hoje, est muito ocupada. Se quiser, diga-me do que se trata, ou deixe uma mensagem e eu entrego-lha. A rapariga acenou afirmativamente 
e mostrou-se um pouco desapontada. Mas pegou no papel que a secretria lhe estendia e escreveu uma nota curta, que devolveu  empregada. Esta desdobrou o papel, 
leu-o de relance e levantou-se, algo nervosa. Queira esperar um momento por favor, Miss... Miss Turner. A rapariga limitou-se a um aceno de cabea, enquanto a secretria 
desaparecia e passado um minuto entregava a nota a Jack. Jack olhou a nota e a secretria, furioso.
Onde est ela? O que raio est a fazer aqui?
Est na recepo, Mister Hunter.
Traga-a c. O seu esprito galopava, tentando decidir o que fazer, e esperava ardentemente que Maddy no a
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tivesse visto. Mas se visse, no a reconheceria, por isso talvez no tivesse importncia.
A rapariga foi introduzida e Jack ficou de p a olh-la. O seu olhar era frio e duro, mas o sorriso com que a cumprimentou dizia muito. Maddy no sabia absolutamente 
nada acerca da rapariga.
CAPTULO 11
Maddy foi, sem dar nas vistas, ao seu encontro com a Dra. Flowers. A nica pessoa que sabia era Bill Alexander. E quando Maddy entrou, a mdica tinha o mesmo ar 
de avozinha calma do primeiro dia em que se haviam encontrado na Casa Branca.
Como est, minha querida? cumprimentou num tom caloroso. Maddy explicara ao telefone, rpida e sucintamente a sua situao com Jack, mas no tivera tempo para entrar 
em pormenores.
Aprendi muito consigo no outro dia afirmou, sentando-se numa das confortveis cadeiras de cabedal. O consultrio era acolhedor, mas dava a impresso de que tudo 
o que l havia fora comprado numa loja de segunda mo. Nada condizia, as cadeiras estavam muito usadas e todos os quadros pareciam pintados por crianas. Mas impecavelmente 
arrumado e ntimo, e surpreendentemente Maddy sentiu-se em casa. Eu sou o produto de um lar agressivo, o meu pai batia na minha me todos os fins-de-semana em que 
se embebedava. E, aos dezassete anos, casei com um homem que me fazia a mesma coisa explicou, respondendo s perguntas da Dra. Flowers sobre o seu passado.
Lamento imenso, minha querida. A Dra. Flowers mostrava-se pesarosa e preocupada, mas o tom doce de avozinha contrastava nitidamente com o olhar, que parecia tudo 
compreender e tudo ver. Eu sei como isso pode ser doloroso, no s fisicamente mas pelo gnero de cicatrizes que deixa. Quanto tempo esteve casada?
Oito anos. S me vim embora depois de ele me ter partido uma perna e os dois braos... e de ter feito seis abortos.
Presumo que se divorciou dele. Os olhos perscrutadores fixavam Maddy.
Esta assentiu, pensativa. S o facto de falar no assunto trazia de volta recordaes demasiado penosas. Em esprito, via Bobby Joe tal como se apresentava no dia 
em que o deixara.
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Fugi. Ns vivamos em Knoxville. O Jack Hunter salvou-me. Comprou a estao de televiso onde eu trabalhava e ofereceu-me um lugar aqui. Foi buscar-me de limusina 
a Knoxville E mal c cheguei, divorciei-me do meu marido. O Jack e eu casmos dois anos mais tarde, um ano depois de o meu divrcio ser definitivo.
A Dra Flowers estava interessada em mais do que palavras e ouvia muito mais do que aquilo que as pessoas lhe contavam. H quarenta anos que tinha prtica de casos 
de mulheres violentadas, conhecia todos os indcios, s vezes at mesmo antes de as suas pacientes os reconhecerem. Fez-se um longo silncio durante o qual olhou 
Maddy nos olhos.
Fale-me do seu actual marido pediu, muito calma.
O Jack e eu estamos casados h sete anos e ele tem sido bom para mim. Muito bom mesmo. Organizou a minha carreira e vivemos luxuosamente. Temos uma vivenda, um avio, 
eu tenho um emprego ptimo, graas a ele, uma fazenda na Virgnia que  verdadeiramente o seu. A voz foi-se-lhe sumindo; a Dra. Flowers observava-a. J sabia as 
respostas s perguntas ainda no feitas.
Tm filhos?
Ele tem dois filhos de um casamento anterior e no quis mais quando nos casmos. Debatemos muito o assunto e ele decidiu... ns decidimos que eu laqueasse as trompas.
Est satisfeita com essa deciso ou lamenta t-la tomado?
Era uma pergunta franca que merecia uma resposta franca.
s vezes, lamento. Quando vejo bebs, gostava de ter tido um. Encheram-se-lhe os olhos de lgrimas. Mas o Jack estava certo, acho eu. No temos de facto tempo para 
filhos.
O tempo no  para aqui chamado retorquiu calmamente a Dra Flowers  um caso de vontade, e de necessidade. Sente que precisa de um beb, Maddy?
s vezes, sinto Mas agora  tarde. Tenho as trompas laqueadas, e ligadas para maior segurana.  irreversvel respondeu, triste.
Podem adoptar, se o seu marido estiver disposto. Estaria?
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No sei respondeu Maddy em voz abafada. Os problemas deles eram muito mais complicados do que isso. Pelo telefone, s os resumira  Dra. Flowers.
Acerca de adoptar um beb? A Dra. Flowers parecia surpreendida pelo que Maddy acabara de contar-lhe. No o esperava.
No, acerca do meu marido. E do que a senhora disse no outro dia. Veio  baila numa conversa que acabei de ter com um colega. Eu... ele pensa... eu penso.. Rolavam-lhe 
lgrimas pela cara quando por fim desabafou: O meu marido  agressivo comigo. No me bate como o primeiro fazia. Nunca levantou uma mo contra mim... H algum tempo, 
abanou-me... e ... sexualmente... muito brutal, mas no creio que o faa de propsito. Acho que  muito arrebatado... Calou-se e olhou a Dra. Flowers nos olhos. 
Tinha que lhe contar. Eu costumava pensar que ele era rude, mas no ...  cruel, agressivo... e magoa-me. De uma forma intencional, julgo. Alm disso, controla-me. 
Constantemente. Toma todas as decises por mim. Trata-me como se eu fosse lixo, lembra-me que no sou instruda, e diz-me que se me despedisse eu iria direita para 
a sarjeta e ningum me daria emprego. Nunca me permite ter amigos, isola-me. Faz-me sentir uma porcaria. Mente-me, deprecia-me, convence-me de que no valho nada. 
Humilha-me e ultimamente assusta-me. Est a ficar mais brutal na cama, e ameaa-me. Eu nunca tinha querido ver, mas ele faz praticamente tudo aquilo que a doutora 
descreveu h dias. As lgrimas continuavam a inundar-lhe o rosto.
E voc permite-lho disse calmamente Eugenia Flowers. Porque acha que ele tem razo e voc merece que ele a trate assim. Pensa que o terrvel segredo que carrega 
 ser to m como ele diz, e que se no fizer exactamente o que ele manda toda a gente ficar a par da sua inferioridade. Maddy anuiu com um aceno de cabea. As 
palavras da mdica aliviavam-na, porque exprimiam precisamente o seu pensamento. E agora que est consciente disso, o que vai fazer? Quer ficar com ele? A pergunta 
era directa, e Maddy no temia dizer a verdade, por mais disparatada que se lhe afigurasse.
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s vezes. Eu amo-o. E creio que ele me ama. Ainda penso que, se percebesse o que est a fazer-me, no o faria. Talvez se eu o amasse mais, ou pudesse ajud-lo a 
compreender a que ponto  ofensivo, ele deixasse de o ser. No julgo que queira realmente magoar-me.
 possvel Mas improvvel. Encarou Maddy. No a julgava. Abria-lhe portas e janelas. O que acima de tudo queria dar-lhe era perspectivas. E se ele quisesse mago-la, 
se voc soubesse que era intencional? Continuava a querer ficar com ele?
No sei... talvez. Apavora-me a ideia de deix-lo. E se ele tiver razo? Se eu no conseguir arranjar um emprego, e ningum me quiser nunca mais? Em silncio, a 
Dra Flowers admirava-se com o facto de aquela deliciosa criatura poder pensar que nunca mais algum a amaria ou lhe daria emprego. A verdade era que nunca ningum 
a amara, nem o primeiro marido ou os pais, ou mesmo Jack Hunter. Disso, a Dra. Flowers tinha a certeza. No por culpa de Maddy, s por ter escolhido homens que mais 
no queriam do que feri-la. Ainda tinha, todavia, de perceber isso.
Eu convenci-me de que tudo seria to simples Pensei, quando deixei o Bobby Joe, que nunca voltaria a consentir que algum me agredisse. Jurei que mais ningum me 
bateria. E o Jack no bate. Pelo menos, com as mos.
Mas no  assim to simples, pois no? H outras formas de agresso que at so mais destrutivas, como o gnero de agresso que ele pratica em si, batendo na sua 
alma e na sua auto-estima. Se lho permitir, Maddy, o Jack vai destru-la.  o que ele pretende e o que voc o deixou fazer durante sete anos. E pode continuar a 
deixar, se quiser. No tem de o abandonar. Ningum vai obrig-la
Os meus dois nicos amigos dizem-me que tenho de me ir embora, se no, ele vai dar cabo de mim
Pode faz-lo.  quase certo que o far, de uma maneira ou de outra. Nem sequer tem de ser ele a faz-lo Eventualmente, f-lo- voc mesma por ele. A probabilidade 
era aterradora. Ou definhar interiormente. O que os seus amigos lhe dizem no  inconcebvel. Ama-o o suficiente para correr um tal risco?
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-Acho que no... no quero... Mas assusta-me deix-lo e... Reprimiu um soluo. Vou ter saudades dele. Tivemos uma vida to boa! Gosto de estar com ele.
Como a faz ele sentir-se quando est a seu lado?
Importante. Bem... no... no  verdade. Faz-me sentir estpida e cheia de sorte por estar com ele.
 estpida?
No. Maddy riu-se. S nos homens por quem me apaixono.
H mais algum de momento?
No, no exactamente... bem, no em sentido romntico. O Bill Alexander  um bom amigo... Contei-lhe tudo no dia em que a doutora foi  comisso.
E qual  a opinio dele?
Que eu devia fazer as malas o mais depressa possvel e pr-me a andar antes que o Jack me faa qualquer coisa horrvel.
J fez, Maddy. E quanto ao Bill? Est apaixonada por ele?
No creio. Somos apenas bons amigos.
O seu marido sabe? A Dra. Flowers demonstrava preocupao.
No... no sabe. E Maddy mostrou-se assustada ao responder. A mdica ficou um longo momento a olh-la em silncio.
Tem um extenso caminho a percorrer, Maddy, at alcanar a segurana. E mesmo quando l chegar, querer retroceder algumas vezes. Vai ter saudades dele, e da maneira 
como ele a faz sentir-se, no dos momentos maus, mas dos bons. Os homens agressivos so muito espertos. H um potencial tremendo nesse gnero especial de veneno. 
Faz com que as mulheres queiram mais, porque os bons tempos so deliciosos. Mas os maus so horrveis.  um pouco como deixar a droga, ou deixar de fumar, ou qualquer 
outra espcie de vcio. A agresso, por muito terrvel que seja,  viciante.
Acredito. Estou to habituada ao Jack, que no me imagino a viver sem ele. Mas h alturas em que s me apetece fugir, ir para qualquer outro stio onde no possa 
ser atingida.
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O que precisa de fazer, e eu sei que  difcil,  tornar-se to forte que ele no possa atingi-la onde quer que esteja, porque voc no lho permitir. Tem de partir 
de si, ningum pode na realidade proteg-la. Os amigos podem escond-la dele, e mant-lo afastado, mas, se voc quiser mesmo, esgueira-se e volta para ele, para 
a droga que ele lhe d. Que  perigosa como qualquer outra, ou talvez mais. Acha que tem fora suficiente para enfrentar o problema?
Maddy acenou afirmativamente, pensativa. Era tudo o que queria. Sabia-o. Do que agora precisava era de coragem
Se me ajudar. Tinha lgrimas nos olhos.
Ajudo. Pode levar-nos algum tempo. Seja paciente consigo prpria. Quando estiver pronta, voc mesma o deixa. Voc saber quando achar que j basta e estiver suficientemente 
forte para agir. Entretanto, tem de tomar todas as precaues possveis para se manter a salvo, no se arriscar a permitir-lhe agredi-la mais do que j agrediu. 
Ele dar por isso. Os tipos agressivos so como animais selvagens, tm percepes e defesas altamente apuradas. O que h a fazer  aperfeioar agora as suas. Se 
ele pressentir que a presa est a fugir-lhe, tentar encurral-la, levando-a a sentir-se assustada, desnorteada e sem esperana. Convenc-la- de que no h sada, 
de que sem ele no ser nada. E parte de si querer acreditar nele. Mas o resto de si estar mais alerta. Agarre-se tanto quanto puder a essa certeza.  o que vai 
salv-la, a parte que no quer ser mais agredida, ou enganada, ou prejudicada, ou humilhada. Oia essa voz e tente ignorar a outra. Nem por sombras duvidava de que 
Jack era agressivo. Por tudo o que ouvira nesse dia, tinha a certeza de que o era, e podia ver nos olhos de Maddy a que ponto fora ferida. No se tratava porm de 
algo sem remdio, ou salvao, havia muitas coisas a fazer por ela, e a Dra Flowers estava certa de que Maddy encontraria o caminho de sada mais cedo ou mais tarde, 
quando estivesse pronta, no antes. Tinha de ser ela mesma a encontr-lo, ou ento esse caminho nada significaria para ela.
Quanto tempo acha que nos ser preciso? perguntou Maddy, preocupada. Bill Alexander tinha querido que ela deixasse Jack no dia em que lhe contara o que se passava 
Mas ela no podia ainda faz-lo
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 uma coisa difcil de precisar ou mesmo prever. Voc saber quando est pronta, pode levar dias, ou meses, ou anos. Depende do medo que tiver dele e da parte de 
si que quer acreditar no seu marido. Vai fazer-lhe imensas promessas, e amea-la, vai tentar tudo o que puder para a conservar, como um traficante de droga a oferecer-lhe 
o produto que voc escolher. Neste momento, essa droga , para si, um tratamento agressivo. E quando voc tentar pr um ponto final a esse comportamento, vai assust-lo 
e torn-lo mais agressivo ainda.
Isso parece horrvel declarou Maddy, embaraada acerca da sua dependncia da agresso, mas sabendo que havia alguma verdade em tudo o que a psiquiatra dizia. Parecia-lhe 
correcto, tocava uma corda familiar.
No tenha vergonha. Muitas de ns passamos por isso. As corajosas admitem-no. Para outras pessoas,  difcil aceitar que se possa amar um homem que procede assim. 
Mas  longo o retrocesso, passou muito tempo, relativamente ao que lhe disseram sobre si prpria na sua infncia. Se lhe afirmaram que era intil, malcomportada, 
terrvel, insuportvel, isso constitui uma mensagem poderosa ao seu lado obscuro. O que  preciso agora  ench-lo de luz, e convenc-la de que  uma pessoa encantadora. 
E posso dizer-lhe uma coisa: no s vai arranjar outro emprego nos primeiros cinco minutos em que estiver livre, como vai haver homens, homens bons com atitudes 
ss, a rastejar a seus ps mal saibam que o caminho est livre. Porm, nada disto importa at voc acreditar.
Maddy riu-se perante a imagem evocada. Era sem dvida um quadro apelativo, as palavras ouvidas muito reconfortantes. J se sentia melhor. Confiava plenamente na 
capacidade da Dra. Flowers para a arrancar  confuso em que mergulhara. E estava-lhe grata por se dispor a ajud-la. Maddy sabia como a psiquiatra era uma pessoa 
ocupada.
Gostava que voltasse c daqui a uns dias, para me contar como vo as coisas, consigo, com ele. E vou dar-lhe um nmero especial para onde pode ligar-me, de noite 
e de dia. Se acontecer alguma coisa que a assuste, Maddy, ou se se julgar em perigo, ou mesmo se apenas estiver perturbada, telefone-me. 
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Levo o meu telemvel para toda a parte, pode sempre entrar em contacto comigo. Era uma linha especial de apoio s mulheres maltratadas. Foi um alvio para Maddy 
sab-lo e ficou grata pela ajuda. Quero que saiba, Maddy, que no est sozinha. H imensa gente a querer auxili-la, e voc tem foras, se quiser.
Quero. Pronunciou a palavra num tom que pouco mais era do que um murmrio e menos firmemente do que agradaria aos que quereriam apoi-la. Mas, como sempre, com sinceridade. 
 por isso que estou aqui. Apenas, no sei como agir. No sei como livrar-me. Parte de mim acredita que sem ele nunca farei nada.
 aquilo em que quer que voc acredite. Assim, precisar dele e ele pode manobr-la como quiser. As pessoas com relacionamentos saudveis no tomam decises uma 
pela outra, no dizem  outra que ela no vale nada nem a tratam como se fosse lixo, nem a ameaam de cair na sarjeta! Isso  agresso, Maddy. O seu marido no precisa 
de lhe atirar cal  cara ou de lhe bater com um ferro quente. No precisa. Faz-lhe mal suficiente com a boca e a mente, no precisa de usar as mos para a magoar. 
O que ele faz  muito eficaz. Maddy concordou, com um aceno.
Meia hora mais tarde saiu e voltou para o trabalho. E ao entrar no edifcio, no viu a rapariga de cabelo preto e comprido de novo parada junto  entrada, a observ-la. 
E l continuava s oito da noite, desta vez do outro lado da rua, quando Maddy entrou no carro para ir para casa. Parecia esperar qualquer coisa. Mas Maddy nunca 
a viu. Quando um pouco mais tarde Jack saiu e tomou um txi, a rapariga escapou-se  pressa, escondendo a cara para que ele no pudesse reconhec-la. J tinham dito 
tudo o que tinham a dizer, e ela sabia que com Jack no iria a parte alguma. 
CAPTULO 12
No dia seguinte, estava Maddy a trabalhar com Brad numa pesquisa sobre a Comisso de tica do Senado, quando o telefone tocou. Atendeu-o. No outro extremo da linha, 
algum ficou longo tempo  escuta sem dizer nada. Por um momento, Maddy assustou-se. Seria outro assaltante, ou um qualquer telefonema de uma mente doentia? Entretanto, 
desligaram e, ao voltar a embrenhar-se no trabalho, esqueceu o incidente.
A mesma coisa se passou  noite, em casa, e desta vez contou a Jack, que encolheu os ombros e comentou que provavelmente se tratava apenas de um erro de nmero. 
Brincou com ela por ter medo da prpria sombra, s porque um maluco a atacara. Dada a sua popularidade, no era de surpreender que um tipo a tivesse atacado. Acontecia 
 maioria das celebridades.
Faz parte do meio, Mad. Tu ls as notcias. Devias saber isso. As coisas entre ambos haviam acalmado, mas ainda a aborrecia o facto de ele no a ter avisado acerca 
do assaltante. Jack dissera-lhe que ela tinha mais em que pensar e que os casos de segurana relativos aos apresentadores eram um problema seu. Maddy continuava 
porm a achar que o marido devia ter-lhe contado.
Na segunda-feira, ao telefone com a secretria particular da primeira-dama, abordava uma alterao de data da prxima reunio da comisso. Como a primeira-dama tinha 
de acompanhar o presidente a um jantar oficial no Palcio de Buckingham, tentava estabelecer uma nova data com Maddy e os outros onze participantes da comisso. 
Maddy franzia distraidamente o sobrolho ao ouvir as datas propostas, quando uma jovem entrou no seu gabinete. Tinha cabelo preto comprido e liso, vestia calas de 
ganga e T-shirt. Vinha arranjada e limpa, mas com roupas baratas, e demonstrava grande nervosismo quando Maddy, sem saber de quem se tratava, ergueu para ela o olhar. 
Nunca a vira, pensou que fora mandada por outra seco da estao, ou talvez que apenas
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quisesse um autgrafo. Reparou que no exibia qualquer identificao e trazia na mo uma embalagem de donuts. Ocorreu-lhe ento que tivesse sido esse o pretexto 
para a rapariga entrar no edifcio.
No, obrigada. Sorriu-lhe e com a mo acenou-lhe para que se fosse embora, mas a jovem no se mexeu, limitou-se a fit-la e, por um instante, Maddy entrou em pnico. 
E se fosse outra atacante. Talvez escondesse uma arma, ou uma faca, ou fosse doente mental. Deu-se conta de que tudo era possvel e pensou em accionar o boto de 
alarme sob a secretria, mas no o fez. O que ? Tapou o bocal ao question-la
Preciso de falar consigo respondeu a rapariga, e Maddy olhou-a, desconfiada. Qualquer coisa nela a enervava extremamente
Importa-se de esperar l fora? Maddy mostrou-se firme, e a rapariga saiu do gabinete com relutncia, carregando o pacote de donuts
Maddy deu  secretria de Phyllis Armstrong trs datas possveis e a secretria prometeu voltar a contact-la. Mal desligou, pegou no intercomumicador e falou com 
um recepcionista da entrada.
H uma pessoa  minha espera l fora. No sei o que quer. Por favor, fale com ela e veja do que se trata e depois ligue-me, sim? Talvez fosse uma perseguidora de 
celebridades ou uma coleccionadora de autgrafos, ou desejasse um emprego. Mas desagradava a Maddy que tivesse entrado com tanto -vontade no seu gabinete Dado o 
ocorrido recentemente, era ainda mais enervante
O intercomumicador tocou da a minutos e Maddy atendeu-o de imediato
Diz que precisa de falar consigo Que  um assunto pessoal
Que assunto. Quer matar-me? Tem de lhe dizer o que , se no, no a recebo. Mas ao pronunciar estas palavras ergueu o olhar e a rapariga encontrava-se  entrada 
do gabinete com um ar determinado. Oia, no  assim que as coisas se passam aqui. No sei o que voc quer, mas tem de falar com algum antes de vir ter comigo. 
Mostrou-se
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firme e calma, mas roava o dedo pelo boto de alarme e o corao batia-lhe, apressado. O que quer de mim?
S quero falar consigo uns minutos. Maddy viu que a rapariga estava quase a chorar e que os donuts tinham desaparecido.
No sei se posso ser-lhe til disse, hesitante, e ento ocorreu-lhe de repente que o caso podia ter a ver com a sua presena na Comisso de Violncia contra as Mulheres, 
ou com algumas das histrias destas. Talvez a rapariga contasse com a sua compreenso. Do que se trata? interrogou, com um pouco mais de brandura.
 a seu respeito. A voz da rapariga tremia e, quando a olhou com mais ateno, Maddy reparou que lhe tremiam tambm as mos.
A meu respeito, o qu? perguntou cautelosamente. O que tinha a rapariga a dizer-lhe? Porm, ao olh-la, assaltou-a um pressentimento muito estranho.
Penso que a senhora  minha me disse ela num sussurro, para que ningum que fosse a passar pudesse ouvi-las, e Maddy deixou-se cair na cadeira como se tivesse levado 
uma bofetada.
Voc pensa o qu? Do que est a falar? Ficara branca, e agora as suas mos, sempre junto ao boto de alarme, vacilavam. Pensou instantaneamente, com preocupao, 
que a rapariga era louca. Eu no tenho filhos.
Nunca teve? Os lbios da rapariga tremiam e os olhos comeavam a espelhar o seu desapontamento. Para ela, tinham sido trs anos  procura da me, e pressentia que 
voltava ao zero. J voltara a muitos zeros. Alguma vez teve um beb? Chamo-me Elizabeth Turner, tenho dezanove anos, nasci a quinze de Maio, em Gatlinburg, no Tennessee. 
Julgo que a minha me era de Chattanooga. Falei com toda a gente que pude, e tudo o que sei  que ela tinha quinze anos quando nasci. Creio que se chamava Madeleine 
Beaumont, mas no tenho a certeza. E uma pessoa com quem falei disse que eu me parecia muito com ela. Maddy olhava-a, incrdula; tirou lentamente a mo do boto 
de alarme e pousou-a sobre a secretria.
O que a leva a pensar que seja eu?
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No sei. Sei que  do Tennessee. Li uma vez numa entrevista, e o seu nome  Maddy, e., no sei... tenho a impresso de que me pareo um bocadinho consigo, e.. eu 
sei que isto parece loucura. Corriam-lhe lgrimas pela cara devidas agora ao stresse de ter chegado at ela, e ao medo de um novo desapontamento. Talvez eu apenas 
quisesse que a senhora fosse a pessoa certa. Vi-a muito na televiso e gosto verdadeiramente de si. Fez-se na sala um prolongado e pesado silncio, enquanto Maddy 
avaliava a situao e tentava decidir como lidar com ela. Nunca desviou os olhos dos da rapariga e ao fit-la iam-se lentamente desmoronando paredes dentro de si, 
esboando recantos em que h anos no tocava e que pensava que nunca mais se permitiria aflorar. No queria que isso acontecesse, mas estava a acontecer, e no havia 
nada que pudesse fazer para o alterar. Podia facilmente pr-lhe um ponto final. Podia dizer  rapariga que no era a mesma Madeleine Beaumont, que havia imensas 
no Tennessee, embora Beaumont fosse o seu apelido de solteira. Podia dizer que nunca estivera em Gatimburg, e que lamentava, e que lhe desejava boa sorte. Podia 
dizer tudo o que fosse necessrio para se ver livre dela, e nunca mais lhe pr a vista em cima, mas olhava-a e sentia que no podia fazer isso quela rapariga.
Sem uma palavra, levantou-se e fechou a porta do gabinete. De p, ficou a olhar para a rapariga que declarava ser o beb que dera  luz aos quinze anos, e que pensara 
nunca mais voltar a ver. O beb pelo qual havia chorado e sofrido durante vrios anos e que acabara por se proibir a si prpria de recordar. A criana de que nunca 
falara a Jack. Ele s sabia dos abortos
Como posso eu saber que voc  quem diz? indagou, numa voz agitada pela culpa, pelo medo e pela memria dolorosa de ter abandonado o seu beb. Nunca mais a vira 
depois do parto, s lhe pegara uma vez. Mas aquela rapariga podia ser qualquer pessoa, a filha de uma enfermeira que tivesse estado l, a filha de um vizinho que 
quisesse chantage-la e conseguir algum dinheiro. Muito poucas pessoas sabiam, e Maddy dava graas por nenhuma delas ter alguma vez aparecido. Temera-o durante anos
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- Tenho a minha certido de nascimento respondeu a rapariga desajeitadamente, tirando um papel da bolsa, um rolo fininho que deu a Maddy. E com ele, entregou-lhe 
tambm a foto pequenina de um beb, que Maddy olhou numa agonia silenciosa. Era igual  que lhe tinham dado a ela, tirada no hospital, com as faces rosadas e uma 
etiqueta de identificao, envolta num cobertor cor-de-rosa. Maddy trouxera-a na carteira durante anos e por fim deitara-a fora, com medo de que Jack a encontrasse. 
Bobby Joe sabia, mas nunca ligara muito ao facto. Imensas raparigas que conhecia engravidavam e davam os bebs para adopo. Algumas tinham-nos tido mais novas do 
que Maddy. Mas, no decorrer dos anos, esse tornara-se o seu segredo mais negro.
Pode ser qualquer beb replicou, friamente, ou voc pode ter obtido esta fotografia de qualquer outra pessoa, at mesmo do hospital. No prova nada.
Podamos fazer testes de sangue, se achar que talvez eu possa ser a sua filha objectou com sensatez a rapariga, e o corao de Maddy sucumbiu. Fora corajosa, e Maddy 
no estava a facilitar-lhe as coisas. Mas... e se tudo o que a rapariga queria fosse destruir-lhe a vida, obrig-la a enfrentar algo que finalmente olvidara e que 
no se atrevia a encarar agora? E como contar a Jack?
Porque no se senta? proferiu, sentando-se tambm, devagar, na cadeira junto  dela e fitando-a. Gostaria de estender os braos e tocar-lhe. O pai da rapariga fora 
um aluno mais velho do liceu em que Maddy andara, nem sequer se conheciam muito bem, mas Maddy gostava dele e tinham sado juntos umas vezes, durante um perodo 
em que ela e Bobby Joe estavam zangados. Morrera num acidente de automvel trs semanas depois do nascimento da beb e j Maddy a tinha dado para adopo. Nunca 
dissera a Bobby Joe quem era o pai, e ele no se ralara muito, embora lhe tivesse batido uma ou duas vezes por causa disso, mas no passara de mais uma desculpa 
para a agredir, depois de casados. Como chegou at aqui, Elizabeth? Pronunciou o nome a medo, como se o simples facto de o mencionar a comprometesse a um destino 
que no estava ainda preparada para enfrentar. Onde vive?
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Em Memphis. Vim de autocarro. Trabalho desde os doze anos para poupar dinheiro suficiente para vir. Sempre quis encontrar a minha verdadeira me. Tentei encontrar 
tambm o meu pai, mas acerca dele no achei pistas nenhumas. Ainda ignorava qual seria a resposta de Maddy e mostrava-se extremamente nervosa.
O seu pai morreu afirmou Maddy calmamente, trs semanas depois do seu nascimento. Era um rapaz encantador e voc parece-se um pouco com ele. Mas tinha muito mais 
semelhanas com a me, o tom de pele e as feies de ambas eram iguais, at Maddy podia v-lo. Teria sido difcil reneg-la, mesmo se quisesse. No podia porm impedir-se 
de imaginar o aspecto da histria nos tablides.
Como sabe? Elizabeth olhava-a, confusa, insegura quanto ao que ouvira. Era uma rapariga inteligente, mas subjugava-a o impacto do que estava a fazer, tal como a 
Maddy, e nenhuma delas pensava com clareza.
Maddy fixou-a durante muito tempo: o seu desejo mais secreto acabava de tornar-se realidade, ainda sem saber se esse desejo se transformaria num pesadelo, se seria 
trada, se a rapariga no passaria afinal de uma impostora, o que parecia improvvel. Abriu a boca para falar, mas um soluo antecipou-se s palavras. Estendeu os 
braos e abraou a rapariga sentada a seu lado. Levou muito tempo at poder dizer a frase que julgara nunca vir a pronunciar em toda a sua vida.
Eu sou a tua me.
Elizabeth suspirou profundamente, a mo voou-lhe para a boca, os olhos encheram-se-lhe de lgrimas, erguendo-os para Maddy, e ento puxou-a para si. E limitaram-se 
a ficar sentadas por muito tempo, agarradas uma  outra e ambas a chorar.
Oh, meu Deus... Oh, meu Deus... Eu no achava realmente que fosse a senhora... Eu s queria perguntar-lhe... Oh, meu Deus...
H muito ali sentadas, baloiando para trs e para a frente, deram as mos e olharam-se. Elizabeth sorria atravs das lgrimas, Maddy estava ainda demasiado abalada 
para coordenar os pensamentos. A nica coisa que sabia era que, para alm do momento e das circunstncias, se haviam encontrado
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uma  outra. E quanto a isso, Maddy no fazia a menor ideia de como reagir. Era apenas o comeo, passados tantos anos.
Onde esto os teus pais adoptivos? perguntou por fim. Tudo o que lhe fora permitido saber era que viviam no Tennessee, no tinham outros filhos e estavam bem empregados. 
Ignorava tudo o mais que se relacionasse com eles. Naqueles tempos, todos os registos eram secretos e as informaes fornecidas  outra parte to reduzidas que uma 
localizao era impossvel. Era esse o objectivo. E ao longo dos anos, quando as coisas mudaram legalmente em relao s adopes secretas, Maddy nunca fizera qualquer 
esforo para a encontrar. Achava que era tarde de mais, que era uma coisa de que devia libertar-se, no a apegar-se. Mas, agora, ela estava ali.
Nunca os conheci explicou Elizabeth, ainda a enxugar os olhos, agarrada  mo da me. Morreram quando eu tinha um ano, num descarrilamento de comboios, e eu fui 
criada por uma instituio estatal at aos cinco anos, num orfanato em Knoxville. Contraiu-se o estmago de Maddy ao dar-se conta de que vivia em Knoxville nessa 
altura, casada com Bobby Joe, e podia t-la tido de volta se quisesse. Mas no tivera maneira de saber onde parava a criana. Depois disso, cresci em lares de acolhimento. 
Alguns eram bons, outros horrveis. Andei de c para l, nunca fiquei em nenhum mais de seis meses; na verdade, nunca quis ficar. Sentia-me sempre uma estranha, 
e alguns eram srdidos. Por isso, ia sempre para o prximo toda contente.
E nunca mais ningum te adoptou? Elizabeth abanou negativamente a cabea; Maddy estava horrorizada.
Acho que foi por isso que eu quis encontr-la. Quase fui adoptada uma vez ou duas, mas os meus pais de acolhimento concluram sempre que era muito dispendioso. Tinham 
filhos deles, no podiam encarregar-se de mais um. Continuo em contacto com alguns, especialmente os ltimos. Tm cinco filhos e foram bons para mim. Eram todos 
rapazes e eu quase me casei com o meu irmo mais velho, mas achei que seria muito esquisito, por isso no casei. Agora, vivo sozinha em Memphis, frequento o City 
College e trabalho como criada. Quando acabar os estudos, mudo-me
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para Nashville e tento arranjar emprego a cantar numa discoteca. Tinha um esprito de sobrevivncia idntico ao da me.
Tu cantas? perguntou Maddy, surpreendida, querendo de sbito saber tudo a seu respeito. Doa-lhe o corao ao pensar nela em orfanatos e lares de acolhimento, sem 
nunca ter pais autnticos. Mas, para seu espanto, a rapariga parecia ter ultrapassado os reveses, ao menos pelo que Maddy podia ver superficialmente. Era uma rapariga 
adorvel, reparou que ambas haviam cruzado as pernas ao mesmo tempo e exactamente do mesmo jeito
Gosto de cantar. Acho que tenho uma voz bastante boa  o que as pessoas me dizem.
Ento, no podes ser minha filha Maddy riu-se, de novo com lgrimas nos olhos. Dominava-a a emoo, sempre de mos dadas, ali no seu gabinete. E miraculosamente, 
por uma vez ningum as interrompeu. Era uma manh rara, calma. De que mais gostas?
Gosto de cavalos. Sou capaz de montar qualquer coisa que tenha quatro patas. Mas detesto vacas. Uma das famlias que me acolheu tinha uma fazenda com gado leiteiro. 
Jurei que nunca me casaria com um fazendeiro. Ambas se riram. Gosto de crianas. Escrevo a todos os meus irmos e irms de acolhimento, com poucas excepes. Na 
sua maioria,  boa gente. Gosto de Washington. Sorriu ento a Maddy. Gosto de v-la a si na televiso, gosto de roupas., gosto de rapazes.. gosto de praia.
Amo-te deixou Maddy escapar, embora nem sequer a conhecesse. Tambm te amei quando nasceste. S que no pude tomar conta de ti; tinha quinze anos e os meus pais 
no me deixaram ficar contigo. Chorei-te durante anos. Perguntava-me sempre onde estarias e se te encontrarias bem, e se as pessoas eram boas para ti. Dizia para 
comigo que foras adoptada por gente encantadora que te amava. Despedaava-lhe o corao pensar que no tinha sido o caso, que a criana crescera entre lares de acolhimento 
e instituies estatais.
Tem filhos? Elizabeth queria saber. Era uma pergunta razovel E Maddy abanou a cabea com um ar pesaroso. 
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Mas agora tinha. Tinha uma filha. E, desta vez, no ia perd-la. J decidira.
No, no tenho. Nunca tive filhos e agora no posso. Elizabeth no lhe perguntou porqu, respeitava o facto de no se conhecerem. E dada a manta de retalhos que 
fora o seu passado, Maddy estava impressionada pelo bom comportamento e boa educao que aparentava. Gostas de ler? perguntou, curiosa a seu respeito.
Adoro confirmou Elizabeth, outro trao que herdara da me, em conjunto com a perseverana, a coragem e a persecuo obstinada dos seus objectivos. Nunca desistira 
de encontrar a me. Era tudo o que sempre quisera.
Que idade tem agora? perguntou Elizabeth, s para ter a certeza de que calculara a idade certa de Maddy. No sabia bem se Maddy tinha quinze ou dezasseis anos quando 
ela nascera.
Tenho trinta e quatro. Mais pareciam irms do que me e filha. E sou casada com o dono desta estao televisiva. Chama-se Jack Hunter. No passava de informao 
bsica; Elizabeth, porm, deixou-a estupefacta.
Eu sei. Encontrmo-nos na semana passada, no gabinete dele.
Tu o qu? Como fizeste isso? Parecia impossvel a Maddy.
Tentei um encontro consigo, na recepo, e eles no me deixaram v-la. Mandaram-me directamente para o gabinete dele. Falei com a secretria e escrevi uma nota para 
si: dizia apenas que queria perguntar-lhe se era a minha me. A secretria levou-lha e depois mandou-me entrar para falar com ele explicou a rapariga com ar inocente, 
como se se tratasse de uma sequncia de acontecimentos perfeitamente lgica, e de certo modo era. S que Jack no dissera a Maddy uma nica palavra sobre o caso.
E, ento, o que aconteceu? perguntou Maddy, de novo com o corao aos saltos, tal como quando Elizabeth lhe comunicara que ela era a sua me. O que te disse ele?
Que tinha a certeza de que eu estava errada porque a senhora nunca tivera filhos. Acho que pensou que eu era uma impostora, ou que estava a tentar fazer chantagem, 
ou
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coisa no gnero. mandou-me embora com ordens para nunca mais c voltar. Mostrei-lhe a minha certido de nascimento e a foto, e tive medo de que ele mas tirasse, 
mas no. Limitou-se a informar-me de que o apelido no era o seu apelido de solteira, mas eu sabia que era, por isso pensei que talvez estivesse a mentir para a 
proteger. Depois, passou-me pela cabea que ele talvez no soubesse, que a senhora no lhe tivesse contado.
Nunca contei. Tive medo. Ele tem sido muito bom para mim. Trouxe-me de Knoxville h nove anos e pagou o meu divrcio. Fez de mim o que hoje sou e eu no sabia qual 
seria a sua reaco se eu lhe contasse. Por isso, no contei. Mas agora ele sabia e no lhe dissera uma nica palavra. Seria por achar que se tratava de um logro 
e no querer preocup-la, ou guardava a informao como arma de ataque? Atendendo ao que acabara por pensar dele recentemente, julgou mais plausvel a ltima hiptese 
e no pde impedir-se de imaginar quando iria ele abordar o assunto. Provavelmente, esperaria pelo momento certo, aquele em que maior dano provocaria. De imediato, 
sentiu-se culpada pelos seus pensamentos. Bem, agora ele est ao corrente. Suspirou e olhou para a rapariga. Depois, encarou-a frontalmente: O que vamos ns fazer 
agora?
Nada, acho eu respondeu Elizabeth, prtica. No quero nada de si. S queria encontr-la e conhec-la. Volto para Memphis amanh. Deram-me uma semana de folga no 
trabalho, mas chegou a hora de voltar.
 tudo? Surpreendia Maddy que a pequena quisesse to pouco dela. Gostava de voltar a ver-te, Elizabeth, e vir a conhecer-te. Talvez eu possa ir a Memphis.
Que bom! Podia ficar comigo, mas no me parece que lhe agradasse. Sorriu, tmida. Tenho um quarto alugado numa penso, muito pequeno e humilde. Gasto todo o meu 
dinheiro com a escola., e  sua procura. Agora, acho que isso j no  preciso.
Talvez possamos ficar juntas num hotel. Os olhos da rapariga iluminaram-se, o que enterneceu Maddy. Parecia no alimentar expectativas algumas.
No vou contar nada a ningum afirmou Elizabeth, 
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acanhada. S  minha senhoria e ao meu patro, e a uma das minhas mes de acolhimento, se a senhora estiver de acordo Mas, se no quiser, no conto a ningum. No 
quero causar-lhe problemas. No tinha qualquer conscincia das implicaes para Maddy de uma exposio pblica.
 muito amvel da tua parte, Elizabeth, mas nem eu sei o que vou fazer. Tenho de pensar em tudo isto e discutir o assunto com o meu marido.
No me parece que ele v gostar. A Maddy tambm no parecia. No se mostrou muito contente ao ver-me. Acho que foi uma grande surpresa!
Sim, decerto foi. Maddy sorriu-lhe. Fora sem dvida um choque, at para ela, mas agora estava contente. Era excitante ter uma filha. E o fim de um mistrio, a cura 
de uma velha ferida a que se resignara durante anos, mas que nunca sarara. Era uma bno nica. Ele vai habituar-se. Todos ns vamos. Maddy convidou-a ento para 
almoar. Elizabeth, excitada, pediu  me que a tratasse por Lizzie. Foram a um caf ali perto, e pelo caminho Maddy passou-lhe o brao pelos ombros. Diante de uma 
sanduche e de um hambrguer, Lizzie contou-lhe tudo o que lhe ocorreu sobre a sua vida, os seus amigos, os seus temores, as suas alegrias, e fez-lhe depois milhentas 
perguntas. Era o encontro que sempre idealizara e com que Maddy nunca ousara sonhar.
s trs horas foram-se embora; Maddy dera-lhe todos os seus nmeros de telefone e de faxe, anotara os dela, e prometera telefonar-lhe com frequncia para saber como 
iam as coisas. E mal tivesse esclarecido tudo com Jack, queria t-la na Virgnia a passar o fim-de-semana. Quando lhe disse que mandaria o avio busc-la, os olhos 
de Lizzie esbugalharam-se.
Vocs tm um avio vosso?
O Jack tem
Ena! A minha me  uma estrela da televiso e o meu pai tem um avio a jacto! Santo Deus!
No  exactamente o teu pai corrigiu-a Maddy gentilmente, nem quereria ser, suspeitava ela. No lhe dava prazer contactar com os seus prprios filhos, muito menos
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com a filha ilegtima de Maddy. Mas  um homem encantador. Ao dizer estas palavras, sabia que estava a mentir-lhe Era, porm, complicado de mais explicar a que ponto 
era infeliz, e que andava a tratar-se para tentar arranjar coragem para o deixar. S esperava que Elizabeth nunca tivesse sido agredida, como ela fora. Ao almoo, 
tal tema no fora aflorado e, a despeito de jamais ter tido um verdadeiro lar, a rapariga parecia indiscutivelmente bem adaptada. E por muito deprimente que fosse 
para si pensar nisso, Maddy perguntava aos seus botes se no teria sido melhor assim do que se a criana tivesse assistido a Bobby Joe a atirar a me pelas escadas 
abaixo, ou Jack a ofend-la. Porm, no podia evitar os remorsos com toda essa facilidade, e sentia-se culpada pelo que nunca dera  filha. S a palavra a fazia 
estremecer. Tinha uma filha.
Despediu-se de Elizabeth com um beijo, e abraaram-se longamente. Olhou depois a pequena e disse-lhe com doura:
Obrigada por me teres encontrado, Lizzie Ainda no te mereo, mas estou to feliz por te conhecer!
Obrigada, mezinha murmurou Lizzie, e ambas limpavam lgrimas enquanto Maddy a via afastar-se. Era um momento das suas vidas que nenhuma delas esqueceria nunca. 
Maddy passou o resto do dia mergulhada em confuso e ainda estava distrada quando Bill Alexander lhe telefonou
O que se passa consigo hoje? perguntou ele com -vontade, e Maddy riu-se.
No ia acreditar se eu lhe contasse.
Isso soa a mistrio. Alguma coisa importante? Passou-lhe pela cabea que ela iria dizer-lhe que deixara o marido, mas comeara a aperceber-se de que no era ainda 
isso
Conto-lhe quando voltar a v-lo.  uma histria comprida.
Mal posso esperar. Como vo as coisas com o seu parceiro dos noticirios.
Lentas.  um homem simptico, mas para j  como danar com um rinoceronte. No constitumos um par a que possa chamar-se gracioso. Esperava pelo nvel de audincias 
para se atirar de cabea; j tinham centenas de cartas com
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queixas pelo desaparecimento de Greg Morris. Despertava-lhe a curiosidade ver como reagiria Jack ao l-las.
Ho-de acabar por se ajustar Provavelmente  mais ou menos como no casamento.
Talvez. No se mostrava convencida. Brad Newbury era inteligente, mas no formavam um duo convincente e era inevitvel que os telespectadores dessem por isso.
Que tal almoarmos amanh. Continuava preocupado com ela, queria ter a certeza de que estava bem, depois de tudo o que lhe contara. Alm disso, gostava dela
Adorava aceitou Maddy sem hesitar.
Poder ento contar-me a sua longa histria. Ardo de curiosidade! Combinaram o stio e Maddy sorria ao desligar. Pouco depois foi tratar do cabelo e da maquilhagem.
Aps as emisses, que correram bem, encontrou-se com Jack na recepo. Ele falava ao telemvel e a conversa continuou at meio caminho de casa. Quando o marido finalmente 
desligou, Maddy no abriu a boca.
Ests muito sria esta noite comentou ele, distraidamente. No fazia a mnima ideia de que a mulher se encontrara com Lizzie e ela no aflorou o assunto at chegarem 
a casa e Jack se pr a revistar a cozinha  procura de qualquer coisa para comer. Tinham combinado no ir jantar fora e nenhum deles estava com grande apetite
Aconteceu alguma coisa de especial hoje? perguntou ele, acidentalmente. Com Maddy, o silncio era muitas vezes sinal de algo importante de que ela queria falar. 
Maddy olhou-o, e assentiu com um gesto da cabea. Estivera a tactear no escuro, na busca das palavras certas, e por fim decidiu ir directa ao assunto
Porque no me disseste que recebeste a visita da minha filha? Os seus olhos no se despegaram dos dele ao fazer a pergunta, pelo que pde ver a frieza e a dureza 
transformando-se numa brasa ardente rapidamente ateada pela raiva
Porque no me disseste que tinhas uma filha? retorquiu ele, igualmente brusco. Quantos outros grandes segredos me ters escondido, Mad? Este  enorme. Sentou-se 
 mesa da cozinha com uma garrafa de vinho, serviu-se de um copo mas no ofereceu outro a Maddy.
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Devia ter-te contado, mas no queria que ningum soubesse. Aconteceu dez anos antes de te conhecer e tudo o que eu pretendia era atirar o caso para trs das costas. 
Como sempre, era sincera com ele. O seu nico pecado fora uma omisso, no uma mentira.
 engraado como as coisas ressurgem s vezes, no ? Pensavas que te livraras dela e ei-la que salta como uma pulga indesejada! Doeu-lhe ouvi-lo falar assim. Lizzie 
era uma rapariga formidvel e Maddy j se sentia sua protectora.
No precisas de a tratar assim, Jack.  uma boa mida. No  culpa sua eu t-la tido aos quinze anos e desistido dela. Parece uma pessoa decente.
Como raio sabes? Cuspia fogo, Maddy quase se sentindo atingida pelas labaredas. Pode estar a dar uma entrevista ao Enquirer esta noite. Podes ver-lhe a cara na televiso 
amanh, a falar da sua famosa mam que a abandonou. Montes de pessoas fazem isso. Nem sequer sabes se  autntica, por amor de Deus! Pode ser uma fraude. Pode ser 
uma data de coisas, e provavelmente , tal como a me. O rebaixamento final: ela seria "lixo, to m como a me". Maddy captou claramente a implicao e pensou de 
imediato na Dra. Flowers. Este era o gnero de agresso de que haviam falado, sub-reptcio, malvolo, com o intuito de amesquinhar.
 parecida comigo, Jack. Seria difcil reneg-la proferiu Maddy calmamente, sem se dar por atingida por nenhum dos seus insultos, numa tentativa de se limitar a 
factos e mais nada.
Qualquer provinciana do Tennessee se parece contigo. Ests convencida de que ter cabelo preto e olhos azuis  raro? So todas semelhantes a ti, Maddy. Tu no s 
especial. Maddy ignorou mais este comentrio desagradvel.
O que eu pretendo saber de ti  porque me ocultaste que a viste. Guardaste o facto na manga para qu? Para o momento em que mais a atingisse, calculou, quando mais 
a abalasse e chocasse.
Estava a tentar proteger-te do que julguei ser uma chantagem. Ia investig-la antes de te falar no assunto. Parecia razovel, e cavalheiresco, mas a mulher conhecia-o 
bem.
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 Muito simptico da tua parte. Agradeo-te. Teria todavia gostado de ser informada logo que a conheceste.
Lembrar-me-ei disso da prxima vez que um dos teus filhos bastardos aparecer. A propsito, quantos so? Maddy no se dignou responder-lhe.
Foi bom v-la,  um amor de rapariga. Da sua voz desprendia-se tristeza e melancolia.
O que queria de ti? Dinheiro?
Apenas conhecer-me. Passou trs anos  minha procura. Eu levei a vida inteira a pensar nela.
Que comovente! Ela vai voltar, vai perseguir-te, garanto-te eu. E no vai ser uma histria bonita acrescentou cinicamente, servindo-se de outro copo de vinho e fitando-a, 
enfurecido.
Pode ser.  muito humano. So coisas que acontecem s pessoas.
No s pessoas honestas, Mad. Acentuava as palavras, aprofundava a ferida. No acontece s mulheres honestas. No andam para a a ter filhos aos quinze anos e a 
larg-los  porta da igreja como se fossem lixo. Ouvi-lo a dizer aquelas palavras atingiu-a at ao mago.
No foi assim. Talvez te interesse ouvir a histria toda? Devia-lhe pelo menos isso, era o seu marido e sentia-se culpada por nunca lhe ter contado.
No, no interessa, s quero saber o que vamos fazer quando a notcia estourar e tu fores vista como uma mulher sem princpios na televiso nacional. Tenho uma emisso 
com que me preocupar e uma estao televisiva.
Penso que o pblico vai compreender. Tentava manter a sua dignidade, pelo menos exteriormente, mas, por dentro, Jack marcara-a. Doa-lhe a alma perante o retrato 
por ele pintado. Ela no  uma assassina, por amor de Deus, e eu tambm no.
No, apenas uma prostituta. Miservel lixo branco. Eu no andava muito longe da verdade, pois no?
Como  possvel dizeres-me coisas dessas? Encarava-o, com o medo estampado nos olhos, mas Jack manteve-se impassvel. Queria feri-la. No sabes a que ponto me magoas?
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 para magoar. No podes estar orgulhosa de ti e, se ests, s maluca. Talvez tambm o sejas, Mad. Mentiste-me, a ela abandonaste-a. O Bobby Joe sabia? Sabia, sim. 
Mas no tempo do Bobby Joe, o facto era muito mais recente. Talvez fosse por isso que te chegava a roupa ao plo. Explica-se. Omitiste essa parte quando te queixaste 
dele. Agora, no sei bem se o censuro. Isso  nojento! No me interessa o que fiz. No mereci o modo como ele me tratou, e no o mereo agora. No ests a ser justo, 
e sabes que no ests. Mentir-me acerca dela tambm no foi. Como achas que me sinto? s uma pega, Mad, uma cadela rafeira. J devias andar a fornicar a torto e 
a direito aos doze anos. Fico a imaginar o que s agora.  como se nem sequer te conhecesse. s injusto! Ele afastara por completo o problema de no lhe ter falado 
no encontro. Eu tinha quinze anos, e fiz mal, mas foi horrvel ter-me acontecido. Nunca nada na minha vida foi to triste ou to doloroso. Nem os pontaps que levei 
do Bobby Joe. Quando a deixei, despedaou-se-me o corao. Diz-lhe isso a ela, no a mim. Talvez possas compens-la com um cheque. Mas no tentes servir-te de dinheiro 
meu. Vou ficar atento.
Nunca me servi do teu dinheiro para nada gritou-lhe. Sirvo-me do meu, para tudo o que fao acrescentou, orgulhosa.
Uma gaita! Quem pensas que paga o teu ordenado? Tambm  dinheiro meu retorquiu Jack, complacente.
Ganho-o.
Uma ova  que o ganhas. s a apresentadora mais bem paga do ramo.
No!  o Brad, e ele vai atirar de pantanas as tuas emisses. Mal posso esperar para ver.
E quando atirar, menina, tu vais tambm. De facto, atendendo a como te tens portado ultimamente e me tens tratado, eu diria que os teus dias esto contados. No 
vou manter no ar a tua trampa por muito mais tempo. Por que
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raio o faria? Posso correr-te daqui quando me apetecer. No vou ficar quietinho enquanto tu me mentes, me roubas, me atormentas. Santo Deus, mulher, nem posso acreditar 
quanto me agrides. Ouvi-lo deixou-a estupefacta. Ele era o agressor e pretendia ser a vtima. A Dra. Flowers, porm, alertara-a para essa tcnica, alis muito eficaz. 
A despeito do que sabia e sentia, ele fazia-a achar-se culpada, punha-a na defensiva. E para que fique bem claro, no tentes trazer a tua fedelha para perto. Provavelmente 
 uma prostituta, como a me.
 minha filha! gritou-lhe Maddy, totalmente frustrada. Tenho o direito de a ver se quiser, e eu moro aqui.
S enquanto eu to permitir, no o esqueas. E dito isto, levantou-se e saiu da cozinha. Maddy ficou em p, ofegante. Esperou at o ouvir a subir as escadas, depois 
fechou silenciosamente a porta da cozinha e ligou para a Dra. Flowers. Contou-lhe tudo o que se passara, acerca de Lizzie a ter encontrado, de Jack no lhe ter dito 
que a rapariga a procurara e da sua terrvel fria por ela lhe ter mentido.
E como se sente voc, Maddy? Neste momento. Honestamente. Pense bem.
Sinto-me culpada. Devia ter-lhe contado. E nunca devia t-la abandonado.
Acredita em todas as coisas que ele diz que voc ?
Nalgumas.
Porqu? Se fosse ele a ter um caso igual ao seu, perdoava-lhe?
Sim. A resposta foi instantnea. Acho que compreenderia.
Ento por que razo no pode ele proceder de igual modo para consigo?
Porque ele no presta respondeu Maddy, atenta  cozinha e  Dra. Flowers.
 uma maneira de ver. Mas voc no. E esse o ponto. Voc  uma boa pessoa a quem aconteceu uma coisa muito triste, uma das piores coisas que pode acontecer a uma 
mulher, ter de desistir de um beb. Consegue perdoar a si prpria por isso?
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Talvez. Com o tempo.
E quanto s coisas que o Jack lhe disse Acha que as merece?
No.
Pense no que ele diz a seu respeito. Preste ateno ao que ele diz a seu respeito, Maddy. Nada  verdadeiro, mas tudo tem como objectivo mago-la, e magoa, o que 
eu compreendo. Maddy ouviu passos no corredor e disse  Dra. Flowers que tinha de desligar, mas pelo menos a mdica abrira-lhe algumas perspectivas. Passado um instante, 
a porta abriu-se e Jack irrompeu com um ar desconfiado.
Com quem estavas a falar? Com o teu namorado?
No tenho namorado nenhum, Jack, e tu sabes que no replicou suavemente.
Ento, quem era?
Uma pessoa amiga.
Tu no tens amigos. Ningum te grama. Era esse mariquinhas negro de que tanto gostas? Maddy estremeceu s palavras de Jack, mas no lhe respondeu. O que tens a fazer 
de melhor  no falar disto a ningum. No quero que ds cabo da minha empresa. Dizes uma palavra sobre o assunto a algum e eu mato-te. Entendes-me?
Entendo respondeu, com os olhos rasos de gua. Jack dissera tantas coisas ofensivas na ltima hora que nem sabia a que a tinha ferido mais. Todas, talvez.
Esperou que ele sasse da cozinha e telefonou para o hotel onde Lizzie se instalara at ao dia seguinte.
Ligou para o quarto dela e um segundo depois Lizzie atendeu. Estivera estendida na cama a pensar em Maddy. Vira-a  noite no noticirio e no conseguia parar de 
sorrir.
Maddy... quero dizer, a me... quero dizer...
A me... est ptimo. Maddy sorriu  voz agora familiar e reparou em como era semelhante  sua. S telefonei para te dizer que gosto muito de ti.
Eu tambm gosto muito de si, me. Soa bem, no soa?
Corriam lgrimas pela cara de Maddy ao responder.
Se soa, minha querida! Telefono-te para Memphis.
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Boa viagem de regresso. No queria que lhe acontecesse nada, agora que se haviam encontrado; quando desligou, sorria. No importava o que Jack lhe dissesse, ou viesse 
a fazer-lhe, j no podia tirar-lha. Depois de tantos anos, e de tantas perdas, era me.
CAPTULO 13
Bill e Maddy encontraram-se no Clube Bombay para almoar. Maddy vestia uma cala e casaco Chanel de linho branco, trazia os culos escuros na cabea e uma mala de 
palha ao ombro. Parecia sada de um anncio evocando os prazeres do Vero, e Bill mostrou-se feliz ao v-la Elegante e bronzeado, o seu cabelo branco contrastava 
fortemente com os olhos azuis e o rosto queimado pelo sol. De p, contemplava Maddy a encaminhhar-se na sua direco. Parecia bastante mais feliz do que na ltima 
vez em que a vira, o que lhe deu prazer
Encomendou vinho branco para ambos, tagarelaram uns minutos antes de consultar a ementa. Estavam no restaurante vrios polticos de renome e um juiz do Supremo Tribunal, 
que Bill conhecia dos seus tempos de Harvard
Est muito alegre hoje. Sorriu-lhe. As coisas acalmaram um pouco na frente matrimonial?
No diria isso, mas a doutora Flowers tem sido uma grande ajuda, e aconteceu-me uma coisa maravilhosa. De cada vez que se encontrava com ela, por uma ou outra razo, 
receava ouvi-la dizer-lhe que estava grvida. No percebia porque  que isso o aborrecia tanto, mas, agora que sabia mais acerca de Jack, menos queria que ela ficasse 
presa na armadilha daquele casamento E seria certamente essa a consequncia de um beb
Voc tocou nesse assunto ontem. Posso perguntar, ou  altamente secreto?
Ela riu-se
Acho que a sua rea de segurana  adequada, embaixador Alm disso, confio em si, mas sim,  um segredo
No vai ter um beb, Maddy, pois no? Fez a pergunta em voz baixa, mostrando-se apreensivo, e ela sorriu  maneira de Mona Lisa, enquanto um estremecimento de inquietao 
o percorria
Tem graa voc falar nisso. A resposta convenceu-o imediatamente. Acertara. O que o levou a fazer-me tal pergunta?
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No sei. S um pressentimento. Quando a vi a ltima vez na comisso, voc quase desmaiou. E uma coisa que disse ontem alertou-me. No tenho a certeza de que seja 
assim uma notcia to boa para si. Um filho decerto a amarrar ao seu casamento com um marido agressivo. Ento,  isso. Parecia desapontado mas resignado e surpreendeu-se 
quando ela abanou a cabea, negando
No, no estou grvida. De facto, no posso ter filhos. Era engraado falar-lhe de assuntos semelhantes, mas na sua companhia sentia-se perfeitamente descontrada. 
Tal como se sentira com Greg quando se conheceram mas, por razes diferentes, era total o seu -vontade com Bill E agora que o pusera a par da sua situao com Jack, 
confiava implicitamente nele para lhe contar os seus segredos e sabia, por instinto, que ele no a trairia
Lamento, Maddy, sei que deve ser um grande desgosto para si
, ou pelo menos era Mas no tenho o direito de me queixar. Foi uma opo. Fiz laqueao das trompas, a pedido do Jack, quando nos casmos. Ele no queria mais filhos. 
Bill gostaria de dizer que isso era egosmo da parte dele, mas absteve-se de comentar. Mas, ontem, aconteceu uma coisa extraordinria. Sorriu-lhe por cima do copo 
de vinho e seria difcil Bill ignorar a que ponto era bonita. Um raio de sol. Durante meses, andara deprimido pela morte da esposa, e ainda lutava com o facto Mas, 
sempre que via Maddy, sentia-se feliz, e apreciava a amizade entre ambos. Lisonjeava-o a confiana que Maddy lhe demonstrava e a franqueza com que falava de coisas 
sobre as quais suspeitava, no falava com mais ningum E no se enganava
No aguento o suspense. O que foi?
Olhe, no sei se comece pelo princpio ou pelo fim. Hesitava, e ele riu-se. Adivinhava que era algo que lhe dera enorme prazer
Comece pelo meio se quiser, mas conte-me.
Est bem, est bem. Talvez pelo princpio. Tentarei ser breve. Aos quinze anos, eu j andava envolvida com O Bobby Joe, com quem vim a casar-me depois de acabar 
o curso. Ele deixou-me algumas vezes, e uma noite fui a uma
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festa com outro rapaz. Hesitou e franziu o sobrolho. Jack tinha razo. Contasse a coisa como contasse, soava a leviandade, e era fcil imaginar o que Bill pensaria 
dela. No queria desculpar-se perante ele, mas foi com ansiedade que o olhou.
O que h?
No vai pensar grande coisa a meu respeito quando eu continuar. E isso contrariava-a mais do que julgara quando dera incio  sua histria, que j nem sabia se devia 
ter comeado.
Deixe-me ser eu a julgar. Penso que a nossa amizade sobreviver.
O seu respeito por mim talvez no.. Mas arriscava correr o risco. Tinha muito boa opinio dele e estava disposta a expor-se, para partilhar o segredo. Bem, sa com 
outra pessoa. E no devia., mas dormi com ele. Era um rapaz muito meigo, bonito, simptico. No estava apaixonada mas encontrava-me s e confusa, e lisonjeada pela 
ateno que ele me dispensava
No tem que se defender, Maddy interrompeu-a Bill docemente, est tudo certo. Sou um menino crescido, aguento. Ela sorriu-lhe, grata. Que diferente ser tratada pelo 
marido como cadela e prostituta... "O miservel lixo branco!"
Obrigada. Esta foi a confisso nmero um. A nmero dois,  que engravidei. Tinha quinze anos e o meu pai quase me matou. Eu era pobre. Provavelmente teria tido de 
passar por aquilo de uma forma ou de outra, mesmo se tivesse pensado nisso mais cedo.
Teve o beb? Estava espantado, mas no formulava juzos de valor. Havia uma grande diferena, de que Maddy estava consciente.
Tive o beb. Embora at ontem, quase ningum soubesse disso. Fui passar cinco meses a outra cidade, andei l no liceu, e tive o beb. Uma menina... Sem querer, encheram-se-lhe 
os olhos de lgrimas. S a vi uma vez e deram-me uma fotografia quando sa do hospital. Foi tudo o que sempre tive dela e acabei por deit-la fora com medo de que 
o Jack a encontrasse. Nunca lhe contei. Dei-a para
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adopo e fui para casa, como se nada se tivesse passado. O Bobby Joe sabia, mas no ligou, e voltmos a andar juntos.
O pai do beb envolveu-se no caso?
No, eu disse-lhe que estava grvida mas ele no quis saber de nada. Os pais dele eram donos de uma loja de ferragens e acharam que ns no valamos nada, e em minha 
opinio no valamos. Convenceram-no de que provavelmente o filho era de outro qualquer. No creio que acreditasse neles, mas assustou-o de morte enfrent-los, e 
eu mal o conhecia. Telefonei quando o beb nasceu. Nunca retribuiu o telefonema. E trs semanas mais tarde, morreu num acidente, numa coliso frontal. Penso que 
nem soube da existncia da beb. Eu nunca soube quem a adoptou prosseguiu em voz ansiosa. Contar-lhe era mais difcil mas tambm mais emocionante do que supusera; 
por baixo da mesa, Bill pegou-lhe na mo, encorajador. No fazia ainda a mnima ideia do que estava para vir. Apenas sabia ser qualquer coisa que ela achava que 
deveria contar-lhe. Nesse tempo, os registos de adopo eram selados e no havia a mais pequena esperana de o descobrir, por isso nunca tentei. Casei com o Bobby 
Joe depois de acabar o liceu e, passados oito anos, deixei-o. Divorciei-me e casei com o Jack. E sei que cometi um erro, mas nunca lhe contei. Porque no consegui. 
Tinha medo de que ele no me amasse se eu lhe contasse... De novo ficou banhada em lgrimas e o criado que esperava a encomenda manteve uma distncia discreta. Nunca 
lhe contei repetiu ela. Era um momento do meu passado que eu prpria tentava esquecer. No aguentava pensar nisso. Ao ouvi-la, humedeceram-se os olhos de Bill. E 
ontem... Sorriu atravs das lgrimas que lhe escorriam pela cara e apertou a mo do amigo. Ontem, ela entrou no meu gabinete.
Quem? Tinha medo de pronunciar a palavra. Embora quase adivinhasse, afigurava-se-lhe demasiado extraordinrio para ser possvel. Coisas daquelas s aconteciam em 
livros e filmes.
A minha filha. Chama-se Lizzie esclareceu Maddy, orgulhosa. Levou trs anos a encontrar-me. O casal que a adoptou morreu passado um ano e ela foi parar a um orfanato
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estatal em Knoxville, onde eu vivia, mas sem saber de nada. Pensava que ela estava bem. Quem me dera ter sabido acrescentou, melanclica; mas pelo menos agora tinham-se 
reencontrado. De momento, era tudo o que interessava. Andou por lares de acolhimento todo este tempo e est com dezanove anos. Vive em Memphis. Estuda e trabalha 
como criada e  linda. Espere at a conhecer! Passmos cinco horas juntas, ontem; regressou hoje a Memphis, mas no vou tardar a traz-la de volta. No lhe disse 
nada, mas gostava que ela vivesse aqui, se quiser. Telefonei-lhe a noite passada.. Apertava-lhe fortemente a mo, enquanto a voz lhe ia falhando por completo. E 
ela chamou-me.. mezinha.. Tambm Bill reforou o seu aperto de mo. Era uma histria espantosa, tocava-lhe o corao.
Mas como deu ela consigo? Admirava a sinceridade de Maddy e o desfecho da histria. O proverbial happy end
No sei bem. Limitou-se a procurar. Acho que voltou a Gatimburg, a cidade onde nasceu, para ver se algum se lembrava de alguma coisa. Tinha a minha idade na sua 
certido de nascimento e foi s escolas locais, at encontrar um professor que se recordava. Disseram-lhe que o meu nome era Madeleine Beaumont, e tenho a impresso 
de que se lembravam bem. O espantoso  ningum ter ligado essa pessoa a Maddy Hunter. Mas a verdade  que passaram quase vinte anos e no deve haver grande semelhana 
entre as duas. Lizzie, porm, chegou a uma concluso ao ver-me nos noticirios. Nunca falei muito de mim publicamente. No tinha muito de que me orgulhar. De facto, 
com a ajuda de Jack, envergonhava-se profundamente do seu passado
Tem, sim, tem muito de que se orgulhar protestou Bill calmamente, e fez sinal ao criado para que os deixasse a ss mais uns minutos
Obrigada, Bill. Seja como for, parece que regressou a Chattanooga e no sei como descobriu o que mais ningum descobrira. Diz que me v nos noticirios e leu algures 
que o meu apelido de solteira era Beaumont.  uma leitora voraz. O orgulho transparecia na sua voz e Bill sorriu. De repente, era uma me Com dezanove anos de atraso, 
mas mais
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valia tarde do que nunca E a filha surgira no momento certo. Foi aos estdios e tentou falar comigo. Neste ponto do relato, o rosto de Maddy ensombrou-se. Em vez 
disso, mandaram-na ir ter directamente com o Jack. Ele montou um esquema disparatado qualquer, o qual envia para ele as pessoas que perguntam por mim. Diz que  
uma espcie de filtragem, para minha proteco, mas agora apercebo-me de que tem a ver com o facto de me controlar, a mim e as pessoas que acha que eu devo ou no 
devo receber. Mentiu-lhe, disse-lhe que o meu apelido de solteira era Beaumont, e que eu no era de Chattanooga E no sei se ela no acreditou ou se apenas  to 
obstinada como eu, mas ontem arranjou maneira de se introduzir no edifcio, fingindo que ia distribuir donuts, e entrou no meu gabinete. No primeiro momento, pensei 
que ia atacar-me. Tinha uma expresso estranha e estava muito nervosa. Ento, contou-me E pronto. Agora, tenho uma filha. Sorriu-lhe abertamente. Era demasiado bom 
para crer, demasiado maravilhoso para resistir, ao v-la sorrir-lhe, e Bill limpou lgrimas dos seus prprios olhos
Mas que histria! Ocorreu-lhe ento uma pergunta. O que disse o Jack a tudo isso? Presumo que voc lhe contou
Contei, e, quando lhe perguntei porque no me dissera nada, respondeu-me que pensara tratar-se de uma intrujice e que a rapariga estava a tentar chantagear-me. Mas 
foi muito mais loquaz quanto ao facto de eu lhe ter escondido o caso. Estava lvido, e com razo. Foi errado da minha parte, eu sei. Andava aterrorizada, se  que 
isso  uma desculpa. E alis talvez tivesse razo, porque agora ele chama-me desavergonhada e prostituta, e ameaa despedir-me. No quer participar em nada. Mas 
eu no vou deix-la escapar, uma vez que a encontrei
Claro que no. Como  ela? To bonita como a me.
Muito mais. Bill, ela  esplndida, e to meiga, to amorosa. Nunca teve um verdadeiro lar, ou uma me. H tantas coisas que quero fazer por ela. Bill s esperava 
que Se tratasse de uma pessoa to decente quanto Maddy imaginava. Mas quer o fosse quer no, percebia que Maddy a queria
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integrar na sua vida. O Jack diz que no a deixa ir l para casa. Est preocupado com o escndalo e com o impacto na minha imagem se vier a saber-se.
E voc?
Nada. Cometi um erro. Acontece a qualquer um, creio que as pessoas compreendero
Para a opinio geral, julgo que ser mais positivo do que negativo. Mas acho que h consequncias muito mais importantes a considerar,  uma histria muito tocante
E a melhor coisa que alguma vez me aconteceu. No mereo tanta felicidade
Ah, merece, sim. J contou  doutora Flowers?
Ontem  noite. Ficou muito excitada, por mim
No me surpreende, Maddy Tambm eu o estou,  uma bela prenda, e voc merece-a. Seria uma tragdia para si nunca na vida ter filhos e a rapariga tem direito a uma 
me
Ela est to feliz como eu
A propsito, no me surpreende a reaco do Jack,  um autntico safado para si em todas as oportunidades. As coisas que lhe disse so imperdoveis, Maddy. Est 
a amea-la e a tentar que se sinta culpada Disso no tinha dvidas, e ambos o sabiam
Encomendaram ento o almoo e continuaram a conversar. A tarde foi correndo, nem dando pelas horas. J eram duas e meia
O que vai voc fazer? perguntou-lhe, sinceramente interessado. Maddy tinha decises a tomar, e apenas algumas delas incluam a filha recm-encontrada. Continuava 
a ter um marido agressivo contra o qual devia lutar e que no ia desaparecer por magia
Ainda no sei. Acho que daqui a umas semanas vou a Memphis v-la. Gostava que ela pedisse a transferncia para a universidade daqui
Talvez eu possa ajud-la. Diga-me quando chegar a altura
Obrigada, Bill. Primeiro, tenho de me ocupar do Jack. Ele est em pnico com um eventual escndalo nos jornais
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E da? Voc rala-se realmente com isso? A pergunta de Bill era lgica, e ela abanou a cabea ao pensar no assunto.
Acho que apenas me ralo com a reaco do Jack. Vai torturar-me. Ambos sabiam que era verdade, e Bill temia o efeito que tal teria em Maddy.
Bem gostava de no ir amanh para Vineyard. Posso ficar c, se voc quiser, mas no sei bem o que fazer para o levar a comportar-se correctamente. Continuo a pensar 
que a nica soluo para si  deix-lo.
Eu sei. Mas a doutora Flowers e eu concordmos em que ainda no estou pronta. Devo-lhe tanto, Bill.
A doutora Flowers tambm concorda com isso? Maddy sorriu timidamente perante o seu tom de voz, que exprimia dvida.
No, no concorda. Mas compreende que eu no possa ainda deix-lo.
No espere de mais, Maddy. Um dia destes, o seu marido vai mago-la a valer. Pode no o satisfazer agredi-la apenas emocionalmente e aumentar a parada.
Na opinio da doutora Flowers, ele vai ficar pior  medida que eu me tornar mais independente.
Ento, porqu ficar? No faz sentido arriscar-se ao que poder acontecer-lhe. Maddy, voc tem de se afastar rapidamente. O extraordinrio  que ela era bonita, com 
um bom emprego, inteligente, o tipo de mulher que todas as outras mulheres do pas invejavam e quereriam ser. Tanto quanto julgavam saber, era o prottipo da independncia 
e tinha os recursos necessrios para escapar a uma m situao. Mas aquele gnero de agresso era algo mais complicado, como Maddy sabia muito bem e Bill comeava 
a compreender. Era como um buraco coberto de alcatro, cheio de culpa e terror, que a mantinha paralisada, incapaz de fugir, embora toda a gente pensasse que lhe 
era possvel faz-lo. Movia-se ao retardador, mas fizesse o que fizesse no conseguia andar mais depressa. Tinha a sensao de dever a sua vida a Jack. O que Bill 
receava, ao observ-la, era que Jack a magoasse tanto fsica como emocionalmente, sobretudo se deixasse de poder control-la. Ela prpria tinha conscincia disso, 
s que
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estava ainda demasiado assustada para agir. Levara-lhe oito anos a escapar-se de Bobby Joe, e a nica esperana de Bill era que desta vez no esperasse de mais.
Telefona-me para Vineyard, Maddy? Vou andar terrivelmente assustado por sua causa. Era verdade; ultimamente no conseguia afast-la dos seus pensamentos, mais do 
que alguma vez esperava. Ainda lamentava a perda da esposa, e a sua lembrana obcecava-o enquanto terminava o livro que sobre ela escrevera. Todavia, nos ltimos 
tempos, distraa-se muito mais e por vezes, ao pensar em Maddy, sentia-se alegre. Eu telefono-lhe para o trabalho. Receava ligar-lhe para casa e acrescentar o cime 
s armas de que Jack se servia para a atormentar.
Eu ligo-lhe. Prometo. Fico bem aqui. Tenho imenso que fazer e provavelmente vamos passar uns dias  Virgnia. Adorava que a Lizzie tambm fosse, mas no creio que 
o Jack o permita.
Tudo o que desejo  v-la fora dessa embrulhada replicou ele, inflexvel. No tinha nenhum interesse pessoal no caso, nenhum envolvimento romntico com Maddy Mas, 
como qualquer ser humano ao ver outro torturado, sentia-se angustiado e furioso, ansiando fazer qualquer coisa para a ajudar. s vezes, recordava-lhe os meses infindveis 
em que a sua mulher fora refm. Aguardava constantemente notcias dela, frustrava-o o facto de no poder fazer nada para a libertar. Fora o que acabara por lev-lo 
a agir por conta prpria. E a sua ingenuidade, matara-a, ou pelo menos achava-se responsvel pela sua morte. De certa forma, as duas situaes assemelhavam-se dolorosamente. 
Quero que seja muito cuidadosa advertiu-a ao deix-la no carro, junto ao restaurante. No faa nada que a ponha em perigo. Pode no ser este o melhor momento para 
o enfrentar. No tem de provar nada, Maddy. No tem de obter o assentimento dele. Tudo o que tem a fazer  pr-se a andar, mal se sinta pronta para isso. Ele no 
vai libert-la, tem que ser voc a libertar-se, e fuja a sete ps at chegar  meta.
Eu sei. Deixei a minha aliana na mesa da cozinha e fugi a sete ps no dia em que abandonei o Bobby Joe. Levou-lhe meses a descobrir-me e j ento o Jack tratara 
de
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tudo. Tive mais segurana do que o papa, nos meus primeiros meses na estao.
Pode ter de voltar a passar pelo mesmo durante algum tempo. Olhou-a longa e penetrantemente, ambos ao p do carro dela. No quero que ele a magoe. Ou pior, que a 
matasse se perdesse a cabea, pensou, mas no lho disse. Julgava-o capaz disso. Era um homem sem tica e sem alma. Na opinio de Bill, um psicopata, um homem sem 
conscincia. Cuide de si... Sorriu-lhe, a pensar na filha dela. Mezinha... Gosto de a ver no papel de me. Fica-lhe bem.
Tambm eu gosto.  um sentimento fantstico. Endereou-lhe um sorriso rasgado.
Goze-o. Voc merece. Deu-lhe ento um caloroso abrao, continuando parado  beira do passeio quando ela se afastou. Duas horas mais tarde, chegou ao escritrio de 
Maddy um enorme ramo de flores, todas elas em tons suaves de rosa, com bales cor-de-rosa e um ursinho de peluche tambm rosa. No carto lia-se: "Parabns pela sua 
nova filha. Com ternura, Bill." Maddy meteu o carto numa gaveta e sorriu ao olhar para as flores. Um gesto amoroso, que a tocou. Ligou para lhe agradecer mas ele 
ainda no estava, pelo que lhe deixou uma mensagem no atendedor, agradecendo-lhe e expressando-lhe toda a sua amizade.
Sorria ainda por causa das flores e do almoo com Bill, quando uma hora mais tarde Jack entrou no seu gabinete.
Que raio  isto? berrou, furioso, ao ver os bales cor-de-rosa e o urso. Era fcil imaginar a razo de ser de tais objectos.
Uma brincadeira. No  importante.
Uma gaita  que no . Quem mandou esta tralha? Procurou um carto mas no encontrou nenhum, enquanto ela tentava freneticamente inventar um nome.
So da minha psicoterapeuta respondeu gentilmente, dando-se conta de que tambm no era a resposta correcta. Fizera psicoterapia h uns anos e Jack obrigara-a a 
desistir. Sentira-se ameaado e argumentara que o psiquiatra era incompetente. Acabara por ser fcil deixar de o consultar. 
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Percebia agora que tudo fazia parte do plano de Jack para a isolar.
Quando recomeaste com isso?
Na realidade,  apenas uma amiga. Conheci-a na Comisso de Violncia contra as Mulheres.
Poupa-me. O que  ela? Uma espcie de filo para mulheres que querem libertar-se?
Tem cerca de oitenta anos... com filhos e netos.  uma mulher com muito interesse.
Aposto que . Deve ser senil. Seja como for, se desatas a abrir a boca a torto e a direito, Maddy, no vais tardar a ler a tua histria nos jornais. E espero que 
te divirtas quando tal acontecer, porque perders o emprego enquanto o diabo esfrega um olho. Por isso, se eu fosse a ti, mantinha o bico calado. E diz a essa prostitutazinha 
de Memphis que tambm no abra o dela, ou eu lixo-a com um processo por difamao.
No seria difamao se declarasse que  minha filha retorquiu Maddy, fingindo-se mais calma do que estava.  a verdade. E ela tem o direito de a dizer Mas prometeu-me 
que no o far. E no lhe chames prostitutazinha, Jack.  minha filha. Pronunciou as palavras clara e delicadamente, e ele voltou-se para a olhar com uma expresso 
maldosa.
No me digas o que devo fazer, Maddy. Lembras-te? Eu sou o teu dono.
Ia responder-lhe quando a secretria entrou no gabinete; decidiu calar-se. Mas era essa a chave do problema. Jack acreditava que a possua. E durante os ltimos 
nove anos ela deixara-o pensar assim, porque tambm ela acreditava nisso Porm, acabara. Ainda no tivera nimo para agir, mas pelo menos o seu esprito aclarava-se 
Uns minutos depois ele saiu, de volta ao seu gabinete.
Quase no mesmo momento, tocou o telefone. Era BillOuvira a mensagem dela e estava satisfeito.
Adoro as flores! Sorria, apenas levemente abalada pela visita do marido. Regozijava-se por lhe ter ocorrido tirar o carto, sem o que se teria visto numa situao 
muitssimo
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pior. Foi to gentil da sua parte! Obrigada, Bill. E tambm pelo almoo.
J sinto a sua falta disse ele, numa voz de jovem, um pouco desajeitadamente. Durante anos no mandara flores a ningum excepto  esposa, mas quisera festejar o 
reaparecimento da filha de Maddy. Sabia quanto isso significava para ela e emocionava-o profundamente o que ela lhe contara e a confiana que lhe demonstrara. Nunca 
a trairia. Tudo o que queria era ajud-la. Agora, eram amigos. Vou ter saudades suas enquanto estiver fora. Era engraado, ambos o reconheceram. Tambm Maddy sabia 
que ele iria fazer-lhe falta. Contava com ele, ou no mnimo gostava de sab-lo perto, embora no se vissem com frequncia. Tinham comeado a falar-se diariamente. 
Pelo menos isso podiam continuar a fazer durante a estada em Vineyard, excepto aos fins-de-semana, em que ele no podia telefonar-lhe por razes bvias. Era demasiado 
perigoso para ela. Volto dentro de duas semanas, Maddy. At l, tente ser cuidadosa.
Tento. Prometo. E divirta-se com as crianas.
Estou desejoso de conhecer a Lizzie. Era como se uma grande parte de Maddy tivesse sido devolvida, uma parte que ela quase se esquecera que lhe faltava. Nunca se 
dera conta de como era grande essa parte que lhe fora arrancada Agora que a tinha de volta, sabia-o de alma e corao.
Vai conhec-la em breve, Bill. Cuide de si. Um minuto depois desligaram, e Maddy ficou sentada a olhar pela janela e a pensar em Bill e nas flores que ele lhe mandara. 
Era um homem encantador e um bom amigo, fora uma sorte t-lo conhecido. A vida s vezes era engraada: as coisas que nos tirava, aquelas que nos oferecia. Ela perdera 
tanto na vida, e depois encontrara outras pessoas, outros lugares, outras coisas. Sentia-se finalmente em paz com o passado. Tudo o que faltava era garantir a segurana 
do futuro. S esperava que o destino voltasse a ser-lhe favorvel.
E na sua casa em Durbarton Street, tambm Bill olhava pela janela. Mas as suas preces por Maddy eram mais especficas. Pedia estabilidade para ela. Todas as fibras 
do seu corpo lhe diziam que Maddy corria perigo. Muito mais do que podia imaginar.
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CAPTULO 14
Durante as duas semanas em que Bill esteve fora, tudo foi bastante pacfico para Maddy. Ela e Jack tiraram uma semana de frias e foram para a Virgnia, ele muito 
mais bem-disposto. Gostava dos seus cavalos e da sua fazenda; voou vrias vezes at Washington para se encontrar com o presidente, por diversas razes E quando ele 
se ausentava, ou cavalgava pelas redondezas, Maddy telefonava a Bill para Vineyard. Antes disso, era ele quem lhe ligava diariamente para o trabalho.
Como se tem ele portado? perguntava-lhe, preocupado
Est tudo bem tranquilizava-o ela. No andava contente, mas tambm no estava em perigo. Jack modificava-se sempre aps os perodos em que era particularmente agressivo 
Como se quisesse provar que tudo no passava de imaginao dela. Como a Dra. Flowers sublinhara, era um esquema clssico, semelhante ao do filme Meia Luz, para que 
ela no apenas parecesse, mas se sentisse louca se se queixasse do comportamento do marido. E era assim que estava a agir na Virgnia. Fingia no se importar com 
a existncia da filha, embora tivesse dito a Maddy que achava que ela no devia ir a Memphis Podia ser reconhecida, alis era um stio perigoso E queria-a a seu 
lado Invulgarmente amoroso com ela, meigo, mais civilizado, pelo que as suas reclamaes sobre quanto a magoara em Paris pareciam uma patetice. Mas, agora, Maddy 
no discutia com ele a propsito do que quer que fosse, e a Dra. Flowers advertira-a de que esse facto podia lev-lo a desconfiar. Era, porm, sincera com Bill quando 
lhe dissera que ali se sentia segura.
Como vai o livro? perguntou-lhe Todos os dias ele a punha a par
Acabado respondeu, orgulhoso, no ltimo fim-de-semana de frias Ambos ansiavam por regressar a Washington E a comisso reunia na segunda-feira. Nem acredito
Estou morta por l-lo. 
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No  aquilo a que possa chamar-se uma leitura agradvel.
No espero que o seja, mas tenho a certeza de que  ptimo. Sabia que no tinha esse direito, mas a verdade  que se orgulhava do amigo.
Eu passo-lhe um exemplar mal esteja pronto. Estou ansioso por que voc o leia. E fez-se um estranho silncio. Bill no sabia muito bem o que dizer-lhe, mas pensara 
muito nela, e em constante angstia. Estou impaciente por v-la, Maddy. Tenho andado raladssimo consigo.
No esteja. Eu estou bem. E vou ver a Lizzie no prximo fim-de-semana. Ela vai a Washington para se encontrar comigo. Estou desejosa de vos apresentar. Falei-lhe 
de si.
No imagino o que lhe disse a meu respeito. Parecia embaraado. Ela deve achar-me um monumento pr-histrico e no sou muito excitante.
Para mim, .  o meu melhor amigo, Bill. Estava mais apegada a ele do que a qualquer outra pessoa h anos, excepto Greg, que tinha uma namorada nova em Nova Iorque 
e mesmo assim lhe telefonava sempre que conseguia. Mas ambos haviam percebido que, quando era Jack a atender as chamadas, as suas mensagens nunca lhe eram transmitidas. 
E quando atendia e ela estava ao p, nunca lhe passava o telefone. Ela e Bill eram mais cautelosos quanto s horas e circunstncias dos telefonemas que trocavam.
Voc tambm  muito especial para mim respondeu Bill, sem encontrar outras palavras. Confundiam-no os seus prprios sentimentos: parte filha, parte amiga, parte 
mulher, em combinaes alternadas. E Maddy sentia o mesmo em relao a ele. s vezes parecia-lhe um irmo, outras vezes estarreciam-na as sensaes que lhe provocava. 
Nenhum deles tentara nunca abordar o assunto com o outro. Vamos almoar na segunda-feira, antes da comisso? Pode?
Com todo o prazer.
Mais confusa ainda ficou com a gentileza de Jack durante o ltimo fim-de-semana que passaram na Virgnia. Trouxe-lhe flores do jardim, o pequeno-almoo  cama, passearam 
juntos, afirmou-lhe quanto era importante para ele. E quando agora faziam amor era mais meigo e doce do que alguma
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vez fora. Como se as agresses anteriores no passassem de um fragmento da sua imaginao. Voltou a sentir-se culpada pelas coisas que dissera dele a Bill, a Greg 
e  Dra. Flowers; queria corrigir a impresso que lhes transmitira sobre o seu marido, agora to afectuoso. Comeava a pensar se no seria tudo por culpa sua. Talvez 
s visse o pior dele. Quando queria, e quando ela era amvel com ele, Jack era uma pessoa incrivelmente agradvel.
Tentou explicar isso  Dra. Flowers na manh em que regressaram a casa, e achou a mdica insensvel quando esta a advertiu:
Tenha cuidado, Maddy. Veja o que anda a fazer. Est a cair de novo na ratoeira. Ele sabe o que voc pensa e quer provar-lhe que est enganada, que vai sentir-se 
culpada. A artimanha afigurou-se-lhe to maquiavlica que teve pena de Jack. Dissera tanto mal do marido que a Dra. Flowers acreditara nela. Mas no falou em nada 
durante o almoo com Bill, com medo de ouvir o mesmo que ouvira da boca da Dra. Flowers. Conversaram sobre o livro dele. J o vendera h meses a um editor, atravs 
de um agente.
Que planos tem para o Outono? perguntou-lhe Bill, desejando que ela lhe dissesse que ia deixar o marido. Mas durante todo o almoo foi coisa que Maddy nunca mencionou 
e parecia mais feliz e mais descontrada do que se habituara a v-la. Dava a impresso de estar tudo a correr bem. Continuava, todavia, preocupado com ela. E tal 
como a Dra. Flowers, receava que Jack estivesse a atra-la de novo para a sua armadilha e a a mantivesse para sempre, alternando agresso e confuso at ela no 
poder aguentar mais. Maddy, porm, no aludiu  hiptese de deix-lo.
Quero tentar voltar a pr o programa nos eixos. As nossas audincias mergulharam de repente. Pensei que fosse por causa do Brad, mas o Jack acha que eu tambm ando 
em baixo e isso se reflecte no meu trabalho. Diz que as minhas peas tm sido autenticamente chatas. Quero descobrir a razo da queda e ver se podemos dar-lhe a 
volta. Como sempre, Jack acusava-a de uma coisa de que no era culpada, suspeitava Bill, e ela estava mais do que predisposta a dar-lhe ouvidos. No que fosse estpida. 
O que andava era hipnotizada 
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Ele era infinitamente convincente. A menos que algum que conhecesse o padro, era difcil que os estranhos ao crculo ntimo se apercebessem. Quanto a Maddy, estava 
demasiado perto para discernir
Depois do almoo com Maddy, Bill sentiu-se tentado a telefonar  Dra Flowers, mas sabia que, por uma questo de tica, agora que Maddy era sua paciente, a mdica 
no iria discutir o caso com ele, e compreendia-a. S lhe restava ficar quieto a observar os acontecimentos e avanar quando surgisse uma oportunidade de a ajudar. 
De momento, nada havia a fazer. Uma vez mais se recordou de Margaret, dos longos meses de espera para a resgatar e trazer de volta s e salva. Penalizava-o sobretudo 
reviver o desfecho. Desta vez no queria cometer o mesmo erro, assustar o inimigo com as suas iniciativas. Mais do que ningum, sabia que Jack era um adversrio 
de peso, um terrorista de extrema percia. Bill queria acima de tudo salv-la. Esperava ser, desta vez, bem-sucedido
A comisso corria bem, e punham a hiptese de reunir com maior frequncia. A primeira-dama inclura mais seis pessoas, planeando para o Outono uma campanha de publicidade 
contra a violncia domstica e os crimes contra as mulheres. Trabalhavam em seis projectos diferentes e estavam a ser formados subgrupos. Bill e Maddy pertenciam 
a uma subcomisso que se ocupava de violao, e as coisas de que tomavam conhecimento eram espantosas. Havia uma outra subcomisso dedicada a assassnios, mas nenhum 
dos dois quisera entrar nela
No fim-de-semana que se seguiu ao regresso de ambos, Lizzie voltou  cidade e Maddy instalou-a no Four Seasons. Convidou Bill a tomar ch com ambas, ele ficou impressionado 
ao conhecer a rapariga. Era to bonita quanto Maddy dissera e to brilhante como a me. Dadas as poucas vantagens de que usufrura, a sua educao surpreendia-o. 
Empenhara-se em frequentar o liceu, apreciava as aulas na Universidade de Memphis, e era obviamente uma devoradora de livros
Gostava de a pr em Georgetown no prximo perodo, se puder disse-lhe Maddy durante o ch E Lizzie mostrou-se entusiasmada com a perspectiva
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Tenho l alguns contactos que talvez possam ser teis ofereceu-se Bill. O que queres seguir?
Poltica externa e comunicao social respondeu Lizzie sem hesitar
Adorava conseguir-lhe um lugar na estao, mas no  possvel comentou Maddy, pesarosa. Nem sequer informara Jack de que Lizzie estava em Washington, e no ia faz-lo. 
O marido andava to gentil com ela que no queria aborrec-lo. Falava em lev-la de novo  Europa em Outubro, mas Maddy ainda no dissera nada a Bill. Se a Lizzie 
vier para a faculdade aqui, vamos arranjar-lhe um apartamentozinho em Georgetown.
Veja bem que seja um lugar seguro aconselhou Bill, preocupado. Ambos haviam ficado horrorizados com as estatsticas de violao de que tinham tido conhecimento nessa 
semana na comisso
No tenha medo, serei cautelosa concordou Maddy, a pensar na mesma coisa. Provavelmente, teria uma companheira de quarto E quando Lizzie foi retocar a maquilhagem, 
Bill comentou quanto a achava encantadora.
 uma rapariga forrmidvel, voc deve ter muito orgulho nela. Sorriu a Maddy
Tenho, apesar de no ter direito nenhum. Levava-a ao teatro nessa noite. Dissera a Jack que ia a um jantar de mulheres relacionado com a comisso, o que no lhe 
agradara mas, dado que a primeira-dama estava envolvida, compreendeu
Quando Lizzie voltou para a mesa, falaram um pouco mais dos estudos e dos seus planos de mudana para Washington a fim de estar mais perto da me. Era, para ambas, 
como se um conto de fadas se tivesse transformado em realidade. A Bill, no restava a menor dvida de que ambas o mereciam.
s cinco horas deixou-as finalmente e passados poucos minutos Maddy acompanhou Lizzie ao hotel e foi para casa, para saudar Jack e para se arranjar para o teatro. 
Ela e Lizzie iam ver uma nova produo de O Rei e Eu, e Maddy estava excitada por levar Lizzie a assistir pela primeira vez a um musical. Havia montes de divertimentos 
 espera delas e Maddy ansiava por comear.
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Quando entrou em casa, Jack, descontrado, via o programa de fim-de-semana. Os apresentadores tinham obtido melhores ndices de audincia do que ela e Brad, mas 
Jack continuava a recusar-se a dar-lhe ouvidos quanto  culpa de Brad, que no tinha aptido para ser um apresentador. A trama de Jack para se livrar de Greg fora 
um tiro que lhe sara pela culatra. Continuava porm a acusar Maddy, insistia em culp-la. E embora o produtor concordasse com ela, temia diz-lo a Jack. Ningum 
gostava de o contrariar.
Jack planeara jantar com amigos, apesar de no gostar de sair sem a mulher nos fins-de-semana, e Maddy deixou-o a vestir-se. Beijou-a carinhosamente e ela partiu 
contente pela sua gentileza. Era bem melhor assim. Pertenceriam os maus tempos ao passado?
Foi buscar Lizzie ao hotel de txi e seguiram directamente para o teatro. Lizzie parecia uma criana a ver a pea e no final aplaudiu freneticamente.
 a melhor coisa que eu j vi, mezinha declarou, entusiasmada, quando saam do teatro, no preciso momento em que Maddy viu pelo canto do olho um homem com uma mquina 
fotogrfica a observ-las. Um flache disparou e o homem desapareceu. Nada de importante, pensou Maddy, provavelmente um turista que a reconhecera e quisera uma fotografia 
sua. Esqueceu o incidente. Estava demasiado ocupada a conversar com Lizzie para se preocupar com qualquer outra coisa. A noite fora estupenda.
Lizzie entrou no txi com ela; Maddy deixou-a no hotel e depois de um abrao prometeu que se encontrariam no dia seguinte ao pequeno-almoo. Uma vez mais teria de 
esconder Lizzie de Jack. Detestava mentir-lhe, mas dir-lhe-ia que ia  igreja, porque a ele nunca a acompanhava. E depois disso, Lizzie regressaria a Memphis e 
Maddy passaria o dia com o marido. Tudo orquestrado na perfeio, e foi excitada com a noite que tinham passado e contente consigo prpria que chegou a casa em Georgetown 
uns minutos mais tarde.
Jack estava na sala, a ver as ltimas notcias, quando ela entrou e lhe dirigiu um sorriso radioso, ainda na crista da onda da alegria que partilhara com Lizzie 
a ver O Rei e Eu.
Divertiste-te? perguntou Jack inocentemente,
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quando ela se sentou a seu lado. Maddy assentiu com um sorriso.
Foi interessante mentiu-lhe, e odiou faz-lo, mas sabia que no podia dizer-lhe que estivera com Lizzie. Ele proibira-a terminantemente de voltar a v-la.
Quem estava l?
A Phyllis, claro, e a maioria das senhoras da comisso. Um grupo simptico respondeu, ansiosa por mudar de assunto.
A Phyllis? Safa, que habilidade a dela! Estava precisamente a v-la no noticirio, num templo em Quioto. Chegaram l esta manh. Maddy fitou-o um momento, sem saber 
o que dizer-lhe. E agora, porque no me contas com quem estiveste efectivamente? Com um tipo? Andas a dar curvas por fora? Agarrrou-lhe a garganta com uma mo, exercendo 
uma leve presso, enquanto ela tentava no entrar em pnico e o olhava bem nos olhos.
Eu no te faria isso.
Ento, onde estiveste? Tenta dizer-me a verdade desta vez.
Estive com a Lizzie murmurou ela.
Quem raio  essa?
A minha filha.
Ah, por amor de Deus! exclamou Jack, empurrando-a para longe de si. Maddy caiu de costas no sof, sentindo com considervel alvio o ar encher-lhe os pulmes. Por 
que diabo trouxeste essa cadela para c?
No  nenhuma cadela replicou Maddy calmamente. E apeteceu-me v-la.
Vais ver manchada a tua reputao em todos os jornais. Eu mandei-te ficar longe dela.
Precisamos uma da outra disse Maddy simplesmente. Jack olhava-a, furibundo. Enfurecia-se quando ela no obedecia s suas ordens.
Eu disse-te, para teu prprio bem, que no podes arriscar-te. Se achas que as tuas audincias so pssimas agora, espera at veres o que acontece quando algum tornar 
pblica essa histria. E  mais do que provvel que a tipa o faa.
Tudo o que ela quer  ver-me. No quer publicidade.
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Maddy mantinha-se calma, lamentando ter-lhe mentido, t-lo feito zangar tanto Mas a intransigncia dele quanto aos seus encontros com Lizzie no lhe deixava muitas 
opes.
Isso  o que tu julgas. Como podes ser to estpida? Espera at ela comear a extorquir-te dinheiro, se  que j no o fez Ou fez? Semicerrou os olhos ao fit-la. 
Vais ter mais problemas do que mereces. Se no for de uma maneira,  de outra. Onde est a criatura?
Num hotel O Four Seasons.
Sorte a dela E dizes-me tu que no est interessada no dinheiro.
Estou a dizer-te que ela quer uma me. Maddy tentava acalm-lo, mas em vo. Furioso, atravessou a sala e parou a fit-la, com irritao e desprezo.
Passas o tempo a fazer qualquer coisa para me lixar, no , Mad? Se no  um editorial acerca da maluca com quem o Paul McCutchinscasou,  deitar abaixo as audincias, 
e agora isto.. Desta vez, vais pelo cano abaixo. Vers se eu no tenho razo. Mad. E quando isso acontecer, acredita-me, hs-de lamentar profundamente. Sem acrescentar 
mais nenhuma palavra, precipitou-se escadas acima e atirou com a porta da sua casa de banho. Maddy ficou algum tempo sentada na sala, tentando imaginar como explicar-lhe 
o quanto a filha significava para si e como lamentava t-lo aborrecido. Era tudo culpa sua, sabia-o, porque lhe mentira quanto ao facto de ter tido um beb. Talvez, 
se lhe tivesse contado de incio, ele no ficasse to zangado. Tudo o que podia fazer era pedir desculpa e tentar ser discreta. Do que tinha a certeza era de que 
no ia desistir da filha, agora que se tinham finalmente encontrado.
Subiu calmamente as escadas, depois de apagar as luzes, e quando vestiu a camisa de noite ele j estava na cama, com os olhos fechados e a luz apagada Maddy tinha 
a certeza de que o marido no estava a dormir e, ao meter-se na cama, aquele falou-lhe, sem abrir os olhos.
Odeio quando me mentes.  como se no pudesse confiar em ti. Passas a vida a magoar-me.
Lamento imenso, Jack. Acariciou-lhe o rosto, esquecendo por completo que ele quase a asfixiara meia hora
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antes quando a acusara de o aldrabar. No foi minha inteno afligir-te. Mas queria mesmo v-la.
Eu avisei-te. Probo-te de o fazeres. No consegues meter isso na cabea? Em primeiro lugar nunca quis midos, e tu tambm no. Abrira os olhos e olhava para ela. 
E tenho a certeza de que no pretendes grudar-te a uma pegazinha de dezanove anos de Memphis.
Por favor, no fales dela nesses termos pediu-lhe Maddy, mas o que na realidade desejava era que ele lhe perdoasse, por lhe mentir e o trair, pelo facto de a sua 
filha ilegtima ter aparecido sete anos depois de se terem casado, sem que ela a tivesse mencionado previamente. Apercebia-se de que era pedir-lhe que engolisse 
muita coisa. No podia, porm, deixar de desejar que a sua reaco se assemelhasse  de Bill, que gostara realmente de Lizzie mal a conhecera.
Quero que deixes de a ver intimou Jack, olhando-a com firmeza. Deves-me isso, Mad. Nunca me contaste que ela existia, agora quero que volte a desaparecer das nossas 
vidas. No precisas dela, nem sequer a conheces.
-me impossvel. No posso ter filhos. E, acima de tudo, em caso algum desistiria dela.
Mesmo se isso te custar o teu casamento? Era uma ameaa terrvel.
 o que tens estado a insinuar? Mostrava-se horrorizada. O marido ameaava-a, obrigava-a a fazer uma opo que lhe despedaaria o corao. Naquele momento, to-pouco 
queria deix-lo. Fora to encantador para ela nas ltimas semanas que as coisas entre eles parecia estarem a entrar nos eixos. E logo ia acontecer aquilo! Quem lhe 
dera no ter sido obrigada a mentir para levar Lizzie ao teatro.
Estava desesperada por ver a filha, e no sabia como faz-lo sem irritar o marido.
 uma possibilidade afirmou Jack, em resposta  sua pergunta relacionada com a ameaa que Lizzie representava para o casamento deles. Foi coisa que no fez parte 
do contrato. Entraste neste casamento numa base fraudulenta, disseste-me que nunca tiveras filhos. Mentiste-me. Esse facto poderia permitir-me a anulao do casamento.
Passados sete anos? 
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Se me defraudaste, e me mentiste, o que fizeste e eu posso provar, no h casamento.  bom que penses nisso antes de voltar a arrast-la para as nossas vidas. Pensa 
a srio, Mad, estou a avisar-te... E ditas estas palavras, virou-se e fechou os olhos; cinco minutos depois ressonava, com Maddy a olh-lo fixamente. No sabia o 
que fazer ou dizer. No queria desfazer-se uma vez mais de Lizzie. No podia fazer semelhante coisa, nem a Lizzie nem a si prpria. Mas tambm no queria perder 
Jack. Ele dera-lhe tanto, e as agresses de que o acusara comeavam a parecer fragmentos da sua imaginao, o que Lizzie no era. Maddy sentia-se como se fosse ela 
a portar-se mal com Jack, era ele a vtima, tal como lhe afirmara. Passou horas acordada, a pensar e a culpabilizar-se.
De manh, porm, continuava sem respostas. Explicou-lhe que ia despedir-se de Lizzie ao hotel, que tomaria o pequeno-almoo com ela, e que depois regressaria e poderiam 
passar o dia juntos.
O melhor que tens a fazer  dizer-lhe que no voltas a encontrar-te com ela, Mad. Andas a brincar com o fogo. Comigo, e com a imprensa.  um preo muito alto a pagar 
por uma garota que nem sequer conheces e de que nunca sentirs a falta se a puseres com dono de imediato.
J te disse, Jack. Falava-lhe num tom srio e franco. No queria voltar a mentir-lhe. Era mais um pecado a juntar aos muitos que j cometera, segundo ele. No posso 
fazer isso.
Tem de ser.
No lhe fao tal coisa.
Preferes fazer-ma a mim, no ? Elucidas-me quanto ao valor que ds a este casamento. Mostrava-se magoado. A vtima consumada.
No ests a ser razovel tentou Maddy explicar-lhe, mas ele calou-a com o seu olhar ultrajado.
Razovel! Ests a brincar comigo? s maluca? Que drogas andas a tomar? A que ponto se te afigura razovel atirar-me para cima com a tua filha bastarda, nunca me 
tendo dito que ela existia?
Elucidas-me quanto? Mostrava-se magoado.
Foi um erro da minha parte, concordo. Mas no estou
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a pedir-te que convivas com ela, Jack. Sou eu que quero conviver
Ento, ainda s mais louca do que eu pensava. Que tal um retrato de famlia na capa da People? Seria o bastante para ti? Porque  o que vai suceder mais cedo ou 
mais tarde E ento, bem podes dizer adeus ao pblico
Talvez no, talvez sejam mais compreensivos neste caso do que tu.
Tretas! Por amor de Deus, sers capaz de raciocinar? Continuaram a discusso por mais meia hora. Jack teve de sair para ir jogar golfe com dois dos conselheiros 
do presidente, mas no sem antes ordenar a Maddy que nunca mais se encontrasse com Lizzie. Maddy tambm saiu, foi tomar o pequeno-almoo com a filha e passaram um 
ptimo bocado. Lizzie achou-a preocupada, mas Maddy negou. No queria desgost-la e no lhe disse que nunca mais se veriam. Em vez disso, prometeu que brevemente 
a teria de volta para outro fim-de-semana e acrescentou que a manteria a par do que soubesse acerca de Georgetown. Beijaram-se e abraaram-se  despedida, e Maddy 
deu-lhe dinheiro para o txi at ao aeroporto mas, embora lho tenha oferecido, Lizzie no quis mais nenhum. Era muito conscienciosa quanto a no aceitar da me mais 
do que o bilhete de avio, o hotel e o txi. Maddy propusera abrir-lhe uma conta bancria e Lizzie recusara categoricamente. No pretendia aproveitar-se da me. 
Maddy, porm, sabia que Jack nunca acreditaria nisso
Ao meio-dia, Maddy estava de volta, e Jack ainda no chegara. Telefonou a Bill e contou-lhe o sucedido
Tudo por minha culpa disse, lastimosa. No devia ter-lhe mentido
Bill discordou
O seu marido est a agir como um sacana e pretende ser ele a vtima. No , Maddy. A vtima  voc. Como  que no v isso? Estava mais frustrado do que nunca. Conversaram 
quase uma hora e no fim Maddy ainda mais deprimida ficou, como se no compreendesse os argumentos de Bill. Este perguntava a si prprio se ela alguma vez se libertaria 
das amarras que a prendiam. Ultimamente parecia recuar em vez de avanar
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Quando  tarde voltou para casa, Jack no disse uma palavra sobre Lizzie. Maddy no sabia ser bom sinal ou no, ou se ele se preparava para um novo ultimato. Fez-lhe 
um apetitoso jantar e falou-lhe com amabilidade Nessa noite, fizeram amor e o marido foi extremamente meigo, o que mais a culpabilizou por o tornar to infeliz
Quando no dia seguinte foram para o trabalho, tal como Jack previra, a bomba rebentou. A fotografia que o homem do teatro tirara a Lizzie e a Maddy aparecia na primeira 
pgina de todos os jornais, em diversas variantes E algum contara ou adivinhara a verdade. Nos cabealhos lia-se "Maddy Hunter e a sua filha h muito perdida. Relatavam 
tudo o que sabiam, que Maddy tivera um beb aos quinze anos e o dera para adopo. Havia vrias entrevistas com Bobby Joe e com um professor da sua antiga escola. 
No restavam dvidas de que os jornalistas se tinham aprimorado nos seus trabalhos de casa
Jack estava no gabinete dela com exemplares de todos os jornais
Bonito, no ? Espero que te orgulhes disto. E o que raio devemos fazer. Vendemos-te como uma Virgem Maria nos ltimos nove anos e agora surges como aquilo que s, 
Mad. Uma estuporada prostituta. Bolas, porque no me deste ouvidos. Na fotografia, ela e Lizzie pareciam gmeas, to parecidas eram. Jack soprava como um touro enraivecido. 
Mas no havia como apagar o que acontecera
Maddy telefonou a Lizzie, em Memphis, para a avisar e, quando Jack voltou finalmente para o seu prprio gabinete, telefonou  Dra Flowers e depois a Bill. Ambos 
lhe disseram praticamente a mesma coisa A culpa no era sua, e a coisa no era to grave quanto ela pensava. O pblico adorava-a. Ela era uma boa pessoa, cometera 
um erro na juventude, e sab-lo s contribuiria para que gostassem mais dela e a compreendessem. A foto das duas juntas era na verdade muito terna, enlaando-se 
pela cintura
Jack porm fizera todos os possveis, e com muito sucesso, para a aterrorizar e culpar. At Lizzie chorara quando Maddy lhe telefonara
Lamento tanto, mezinha. No queria causar-lhe problemas. 
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O Jack est realmente furioso? Preocupava-se com Maddy. No gostara de Jack quando o conhecera, achava-o deveras assustador. Havia nele algo de sinistro
No est contente, mas h-de passar-lhe. Uma afirmao muito optimista.
Vai despedi-la?
Acho que no. Alis, no penso que o sindicato lho permitisse. Seria discriminatrio... A menos que Jack pudesse evocar a clusula da moralidade do seu contrato. 
Quer pudesse ou no, estava furibundo com ela, e ela numa agonia pelo desgosto que lhe causara. S temos de ultrapassar isto. Mas promete-me que no falas com nenhum 
jornalista.
Juro. Nunca o fiz e nunca o farei. No faria nada para a magoar. Adoro-a. No outro extremo da linha, soluava, e Maddy fez todos os possveis para a tranquilizar.
Eu tambm te adoro, querida. E acredito em ti. At eles se fartarem do assunto, tenta no te ralares muito
No entanto, os jornalistas de televiso comearam a persegui-la, e a estao andava num grande alvoroo. Todas as revistas do pas tinham telefonado, queriam uma 
entrevista.
Talvez possamos dar-lhes o que eles querem sugeriu por fim o chefe de programas. A que ponto seria mau? Portanto, ela teve um beb aos quinze anos. No  a primeira. 
No o matou, que diabo, at  uma histria dramtica e terna, se lhe dermos a volta certa. O que acha, Jack? Mostrava-se esperanoso ao olhar o patro
O que acho  que me apetece dar-lhe um pontap no rabo que a atire para Cleveland.  o que eu acho foi a resposta instantnea de Jack. Nunca estivera to enfurecido 
com ela, ou tivera tanta razo para o estar.  uma idiota por ter sequer admitido perante essa prostitutazeca que era sua me. Me! O que raio significa isso num 
caso destes? Foi para a cama com um palerma qualquer do liceu que a emprenhou, e desembaraou-se da mida no exacto momento em que ela nasceu. E agora anda por a 
com ares de santa a falar da sua filha. Porra, uma gata est mais ligada  sua ninhada do que a Maddy a essa estpida cabra de Memphis. A rapariga est apenas a 
pendurar-se nas saias da Maddy e a burra no v isso. 
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Pode no ser bem assim replicou delicadamente o chefe de programas. Estarrecia-o a veemncia da reaco de Jack. Ultimamente, tinha andado sob grande presso. Os 
ndices de audincia do programa de Maddy desciam diariamente, talvez fosse parte da razo por que estava to zangado com a mulher. Mas todos sabiam que a culpa 
no era dela, e tinham-no dito a Jack que tambm nesse ponto no quisera escut-los.
Ainda espumava quando foram para casa  noite e tentou arrancar a Maddy a promessa de que nunca mais veria Lizzie, mas ela no acedeu. Pela meia-noite, estava to 
furioso que saiu de casa e s voltou na manh seguinte. Maddy no fazia a menor ideia do stio para onde ele fora, mas ao olhar pela janela depararam-se-lhe cmaras 
de televiso no exterior e no ousou segui-lo. Tudo o que agora podia fazer era o que aconselhara a Lizzie que fizesse. No abrir a boca. Lizzie estava em casa de 
amigos, pelo que no a encontraram na penso, e o patro dera-lhe frias do restaurante at ao fim da semana, to impressionado ficara por ela ser filha de Maddy 
Hunter.
O nico que no se impressionou foi Jack. Estava tudo menos impressionado. Suspendeu-a do programa durante duas semanas alegando a perturbao que causava a todos 
eles e ordenou-lhe que esclarecesse o seu acto, se desfizesse da filha, e no voltasse ao trabalho at ter feito tudo isso. Para ele, cara em total desgraa e advertiu-a, 
com as veias da testa a latejar, que se mais alguma vez ela lhe mentisse, acerca de qualquer coisa, a mataria. Tudo o que a percorreu, ao ouvi-lo, foi um sentimento 
de culpa. Acontecesse o que acontecesse, a culpa era sempre sua.
CAPTULO 15
No decurso de Setembro, os jornais comearam a desinteressar-se de Maddy e da filha. Houve reprteres que se deslocaram ao restaurante em Memphis uma ou duas vezes, 
mas o patro de Lizzie escondeu-a na sala das traseiras at eles sarem. Acabaram por deixar de aparecer. Foi um pouco mais difcil para Maddy, que estava mais exposta 
e teve maiores problemas do que Lizzie para evitar a imprensa. Por insistncia de Jack, nunca fez comentrios, e para alm da fotografia em O Rei e Eu, pouco havia 
a relatar. Maddy no desmentiu nem confirmou que Lizzie era sua filha, embora lhe tivesse agradado dizer-lhes que tinha muito orgulho nela e a emocionava o facto 
de Lizzie a ter procurado e encontrado. Mas, por considerao por Jack, no o fez.
Ela e Lizzie tinham combinado que, durante uns tempos, a rapariga no viria a Washington, porm Maddy continuava a tentar a sua admisso na Universidade de Georgetown 
e Bill dava o seu melhor para a ajudar. Era fcil Lizzie ser admitida. Tinha boas notas e estupendas referncias dos seus professores em Memphis.
A comisso da primeira-dama voltou a reunir e foi um prazer para Bill a presena de Maddy. Mas achou-a tensa, cansada e preocupada. O ataque da imprensa sara-lhe 
caro e confessou que Jack ainda lhe fazia a vida negra por causa disso. Tambm a massacrava por causa do nvel de audincias, que agora declarava ser consequncia 
do escndalo relativo  sua filha ilegtima. Atravs dos seus telefonemas dirios, Bill sabia muito mais. O que no sabia, e de que agora no tinha a certeza, era 
se ela acabaria por se separar do marido. Deixara de tocar no assunto e parecia culpar-se pela maioria dos problemas do casal.
Bill andava to obcecado com a situao dela que abordou a Dra. Flowers numa das reunies da comisso. Sem lhe divulgar segredo algum, a mdica tentou sosseg-lo.
A maioria das mulheres suporta a agresso durante anos disse-lhe sensatamente, intrigada tanto pelo seu interesse 
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como pela sua reaco. Mostrava-se quase louco de preocupao com Maddy. E este  o gnero mais subtil, mais insidioso. Os homens como o Jack so bons nisso. Leva-a 
a sentir-se responsvel pelo que ele faz, e retrata-se como sendo a vtima. E no esquea, Bill, ela permite-lho.
O que podemos fazer para a ajudar? queria desesperadamente agir, mas no sabia como.
Estar a postos para ela. Prestar ateno. Esperar. Dizer-lhe sinceramente o que pensa e ver. Mas se ela quer sentir-se culpada em relao a Jack, sentir-se-. Por 
fim, ser ela a encontrar o caminho. Voc est a fazer tudo o que de momento pode. No lho disse, mas sabia por Maddy que ele lhe telefonava todos os dias e que 
Maddy prezava a sua amizade. A Dra. Flowers no podia impedir-se de imaginar o que mais havia, mas Maddy insistia firmemente em que no passavam de amigos e nenhum 
deles alimentava sonhos romnticos. A Dra. Flowers no estava assim to certa. Houvesse o que houvesse, gostava de Bill e respeitava muito ambos.
O que me assusta  que um dia destes a subtileza dele se transforme em qualquer coisa mais bvia. Continuo a recear que v mago-la.
Est a mago-la agora. Mas no  habitual os homens como Jack tornarem-se violentos. No posso garantir-lhe que ele no venha a s-lo, mas penso que  esperto de 
mais para isso. Quanto mais perto estiver de perder a sua presa, pior ser para ela. No vai deix-la partir amigavelmente.
Conversaram um bom bocado, muito depois de Maddy se ter ido embora, e Bill no se sentia encorajado ao conduzir rumo a casa. J uma vez na vida passara por idntico 
desespero. Talvez o seu temor de que Maddy fosse agredida se baseasse na sua prpria experincia, quando a mulher fora raptada e depois assassinada. At ento, nunca 
acreditara verdadeiramente que uma coisa to terrvel pudesse acontecer.
Na semana seguinte, entregou a Maddy o manuscrito passado a limpo do seu livro. Ela ia a meio, no fim-de-semana, e escorriam-lhe lgrimas pelo rosto. Jack notou-o.
O que diabo ests a ler que tanto te faz chorar? perguntou-lhe com curiosidade. Estavam na Virgnia, num
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fim-de-semana chuvoso, e Maddy passara a tarde estendida no sof, a ler e a chorar. A descrio de Bill do que se passara quando a esposa fora raptada pelos terroristas 
despedaava-lhe o corao.
 o livro do Bill Alexander. Est muito bem escrito.
Santo Deus, porque te interessa ler uma droga dessas?  um tipo com to pouca fibra que  difcil acreditar que tenha escrito qualquer coisa que valha a pena ler. 
Jack no tinha a mnima considerao por Bill e era bvio que no gostava dele. Teria gostado ainda menos, t-lo-ia mesmo odiado, se suspeitasse do apoio que dava 
a Maddy. Pressenti-lo-ia?
 muito comovente.
Jack no falou mais no assunto, mas quando  noite foi buscar o manuscrito Maddy no o encontrou e acabou por perguntar ao marido se o vira.
Vi. Achei por bem poupar-te a outra noite de lgrimas. Pu-lo no lugar a que pertence. No lixo
Deitaste-o fora? indagou, chocada.
Tens coisas melhores em que empregar o teu tempo. Se fizesses um pouco mais de pesquisa, as audincias do teu programa seriam melhores.
Sabes que fao imensa pesquisa retorquiu, na defensiva. Tinha estado a trabalhar num escndalo prestes a rebentar na CIA e noutra pea relacionada com a corrupo 
dos servios alfandegrios. E tambm sabes que a minha pesquisa no  o problema.
Talvez estejas a envelhecer, garota.  que o pblico no aprecia mulheres com mais de trinta. Dizia tudo o que lhe ocorria para a amesquinhar.
No tinhas o direito de deitar fora o livro. No o acabei E prometi devolver-lho. Estava aborrecida, e Jack totalmente indiferente aos seus sentimentos. Era apenas 
uma outra forma de desrespeito, por ela e por Bill Alexander. Felizmente, tratava-se de uma cpia, no do original.
No desperdices o teu tempo, Mad. Subiu as escadas para o quarto e, quando ela se deitou, fez amor com ela. Maddy notara que ultimamente ele voltara a ser rude, 
como que a puni-la pelas suas muitas transgresses. No era brutal
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ao ponto de ela poder queixar-se e, quando lhe fazia qualquer observao, dizia-lhe que tudo era imaginao sua. Tentava convenc-la de que fora gentil, mas ela 
no se deixava enganar.
Na semana seguinte, quando voltaram para Washington, Brad surpreendeu toda a gente ao solucionar o maior problema do programa. Falou com Maddy antes de ir ter com 
Jack, disse-lhe que se apercebera de que ser um apresentador no era tarefa fcil, mesmo acompanhado por uma pessoa to competente como Maddy.
Julguei sempre que era bom nesta coisa de estar no ar, mas  diferente de falar de uma rvore ou de um tanque, para ser ouvido apenas durante dois minutos. Sorriu-lhe, 
pesaroso. No acho que tenha aptido para isto. E para ser sincero consigo, no gosto do trabalho. J arranjara emprego noutra estao, como correspondente na sia. 
Ficaria em Singapura, e estava ansioso por partir. E embora Maddy tivesse comeado a gostar mais dele, foi com alvio que recebeu a notcia. Qual iria ser a reaco 
de Jack, perguntou a si prpria.
Este mal comentou o facto. No dia seguinte, foi emitido um memorando a informar que Brad se despedira e concordara em ficar at ao fim da semana. O contrato para 
os primeiros seis meses era provisrio, porque o prprio Brad no estava certo de que o lugar lhe agradasse. Pelo ar de Jack, Maddy via que ele no estava satisfeito, 
mas no o admitia. Tudo o que lhe dizia era que o fardo dela seria agora mais pesado, at encontrarem outro colaborador.
Espero que as tuas audincias no se afundem. Mostrava-se inquieto. Mas os seus receios depressa provaram ser infundados. Em vez de descerem, as audincias dispararam 
logo que Brad abandonou o programa na semana seguinte, e o produtor sugeriu mesmo a Jack que a deixassem continuar sozinha. Jack, porm, insistia em que ela no 
tinha fora suficiente para levar por diante o programa sem colaborao e queria algum para o criar com ela. Entretanto, os nveis de audincia tinham voltado a 
ser altos, o que deixava Maddy feliz apesar de Jack no o ter em conta.
A despeito das audincias, que eram para ela um enorme
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alvio, Bill quando lhe telefonava ainda a achava abatida. Batera-se pelo programa muito tempo E dizia que sentia falta de trabalhar com Greg. No sabia bem qual 
era o problema, mas confessou-lhe que no andava muito bem-disposta. Melhorou notoriamente quando Bill lhe telefonou para a informar de que conseguira colocar Lizzie 
na Universidade de Georgetown. A pequena tinha boas notas e competncia e enviara um currculo perfeito Mas, como se tratava de uma das mais populares faculdades 
do pas, levara algum tempo a arranjarem lugar para ela. Bill servira-se de vrios dos seus contactos e, com base nele e nas recomendaes que Lizzie obtivera dos 
seus professores, haviam decidido aceit-la. Maddy ficou excitadissima pela filha. Disse a Bill que ia arranjar-lhe um pequeno apartamento em Georgetown, e que ela 
e Lizzie poderiam encontrar-se sempre que quisessem. Estava em xtase e agradecia-lhe imenso
Espere at eu lhe contar.
Diga-lhe que eu no tive nada a ver com isso pediu-lhe Bill, humilde. O merecimento foi todo dela. Tudo o que fiz foi abrir algumas portas, mas no teria servido 
de nada se ela no fosse merecedora
Voc  um santo, Bill. Voltou a sorrir. Mortificara-a contar-lhe que Jack deitara fora o manuscrito, mas ele no demonstrara surpresa. Mandara-lhe outro exemplar, 
que ela leu nos momentos livres no trabalho. Acabara precisamente na vspera, e falaram sobre o livro durante algum tempo. Na opinio de Maddy, iria ter um enorme 
impacto. Era no apenas inteligente mas sincero e caloroso, e tremendamente humano
Nesse fim-de-semana, falou pessoalmente a Lizzie sobre Georgetown. Jack foi a Las Vegas passar o fim-de-semana com um grupo de homens, e Maddy apanhou um avio para 
Memphis. Foram as duas jantar fora e passaram um bom bocado a fazer planos. Maddy prometeu arranjar-lhe um apartamento em Dezembro, antes do incio do segundo perodo 
em Georgetown, a seguir ao Natal. Lizzie nem acreditava na sua sorte
No me arranje nada muito caro. Se vou para a faculdade a tempo inteiro, s posso trabalhar  noite e nos fins-de-semana
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E quando achas que vais fazer os teus trabalhos de casa perguntou Maddy, muito maternal e radiante por se sentir assim. No podes trabalhar e conseguir boas notas, 
Lizzie. Pensa nisso. Na perspectiva de Lizzie, no havia muito que pensar. J passara um ano e meio na faculdade, sem deixar de trabalhar um s minuto.
Eles do-me uma bolsa de estudos? Continuava preocupada.
No, mas dou eu. no sejas pateta, Lizzie. Os tempos mudaram. Agora, tens uma me. E uma me com uma vida desafogada, com um dos mais cotados programas do pas. 
Tinha a inteno de pr Lizzie na faculdade e pagar-lhe o apartamento e as despesas pessoais. E explicou-lhe muito objectivamente: No espero que sejas tu a manter-te. 
Mereces uma pausa. J tiveste tempos difceis em demasia. Havia muito a fazer pela filha e tudo o que queria era compens-la. No podia apagar o passado, mas pelo 
menos conseguia assegurar-lhe o futuro.
No posso permitir isso. Um dia hei-de pagar-lhe declarou Lizzie solenemente.
Podes dar-me apoio quando eu for velha riu-se Maddy, como uma filha dedicada. A verdade  que estavam j dedicadas uma  outra e, mais uma vez, passaram juntas um 
delicioso fim-de-semana. Depressa descobriram que partilhavam imensas ideias, tinham gostos muito parecidos no vesturio e nos objectos que lhes agradavam. A nica 
coisa em que diferiam, veementemente, era na msica. Lizzie era louca por punk rock e country, dois gneros que Maddy detestava. Espero que isso te passe com a idade 
brincou Maddy, e Lizzie jurou que no passaria.
As coisas que a me ouve so to desactualizadas! espicaou-a a filha por seu turno.
Deram longos passeios juntas e passaram uma manh calma no domingo, aps terem ido  igreja. Depois, Maddy voou de regresso a Washington e chegou a casa antes de 
Jack, que viria de Las Vegas. Ele avisou que voltaria pela meia-noite. Quanto a ela, no lhe contara onde ia e no tencionava dizer-lho. Lizzie continuava a ser 
uma bomba entre ambos.
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Estava a desfazer a sua pequena mala quando o telefone tocou no domingo  noite e, ao atender, surpreendeu-a ouvir a voz de Bill. Ele nunca lhe falava para casa, 
habitualmente s para o trabalho, para que no fosse Jack a responder
Alguma coisa vai mal? perguntou, nervoso.
No, tudo bem. Acabo de chegar, estive com a Lizzie. Est excitadssima por causa de Georgetown.
ptimo! Estive o dia inteiro a pensar em si. Alegra-me que esteja boa. No sei porqu, mas estava preocupado consigo. No era raro da parte dele. Desde que Maddy 
entrara na sua vida, s conseguia pensar nela. Estava numa situao to difcil! Tinha a sensao de dever tanto a Jack que acreditava ter de aguentar tudo o que 
de mau ele lhe preparava, e to convictamente que Bill no conseguia convenc-la do contrrio, embora j tivesse comeado a aperceber-se de que o marido era realmente 
agressivo. Uma situao altamente frustrante para Bill, que andava numa permanente inquietao por ela. At falara no caso aos seus filhos, a quem intrigara que 
o pai a conhecesse. O seu marido est por a? perguntou, cauteloso. Calculava que no, visto ela ter-lhe mencionado Lizzie.
No. Foi passar o fim-de-semana a Las Vegas. Foram l jantar e assistir a um dos espectculos mais recentes. Vai chegar a casa muito tarde. Ele disse meia-noite, 
mas aposto que no est c antes das trs ou quatro da manh.
Ento, que tal jantarmos juntos? convidou-a de imediato, aliviado por encontr-la sozinha. Estava precisamente a fazer massa e uma salada para mim. Interessa-lhe 
uma coisa to simples? Ou samos, se preferir. Nunca antes a convidara para jantar, embora tivessem almoado diversas vezes, e Maddy sempre tivera prazer em estar 
com ele. Tornara-se o seu mentor e confidente e, sob certos aspectos, o seu anjo-da-guarda. Com a partida de Greg, passara a ser o seu melhor amigo.
Na verdade, adorava jantar consigo. Sorriu perante o convite. Ambos concordaram com a ideia da casa dele. No era o momento de dar origem a rumores e, dado o nvel 
de interesse que a imprensa tinha nela, isso poderia acontecer. Um problema que nenhum dos dois desejava. Quer
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que leve alguma coisa. Vinho. Sobremesa. Guardanapos. Mostrava-se feliz por ir v-lo
Venha s a Maddy E no acalente grandes esperanas. Os meus dotes de cozinheiro so limitados. Na verdade, s comecei a aprender h um ano
No faz mal. Eu ajudo-o
Chegou a casa dele meia hora mais tarde, com uma garrafa de vinho tinto na mo, vestida com uma camisola branca e calas de ganga E, com o cabelo a cair-lhe pelas 
costas, parecia-se mais do que nunca com Lizzie. Bill sublinhou-o
 uma garota amorosa comentou Maddy com orgulho, como se tivessem partilhado juntas toda a vida
A eficincia de Bill na cozinha impressionou-a. Usava uma camisa azul muito bem engomada e calas de ganga, arregaara as mangas e preparara uma salada excelente. 
Aqueceu a baguete que comprara para ela, e o seu fettucini Alfredo estava delicioso. O vinho tinto trazido por Maddy adquava-se na perfeio  massa. Sentados na 
confortvel cozinha, a contemplar o jardim de que ele tanto gostava, conversaram sobre imensas coisas. Os seus postos diplomticos, a sua carreira acadmica, o seu 
livro, o programa dela, e at os filhos dele. Era total o -vontade entre ambos, amigos como eram Bill achava que podia discutir tudo com ela, at as suas preocupaes 
com o casamento da filha. Em sua opinio, esta trabalhava de mais, tivera muitos filhos num curto espao de tempo, e apoquentava-o o facto de o seu genro ser demasiado 
crtico. Pareciam uma famlia encantadora e Maddy t-lo-ia invejado ainda mais se no tivesse Lizzie
Nunca me apercebi de quanto so importantes os filhos, at no poder t-los. Fui estpida em permitir que o Jack me levasse a isso, mas era to importante para ele, 
e ele fizera tanto por mim que achei que lho devia. Toda a minha vida as pessoas me tm dado opinies quanto a ter ou no ter filhos, ou d-los, ou eu no poder 
t-los. Incrvel, conversar com ele sobre aquele assunto, mas a sua amargura e angstia tinham-se desvanecido at certo ponto, agora que recuperara Lizzie. Imagine 
se eu nunca a tivesse encontrado, pense em como a minha vida teria sido triste, sem nunca ter filhos
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 difcil de imaginar. Os meus filhos so o que d valor  minha vida admitiu ele. s vezes, penso que estava mais ligado a eles do que a Margaret. Ela era bastante 
mais desprendida. Eu sempre me preocupei com eles e era um pouco superprotector. Hoje em dia, Maddy compreendia-o melhor. Andava sempre a pensar em Lizzie, receosa 
de que lhe acontecesse alguma coisa e a maior ddiva da sua vida desaparecesse de repente Como se fosse uma ddiva boa de mais para ser verdade, e ela pudesse ser 
punida com o desaparecimento da filha
Sempre me senti culpada por t-la dado para adopo  um milagre ela ter ultrapassado esse facto to bem. De certa maneira,  muito mais saudvel do que eu observou 
Maddy, com admirao, enquanto Bill punha na sua frente uma taa de musse de chocolate. Como tudo o que lhe servira, estava deliciosa
No sofreu embates to fortes como a Maddy.  espantoso que seja to saudvel como  Embora decerto tambm tenha passado maus bocados em lares de acolhimento e orfanatos. 
Tambm no deve ter sido fcil para ela. Graas a Deus, tm-se uma  outra. Fez-lhe ento uma estranha pergunta. Agora que a tem, e sabe o que  ter um filho, quereria 
ter mais.
Adorava, mas no creio que haja grandes possibilidades de tal acontecer. Sorriu-lhe melancolicamente. No dei mais nenhum, no posso t-los a nica maneira seria 
adoptar, e o Jack no mo permitiria. Entristecia-o que Jack ainda constitusse uma parte to importante da vida dela. Ultimamente Maddy no dizia uma palavra quanto 
a deix-lo. No se acomodara com a situao em que se encontrava, mas por outro lado no arranjara coragem para lhe virar as costas. Continuava a achar que lhe devia 
imenso, especialmente depois da mgoa que lhe causara por causa de Lizzie e da sua prpria fraude
E se o Jack no existisse. Adoptaria. Uma pergunta despropositada, mas cuja resposta lhe despertava curiosidade. Era bvio que gostava de crianas e encantava-a 
o relacionamento com a filha reencontrada. Era uma me surpreendentemente boa, apesar de novata no papel
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 provvel respondeu, surpreendendo-se a si prpria. Nunca pensei nisso Sobretudo, porque nunca julguei que me separaria do Jack. E, mesmo agora, no sei se alguma 
vez terei coragem para tanto
Mas quer? Deixar o Jack. s vezes achava que ela queria, s vezes achava que no. Era uma rea da vida dela repleta de complexos de culpa, confuso, conflito. No 
entanto, pelo menos aos olhos de Bill, aquele casamento no era um casamento. Maddy no passava de uma vtima.
Gostaria de deixar toda a dor e medo, e a culpa que sinto quando estou com ele. Talvez aquilo que realmente me agradasse fosse t-lo sem ter tudo isso, o que no 
julgo possvel. Mas quando penso em deix-lo, penso em deixar o homem que julguei que ele era, e de vez em quando foi, e costumava ser. E quando penso em ficar, 
penso em ficar com o safado que ele pode ser, e  com demasiada frequncia E difcil conciliar as duas coisas. Nunca sei ao certo quem ele , ou quem eu sou, ou 
quem deixaria. Era to sincera quanto possvel, e a explicao elucidava-o um pouco mais.
Talvez o mesmo se passe com todos ns, embora em menor grau.
De certo modo, ela navegava em indeciso porque ambas as facetas tinham idntico peso; para Bill, o lado agressivo de Jack fazia pender a balana Mas Bill no tivera 
a infncia atormentada de Maddy e que a predispusera a deixar Jack fazer-lhe o que quisesse. Levara quase nove anos, sete dos quais casada com ele, para compreender 
que Jack e Bobby Joe tinham de facto muito em comum. S que Jack era mais subtil
At no meu caso continuou Bill, no me lembro de algumas das coisas que a Margaret costumava fazer e me desagradavam. Quando agora olho para trs, e me recordo dos 
anos que partilhmos, tudo parece to perfeito! Mas tnhamos as nossas diferenas, como a maioria das pessoas, e atravessmos momentos difceis. Quando aceitei o 
meu posto diplomtico, e quis sair de Cambridge, ameaou deixar-me. No queria ir-se embora, achou que eu estava maluco. Com  andar dos tempos... Olhou tristemente 
para Maddy. Bom... revelou-se que tinha razo. Eu nunca devia ter feito aquilo. Se no tivesse ido, ainda hoje ela estaria viva.
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No pode dizer isso protestou Maddy com doura, estendendo o brao por cima da mesa para lhe tocar gentilmente na mo. O destino  que manda. A sua mulher podia 
ter morrido num acidente de avio, ser atropelada por um carro, morta na estrada, ter um cancro. O Bill no podia saber o que iria acontecer E deve ter pensado que 
estava a fazer o que era correcto
Pensei. Nunca me passou pela cabea que a Colmbia fosse to perigosa como era, ou que correramos l tanto risco. Se o tivesse adivinhado, nunca teria aceite o 
cargo
Eu sei. Maddy mantinha a mo sobre a dele, que a tomou na sua e a apertou. Tenho a certeza de que a sua mulher tambm o sabia  como dizer que nunca se deve andar 
de avio porque s vezes eles caem. Tem de se levar a vida o melhor que se pode, e correr riscos razoveis. A maior parte das vezes, vale a pena. No pode martirizar-se 
com o ocorrido. No  justo. Merece mais acrescentou, com simplicidade
Tambm a Maddy retorquiu ele, ainda a segurar-lhe na mo e olhando-a. Quero que acredite nisso
Estou a tentar aprender. Houve muita gente a dizer que no merecia  difcil no lhes dar ouvidos
Quem me dera poder afastar de si todas essas ideias. Merece uma vida muito melhor do que a que tem tido, Maddy. Se eu pudesse proteg-la, ajud-la.
J o faz Mais do que julga. Sem o Bill, estaria perdida. Contara-lhe tudo, todas as suas esperanas, todos os seus medos, todos os seus problemas. No havia nada 
que ele ignorasse sobre a sua vida. Muito mais do que Jack sabia E estava grata por ter Bill  sua disposio
Bill serviu uma chvena de caf a cada um e foram para o jardim. O ar estava fresco mas ainda agradvel quando se sentaram num banco e ele lhe passou um brao pelos 
ombros. Fora uma tarde perfeita, depois de um fim-de-semana delicioso
Temos de repetir isto mais vezes, se puder. Fora uma sorte para ele Jack estar em Las Vegas
No me parece que o Jack pudesse compreender retorquiu Maddy. Nem estava muito segura de o compreender 
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ela prpria. Sabia que Jack se zangaria se soubesse do jantar com Bill Alexander. Mas j decidira no lhe contar. Nos ltimos dias, ocultara-lhe muitas coisas.
Estou ao seu dispor, Maddy, se precisar de mim. Espero que o saiba. Voltou-se para a olhar  luz da sala e do luar.
Sei, Bill, obrigada. Fitaram-se um longo momento e ento ele puxou-a para si e ficaram ali sentados juntos por muito tempo, sem dizer nada, calados e em paz, sentindo-se 
bem um com o outro, como  normal entre amigos.
CAPTULO 16
Outubro pareceu a toda a gente mais agitado do que habitualmente. A vida social estava em plena actividade. Do mundo poltico desprendia-se uma sensao de tenso 
superior ao normal. O problema do Iraque persistia, o que trazia infelicidade ao povo E Jack passou uma rasteira a Maddy, contratando outro apresentador. Era melhor 
do que Brad, mas extremamente difcil, ciumento e hostil para com ela. Chamava-se Elliot Noble. J fora apresentador antes e, apesar de ser frio como gelo, era bom, 
e pelo menos desta vez os nveis de audincia no foram afectados. At melhoraram ligeiramente. Mas era um inferno trabalhar com ele, ao contrrio do que acontecia 
com Greg ou at mesmo com Brad
Uma semana depois de Elliot ter comeado, Jack anunciou a Maddy que ia lev-la  Europa. Tinha trs dias de reunies em Londres e queria que ela o acompanhasse. 
Maddy no imaginara que deixaria o programa to depressa aps a entrada de Elliot e ficou preocupada com o facto de as pessoas poderem pensar que ele viera substitu-la. 
Jack, porm, insistiu em que ningum julgaria isso e mostrou-se inflexvel quanto  ida dela. A mulher concordou, mas no ltimo minuto apanhou uma forte constipao 
e uma infeco num ouvido e no pde voar com ele. Assim, Jack foi sozinho, o que o aborreceu. Decidira ficar uma semana e visitar uns amigos em Hampshire durante 
o fim-de-semana. Quanto a ela, agradou-lhe a oportunidade de ver Lizzie e mesmo de procurarem juntas um apartamento. Divertiram-se, mas no encontraram nada de que 
gostassem. No precisavam de casa para ela at Dezembro E Bill levou ambas a jantar fora
A caminho de casa, Maddy parou para comprar no supermercado algumas coisas para o pequeno-almoo e ficou estarrecida ao ver o nome de Jack na primeira pgina dos 
jornais "O marido de Maddy Hunter ainda estar furioso por causa da filha dela?", foi a linha que lhe prendeu a ateno, e logo abaixo "Doce vingana. D a impresso 
de que ele tem uma nova filha muito sua. Ttulos a encimar uma fotografia
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dele com outra mulher. Era difcil saber se se tratava de uma falsificao por parte dos jornalistas, ou de um artigo genuno. Mas era a fotografia de Jack a sair 
do Annabel's, de mo dada com uma mulher loira, muito bonita e muito jovem, exibindo uma expresso de contrariedade e surpresa. Ainda mais surpreendida ficou Maddy, 
que comprou um jornal. Leram-no atentamente em casa, e Maddy confessou a Lizzie a sua inquietao.
Sabe como so estas coisas. Provavelmente ele estava num grande grupo, ou talvez seja apenas uma amiga, ou a esposa ou acompanhante de qualquer outro. Os jornalistas 
so repugnantes e na sua maioria mentirosos. J ningum acredita no que escrevem argumentou Lizzie para reconfortar a me e porque podia bem ser como dizia, mas 
para Maddy fora uma bofetada ver Jack e a mulher junto a ele na foto.
H dois dias que o marido no lhe telefonava, pelo que decidiu ligar para o Claridge's, de onde lhe responderam que Jack fora passar o fim-de-semana fora. No voltou 
a falar no assunto, mas pensou nele durante todo o fim-de-semana e, quando Jack regressou na segunda-feira, estava muito agitada.
Ests de mau humor, Mad disse ele jovialmente, ao entrar na casa. O que se passa? Ainda te di o ouvido? A sua disposio era ptima. Sem dizer uma palavra, a mulher 
pegou no jornal que guardara para lhe mostrar. Jack deu-lhe uma olhadela e, encolhendo os ombros, sorriu-lhe.
E da? Qual  o problema? Estava num grupo e samos juntos. No  crime, tanto quanto sei. No parecia sentir-se minimamente culpado, nem tentou desculpar-se, nem 
sequer sosseg-la. Maddy olhou-o, muito insegura.
Saste para ir danar com ela? No tirava os olhos de cima do marido.
Claro. Dancei com imensa gente nessa noite. No fui para a cama com ela, se  isso que queres saber. Ia directo ao fulcro da questo e comeava a mostrar-se aborrecido 
com as dvidas da mulher.  disso que ests a acusar-me, Maddy? Dava a impresso de ser dela o erro, e no a sua fidelidade que estava em causa.
Fiquei preocupada. Ela  girssima, e o artigo d a entender que andaste com ela.
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As histrias a teu respeito fazem-te parecer uma prostituta de meia-tigela, mas eu no acreditei nelas, pois no? Maddy ficou to tonta como se tivesse levado um 
soco no estmago.
No foste nada amvel, Jack
No  verdade? Ningum me mostrou com os meus fedelhos ilegtimos, pois no? Se mostrarem, ento tens o direito de protestar. Mas, em minha opinio, pouco te resta 
para dizer. E dadas as mentiras que me contaste, e as coisas que me escondeste, quem me censuraria se eu te enganasse? Como de costume, a culpa era toda dela, era 
ela quem merecia as represlias Pensando bem, Maddy percebeu que ele estava parcialmente certo. Ainda no lhe dissera que ia trazer Lizzie para Washington, ou que 
de vez em quando se encontrava com Bill e se falavam todos os dias ao telefone. Jack manejara as coisas de modo a faz-la sentir-se culpada, em vez de assumir se 
lhe fora ou no infiel
Desculpa  que parecia... Confusa, achava-se horrvel pelo que pensara dele.
No sejas to rpida a atirar pedras, Mad. O que se passa no trabalho? Como sempre, desinteressava-se por completo das palavras dela. S se agarrava a um tema quando 
este servia os seus fins, o que no era o caso. Usara-o para a ameaar e, como sempre, com xito
De facto, dado o que ela lhe dissera, e o que pensara ao ver a fotografia, acusou-a diversas vezes de flartar com o novo apresentador. Elliot era jovem, solteiro, 
bem-parecido, e Jack comeou a insinuar que corriam boatos acerca deles, o que muito a irritava. Falou nisso a Bill, que lhe fez notar que Jack estava apenas a distrair-lhe 
a ateno, mas Maddy continuou a pensar que ele acreditava nesses boatos, o que a desesperava.
E o que lhe disse a propsito de Elliot no foi nada comparado com o que fez sobre Bill, quando algum lhe contou que os vira no Clube Bombay, a almoar juntos.
 por isso que me fizeste aquela cena por causa do Annabel's? O que era aquilo? Alguma espcie de arenque fumado? Andas a fornicar com aquele peido velho, Mad? Se 
andas, tenho pena de ti. Talvez seja tudo o que agora consegues arranjar.
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Que nojento! lanou-lhe, enraivecida, exasperada pela acusao e pelo modo como ele falava de Bill. Bill no tinha nada de velho nem de estpido. Era interessante, 
divertido, boa pessoa e correcto, e extremamente bem-parecido. E o engraado  que, embora fosse mais velho do que ela vinte e seis anos, nunca tal lhe ocorria quando 
estavam juntos.
Tudo piorou quando Jack, nas suas costas, interrogou uma das recepcionistas que aludiu inocentemente aos telefonemas de Bill. Jack, com grande habilidade, levou-a 
a contar-lhe que Bill telefonava a Maddy quase todos os dias. Cinco minutos depois estava no gabinete da mulher, a acus-la e a amea-la.
Grande pega! O que raio se passa entre vocs dois? Quando comeou? Nessa maldita comisso piegas sobre as mulheres? No te esqueas de que esse filho da me conseguiu 
que lhe matassem a mulher. Talvez te faa o mesmo favor, se no te puseres a pau.
Como podes dizer semelhante coisa? Perante a brutalidade das palavras, encheram-se-lhe instantaneamente os olhos de lgrimas. No sabia como defender-se e no havia 
maneira de provar que no ia para a cama com Bill Alexander. Somos apenas amigos. Eu nunca te enganei, Jack. Com o olhar implorava-lhe que acreditasse nela. Em vez 
de o odiar pelo que ele lhe dissera, apenas se sentia acabrunhada.
Conta isso a quem te der ouvidos. Eu no sou desses, lembras-te? Eu sou o tipo a quem mentiste a respeito da tua filha.
 diferente. Soluava ao sentar-se  secretria, enquanto ele a ia agredindo com palavras.
No, no . J no acredito numa s palavra tua, e porque acreditaria? Tenho mil razes para no confiar em ti! A tua pseudofilha prova-o bem, se  que precisas 
de avivar a memria.
Somos apenas amigos, Jack repetiu referindo-se a Bill, mas o marido recusou-se a prestar-lhe ateno. Saiu do gabinete com tal mpeto que quase partiu a porta de 
vidro, e Maddy, sentada  secretria, estremeceu. Estava ainda lavada
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em lgrimas quando Bill lhe telefonou meia hora mais tarde e ela lhe relatou o acontecido.
Acho que no deve voltar a telefonar-me. O Jack pensa que temos um caso. E, agora, era certo que no poderiam voltar a almoar juntos. Para Maddy, era como se cortasse 
as amarras que a sustinham, mas via bem que no havia opo. Eu telefono-lhe.  mais simples acrescentou tristemente.
Ele no tem o direito de lhe falar como falou. Bill sentia-se ultrajado, apesar de ela ter omitido bastantes pormenores. Se tivesse ouvido Jack, teria perdido as 
estribeiras. Lamento tanto, Maddy.
Est tudo bem. A culpa  minha. Enfureci-o quando o acusei de ter sado com uma mulher em Londres.
A Maddy viu a fotografia, por amor de Deus! No foi uma suposio  toa. Em sua opinio, Jack mentira-lhe, mas no lho disse. Em voz abatida, perguntou- At que 
ponto vai aguentar, Maddy? Esse homem trata-a como se fosse o p que pisa. No v isso?
Vejo... mas ele no deixa de ter razo. Eu menti-lhe acerca da Lizzie. Provoco-o. At minto a seu respeito. Tambm no me agradaria que ele telefonasse todos os 
dias a uma mulher.
Quer que deixemos de nos falar? Bill entrara em pnico. Maddy apressou-se a seren-lo.
No, no quero. Mas compreendo o sentimento do Jack.
No me parece que tenha a mais remota ideia de como ele se sente, ou at se ele sente.  to manipulador e to diablico, que sabe como jogar consigo e incutir-lhe 
sentimentos de culpa. Seria incapaz de lhe pedir desculpa, sentindo-se culpado! Percebia-se a sua imensa preocupao enquanto iam desenredando a emaranhada meada. 
Combinaram por fim que ela lhe telefonaria todos os dias e que suspenderiam os almoos por algum tempo, ou talvez almoassem calmamente de vez em quando em casa 
dele, embora tal tambm fosse uma dissimulao. Porm, afigurava-se melhor no serem vistos em pblico e nenhum dos dois queria deixar de ver o outro. Maddy precisava 
de pelo menos um amigo e, alm de Lizzie, s o tinha a ele.
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O ambiente em casa manteve-se tenso vrios dias at que, por acaso, ela e Jack foram a uma recepo em casa de um congressista conhecido de Jack, e Bill estava l. 
Tinham andado juntos na faculdade, e Bill esquecera-se de dizer a Maddy que ia.
Jack reagiu de imediato quando Bill entrou na sala e apertou com fora o brao de Maddy que o deixou branco. A mensagem fora clara.
Se lhe diriges uma s palavra, arrasto-te daqui para fora to depressa que nem vais perceber o que te aconteceu murmurou-lhe ao ouvido.
J percebi sussurrou ela em resposta. Evitou o olhar de Bill, transmitindo-lhe assim a mensagem de que no podia falar com ele, e de cada vez que o amigo se aproximava 
ia para junto de Jack, para o acalmar. Estava nervosa e plida, toda a noite se mostrando embaraada e, quando Jack foi  casa de banho, olhou implorativamente para 
Bill, que se precipitou ao seu encontro com um ar preocupado.
No posso falar consigo... Ele est furioso.
Sente-se bem? Raladssimo, percebera o que se passava e decidira no lhe falar.
Sinto... Jack entrou precisamente quando Bill se afastava dela e percebeu de imediato o que se passara. Atravessou a sala direito  mulher e ordenou entre dentes, 
num tom que a aterrorrizou:
Vamos embora. Vai buscar o teu casaco.
Maddy agradeceu gentilmente o convite e saram uns minutos depois. Foram os primeiros a sair, mas o jantar j terminara, pelo que no houve comentrios. Jack explicara 
que ambos tinham reunies cedo no dia seguinte. Bill ficou inquieto depois da sada de ambos, e no podia telefonar para obter notcias. A caminho de casa, j Jack 
a ia agredindo verbalmente, ao ponto de ela se sentir tentada a saltar do carro e fugir. Estava numa fria por causa de Bill.
Que espcie de idiota pensas que sou? Disse-te que no lhe falasses... Vi o teu olhar quando olhavas para ele... Porque no tiraste a saia e as cuecas e lhe acenaste 
com elas?
Jack, por favor... Ns somos amigos,  tudo. Eu disse-te. Ele chora ainda a mulher. E eu estou casada contigo.
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Pertencemos  mesma comisso. No passa da. Falava o mais depressa que podia, esforando-se por no o provocar mais, mas inutilmente. Jack estava de cabea perdida.
Tretas, sua prostituta! Sabes muito bem o que andas a fazer com ele, e eu tambm sei. E, provavelmente, sabe-o Washington inteira. Queres que eu passe por imbecil? 
Eu no sou cego, Maddy. Porra, a merda em que tu me atolas! Mal posso acreditar.
Maddy no articulou uma s palavra e, chegados a casa, Jack foi atirando com todas as portas mas nunca lhe tocou. Maddy passou a noite inteira aninhada na cama, 
cheia de medo do que ele poderia fazer-lhe, mas nada aconteceu. Quando na manh seguinte lhe servia o caf, o marido estava frio como gelo. Limitou-se a um aviso:
Se alguma vez voltares a falar com ele, atiro-te para a sarjeta, que  o teu lugar. Percebeste? Em silncio, Maddy anuiu, lutando contra as lgrimas e aterrorizada 
perante o quadro em perspectiva. No vou pactuar com esta trampa. A noite passada humilhaste-me. No tiraste os olhos dele, como se fosses uma cadela com cio. Maddy 
queria argumentar e defender-se, mas no ousou. Limitou-se a abanar a cabea e seguiram calados at ao trabalho. Depois disto, a nica coisa sensata a fazer era 
telefonar a Bill e dizer-lhe que no podia voltar a v-lo ou a falar com ele. Sabia que devia faz-lo. Mas Bill era a bia a que se agarrava, o tnue fio entre ela 
e o abismo em que temia cair. E no sabia bem o que se passava, mas tinha conscincia de que um lao especial os ligava e, por muito que Jack a ameaasse, no seria 
capaz de cort-lo, custasse o que custasse, arriscasse o que arriscasse Embora ciente do perigo que corria, e por mais que o repetisse a si prpria, no tinha a 
mnima dvida de que no podia acabar com tudo agora.
CAPTULO 17
Maddy ainda no fizera as pazes com Jack, e telefonava todos os dias a Bill do seu gabinete, tomanddo as maiores precaues. Uma tarde, ouviu o barulho de um tiro 
vindo da sala do noticirio. Estava precisamente ao telefone com Bill. Interrompeu por um segundo, atenta ao rudo do exterior. Disse-lhe ento que algo devia ter 
acontecido e que voltaria a falar-lhe e desligou. Precipitou-se para fora do gabinete para se inteirar da causa do rebulio. Todos se amontoavam em redor de um monitor, 
e, ao princpio no conseguiu perceber o que estavam a ver. Passados segundos, algum se afastou para o lado e ela pde ouvir e ver o comunicado que fizera interromper 
todos os programas de todos os canais. O presidente Armstrong fora alvejado a tiro e estava a ser transportado  pressa de helicptero para o Hospital Naval de Bethesda, 
em estado crtico.
Oh, meu Deus... oh, meu Deus! murmurou. Enquanto olhava as imagens, s conseguia pensar na primeira-dama.
Ponha o casaco gritou-lhe o produtor. Temos um helicptero  sua espera no National. Um operador de cmara j estava a postos, algum lhe entregou a mala e o casaco 
e Maddy correu para o elevador sem parar para falar com ningum. O mesmo comunicado anunciara que a primeira-dama se encontrava com o marido. Mal entrou no carro 
que a aguardava para a levar ao National, Maddy pegou no telemvel e ligou para a estao. O produtor ficara  espera de notcias suas.
O que aconteceu? perguntou ela rapidamente.
Ainda no sabem. Um tipo qualquer saiu do meio de uma multido e disparou. Foi atingido um dos homens dos Servios Secretos, mas ainda no h ningum morto. Ainda. 
Essa era a palavra-chave.
Ele ir morrer?
Ouviu a resposta de olhos fechados.
Tambm ainda no sabemos. No est nada bem. H
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sangue por toda a parte, no que esto a mostrar. Passaram tudo ao retardador. Estava a cumprimentar um grupo perfeitamente incuo e um tipo qualquer aproximou-se. 
Apanharam o atirador. J est preso, mas ainda no disseram o seu nome.
Gaita!
Mantenha-se em contacto. Obtenha tudo o que puder. Mdicos, enfermeiros, os Servios Secretos. A primeira-dama, se a deixarem v-la. O produtor sabia que eram amigas 
e no ramo deles nenhum relacionamento era sagrado. Maddy no ignorava que esperavam dela que explorasse minuciosamente todas as oportunidades possveis, mesmo que 
fossem de mau gosto. Temos uma equipa que vai ao seu encontro de carro, para o caso de precisar de fazer uma pausa. Mas quero-a l a tratar do assunto.
Eu sei. Eu sei.
E mantenha o seu telemvel ligado, para a eventualidade de precisarmos de contactar consigo.
Certo. No rdio do carro, durante cinco minutos ouviu sempre a mesma coisa. Hesitou uma fraco de segundo e ligou a Bill, para lhe comunicar para onde ia. No posso 
demorar explicou rapidamente. Tenho de manter a linha livre. Ouviu o que se passou?
Acabei de ouvir na rdio. Santo Deus, nem posso acreditar. Era outra vez como com o Kennedy, s que pior. No se tratava apenas de poltica ou histria. Ela conhecia-os.
Estou a caminho do Bethesda. Depois falo-lhe.
Tenha cuidado! No precisava de o ter. No corria perigo algum. Aps desligarem, Bill ficou a contemplar o jardim atravs da janela, com o pensamento naquela mulher.
Nas cinco horas seguintes, Maddy viveu em perfeita loucura. No hospital, havia uma zona delimitada com cordas para os jornalistas e, fora, mquinas de caf, tambm 
para eles. O secretrio para a imprensa vinha falar-lhes de meia em meia hora. E todos tentavam monopolizar qualquer membro do pessoal hospitalar que avistassem. 
De momento, porm, ainda no havia notcias.
O presidente estava a ser operado desde o meio-dia e s sete horas ainda no sara do bloco operatrio. A bala
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perfurara-lhe o pulmo e provocara leses num rim e no bao. Havia imenso trabalho cirrgico a efectuar. Miraculosamente, no lhe atingira o corao, mas provocara 
uma grande hemorragia interna. Ningum vira a primeira-dama, que o esperava na unidade ao lado, seguindo a operao atravs de um circuito interno de televiso E 
nada mais havia a dizer, at que ele sasse da sala de operaes e o seu estado fosse avaliado. Os mdicos calculavam que a operao duraria at  meia-noite E Maddy 
aguardaria
Mais de cem fotgrafos ocupavam a sala de entrada, em sofs, em cadeiras, sentados nos estojos das suas cmaras, alguns aos cantos, esticados no cho Por toda a 
parte, um mar de copos de papel, pacotes de comida rpida, um grupo de jornalistas fumava no exterior do hospital. Parecia uma zona de guerra
Maddy e o operador de cmara que lhe fora atribudo tinham ficado num canto da sala e conversavam calmamente com uns reprteres que conheciam, de outros canais e 
dos principais jornais
Fizera uma reportagem para o noticirio das cinco, do lado de fora do hospital, e s sete atiraram-na para uma rea que lhes fora destinada dentro do edifcio Elliot 
Noble regressara  estao, sozinho no ar e comunicando regularmente com ela. Maddy fez nova reportagem para o noticirio das onze, mas no havia muito a relatar, 
excepto aquilo que lhes fora transmitido. Os mdicos que se ocupavam do presidente tinham esperanas, mas mostravam-se prudentes
Era quase meia-noite quando Jack lhe ligou para o telemvel
No consegues nada mais interessante do que aquilo, Mad? Que diabo, vocs esto todos a impingir a mesma chatice. Tentaste encontrar-te com a primeira-dama?
Est  espera do marido junto ao bloco operatrio, Jack Ningum seno os Servios Secretos e o pessoal do hospital tem acesso a ela
Ento, pe uma bata branca, por amor de Deus! Instigava-a continuamente a fazer mais e melhor
No me parece que ningum saiba nada que ns no saibamos Agora, est tudo nas mos de Deus. Ainda no
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havia maneira de saber se ele sobreviveria. Jim Armstrong no era um jovem, e j antes fora alvo de um atentado. Nessa altura, a bala apenas lhe passara de raspo
Deduzo que passes a a noite. O tom pertinente de Jack dava a entender tratar-se mais de uma ordem do que de uma pergunta, mas ela j planeara faz-lo
Quero estar presente se acontecer alguma coisa. Vo dar uma conferncia de imprensa quando a operao terminar. Prometeram-nos um dos cirurgies
Telefona-me se houver qualquer novidade importante. Vou agora para casa. Ainda se encontrava na estao, e a maioria do pessoal tambm. Fora um dia infindvel e 
ao que parecia seria uma longa noite. Mas os dias seguintes seriam piores, se o presidente no recuperasse. Pensando na primeira-dama, Maddy esperava que ele recuperasse. 
Ningum podia fazer mais do que rezar. Tudo estava nas mos dos deuses e dos cirurgies
Depois do telefonema de Jack, Maddy sentou-se a beber mais caf. J bebera imenso e mal comera durante todo o dia. O ocorrido abalara-a de mais para ter fome
Um pouco mais tarde, ligou a Bill. Enquanto o telefone tocava, perguntava a si prpria se ele estaria a dormir. Finalmente atendeu e Maddy ficou aliviada por no 
lhe parecer ensonado
Estava a dormir? inquiriu, hesitante. Bill reconheceu-lhe de imediato a voz e ficou contente com o telefonema. Vira todas as suas intervenes do hospital e tinha 
a televiso ligada para o caso de ela reaparecer
Desculpe, estava no duche. Tinha a esperana de que me telefonasse. Como vo as coisas.
No h muito a dizer. Notava-se o seu cansao, embora feliz por falar com ele. Estamos para aqui sentados,  espera. A operao deve estar a acabar. Continuo a pensar 
na Phyllis. Maddy sabia quanto ela amava o marido. Todos o sabiam. Phyllis no fazia segredo disso. Estavam casados h quase cinquenta anos e Maddy no suportava 
a ideia de semelhante final para eles
Penso que no conseguiu v-la, pois no, indagou Bill, a primeira-dama no aparecera em nenhum programa, em nenhum canal
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- Est algures l para cima. Quem me dera poder, no pela reportagem, mas apenas para que ela saiba que pensamos nela
Tenho a certeza de que sabe. Santo Deus, como  que sucedem coisas destas? Com toda a segurana, de vez em quando ainda sucedem. Vi a gravao original ao retardador. 
O tipo limitou-se a dar um passo em frente e atirar. Como est o homem dos Servios Secretos que foi atingido.
Operaram-no esta tarde e dizem que o seu estado  grave, mas sem alteraes. Teve sorte
Espero que o Jim tambm tenha E a Maddy. Deve estar exausta
Mais ou menos. Temos andado por aqui toda a tarde,  espera que acontea qualquer coisa. Ambos se lembraram de Dallas e de John Kennedy. Fora antes de ela nascer, 
mas vira todos os filmes sobre o caso, e Bill frequentava ento a universidade
Quer que lhe leve comida. Preocupava-se com ela, a qual sorriu da sugesto
Deve haver aqui dois mil donuts e todo o pronto-a-comer de Washington Mas obrigada pela oferta. Reparou num grupo de mdicos que se aproximava de um microfone e 
disse-lhe que tinha de desligar
Telefone-me se acontecer alguma coisa. No se importe de me acordar Se precisar de mim, estou a postos. Ao contrrio de Jack, que apenas lamentara que a emisso 
deles fosse muito enfadonha
Um dos mdicos trazia bata cirrgica, sapatos de papel por cima dos seus prprios sapatos e luvas verdes, pelo que Maddy depreendeu que vinha directamente da sala 
de operaes. Subiu ao pdio que fora colocado na entrada. Todos os jornalistas se amontoaram em seu redor
No temos nada de sensacional a comunicar-vos disse, srio, enquanto todas as cmaras o focavam, mas temos razes para estar optimistas. O presidente  um homem 
forte e saudvel e, em nossa opinio, a operao foi bem-sucedida. Fizemos tudo o que por agora  possvel e fornecer-vos-emos boletins de sade ao longo da noite, 
pondo-vos a par da progresso do seu estado. De momento,
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encontra-se ainda sob o efeito da anestesia, mas comeava a recuperar a conscincia quando o deixei. Mistress Armstrong pediu-me que agradecesse a todos vs e vos 
dissesse que lamenta muito... Sorriu, um sorriso cansado. Lamento que tenham de dormir aqui e que gostaria que no fossem obrigados a isso.  tudo, de momento. E 
desceu do pdio sem mais comentrios. Fora feito o aviso prvio de que no haveria perguntas. Pusera-os a par de tudo o que os prprios mdicos sabiam. O resto estava 
nas mos de Deus.
O telemvel de Maddy tocou mal o mdico os deixara. Era Jack.
Arranja uma entrevista com ele.
No posso, Jack. J nos avisaram de que  impossvel. O homem esteve a ser operado durante doze horas, esto a dizer-nos tudo aquilo que sabem.
Uma ova  que esto! Do-vos migalhas, e vocs contentam-se com isso. Pelo que sabemos, o crebro dele est paralisado.
O que sugeres que eu faa? Que me infiltre no quarto do Armstrong atravs do respiradouro? Muito fatigada, irritava-a ele ser to despropositado e to exigente. 
Estavam todos no mesmo barco. Tinham de esperar pelo que ia sendo anunciado, perseguir os cirurgies no ia lev-los a lado nenhum.
No armes em engraadinha, Mad. Queres pr a tua vigilncia a dormir ou ests a trabalhar para a estao?
Sabes o que se passa aqui. Todos ns engolimos a mesma droga. Sentia-se exasperada.
 a que eu quero chegar. Descobre qualquer coisa diferente. Desligou sem sequer se despedir, e um reprter de uma estao rival sorriu-lhe e encolheu os ombros, 
compreensivo.
Os meus chefes massacram-me com a mesma lengalenga a toda a hora. Se so assim to espertos, porque no se deslocam at c e fazem eles o trabalho?
Tenho de me lembrar de sugerir isso. Maddy retribuiu-lhe o sorriso e instalou-se numa cadeira com o casaco por cima do corpo, at ao prximo boletim para a imprensa
s trs da manh veio uma equipa de mdicos e os que
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estavam a dormir acordaram para os ouvir. Praticamente nada mudara. O presidente continuava a aguentar-se. Acordara da anestesia, mantinha-se em estado crtico, 
e a esposa estava a seu lado
Foi uma noite comprida e, apesar de outra comunicao s cinco horas, ningum lhes deu notcias significativas at s sete da manh. Nesse momento, Maddy estava 
acordada e a beber caf. Dormira cerca de trs horas, aos bocadinhos, e sentia-se perra ao sair da cadeira onde se mantivera enroscada a noite inteira. Era como 
passar uma noite no aeroporto por causa de uma tempestade de neve
Pelo menos, s sete, as notcias foram um pouco melhores. Admitiram que o presidente se sentia indisposto e muito dorido, mas sorrira  esposa e enviara os seus 
agradecimentos  nao E a equipa de cirurgies sentia-se extremamente satisfeita com o seu estado. Atreviam-se a dizer que tinham todas as razes para crer que 
ele iria escapar, a menos que sobreviesse qualquer complicao
Meia hora mais tarde, a Casa Branca comunicava a identidade do homem que o alvejara. Era agora tratado por "o suspeito", embora metade do pas tivesse visto e revisto 
a gravao que o mostrava a atirar sobre o presidente. A CIA considerava que o acontecimento nada tinha a ver com uma conspirao para assassinar o presidente. O 
filho do suspeito fora morto em combate no Iraque nesse Vero, e o suspeito achava que a culpa era do presidente. Era um homem sem registo criminal anterior, sem 
historial de violncia ou de instabilidade mental, mas perdera o seu nico filho numa guerra com que no estava de acordo, e desde ento ficara deprimido Encontrava-se 
em priso preventiva e a ser cuidadosamente observado. O resto da famlia entrara em estado de choque. A mulher em aparente histeria. O homem fora, at ao momento, 
um membro respeitado da comunidade e um contabilista bastante bem-sucedido. Pensar em tudo isso entristeceu Maddy
Atravs de um dos secretrios para a comunicao social, mandou umas palavras  primeira-dama, s para que Phyllis soubesse que estava ali, e a rezar por eles E 
ficou espantada quando umas horas depois recebeu uma resposta. A primeira-dama 
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escrevera uma dzia de palavras  pressa: "Obrigada, Maddy. Ele est melhor, graas a Deus. Com amizade, Phyllis." Maddy ficou extremamente sensibilizada pelo facto 
de a primeira-dama ter dedicado algum tempo a escrev-las
 meia-noite voltou a entrar no ar, com a mais recente informao: o presidente repousava calmamente e, embora ainda em situao crtica, esperavam que no tardasse 
a ser considerado livre de perigo
Se no me ds depressa qualquer coisa interessante disse Jack ao telefonar depois da emisso, vou mandar o Elliot para te substituir
Se ele pode obter seja o que for diferente daquilo que todos ns podemos, ento manda-o. Pela sua voz era bvio que estava exausta. A tal ponto que, por uma vez, 
no a afectavam as ameaas e acusaes de Jack.
Ests a chatear-me a mim e a toda a gente acusou-a ele.
Estou presa ao que nos do, Jack. Ningum obtm nada de melhor. Contudo, Jack no parou de lhe telefonar, sempre a queixar-se E quando  uma hora Bill lhe ligou, 
foi com alvio que o ouviu.
Quando comeu pela ltima vez, Maddy? perguntou, sinceramente preocupado.
No me lembro. Sorriu. Estou to cansada que nem tenho apetite
Bill no se ofereceu para ir at l. Limitou-se a aparecer passados vinte minutos com uma sanduche gigante, fruta e refrigerantes. Parecia a Cruz Vermelha a chegar, 
abrindo caminho pelo meio do mar de jornalistas espalhados pela recepo at a encontrar. Obrigou-a a sentar-se numa cadeira e a comer, ficando a observ-la.
No acredito nisto! Gratificou-o com um sorriso rasgado. Nem dava por isso, mas afinal estava esfomeada. Obrigada, Bill.
Faz-me sentir til. Ficou pasmado com o nmero de pessoas presentes, jornalistas, operadores de cmara, equipas de som, produtores, todos aglomerados na sala de 
entrada do hospital. Extravasavam para a rua, onde se viam, desordenadamente estacionadas, as carrinhas de reportagem. Parecia
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uma zona onde tivesse ocorrido uma catstrofe e, no fundo, era. Bill alegrou-se por ela comer a sanduche toda. Quanto tempo vo vocs ter de ficar aqui.
At ele estar livre de perigo, ou ns nos irmos abaixo. Ver-se- o que acontece primeiro. O Jack ameaa mandar o Elliot substituir-me, porque as minhas emisses 
so chatssimas. No posso fazer mais do que fao. Acabava de pronunciar estas palavras quando o secretrio para a comunicao social voltou a subir ao pdio para 
junto do qual todos se precipitaram, empurrando-se. Maddy teve de ir com eles
Dessa vez foi-lhes dito que o desenvolvimento das informaes ia ser lento e cauteloso, e o secretrio sugeriu que alguns deles talvez devessem ir para casa e ser 
revezados por colegas. O presidente estava a recuperar bem. No havia complicaes, tinham todas as razes para crer que continuaria a melhorar
Podemos ir v-lo? gritou algum.
Durante vrios dias, no respondeu o secretrio
E Mistress Armstrong? Podemos falar com ela.
Ainda no. Nem por um minuto abandonou a cabeceira do marido E vai continuar aqui at ele se restabelecer. Neste momento, esto ambos a descansar. Talvez vocs devessem 
dormir tambm um pouco acrescentou, com o primeiro sorriso que viam nas ltimas vinte e quatro horas. Foi-se depois embora, prometendo voltar da a umas horas. Maddy 
desligou o seu microfone e olhou para Bill. Estava to cansada que j tinha a viso perturbada
O que vai fazer agora? perguntou-lhe ele.
Dava o brao direito para ir para casa tomar um duche, mas provavelmente o Jack matava-me se eu virasse as costas a isto.
Ele no pode mandar algum substitu-la? Era desumano continuar ali
Podia, mas no creio que o faa. Pelo menos por agora O Jack quer-me aqui Embora eu no esteja a fazer nada que qualquer outro no pudesse fazer. Ouviu o que o secretrio 
nos comunicou. Tudo muito bem programado. Dizem-nos aquilo que querem que saibamos, mas, se esto a falar verdade, parece que ele est bem.
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No acredita neles? O cepticismo de Maddy surpreendia Bill. Fazia, porm, parte do ofcio ser assim, descortinando qualquer inconsistncia nas histrias que lhes 
contavam. Ela era boa no seu trabalho, razo pela qual Jack queria que continuasse no hospital
Acredito Mas a verdade  que, por aquilo que sabemos, o presidente podia estar morto. Uma coisa horrvel de dizer, mas sem dvida uma possibilidade. No julgo que 
mintam, a menos que seja necessrio por uma questo de segurana nacional. Neste caso, penso que esto a ser sinceros. Pelo menos, assim o espero
Tambm eu corroborou Bill com fervor
Ele ficou mais meia hora e depois foi-se embora E s trs, Jack libertou-a finalmente, mandou-a ir a casa mudar de roupa e voltar para o estdio para fazer o programa 
das cinco. Pouco tempo tinha, nem poderia passar pelas brasas. Ele j lhe dissera que voltasse para o hospital a seguir  emisso das sete e meia. Aps ter ido a 
casa e vestido um conjunto de calas e casaco azul-escuro, certa de que iria dormir numa das macas postas  disposio da imprensa pelo hospital, quase cambaleava 
quando foi tratar do cabelo e da maquilhagem. Elliot Noble tambm l estava e olhou-a com admirao
No sei como consegue, Maddy. Se eu tivesse passado naquele hospital as ltimas vinte e sete horas, tinham de me tirar de l de maca. Fez um trabalho formidvel 
Embora o seu marido no fosse da mesma opinio. Sensibilizou-a o cumprimento, que sabia merecido
Estou habituada, acho eu. H muito tempo que trabalho nisto. Sentiam-se mais colegas e ela simpatizou com ele Pelo menos por uma vez, tratara-a com correco
Como acha que est realmente o presidente perguntou-lhe Elliot em voz baixa
Acho que provavelmente esto a dizer-nos a verdade desta vez E sem saber bem como, com a ajuda dele, aguentou a emisso das cinco e a das sete e meia, e s oito 
e quinze estava de volta ao hospital, tal como Jack lhe ordenara. Este passara para a ver entre os dois programas, fresco e repousado, e presenteou-a com todo um 
novo conjunto de ordens, crticas e instrues. Nem sequer lhe perguntou se
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estava cansada. No lhe interessava. Havia uma crise e ela tinha de aguentar. Nunca o deixara ficar mal. O que, apesar de ele no o reconhecer, todas as outras pessoas 
sabiam. Era um dos poucos veteranos da primeira noite quando regressou ao hospital. A maior parte das outras estaes substitura a sua gente por novas equipas, 
e Maddy tinha um novo operador de cmara e um novo sonoplasta. Miraculosamente, algum se apiedou dela e lhe trouxe uma maca para a sala de entrada, para ela poder 
ir dormindo entre os comunicados  imprensa. Quando contou a Bill ao telefone, ele insistiu para que aproveitasse a maca.
Pode adoecer se no dormir um bocado disse-lhe, sensato. J jantou?
Comi entre as emisses, no estdio.
Qualquer coisa nutritiva, espero. Maddy sorriu. Muito tinha ele a aprender sobre aquele ofcio!
Comida saudvel, de facto. Piza e donuts. Alimentao tpica dos reprteres. Mudava de profisso se no comesse isso. S como a srio em jantares especiais.
Quer que lhe leve alguma coisa? ofereceu-se, esperanoso, mas ela estava demasiado cansada para o receber.
Acho que vou atirar-me para a maca e tentar dormir umas horas. De qualquer forma, obrigada. Telefono-lhe de manh, a menos que acontea qualquer coisa importante. 
No aconteceu nada. Foi uma noite calma, e de manh Maddy foi para casa, tomar duche e vestir-se de lavado.
Com o desenrolar dos acontecimentos, esteve no hospital cinco dias e, no ltimo, falou finalmente uns minutos com Phyllis, embora sem a entrevistar. A primeira-dama 
mandara cham-la, e conversaram no corredor do quarto do presidente, ao p dos homens dos Servios Secretos. O presidente era guardado de perto. Embora o seu atacante 
estivesse detido, no queriam facilitar nada. E Maddy imaginou que se sentiam muito culpados por no terem detido a bala.
Como se vai aguentando? perguntou Maddy, com um interesse sincero. A primeira-dama aparentava cem anos e envergava uma bata de hospital sobre umas calas e uma camisola. 
Mas sorriu  pergunta de Maddy.
Melhor do que voc, provavelmente. Somos muito
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bem tratados. O pobre Jim sente-se abatidssimo, mas est muito melhor.  um bocado difcil, na nossa idade
Lamento tanto o que aconteceu. Passei a semana preocupada consigo. Toda a gente cuida dele, mas eu no sabia o que se passava consigo
Foi um choque tremendo, para no dizer mais Mas estamos a ultrapass-lo. Espero que possamos ir todos para casa dentro em breve
Eu por acaso vou para casa esta noite. O secretrio para a comunicao social anunciara que o presidente j no se encontrava em estado crtico E toda a gente reunida 
na entrada se alegrara com a notcia A maioria deles passara dias ali e foi tal o seu alvio que alguns at choraram. Nessa altura, s Maddy se mantivera desde o 
princpio Todos a admiravam por isso
Quando nessa noite entrou em casa, Jack via estaes rivais. Ergueu o olhar para ela, mas no se levantou do sof para a cumprimentar. Nem sequer lhe estava grato 
pelo que ela lhe dera nos ltimos cinco dias. A sua vida, a sua alma, a sua mente E no lhe disse que os nveis de audincia eram os mais altos de todas as estaes, 
s ouviu isso da boca do produtor At arranjara maneira de fazer uma crnica sobre as dzias de pessoas que tinham tido de ser transferidas para outros hospitais 
para libertar um andar inteiro para o presidente, os seus servios de enfermagem e os agentes dos Servios Secretos E todos se tinham mostrado contentes por ser 
transferidos. Sentiam-se felizes por fazer o que podiam por ele, e fora-lhes dito que as suas despesas hospitalares noutro local seriam pagas pela Casa Branca. Nenhuma 
dessas pessoas se encontrava em estado crtico. Eram todas convalescentes, pelo que fora correcto transferi-las
Ests um nojo, Mad foi tudo o que Jack lhe disse, e era verdade Sentia-se exausta E mesmo assim conseguira mostrar-se apresentvel quando teve de ir para o ar. Tinha 
o rosto muito marcado, plido e com olheiras profundas
Porque ests sempre to exasperado comigo. No percebia nada Admitia que nos ltimos meses procedera de modo a aborrec-lo. Os seus editoriais, a sua relao com 
Lizzie, as suas conversas com Bill Mas o verdadeiro crime
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que Cometera era ir fugindo ao seu controlo, razo por que a detestava. A Dra. Flowers alertara-a. Dissera-lhe que ele no aceitaria bem esse facto, e tinha razo. 
Era algo de muito ameaador para ele. Quando lhe passou pela cabea que Jack a detestava, Maddy recordou-se subitamente do que Janet McCutchinslhe dissera quatro 
meses antes, que o marido a detestava, no que ento se recusara a acreditar. Agora acreditava nisso relativamente ao seu prprio marido. A sua forma de agir no 
deixava lugar para dvidas.
Tenho razes para estar exasperado contigo respondeu ele friamente. Traste-me de todas as formas que pudeste nestes ltimos meses, Mad. Tens muita sorte por eu 
ainda no te ter despedido. O ainda era para aterrorriz-la e lev-la a pensar que tal podia acontecer a qualquer momento. E podia. No entanto, tudo o que realmente 
sentiu foi ansiedade. Era to difcil fazer-lhe frente e sofrer as consequncias! S que, ultimamente, sabia que tinha de ser. Encontrar Lizzie e conhecer Bill haviam-na 
modificado. Era como se se tivesse encontrado a si prpria, tal como encontrara a filha. Obviamente, isso no agradava a Jack. Quando nessa noite foram deitar-se, 
ele nem lhe falou, e na manh seguinte mostrava-se gelado
Nos dias seguintes, Jack foi mais desagradvel do que nunca, alternando a crtica insistente com a indiferena total. Poucas coisas agradveis tinha a dizer-lhe, 
o que no a ralava muito. Ia buscar conforto s suas conversas com Bill E numa noite em que Jack estava fora, voltou a jantar em casa de Bill. Dessa vez, ele fez-lhe 
um bife, porque achava que ela continuava a trabalhar arduamente e precisava de comida a srio. Mas a melhor alimentao que ele lhe deu consistiu nos cuidados que 
lhe prodigalizou e na afeio que lhe demonstrou
Falaram um pouco sobre o presidente. Estava no hospital h duas semanas e iria para casa dentro de poucos dias. Autorizaram que Maddy e a mais uns poucos do grupo 
de elite o entrevistassem, uma entrevista curta. Acharam-no mais magro e muito fatigado. Mas com uma disposio excelente, e agradeceu a cada um a sua devoo e 
a sua gentileza. Maddy tambm entrevistara Phyllis, igualmente simptica e acolhedora.
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Tinham sido duas semanas extraordinrias e Maddy estava contente com a aceitao por parte dos telespectadores, embora Jack no o estivesse. Ganhara mesmo o respeito 
de Elliot Noble que, tal como toda a gente da estao, a considerara uma jornalista fantstica.
Ao sentarem-se na cozinha depois do jantar, Bill olhou-a com um sorriso pleno de ternura e admirao.
E agora o que vai fazer para se entreter? O presidente no era alvejado a tiro todos os dias e, depois de semelhante facto, tudo o que ela pudesse relatar pareceria 
insignificante.
Hei-de descobrir qualquer coisa. Preciso de encontrar um apartamento para a Lizzie. Estava-se em princpios de Novembro. Ainda tenho um ms pela frente.
Talvez eu possa ver alguns consigo. Terminado o livro, andava menos ocupado. Falava em voltar ao ensino. Recebera propostas tanto de Yale como de Harvard. Maddy 
alegrava-se por ele, mas sabia que seria uma tristeza se ele deixasse Washington. Era o nico amigo que l tinha. No ser antes do prximo Setembro serenou-a Bill. 
Pensei em experimentar os meus dotes de escritor noutro livro, depois do Ano Novo. Desta vez, talvez fico.
A perspectiva excitou-a mas, simultaneamente, teve a sensao de que no se tratava da sua vida. Cada vez estava mais consciente do quanto Jack era agressivo, mas 
deixava-se ir ao sabor da corrente. Bill no a pressionava. A Dra. Flowers dissera que Maddy agiria quando achasse que chegara o momento, o que poderia levar anos. 
Bill quase se resignara, apesar da preocupao constante com ela. Pelo menos, as duas semanas que passara no hospital por causa do presidente, tinham-na mantido 
longe de Jack, e demasiado ocupada para se ralar com ele, muito embora Jack no parasse de lhe gritar pelo telemvel. Bill dava logo por isso quando lhe telefonava. 
Tudo era sempre culpa dela. Uma nova edio de Meia Luz.
O que vai fazer no Dia de Aco de Graas? perguntou-lhe quando acabavam de jantar.
Nada de especial. Normalmente vamos para a Virgnia e passamos o dia calmamente. Nenhum de ns tem famlia. s vezes juntamo-nos aos vizinhos. E o Bill?
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-]- Vamos todos os anos para Vermont. Maddy no ignorava que nesse ano seria difcil para ele. Ia ser o seu primeiro Dia de Aco de Graas em casa sem a esposa, 
o que o apavorava, Maddy sabia-o pelas conversas de ambos.
Quem me dera poder convidar a Lizzie, mas no posso. Vai jantar com a sua famlia de acolhimento preferida. Parece bem-disposta. Quanto a Maddy, estava desapontada 
por no passar com ela o primeiro Dia de Aco de Graas das duas; mas no tinham opo.
E a Maddy? Estar bem-disposta?
Acho que sim. Mas no tinha a certeza. Conversara sobre o assunto com a Dra. Flowers, que lhe pedira que aderisse a um grupo de mulheres maltratadas. Maddy prometera 
que o faria. Comeava logo aps o Dia de Aco de Graas.
Na vspera das respectivas partidas, Maddy e Bill viram-se, ambos de humor sombrio. Ele por causa da esposa e ela por ter de acompanhar Jack, estando a relao deles 
to tensa, to sobre brasas. Jack vigiava-a como um falco. J no confiava nela. No voltara a apanh-la com Bill, e Bill no lhe telefonara mais, excepto pelo 
telemvel. Quase sempre esperava que fosse ela a contact-lo. A ltima coisa que desejava era causar-lhe problemas.
Na vspera do Dia de Aco de Graas encontraram-se em casa dele. Bill fez-lhe ch, ela levou-lhe uma caixa de biscoitos. Sentados na sua acolhedora cozinha, conversaram. 
Arrefecera, ele disse-lhe que em Vermont j nevara e que planeavam ir esquiar, ele, os filhos e os netos.
Maddy ficou a seu lado todo o tempo que pde. Por fim, teve de voltar para o estdio.
Cuide de si, Maddy. Os seus olhos revelavam sentimentos que no podiam ser expressos. Ambos sabiam que seria entrar por um caminho errado. Nenhum deles fizera nada 
que pudesse lamentar, que significasse falta de respeito pelo outro. O que quer que sentissem continuava inexplicado e recalcado. S com a Dra. Flowers ela se questionava 
quanto aos seus sentimentos por ele. Tinham um estranho relacionamento e contudo Maddy sabia que ambos dependiam dele. Eram como dois sobreviventes de barcos naufragados 
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que se tivessem encontrado em guas agitadas. Antes de se ir embora, encostou-se a ele e Bill abraou-a como um pai abraaria um filho, com braos fortes e um corao 
terno, sem lhe fazer qualquer exigncia
Vou sentir a sua falta disse simplesmente. Sabiam que no podiam falar-se durante o fim-de-semana. Jack desconfiaria se Bill lhe ligasse para o telemvel E ela no 
se atrevia a telefonar-lhe
Ligo-lhe se ele sair para andar a cavalo, ou coisa no gnero. Tente no estar muito triste. Afligia-a saber como lhe iria ser difcil festejar o feriado sem Margaret 
Mas nesse momento Bill no pensava na mulher, s em Maddy
Tenho a certeza de que vai ser difcil, mas ser bom estar com os filhos e os netos E ento, sem pensar, beijou-lhe o alto da cabea e abraou-a ternamente. Quando 
nessa tarde se separaram, a ambos entristecia o que tinham tido e haviam perdido, e no mais voltariam a ter. Ao seguir de carro para o trabalho, Maddy agradeceu 
em silncio o facto de se terem pelo menos um ao outro. Tudo o que podia fazer era agradecer a Deus a existncia de Bill
CAPTULO 18
O feriado passado na Virgnia com Jack foi difcil e tenso. Ele esteve de mau humor a maior parte do tempo, fechando-se com frequncia no escritrio para fazer chamadas 
secretas. Dessa vez, Maddy sabia que no podiam ser para o presidente, ainda convalescente. Quanto ao vice-presidente, de momento percorria o pas. Alis, Jack nunca 
fora muito chegado a ele. A sua ligao era com Jim Armstrong e mais ningum.
E uma vez, ao pegar no telefone para falar com Bill, convencida de que Jack sara, ouviu-o por acaso a conversar com uma mulher. Desligou imediatamente, sem escutar 
o que diziam. Mas ficou perplexa. Jack fora muito rpido a explicar a fotografia da mulher com quem estivera no Annabel's, em Londres, mas durante o ms anterior 
andara afastado dela e j raramente faziam amor. De certo modo era um alvio, mas intrigava-a. Durante toda a sua vida de casados, o apetite sexual do marido fora 
insacivel, voraz. Agora, parecia desinteressado dela, excepto para se queixar ou a acusar de algo que decidira que ela fizera mal.
Maddy arranjou maneira de telefonar a Lizzie no Dia de Aco de Graas, e a Bill na noite seguinte, quando Jack foi ter uma conversa sobre cavalos com um dos vizinhos. 
Bill disse-lhe que o feriado fora amargo, mas o esqui estupendo, o que j era qualquer coisa. Fizera peru com os garotos. Maddy e Jack tinham comido o deles num 
silncio sepulcral e, quando ela tentou abordar o problema da tenso entre eles, Jack despachou-a, afirmando-lhe ser tudo imaginao sua. Maddy sabia que no era. 
Nunca estivera to infeliz, excepto quando Bobby Joe a agredia. No era, afinal, muito diferente, s que mais subtil. Doloroso, confuso e triste.
Ficou aliviada quando finalmente entraram no avio de regresso a casa, facto que Jack comentou com desconfiana.
Alguma razo especial para estares to feliz por voltar para casa?
No, estou apenas ansiosa por regressar ao trabalho respondeu, sem mais. No lhe apetecia entrar numa briga
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com ele, que por seu turno dava a impresso de estar ansioso por isso
H algum  tua espera em Washington, Mad? perguntou, num tom srdido. Maddy olhou-o, desesperada
No h ningum, Jack Espero que no duvides
No estou muito certo do que sei a teu respeito. Mas podia descobrir, se quisesse. No lhe respondeu. A discrio afigurava-se-lhe o melhor caminho. O silncio, 
a nica opo
No dia seguinte, depois do trabalho, foi ao grupo de mulheres maltratadas a que prometera  Dra Flowers aderir. No que na verdade lhe apetecesse. Achava deprimente. 
Dissera a Jack que ia a uma reunio relacionada com a comisso da primeira-dama. No sabia ao certo se ele acreditara nela, mas por uma vez no recalcitrara, tambm 
tinha os seus prprios planos. Informou-a de que ia encontrar-se com uma pessoa para tratar de negcios
Maddy ficou outra vez deprimida ao deparar-se-lhe a morada onde se encontrava o tal grupo. Era uma casa em runas, com m vizinhana, que teve a certeza de estar 
cheia de pobres mulheres lgubres e lamurientas. No se sentia com disposio para aquilo. Foi pois com surpresa que viu aparecer as mulheres, em calas de ganga, 
ou em fatos de saia-casaco, umas jovens, outras idosas, umas bonitas outras inspidas e pouco atraentes. Um sortido heterogneo, embora a maioria parecesse inteligente 
e interessante, e algumas muito joviais E quando a chefe do grupo chegou e se sentou, foi caloroso o olhar com que contemplou Maddy
Aqui, s usamos os nomes prprios explicou E se reconhecermos algum, no o comentamos. No nos cumprimentamos umas s outras se nos cruzamos na rua. No contamos 
a ningum o que vimos e o que ouvimos. O que  dito aqui fica dentro destas paredes.  importante que nos sintamos em segurana. Com um gesto, Maddy aquiesceu, e 
acreditou nela
Sentaram-se em cadeiras muito usadas, apresentaram-se pelos seus nomes prprios, muitas davam a impresso de se conhecerem de anteriores visitas ao grupo. Havia 
habitualmente vinte mulheres, s vezes mais, explicou a chefe
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reuniam-se duas vezes por semana, e Maddy poderia aparecer quando quisesse. Era uma ligao aberta. Havia ao canto uma cafeteira com caf e algum trouxera biscoitos.
Uma a uma, comearam a falar acerca do que faziam, do que acontecia nas suas vidas, do que as preocupava ou alegrava, ou do que temiam. Algumas encontravam-se em 
situaes terrveis, outras tinham-se separado de maridos que as maltratavam, umas eram normais, outras eram lsbicas, algumas tinham filhos, mas o elo comum entre 
todas era terem sofrido maus tratos s mos de agressores. Na maioria, provinham de famlias agressivas, mas no era o caso de todas. Vrias tinham tido vidas aparentemente 
perfeitas, at encontrarem os homens e as mulheres que as maltratavam. Ao ouvi-las, Maddy sentiu-se descontrada como no se sentia h anos. Aquilo que escutava 
era to familiar, to real, o sair de uma armadura e respirar ar puro. Como se tivesse chegado a casa e aquelas mulheres fossem suas irms. E quase tudo o que descreviam 
se assemelhava ao que ela vivera, no s com Bobby Joe, mas nos ltimos anos com Jack. Ouvi-las era como ouvir a sua prpria voz, e a sua prpria histria, no lhe 
restando a mnima dvida de que Jack a agredira desde o dia em que a conhecera. Todo o poder, todo o encanto, todas as ameaas, todo o controlo, todos os presentes, 
todos os insultos, toda a humilhao e dor, eram coisas por que as outras mulheres tinham igualmente passado. E Jack era o retrato to clssico de um agressor que 
a perturbou no ter compreendido mais cedo. Nem quando a Dra. Flowers o descrevera na comisso h vrios meses, o facto fora para si to claro como agora. Inesperadamente 
deixou de se sentir envergonhada, ou pouco  vontade, antes aliviada. A nica coisa errada que fizera fora aceitar todas as culpas que o marido lhe atribura e permitir-se 
julgar-se culpada.
Falou-lhes da sua vida com ele, das coisas que ele lhe fazia e dizia, das palavras que usava, do tom, das acusaes, da sua reaco a Lizzie. Todas foram unnimes 
na compreenso e acentuaram que ela tinha opo. Era da sua responsabilidade o desenrolar dos acontecimentos.
Estou to assustada sussurrou, enquanto as lgrimas lhe corriam pela cara abaixo. O que me acontecer se o
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deixar? E se eu no conseguir viver sem ele? Ningum a achou ridcula por tais palavras, ou lhe chamou estpida pelos sentimentos que expressava. Tambm elas tinham 
tido medo, algumas com boas razes para isso. O marido de uma estava na priso por ter tentado mat-la, e a mulher sentia-se aterrorizada ao imaginar o que poderia 
acontecer quando ele sasse, dentro de mais ou menos um ano. Muitas tinham sido agredidas fisicamente, como ela fora por Bobby Joe. Havia as que renunciavam a vidas 
estveis e casas encantadoras, uma at abandonara os filhos, por sentirem que tinham de se salvar antes que os maridos as matassem. Sabiam que no era louvvel, 
mas haviam fugido a correr, de qualquer maneira Outras ainda se debatiam, nem sequer estavam seguras de ser capazes, como Maddy. De uma coisa, porm, adquiria conscincia, 
era que, a cada hora, cada dia, cada minuto que se deixasse ficar, corria perigo. De sbito, percebeu as advertncias de Bill e da Dra. Flowers, e mesmo de Greg. 
At a, no conseguira dar-lhes verdadeiramente razo. Agora, finalmente, conseguia.
O que acha que vai fazer, Maddy? perguntou uma das mulheres.
No sei foi a sua resposta sincera Ando apavorada, temo que ele veja o que me vai na cabea, que oia os meus pensamentos
A nica coisa que ele vai ouvir com nitidez  voc a bater-lhe com a porta na cara e a fugir a sete ps. No ouvir nada at voc fazer isso declarou uma mulher 
sem dentes e de cabelo hirsuto Mas, apesar do seu aspecto e da sua rudeza, Maddy gostou dela. Aquelas mulheres, apercebia-se agora, eram o que ia salv-la. Tinha 
de ser ela a agir, tambm o sabia, mas precisava da ajuda delas E por qualquer motivo, prestava-lhes ateno.
Era uma nova pessoa ao deix-las, mas elas tambm a avisaram de que nada aconteceria por magia. Sentisse-se como se sentisse pela experincia comum partilhada, e 
pela aprovao que lhe haviam dado, era ela quem tinha de actuar, e no ia ser fcil. Maddy estava ciente disso
Deixar a agresso  como deixar as drogas sentenciou, abrupta, outra mulher.  a coisa mais difcil que h,
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porque a agresso nos  familiar. Estamos habituadas a ela. J nem percebemos que  agresso.  a nica maneira que temos de saber, ou de imaginar que algum nos 
ama. Maddy j ouvira aquilo antes, mas ainda odiava escut-lo. Compreendia por fim a verdade que continha. S ignorava o que ia fazer, excepto que voltaria ali.
No espere muito de si de incio advertiu-a uma das outras, mas no hesite por uma "ltima vez", por uma "ltima jogada"... Pode ser a ltima de que dispe. At 
os tipos que nunca nos levantaram a mo por vezes enlouquecem. Ele  uma pessoa m, Maddy, bastante pior do que voc julga, e poderia mat-la. Provavelmente deseja-o, 
mas no tem coragem. Ponha-se ao fresco antes que ele arranje essa coragem... O homem no a ama, no se preocupa consigo de forma alguma... o amor que lhe tem expressa-o 
magoando-a.  o que quer e o que vai fazer. No ir mudar nunca. S para pior. E quanto melhor voc for, pior ser ele. Corre um perigo muito grande.
Ao partir, Maddy agradeceu a todas e foi para casa, conduzindo, pensativa e a ponderar tudo o que ouvira. No duvidava de nada. Sabia que era verdade. E tambm sabia 
que, por qualquer louca razo, desejava que Jack deixasse de a magoar e a amasse. Gostaria de mostrar-lhe como o fazer, ansiava mesmo por explicar-lhe tudo, para 
ele poder parar de fazer as coisas que a feriam. Mas sabia que ele nunca pararia. O que iria era feri-la cada vez mais. E mesmo que pensasse que Jack a amava, tinha 
de deix-lo. Era uma questo de sobrevivncia.
Telefonou a Bill do carro e contou-lhe como tinha sido. Bill mostrou-se aliviado, por ela. S esperava que lhe tivessem inoculado a fora necessria, e que ela agisse 
em conformidade.
Quando entrou em casa, dir-se-ia que Jack pressentia tudo. Olhou-a de um modo estranho e perguntou-lhe onde estivera. Maddy repetiu que fora a uma reunio relacionada 
com a comisso. At aproveitou a oportunidade para lhe contar que se tratava de um grupo de mulheres maltratadas que tinham querido avaliar, e que fora muito interessante. 
Mas s ouvir falar nisso enfureceu-o.
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Devia ser um bando de gajas doidas. Nem posso acreditar que esperem de ti que te mistures com gente dessa. Maddy abriu a boca para as defender, mas depressa a fechou. 
J no duvidava de que expor-se tanto podia ser perigoso. No ia arriscar-se. Aprendera o suficiente. Porque te mostras to complacente com elas acusou-a, e ela 
fingiu-se o mais desprendida e confiante que pde, recusando-se a permitir-lhe abal-la. Punha em prtica o que lhe tinham ensinado nessa tarde na reunio.
Por acaso, foi bastante aborrecido, mas prometi  Phyllis que iria. Jack olhou-a fixamente e abanou a cabea. Parecia satisfeito com a resposta. Por uma vez, fora 
a resposta correcta.
E nessa noite, o que j no acontecia h bastante tempo, Jack fez amor com ela. E de novo foi brutal, como que a recordar-lhe o seu poder. No importava o que ela 
tivesse ouvido, o poder continuava a ser dele e s-lo-ia sempre. Tal como anteriormente, no lhe disse nada. Tomou um duche, mas nenhuma quantidade de gua ou de 
sabo parecia lavar de si a repugnncia que sentia por ele. Voltou para a cama em silncio e foi com alvio que o ouviu ressonar
Levantou-se cedo no dia seguinte e estava na cozinha quando ele desceu. Nada parecia ter mudado entre ambos. Mas Maddy sentia-se agora uma prisioneira entre quatro 
paredes, a escavar s escondidas um tnel para a sua segurana, por muito tempo que levasse a faz-lo.
O que se passa contigo? vociferou Jack quando ela lhe passava o caf. Ests estranha. Maddy pediu a Deus que o marido no lesse os seus pensamentos. Tinha quase 
a certeza de que ele era capaz disso, mas proibiu-se de admitir tal hiptese. Ao ouvi-lo, percebeu que j estava a modificar-se, o que a punha em risco.
Acho que apanhei uma constipao, ou coisa do gnero
Toma vitamina C. No quero ter de arranjar um substituto para ti, se adoeceres. D um trabalho. Nem sequer era ele quem tinha de arranjar o substituto, mas pelo 
menos engolira a sua verso de no se sentir bem. Pelo tom, Maddy notava a sua constante agressividade actual para com ela
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-Vou ficar boa. Aguento-me. Jack abanou a cabea, concordando, e pegou no jornal. Maddy fixou, sem ver nada, The Wall Street Journal. Tudo o que podia fazer era 
rezar para que ele no imaginasse aquilo que pensava. Com alguma sorte, no imaginaria. Tinha de estabelecer um plano, e fugir antes que ele a destrusse. Porque 
havia uma coisa de que tinha a certeza: a raiva que suspeitara ele sentir por ela era real, e muito mais intensa do que receara.
CAPTULO 19
O ms de Dezembro foi agitado, como de costume. Reunies sociais, encontros de trabalho, planos para as frias. Cada embaixada parecia ter a sua recepo, um jantar, 
ou um sero com danas, aquilo em que pudesse incluir as suas tradies nacionais Fazia parte do lado agradvel de se viver em Washington e sempre agradara a Maddy. 
No princpio de casados, adorara ir a festas com Jack, mas, nos ltimos meses,  medida que a relao de ambos se ia deteriorando, detestava sair com ele. Jack passava 
o tempo com cimes, observava-a com outros homens e depois acusava-a de qualquer delito ou comportamento inadequado. Era extenuante acompanh-lo onde quer que fosse 
nesse ano, o Natal no a atraa
O que realmente queria era incluir Lizzie nas suas frias, mas, com Jack a proibir-lhe qualquer contacto com a pequena, Maddy sabia que no poderia faz-lo Ou o 
enfrentava e transformava o caso numa batalha, ou tinha de desistir completamente da ideia no havia acordo possvel com Jack. Era  sua maneira, ou no era de todo. 
Pasmava-a nunca antes ter dado por isso, nem como ele depreciava as suas ideias e necessidades e a levava a sentir-se idiota ou culpada. Uma coisa que aceitara de 
boa vontade durante anos Agora, nem sabia ao certo como se operara a mudana, mas, nos ltimos meses,  medida que se ia apercebendo de como ele a desrespeitava, 
era constante a urgncia que tinha de combater a sua crescente sensao de opresso. No entanto, por muito estranha que se sentisse em relao a Jack, l muito no 
ntimo sabia que ainda o amava O que era aterrador, porque a tornava vulnervel
Contudo, no podia esperar que esse amor terminasse. O amor no era para ali chamado. Mesmo ainda o amando e de certo modo precisando dele, sabia que tinha de se 
afastar. Cada dia que passava com o marido a punha em perigo, repetia constantemente a si prpria. Tambm estava consciente de que se tivesse tentado explicar-se 
a algum, ningum teria compreendido, excepto quem passara pelo mesmo. Aos olhos
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de qualquer outra pessoa, as conflituosas emoes e sentimentos de culpa com que se debatera teriam parecido absolutamente loucos. At Bill, com todo o interesse 
que tinha nela, no a entendia verdadeiramente. A nica coisa que o ajudava era o muito que ia aprendendo, na comisso, acerca das formas subtis, ou no to subtis, 
de violncia contra as mulheres. E era difcil, na verdadeira acepo da palavra, etiquetar como "violncia" o que Jack fazia, mas era o paradigma do comportamento 
agressivo. Visto do exterior, ele pagava-lhe bem, salvara-a, proporcionava-lhe segurana, uma casa encantadora, uma fazenda no campo, um avio a jacto que ela podia 
usar a seu bel-prazer, roupa bonita, presentes de jias e peles, frias no Sul de Frana. Como iria algum no seu juzo perfeito acus-lo de ser um homem agressivo 
e que infligia maus tratos. Porm, Maddy e os que examinavam o relacionamento ao microscpio conheciam bem de mais o demnio que se escondia por detrs. Todas as 
clulas do mal estavam presentes, cuidadosamente ocultas pela aparncia. Hora a hora, dia a dia, minuto a minuto, Maddy podia sentir o veneno dele devor-la. Vivia 
num medo constante.
Houve alturas em que percebeu que Bill estava aborrecido com ela. Sabia o que o amigo pretendia, embora sem saber bem porqu: era que ela se libertasse e encontrasse 
o seu caminho para a salvao. Observ-la a tropear e cair, avanar e recuar, ver claramente e depois deixar-se consumir pela culpabilizao at esta a paralisar 
e cegar... era frustrante para ele. Ainda se falavam ao telefone todos os dias, e tomavam precaues quando almoavam juntos. Havia sempre o perigo de algum a ver 
entrar em casa dele e tirar concluses que seriam no s incorrectas, como desastrosas para ela. Mantinham-se sempre circunspectos mesmo quando estavam ss. A ltima 
coisa que Bill queria era sobrecarreg-la com mais problemas. J os tinha de sobra, achava ele, no lhos aumentaria.
O presidente regressara entretanto  Sala Oval. Trabalhava meio dia, cansava-se facilmente, mas quando Maddy o viu num ch ntimo que ofereceram, achou-o com melhor 
aspecto e muito mais forte. Phyllis parecia ter atravessado uma guerra, mas irradiava alegria sempre que olhava para o
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marido. Maddy invejou-a por isso. Nem conseguia idealizar aquele sentimento. Estava to habituada a tenses no seu relacionamento que lhe era difcil imaginar sem 
eles. Chegara ao ponto de tomar como certas a ansiedade e a dor E, ultimamente, mais do que nunca
Jack andava mais desagradvel do que jamais fora, pronto a saltar  mnima oportunidade, em permanente acusao ao seu comportamento Como se, noite e dia, no trabalho 
e em casa, espreitasse o momento de a atacar, qual puma atento  sua presa, e Maddy sabia a que ponto o marido podia ser letal. As coisas que dizia eram devastadoras 
E o modo como as dizia, ainda mais. No entanto, havia momentos em que Maddy dava por si a pensar em como ele era encantador, inteligente e bonito. O que mais queria 
aprender era a odi-lo, no apenas a tem-lo. Crescera muito interiormente, graas ao grupo de mulheres maltratadas, via melhor o que a motivava, e o que fazia E 
percebia que de uma qualquer forma, subtil, invisvel, estava viciada nele
Um dia, abriu-se com Bill, em meados de Dezembro A festa de Natal da estao televisiva era no dia seguinte e no lhe apetecia nada ir. A ltima batalha de palavras, 
em que Jack a acusara de flartar no programa com o apresentador, subira de tom passara a acus-la repetidamente de dormir com ele. Maddy tinha a certeza de que ele 
sabia que no era verdade, s o dizia para a martirizar. At comentara o assunto com o produtor, o que a levava a pensar que talvez os dias de Elliot no programa 
dela estivessem contados. Pensara em p-lo de sobreaviso, mas, quando falou nisso a Greg pelo telefone, o amigo aconselhou-a a no o fazer. S lhe acarretaria mais 
problemas, o que era provavelmente o objectivo de Jack
O que ele est a tentar  que te sintas no inferno, Mad afirmou Greg, com toda a franqueza. Sentia-se feliz em Nova Iorque, falava em casar com a sua nova namorada, 
Maddy aconselhou-o a dar mais algum tempo. Naquela altura no pensava muito em casamentos, ou pelo menos ele que procedesse com cautela
Ao sentar-se nessa quinta-feira  tarde na cozinha de Bill" sentia-se infinitamente cansada e desiludida. O Natal no lhe
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dizia nada, tentava descobrir como ir a Memphis para ver Lizzie, ou cham-la a Washington, sem o conhecimento de Jack. Encontrara finalmente um pequeno apartamento 
para ela no fim-de-semana anterior. Era acolhedor e bem iluminado, e estava a ser pintado de novo por deliberao sua. Fizera o depsito em numerrio e estava convicta 
de poder pagar a renda sem que Jack viesse a descobrir.
Odeio mentir-lhe comentou calmamente durante o almoo com Bill. Este comprara caviar, e gozavam um dos seus raros e agradveis momentos juntos. Mas  a nica forma 
de poder fazer aquilo que eu quero e me  necessrio. Ele  to irracional em relao  Lizzie: proibiu-me de a ver. Em relao a qu... no era ele irracional, 
pensou Bill, mas guardou para si o pensamento. Falava menos do que era habitual, e Maddy perguntava a si prpria se alguma coisa o aborrecia. Sabia que as frias 
lhe eram penosas. E o dia do aniversrio de Margaret tambm era nessa semana, outro facto doloroso. Sente-se bem? interrogou-o, enquanto lhe passava uma tosta com 
caviar sobre o qual espremera umas gotas de sumo de limo.
No sei. Esta poca deixa-me sempre nostlgico. Este ano muito especialmente.  difcil no olhar s vezes para o passado, em vez de olhar para o futuro. Contudo, 
Maddy vira-o melhorar nos ltimos tempos. Ainda se referia com frequncia  mulher, mas dava a impresso de se sentir menos torturado com o que ocorrera. Ele e Maddy 
tinham falado muito sobre isso e ela continuava a pression-lo a perdoar-se a si prprio, mas era mais fcil dizer do que fazer. Tivera a impresso de que quando 
escrevia o livro se libertara um pouco. O desgosto pela perda da esposa era todavia uma carga que ainda transportava.
As frias so terrveis... Mas, pelo menos, estar com os seus filhos. Ia de novo para Vermont, ela e Jack para Virgnia. Seria muito menos divertido para ela do 
que para ele. Bill e os filhos planeavam um Natal  antiga. Jack detestava festas e, com excepo de meia dzia de prendas caras para ela, fazia o menor espalhafato 
possvel. Em criana, todos os anos o Natal o desapontara e em adulto recusava-se a comemor-lo.
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O que Bill disse a seguir surpreendeu-a-
Quem me dera poder passar o Natal consigo, Maddy Sorria-lhe tristemente. Era um sonho impossvel, mas um pensamento terno. Os meus filhos adorariam t-la connosco
Tambm a Lizzie replicou ela, num tom resignado. J comprara presentes de Natal lindos para a filha, e algumas lembranas para Bill. Pequenas coisas que lhe faziam 
pensar nele, CDs, um cachecol quente que parecia feito de propsito para o amigo, e um conjunto de livros antigos que esperava que ele apreciasse. Nada de importante 
ou de caro, mas tudo muito pessoal, como que smbolos de amizade que os dois tanto prezavam. Guardava-os para a vspera da partida dele para Vermont e esperava que 
almoassem juntos uma ltima vez antes de ambos sarem da cidade e seguirem os seus caminhos separados at depois do Ano Novo
Ento, enquanto comiam o resto do caviar, Maddy sorriu-lhe. Bill comprara pasta de fgado, uma baguete e uma garrafa de vinho tinto. Preparara-lhe um piquenique 
requintado, um refgio seguro contra as tenses do mundo que a rodeava
s vezes pergunto-me porque me dispensa tantas atenes. Tudo o que eu fao  queixar-me e choramingar por causa do Jack. Sei que isso deve, aos seus olhos, significar 
que no estou a tomar medidas nenhumas. s vezes, deve ser difcil ficar sentado a observar
A resposta  fcil. Retribuiu-lhe o sorriso E deixou-a boquiaberta pelo que disse a seguir, sem afectao e sem hesitar. Amo-te. Fez-se um momento de silncio enquanto 
Maddy se concentrava na palavra ouvida e aprendia o seu significado. O mesmo como se tivesse sido ela a diz-la a Lizzie. Vinha de um protector e amigo, no como 
uma mulher a teria dito a um homem, e vice-versa. Pelo menos foi assim que a entendeu
Eu tambm o amo, Bill replicou ternamente  o meu melhor amigo que tenho no mundo. O que haviam partilhado ultrapassava mesmo a sua amizade com Greg, que entretanto 
se dedicara  sua prpria vida. O Bill  como se fosse da minha famlia, quase como um irmo mais velho
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Tendo, porm, dito o que dissera, Bill no ia recuar. Parou muito perto dela e ps-lhe uma mo no ombro.
No  isso o que eu quero dizer, Maddy. Digo-o num sentido mais profundo, como homem. Amo-te repetiu, e ela fitou-o, sem saber bem o que responder. Bill compreendeu-a 
e tentou p-la  vontade. Mas estava contente por finalmente lho ter dito. Levara muito tempo a chegar quele ponto. Seis meses de grande intimidade, em todos os 
sentidos que contavam. Era agora parte diria da vida dela e s desejava ser ainda mais. No tens de me responder se no quiseres. No espero nada de ti. Passei 
os ltimos seis meses a aguardar que mudasse a tua vida, fizesses qualquer coisa em relao ao Jack. Mas compreendo como te  difcil. Nem sequer tenho a certeza 
de que alguma vez o consigas. Acho que aceito isso. O que no quero  esperar at que ajas, se agires, para te dizer que te amo. A vida  curta, e o amor algo de 
muito especial. As suas palavras deixavam-na confusa.
Tambm o Bill  muito especial disse meigamente e inclinou-se para o beijar na face. Mas Bill virou levemente a cara, e Maddy no soube bem como foi, se partiu dele 
ou dela, o certo  que no momento seguinte beijava-o e ele beijava-a, com um sentimento que vinha do fundo dos seus coraes e com autntica paixo. Quando por fim 
se separaram, olhou-o, estupefacta. Como foi que isto aconteceu entre ns, Bill?
Penso que j vinha de longe. Rodeou-a com os braos, preocupado com a ideia de a ter perturbado. Est tudo bem contigo? Baixou o olhar para ela, que acenou afirmativamente 
e encostou a cabea ao peito dele. Era consideravelmente mais alto do que ela; sentiu-se em segurana e feliz nos seus braos, como nunca antes se sentira. Era qualquer 
coisa totalmente diferente e, na sua novidade, ao mesmo tempo deliciosa e assustadora.
Est tudo bem respondeu, olhando-o e tentando pr ordem nos seus sentimentos. Ento, Bill voltou a beij-la. No lhe ops qualquer resistncia. Pelo contrrio, percebia 
agora que aquilo era tudo o que queria. Mas, ento, o que Jack dissera a seu respeito era verdade. Nunca o trara,
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nunca antes olhara para outro homem, e via que estava apaixonada por Bill sem ter a mnima ideia de como lidar com a situao
Sentaram-se  mesa da cozinha, de mos dadas, olhos nos olhos. Bill abrira a porta junto da qual ambos tinham parado, e Maddy nunca se apercebera de como era grandiosa 
a vista para o jardim.
 um autntico presente de Natal disse, com um sorriso envergonhado, e Bill sorriu abertamente
, Maddy, no ? Mas no quero que te sintas pressionada. No planeei nada. Tal como tu, tambm no o esperava E no quero que te sintas culpada. J a conhecia bem. 
Havia ocasies em que o simples facto de respirar lhe trazia sentimentos de culpa, e aquilo era muito mais do que respirar. Aquilo era viver.
Como queres que eu me sinta? Sou casada, Bill Estou a fazer precisamente aquilo de que ele me acusa, e que at hoje nunca aconteceu. Agora . ou podia ser...
Isso depende de como procedermos e sugiro que prossigamos muito devagar. Embora tivesse gostado de avanar muito mais depressa. Por respeito por ela, porm, sabia 
que no devia. Quero fazer-te feliz, no complicar-te a vida. Era contudo o que estava a acontecer. E forava-a a olhar o seu relacionamento com Jack de uma forma 
que sempre evitara. Com aquele primeiro beijo, fora catapultada para uma situao completamente diferente.
O que vou eu fazer agora? perguntou a Bill e a si prpria. Estava casada com um homem que a tratava de modo abominvel. Apesar disso, tinha para com ele um sentimento 
de lealdade, ou pelo menos daquilo que entendia por lealdade
Vais fazer o que for certo para ti. J sou crescidinho. Posso aguentar-me. Mas seja o que for que decidas acerca de mim, continuas a ter de te ocupar do Jack. No 
podes esconder-te dele para sempre, Maddy Esperava que o seu amor, e o conhecimento desse amor por parte dela, lhe desse a fora de que precisava para o deixar. 
Num certo sentido, embora ela se recusasse a pensar assim, ele era o seu passaporte para a liberdade. Maddy estava todavia decidida a no o
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usar. Tinha a sensao de que, se quisesse, Bill poderia ser o seu futuro. Bill Alexander no era homem para brincar com coisas srias.
Tagarelaram depois durante o almoo, enquanto iam comendo queijo e bebendo vinho, e ele f-la rir da situao que viviam. Disse-lhe que, embora de incio no o reconhecesse, 
se apaixonara por ela no primeiro dia.
Penso que eu tambm confessou Maddy, mas tinha medo de o admitir. Achava errado, por causa do Jack.
E continuava a s-lo, porm agora era mais forte do que ela, ou do que de ambos. O Jack nunca me perdoar acrescentou, infeliz. Nunca acreditar que no aconteceu 
o tempo todo. Dir a toda a gente que andei a tra-lo.
F-lo- em qualquer caso, se o deixares. E mais do que nunca Bill rogava que ela o fizesse, para bem de ambos. Era como se uma bela borboleta lhe tivesse pousado 
na mo e ele receasse tocar-lhe ou agarr-la. Apenas queria admirar Maddy e am-la. Penso que vai dizer das boas, quando te livrares dele, sem ter a ver comigo. 
No vai agradecer-te, isso de certeza. Era a primeira vez que dizia "quando" em vez de "se", e ambos o notaram. A verdade  que ele precisa mais de ti do que tu 
dele. Tu precisaste dele para dar corpo s tuas fantasias sobre segurana e casamento, e ele precisa de ti para alimentares a sua doena, para satisfazeres a sua 
sede de ira, se preferes assim. Um agressor precisa de uma vtima.
Pensativa, Maddy no lhe respondeu. Por fim, acenou em silncio, concordando.
Passava das trs quando o deixou, relutante. Quereria ficar com ele; antes de partir beijaram-se longamente. O seu relacionamento entrara noutra dimenso, fora aberta 
uma porta que no poderia voltar a ser fechada, o que alis nenhum dos dois desejava.
Toma conta de ti. S cuidadosa.
Vou ser. Presa nos braos dele, sorriu-lhe. Amo-te... e agradeo-te o caviar... e os beijos...
s tuas ordens. Retribuiu-lhe o sorriso e ficou  entrada da porta a acenar-lhe, enquanto ela se afastava no carro. Tinham muito em que pensar. Sobretudo Maddy.
Ficou de imediato nervosa quando a secretria a informou 
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de que Jack lhe telefonara duas vezes na ltima hora. Sentou-se, respirou fundo e ligou para a extenso dele, de sbito aterrorizada perante a ideia de que algum 
a tivesse visto sair de casa de Bill. Tremiam-lhe as mos quando ele atendeu.
Onde raio andaste?
Compras de Natal foi a resposta imediata. A mentira ocorrera-lhe to rapidamente que ela prpria se surpreendeu pela sua prontido a engan-lo. Decerto no poderia 
dizer-lhe onde estivera, ou o que estivera a fazer. Embora a caminho do escritrio tivesse vindo a pensar se o correcto no seria contar-lhe a verdade, que era desesperadamente 
infeliz com ele e estava apaixonada por outro. Sabia porm que dizer-lho seria convid-lo a agredi-la. A menos que pudesse ir-se embora no mesmo instante E tambm 
sabia que no estava preparada. Assim sendo, a honestidade no era necessariamente a resposta correcta, para j.
Telefonei-te para te dizer que tenho que me encontrar com o presidente Armstrong esta noite. Ficou surpreendida. O presidente ainda no lhe parecia suficientemente 
bem para ter reunies nocturnas, mas no fez qualquer observao. Era mais fcil ficar calada. E concluiu de imediato que as suspeitas que o marido lhe inspirava 
se baseavam provavelmente no seu prprio comportamento. Detestava pensar assim. Mas sabia que, sentisse o que sentisse por ele, o que estava a acontecer com Bill 
era errado da parte de uma mulher casada, por muito que o casamento estivesse deteriorado
Est bem. Tenho de ir comprar algumas coisas no caminho para casa. Necessitava de papel para embrulhar presentes e de umas pequenas lembranas para a sua secretria 
e o seu assistente no campo das pesquisas. J comprara para ambos relgios Cartier. Precisas de alguma coisa? perguntou, tentando ser amvel para o marido, como 
que para mascarar as suas transgresses
Porque ests to bem-disposta? Perante a desconfiana de Jack, referiu-se ao Natal. Ele disse-lhe que no o esperasse acordada, que podia ser uma reunio demorada, 
o que acentuou as dvidas de Maddy. Uma vez mais, nada comentou.
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Fez os seus dois programas dessa noite como se pairasse nas nuvens, e ligou a Bill duas vezes, antes e depois da emisso.
Fazes-me muito feliz. E muito assustada, poderia ter acrescentado. No falaram no futuro, limitaram-se a saborear o presente. Ela disse-lhe que depois do trabalho 
ia a um centro comercial comprar umas coisas, e ele que lhe telefonaria para casa, uma vez que o marido estaria ausente. Tambm no acreditava que Jack fosse encontrar-se 
com o presidente. Phyllis dissera a ambos na comisso, h poucos dias, que Jim chegava exausto ao fim da tarde e pelas sete da noite estava a dormir.
Talvez o Jack durma com ele brincou Maddy, com um bom humor inesperado.
Seria uma nova reviravolta. Bill riu-se da sugesto, e prometeram que se falariam mais tarde.
Maddy saiu do trabalho num dos carros da estao, visto que Jack tinha consigo o carro deles e o motorista. Alegrou-a ficar sozinha naquele momento. Dava-lhe tempo 
para pensar em Bill, sonhar com ele. Estacionou no centro comercial e entrou numa grande loja para comprar fitas e papel para embrulhar os seus presentes.
A loja estava  cunha com gente a fazer compras de Natal, mulheres e crianas barulhentas, homens de ar confuso sem saber o que escolher, e os compradores habituais 
que enchiam o centro nas vsperas dos feriados. Uma agitao superior ao normal, o que no era surpreendente. E a loja de brinquedos da porta ao lado tinha um Pai 
Natal que apinhava de gente que queria v-lo a caminho para o parque de estacionamento. Todo aquele movimento deixou Maddy bem-disposta. Era o esprito de Natal 
que, graas a Bill, comeava a saborear.
Carregava nos braos uma dzia de rolos de papel encarnado, cartes perfumados, fita gomada, chocolates com a do Pai Natal e pequenos ornamentos natalcios, quando 
ouviu um estranho rudo vindo de algures por cima dela. Era to forte que inicialmente a assustou. Viu outras pessoas parar e olhar, igualmente incapazes de compreender. 
Um boom estrondoso seguido de um som semelhante ao de uma cascata, 
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de uma queda de gua impetuosa. No ouvia ningum. A msica parou e de sbito irromperam gritos enquanto toda a iluminao da loja se apagava. Nem tempo teve para 
entrar em pnico ou abrir a boca, viu o tecto desabar  sua frente e, simultaneamente, toda a gente a desvanecer-se na escurido e tudo o que a rodeava a desaparecer.
CAPTULO 20
Quando acordou, Maddy sentiu-se como se tivesse um edifcio inteiro sobre o peito. Abriu os olhos; doam-lhe e estavam cheios de p. No conseguia ver nada, pairava 
no ar um estranho cheiro a poeira e a queimado. Estava quente, e com todo o corpo muito pesado. Compreendeu ento que qualquer coisa lhe cara em cima. Tentou mover-se 
e de incio pensou no ser capaz. Podia mexer os ps, mas algo lhe pressionava as pernas para baixo e toda a parte superior do corpo estava presa. Pouco a pouco, 
porm, a debater-se para se soltar, foi conseguindo afastar os vrios pesos que haviam desabado sobre si. No deu por isso, mas levou-lhe mais de uma hora a libertar-se 
e a poder sentar-se, como uma pequena bola, no diminuto espao a que estava confinada. E o que de imediato notou foi que  sua volta o silncio era total. Mas, passado 
um bocado, comeou a ouvir gemidos e gritos e,  distncia, pessoas que chamavam outras pessoas. Sentou-se, expectante, e teve a certeza de ouvir algures o choro 
de um beb. No fazia a mnima ideia do que acontecera ou de onde se encontrava exactamente.
No parque de estacionamento, longe do stio onde se encontrava, vrios automveis tinham explodido. A fachada de vrios edifcios fora destruda. Havia carros de 
bombeiros por toda a parte, gente que corria e gritava. Pessoas a sangrar precipitavam-se para o parque e crianas feridas eram postas em macas e apressadamente 
metidas em ambulncias. Parecia um estdio cinematogrfico, e os que, no meio da confuso, falavam com a polcia e os bombeiros diziam que todo o edifcio rura 
num instante. De facto, quatro grandes armazns do centro comercial estavam destrudos e havia uma enorme cratera do lado de fora do armazm onde Maddy permanecia. 
Na cratera, um buraco imenso, estacionava instantes atrs um camio. Fora uma exploso de tal magnitude que os vidros dos prdios a cinco quarteires de distncia 
se tinham estilhaado. Novas equipas chegaram; e o Pai Natal da loja de brinquedos foi levado coberto com um encerado. Tivera
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morte instantnea, ele e mais de metade das crianas que aguardavam para o ver. Uma tragdia que no se conseguia avaliar correctamente, tais as suas enormes propores.
Bem no fundo do armazm, onde se sentava torcida numa pequena bola, Maddy tentava descobrir como sair de debaixo do entulho que a mantinha prisioneira. Tentou agarrar-se-lhe, 
afast-lo, empurr-lo com o corpo, mas de incio nada cedeu e, com o pnico a apoderar-se de si, comeava a ter uma sensao de falta de ar. Foi ento que, no escuro, 
ouviu uma voz muito perto.
Socorro... socorro... Algum me ouve? A voz era fraca, mas reconfortava-a saber que havia algum por perto.
Ouo eu. Onde est? O p era tanto que Maddy mal conseguia respirar. Voltou-se na direco da voz, prestando toda a ateno.
No sei. No vejo nada respondeu a voz. O negrume era total.
Sabe o que aconteceu?
Acho que o prdio nos caiu em cima... Bati com a cabea... Parece que est a sangrar... Era uma voz de mulher. Maddy julgou ouvir de novo o beb. Mas pouco mais 
ouvia. Uma voz ocasional, um grito... Esperava o som de sirenes, sinnimo de ajuda, mas nada. O cimento que as bloqueava era tanto que no lhes permitia ouvir o 
caos exterior ou os veculos de salvamento que, de sirenes ligadas, se encaminhavam naquela direco vindos de toda a cidade. At tinham sido feitos apelos para 
a Virgnia e o Maryland. Ningum sabia ainda nada, excepto que ocorrera uma enorme exploso e havia imensos feridos e mortos.
O beb  seu? perguntou Maddy ao voltar a ouvir o choro.
... respondeu, fraca, a voz. Tem dois meses. Chama-se Andy. A rapariga chorava. E Maddy tambm teria chorado, se no estivesse ainda num estado de choque que a 
impedia de sentir as suas prprias emoes.
Est ferido?
No sei... no o vejo. Rompeu em soluos. Maddy fechou os olhos por um minuto, numa tentativa de pr ordem nos pensamentos. Algo de terrvel devia ter acontecido 
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para que todo o edifcio lhes desabasse em cima, mas no conseguia imaginar o qu.
Consegue mexer-se? Falar com a rapariga ajudava-a a manter a sua prpria sanidade, enquanto recomeava a tentar empurrar vrios pedaos de entulho. E o que parecia 
um enorme pedregulho atrs de si cedeu um bocadinho, embora apenas uns centmetros, na direco oposta quela de onde vinha a voz.
No, nada, h qualquer coisa sobre as minhas pernas e os meus braos... e no sou capaz de chegar at ao meu beb.
Eles vo mandar-nos ajuda, tenha calma. Enquanto Maddy falava, ambas ouviram o som surdo de vozes distantes, mas no havia maneira de saber se eram salvadores ou 
vtimas. Maddy tentou ento pensar no que devia fazer; lembrou-se de que tinha o telemvel na mala. Se o achasse, podia pedir socorro, ou talvez eles a encontrassem 
mais facilmente. Era uma ideia louca, mas que a distraiu; ao mesmo tempo, ia tacteando em seu redor, sem tocar em mais do que p, pedras e pedaos de cimento partido. 
Ficou porm com uma melhor percepo da pequena rea que a rodeava. E de novo tentou deslocar as paredes da sua cela provisria. Numa das extremidades conseguiu 
alargar a borda uns trinta centmetros, ampliando assim o espao de ar. Estou a ver se chego ao p de si disse encorajadoramente  rapariga. Por um longo momento 
s o silncio lhe respondeu. Ficou assustadssima. Voc est bem?... Ouve-me?... Depois de uma pausa extensa, veio a voz:
Julgo que adormeci.
No durma. Tente manter-se acordada. Maddy mostrava-se firme, mas continuava confusa, no chegava a concluso nenhuma. Ela prpria estava ainda em estado de choque 
e quando se mexia sentia uma terrvel dor de cabea.
Fale comigo... como se chama?
Anne.
Ol, Anne. O meu nome  Maddy. Que idade tem?
Dezasseis.
Eu tenho trinta e quatro. Sou jornalista... na televiso.
Outra vez ausncia de resposta. Acorde, Anne... Como vai o Andy?
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No sei. O mido choramingava, estava portanto vivo, mas a rapariga parecia mais enfraquecida. S Deus sabia a que ponto estava mal, ou quando algum as encontraria
E enquanto Maddy continuava a lutar dentro da sua caverna, l fora no paravam de chegar carros de todos os bairros. Dois dos armazns ardiam, quatro tinham rudo, 
e corpos desmembrados eram retirados das zonas junto ao centro de exploso, alguns deles absolutamente irreconhecveis. Havia mos, ps, braos, cabeas, por toda 
a parte. Os que podiam andar eram removidos e as ambulncias levavam aqueles que no se deslocavam pelos seus prprios meios. A rea fora o mais possvel desobstruda 
para nela poderem operar salvadores e voluntrios. O Centro de Controlo de Catstrofes e Emergncias Nacionais tinha sido chamado e as pessoas iam organizando equipas 
 medida que os buldzeres comeavam a chegar Mas o equilbrio das estruturas ainda de p era demasiado instvel para que fossem usados, e muitas vtimas seriam 
postas em risco pelo uso de maquinaria que, no fim de contas, criaria um problema ainda maior
Havia um grande nmero de equipas de reportagem, e os programas de televiso de todo o pas tinham sido interrompidos para informar os telespectadores de que ocorrera 
em Washington o maior desastre da histria do pas desde a exploso na cidade de Oklahoma em 1995
Mencionava-se j mais de uma centena de mortos e feridos, no sendo possvel fazer um clculo exacto. Uma criana aos gritos, com os braos decepados, fora filmada 
por todas as cmaras presentes a ser levada  pressa pelos salvadores. A sua identidade era desconhecida e ningum a reclamara ainda. Havia dzias de outras pessoas 
em situao semelhante. Feridos, em estado de choque, maltratados, mutilados, mortos e moribundos iam sendo removidos dos escombros
Bill, calmamente instalado no seu canto, via televiso quando foram passadas as primeiras imagens da tragdia. Sentou-se de um salto, horrorizado. Maddy dissera-lhe 
que ia l depois do trabalho. Instantaneamente, correu a telefonar-lhe. No obteve resposta. Ligou em seguida para o telemvel e uma gravao informou-o de que o 
nmero no estava disponvel.  medida que continuava a ver as notcias, submergia-o 
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uma onda de pnico. Quase telefonou para a estao para obter informaes dela, mas no se atreveu. Havia sempre a possibilidade de Maddy estar no terreno, a cobrir 
o acontecimento; decidiu esperar para ver se ela lhe telefonava. Sabia que o faria, se tivesse tempo e no se encontrasse presa algures por baixo do entulho. Tudo 
o que agora podia fazer era rezar, rogar que no fosse esse o caso. E a nica coisa que lhe vinha  ideia era o momento em que se apercebera de que Margaret fora 
raptada por homens com mscaras e armas de fogo.
Tambm Jack estava consciente da situao. O seu telemvel tocou instantes depois da exploso, e ele olhou, desanimado, para a mulher que o acompanhava. No era 
aquela a noite que planeara. Organizara tudo com extremo cuidado, como sempre fazia, e a interrupo irritou-o.
Encontrem a Maddy e digam-lhe que desande para l. Ela deve estar em casa ordenou, desligando em seguida. J tinham duas equipas no terreno e uma terceira ia a caminho, 
dissera o produtor. E a linda loira com quem estava no Ritz Carlton perguntou-lhe o que acontecera.
Um idiota qualquer fez ir pelos ares um centro comercial respondeu ele, e ligou a televiso. Ambos se sentaram e ficaram com os olhos presos s imagens. Um cenrio 
de destruio total e caos absoluto. Jesus! murmurou, por entre dentes. Nenhum deles imaginara a magnitude da catstrofe at a verem. Durante um bocado, mantiveram-se 
em silncio; ento, Jack pegou no telemvel e ligou para a estao. Encontraram-na? vociferou. Era um acontecimento dos diabos, mas at olhos experimentados como 
os seus se encheram de lgrimas em certos momentos, perante as imagens mostradas. A seu lado, a rapariga que s conhecera na semana anterior, chorava de mansinho. 
Um bombeiro acabava precisamente de passar levando nos braos um beb morto e a me.
Estamos a tentar, Jack respondeu o produtor extenuado. Ela ainda no est em casa e tem o telemvel desligado.
Raios! Disse-lhe que nunca fizesse isso. H-de acabar por lig-lo. E ento, ao desligar o seu, passou-lhe pela cabea 
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uma ideia que de imediato rejeitou. Maddy dissera que ia comprar papel e mais umas coisas, mas habitualmente, como detestava centros comerciais, fazia as suas compras 
em Georgetown. No havia razo alguma para se encontrar ali.
Ouve-me, Anne? A voz de Maddy atravessou uma vez mais o cimento, mas levou muito tempo a estimular a outra voz.
Ouo... sim... Quando ela respondia, escutaram outra voz. De homem, e surpreendentemente perto de Maddy.
Quem est a? perguntou a voz, forte e alta Disse que empurrara algumas pedras e uma viga e se arrastara ao longo de um comprido percurso at chegar perto delas, 
mas no fazia ideia de para onde ia, ou onde estava
O meu nome  Maddy respondeu ela firmemente, e h aqui uma rapariga chamada Anne.. no est junto de mim mas consigo ouvi-la. Penso que est ferida e tem um beb.
E a senhora? Est bem?
Doa-lhe a cabea, mas no valia a pena falar-lhe nisso.
Estou ptima. Pode remover algum deste lixo que me cobre?
Continue a falar. Vou tentar. Maddy esperava que ele fosse grande e forte. Suficientemente forte para mover montanhas, se necessrio
Como se chama?
Mike. E no se preocupe, minha senhora. Eu aguento com mais de duzentos quilos. Tiro-as da num abrir e fechar de olhos. Mas Maddy ouvia-o ofegar enquanto falava 
com ela, e Anne voltou a no responder quando a chamou. Quanto ao beb, chorava cada vez com mais fora.
Fale com o seu beb, Anne. Se ele a ouvir, talvez fique menos assustado.
Estou muito cansada retorquiu Anne em voz dbil. Maddy continuou a falar com Mike, que parecia uns centmetros mais perto.
Sabe o que aconteceu? perguntou-lhe Maddy
Sei l! Estava a comprar creme de barbear e o maldito
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telhado caiu-me em cima. Estive para trazer os meus filhos. Ainda bem que no trouxe. Havia algum consigo?
No, estava sozinha respondeu Maddy, tentando uma vez mais agarrar-se s pedras e ao estuque, mas tudo o que conseguiu foi partir as unhas e ferir os dedos. Nada 
cedia.
Vou tentar escavar na outra direco disse ele finalmente, e Maddy sentiu-se invadida pelo pnico. O pensamento de perder a voz amigvel provocou-lhe uma sensao 
de abandono como jamais conhecera. Tinham porm de arranjar ajuda e, se isso fosse possvel a um deles, os outros tambm seriam salvos.
Est bem. Boa sorte. Quando sair... Fez questo de dizer "quando" e no "se"... eu sou reprter de televiso... Por favor, informe a minha estao de que a Maddy 
est aqui. Tenho o pressentimento de que andam l fora, algures.
Eu volto para busc-las afirmou ele. E passados poucos minutos a sua voz sumiu-se e nenhuma outra a substituiu. Maddy fora deixada s, no escuro, com a sua solido, 
Anne e o seu beb a chorar. Continuava a desejar ter o seu telemvel, no que isso tivesse feito grande diferena. Nem sequer teria podido dizer-lhes onde estavam, 
apenas onde tinham comeado por estar. Tanto quanto se apercebia, haviam sido atirados para longe. Nada identificava o stio onde agora se achavam presos.
E enquanto Bill continuava a ver o noticirio, o seu pnico ia aumentando. Ligara para ela uma dzia de vezes, s a gravao lhe respondera. O telemvel continuava 
desligado. Por fim, em desespero, telefonou para a estao.
Quem fala? perguntou irritado o produtor, surpreendido pelo facto de o interlocutor ter obtido ligao.
Sou um amigo da Maddy e estou preocupado. Ela est a cobrir o acontecimento?
Depois de uma pausa, o produtor decidiu responder-lhe com sinceridade.
Tambm no conseguimos encontr-la. Tem o telemvel desligado e em casa no est. Podia ter ido para o local por conta prpria, mas ningum a viu. O facto  que 
h
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l uma imensa multido. Talvez acabe por dar sinal de si. F-lo sempre tranquilizou-o Rafe Thompson, o produtor.
No  o gnero dela... desaparecer replicou Bill num tom de preocupao, e Rafe no pde impedir-se de imaginar como aquele homem ao telefone sabia disso, mas era 
bvio que estava raladssimo. Muito mais do que Jack. Tudo o que Jack fizera fora berrar-lhes que a encontrassem, com mil raios. E o produtor ficara com uma ideia 
bastante exacta do que Jack estava a fazer quando contactara com ele. Jack atendera e ele ouvira em fundo risadinhas de mulher.
No sei o que dizer-lhe. Provavelmente, vai telefonar daqui a pouco. Podia estar no cinema, por exemplo. Mas Bill sabia que no, e o facto de ela no lhe ter ligado 
para o sossegar assustava-o profundamente. Durante dez minutos andou s voltas na sala, com os olhos postos na televiso. Por fim, no aguentou mais. Pegou no casaco 
e nas chaves do carro e saiu porta fora. Ignorava se poderia aproximar-se do local do acidente, mas tinha de tentar. No sabia porqu, mas sabia que tinha que estar 
l. Talvez a encontrasse.
Passava das dez quando Bill acabou de percorrer todo o caminho, uma hora e meia depois da exploso que destrura dois blocos de edifcios da cidade, matara cento 
e trs pessoas, segundo a ltima contagem, e ferira dzias de outras. E isso era apenas o princpio.
Quando l chegou, levou vinte minutos a abrir caminho pelo meio das viaturas de emergncia e dos destroos e havia tantos voluntrios dispostos a ajudar que ningum 
lhe pediu qualquer distintivo ou identificao; limitaram-se a deix-lo passar. Parou em frente do que restava do armazm de brinquedos, com lgrimas nos olhos e 
pedindo a Deus que o ajudasse a encontr-la no meio da multido.
Uns minutos depois, algum lhe entregou um capacete e lhe pediu que ajudasse a tirar destroos do interior. Seguiu os outros e era to apavorante o simples facto 
de ali estar que a sua nica esperana era que Maddy se encontrasse em qualquer outro stio e apenas se tivesse esquecido de ligar o telemvel.
Na sua toca, Maddy atirava todo o seu peso contra um pedao de cimento, a pensar em Bill. Com surpresa, viu o
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cimento ceder. Tentou de novo, o cimento moveu-se mais uns centmetros; e, sempre que se movia, a voz cada vez mais fraca de Anne parecia ficar mais prxima.
Acho que estou a chegar a qualquer stio comunicou a Anne. V falando comigo. Preciso de saber onde est. No quero piorar nada. Sente alguma coisa? H p a cair-lhe 
em cima do corpo? Onde? No sabia ao certo se estava a aproximar-se da cabea ou dos ps da rapariga, mas a ltima coisa que desejaria era provocar a queda de um 
pedao de cimento em cima dela ou do beb. Dava quase tanto trabalho empurrar o cimento como manter Anne desperta.
Maddy falava agora sozinha enquanto ia empurrando, arranhando... Deu a certa altura um tal empurro que quase se feriu e, para seu grande espanto, ao faz-lo, um 
grande pedao de cimento recuou e ela conseguiu afast-lo, criando um espao suficientemente grande para poder rastejar. E, mal comeou, encontrou Anne. A sua voz 
estava muito prxima, e a primeira coisa em que tocou foi em Andy. Estava deitado perto da mo da me, embora fora do seu alcance, e contorcia-se livremente. Maddy 
no o via, mas sentia-o e puxou-o para si. O beb gritou, aterrorizado. Maddy ignorava se estava ou no ferido; voltou a deit-lo no cho e arrastou-se pelo buraco 
na direco de Anne. Por momentos, a rapariga no disse nada, e ento Maddy tocou-lhe, sem sequer estar certa de que ela ainda respirava.
Anne... Anne... Roou-lhe suavemente a mo pela face e ao percorrer-lhe cuidadosamente o corpo pensou saber o que acontecera. Uma viga enorme atravessava-se-lhe 
sobre o trax, esmagando-o, e pela humidade na sua roupa percebia-se que sangrava. Outra viga repousava-lhe sobre as pernas. Estava literalmente entalada contra 
o cho e, embora Maddy se esforasse freneticamente, nada podia fazer para a libertar. As vigas eram mais pesadas do que o cimento, e o que ela no sabia era que 
havia mais cimento a pression-las para baixo. Anne!... Anne!... foi repetindo o seu nome, com o beb a choramingar perto delas: finalmente a rapariga mexeu-se e 
falou:
Onde est? No percebia o que sucedera.
Estou aqui. Estou consigo. O Andy est bem, creio. Pelo menos, em comparao com a me.
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Eles encontraram-nos. Anne recomeava a adormecer e Maddy receava aban-la, dadas as leses provocadas na rapariga pela queda das vigas.
Ainda no. Mas vo encontrar Garanto-lhe. Aguente-se. Pegou no beb, agachou-se junto a Anne e ento, sempre a tentar que esta no desmaiasse, encostou a carinha 
dele  da me, como deviam ter feito aquando do nascimento. Anne comeou a chorar de mansinho.
Vou morrer, no vou? No havia uma resposta sincera para tal pergunta, ambas o sabiam. J no tinha dezasseis anos. Atingira num espao de minutos a plena maturidade, 
naquele momento at podendo ter cem.
Acho que no mentiu Maddy. No pode Tem de ir em frente, pelo Andy
Ele no tem um pai, o pai no lhe ligou quando ele nasceu. No o quis.
A minha filha tambm no teve um pai. Maddy tentava acalm-la. Pelo menos ia falando, o que j era qualquer coisa. Lizzie tambm no tivera uma me, pensou Maddy, 
culpabilizando-se, mas no disse nada a Anne.
Voc vive com os seus pais? perguntou, sempre na tentativa de mant-la desperta, e aconchegando mais o beb junto dela. Este parara de chorar. Ps-lhe um dedo por 
baixo do nariz e ficou aliviada ao verificar que ainda respirava. Adormecera
Eu fugi aos catorze anos. Sou de Oklahoma. Telefonei aos meus pais quando ele nasceu e eles no nos querem. Tm outros nove filhos e a minha me diz que eu s arranjo 
complicaes. O Andy e eu estamos a cargo da Assistncia Social. Era uma tragdia, mas no to terrvel como aquela por que agora estavam a passar. Maddy no parava 
de pensar se algum dos dois sobreviveria, ou se sobreviveria ela prpria. Ou se iriam ser encontrados muito depois de terem morrido, pedaos de uma histria mais 
vasta, mais horrenda. Mas estava determinada a no permitir que tal sucedesse, por causa deles. Aquele beb tinha direito a viver, tal como a criana que a sua me 
era. Salv-los tornara-se o seu nico objectivo
Quando ele crescer, pode contar-lhe tudo isto. Ele vai
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achar que voc foi maravilhosa e uma mulher cheia de coragem...} E . Estou muito orgulhosa de si. Lutava contra as lgrimas, a pensar em Lizzie. Tinham-se reencontrado 
passados dezanove anos e agora Lizzie talvez voltasse a perd-la. No, no podia deixar-se invadir por tais pensamentos. Precisava de manter o sangue-frio e reparara, 
ao falar com Anne, que se sentia atordoada. Quando iria faltar-lhes o ar? Se ficassem ofegantes, ou se adormecessem, apagar-se-iam como velas. Comeou a cantarolar, 
para si prpria, para Anne e para o beb, mas Anne voltara a cair em silncio e os esforos de Maddy no pareciam resultar. Quando lhe tocou, gemeu, portanto ainda 
estava viva, mas dava a impresso de se ir esvaindo rapidamente.
No exterior do armazm de brinquedos, Bill encontrara por fim a equipa dela. Identificou-se e viu que estava a falar com o produtor com quem j contactara ao telefone, 
agora no terreno a dirigir equipas de fotgrafos e reprteres.
Penso que ela est l dentro adiantou Bill, horrorizado. Disse-me que precisava de comprar papel e outras coisas e que vinha aqui...
Tive esse estranho pressentimento admitiu Rafe Thompson, e achei que estava maluco. No que faa qualquer diferena. Esto a fazer o possvel e o impossvel para 
retirar as pessoas. Como a conheceria Bill, interrogou-se; Bill explicou-lhe ento que faziam ambos parte da comisso da primeira-dama. Pareceu a Rafe uma boa pessoa. 
Durante horas ajudara a resgatar vtimas. Tinha o casaco roto, a cara imunda, e sangrava das mos. Em toda a gente eram patentes o stresse e a exausto. Passava 
da meia-noite e Maddy ainda no aparecera. Rafe telefonara vrias vezes a Jack, que continuava a berrar-lhes do Ritz Carlton. Fora menos do que complacente a respeito 
do desaparecimento de Maddy, comentara que ela andava provavelmente "a fornicar em qualquer stio" e que ia mat-la quando a encontrasse. Rafe e Bill estavam mais 
preocupados com o facto de no saberem quem pusera a bomba. E, at ento, ningum reivindicara o acto.
Nem mencionaram na emisso que Maddy devia encontrar-se presa nos escombros. No tinham maneira alguma de
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saber se estava e no havia razo para se referirem ao facto at haver certezas. Pelas quatro da madrugada, as equipas de salvamento comeavam a progredir notoriamente. 
Aps quase oito horas de fatigante trabalho, j perto das cinco, foi resgatado um homem chamado Mike. Sangrava por toda a parte, escavara sem parar nos escombros, 
abrira tneis e tocas afastando cimento e vigas, e com os seus esforos salvara quatro pessoas. Ao chegar ao exterior explicou aos homens que o resgataram que encontrara 
mais duas mulheres mas no pudera retir-las. Chamavam-se Maddy e Anne e uma delas tinha um beb. Fez todos os possveis por indicar aos salvadores em que direco 
estavam, enquanto o metiam numa ambulncia e o levavam. Rafe ficou a saber passados uns momentos e foi contar a Bill, os trabalhadores voltaram a entrar para seguir 
as vagas indicaes de Mike
Ela est l dentro disse Rafe a Bill, num tom lgubre
Oh, meu Deus Encontraram-na. Teve medo de perguntar se estava morta ou viva, a expresso de Rafe no era tranquilizadora
Ainda no. Um dos homens que acabaram de retirar disse que havia duas mulheres que no conseguira alcanar. Uma delas  a Maddy. Contou-lhe que era reprter da televiso 
e qual a rede para que trabalhava. O pior dos seus receios confirmava-se, e tudo o que podiam fazer era esperar. Durante mais duas horas observaram corpos a ser 
removidos, sobreviventes com membros a menos, crianas mortas, para serem identificadas por pais desesperados. Pelas sete, Bill parou e chorou. Era impossvel acreditar 
que ela continuasse viva. Tinham decorrido quase onze horas. Pensou se deveria tentar telefonar a Lizzie, mas para lhe dizer o qu? Por essa altura, j todo o pas 
estava a par da tragdia. Uma obra de loucos
Bill e Rafe estavam sentados sobre as caixas dos equipamentos de som quando chegou uma nova equipa e um membro da Cruz Vermelha ofereceu caf a ambos. Rafe aceitou 
um copo com gosto, Bill no foi capaz
Rafe no fizera mais perguntas a Bill acerca do seu relacionamento com Maddy, mas no decorrer da noite foi-se
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tornando bvio quanto era grande a sua angstia e Rafe teve pena dele.
Anime-se. Eles vo com certeza encontr-la. A pergunta que atravessava a mente de ambos era... se viva ou morta.
E enquanto aguardava as equipas de salvamento, Maddy mantinha-se agachada como uma bola, segurando o beb; h horas que Anne no dava sinal de si. Ignorava se a 
rapariga estava adormecida ou morta; h muito tempo que todos os seus esforos para a fazer falar eram em vo. Maddy no fazia a menor ideia das horas, ou de h 
quanto tempo ali permaneciam. Por fim, quando o beb se agitou e recomeou a chorar, a me ouviu-o.
Diga-lhe que eu o amo... sussurrou, assustando Maddy. A voz a seu lado parecia a voz de um fantasma.
Tem de ser forte, vai ser voc a dizer-lho respondeu Maddy, tentando mostrar-se optimista. Mas j no estava. Faltava-lhe o ar, mal se aguentava consciente para 
segurar o beb.
Quero que tome conta dele em meu lugar disse Anne, que de novo se calou. E, passado um momento: Eu gosto de si, Maddy. Obrigada por estar aqui comigo. Sem a senhora, 
teria ficado apavorada. Tambm Maddy estava apavorada, mesmo com Anne e o beb, mas rolavam-lhe lgrimas pela cara abaixo quando se inclinou e beijou na face a rapariga 
ferida, pensando em Lizzie.
Eu tambm gosto de si, Anne... Gosto muito de si... Agora tem de se pr boa. No tarda nada, samos daqui. E eu quero que conhea a minha filha. Anne concordou, 
com um aceno de cabea, como se acreditasse nela, e sorriu no escuro. Maddy apercebeu-se desse sorriso que no via.
A minha me costumava chamar-me Annie. Nos tempos em que gostava de mim disse, com tristeza.
Aposto que ainda gosta. E vai gostar do Andy quando o conhecer.
No quero que ela fique com ele. Exprimia-se com mais fora e com determinao. Quero que a senhora tome conta do meu beb. Prometa-me que vai am-lo. Maddy teve 
de reprimir os soluos ao responder, sabia que
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nenhuma delas dispunha do ar ou da energia necessrios. E precisamente quando ia dizer-lhe qualquer coisa, ouviu vozes  distncia, vozes fortes que se aproximavam... 
Percebeu que pronunciavam o seu nome.
Ouve-nos, Maddy? Maddy?.. Maddy Hunter., e Anne... Ouvem-nos? Apeteceu-lhe gritar de excitao e respondeu-lhes o mais alto que pde.
Ouvimos! OUVIMOS! Estamos aqui. As vozes iam-se aproximando cada vez mais. Falou rapidamente a Anne. Vm buscar-nos agora, Annie... aguente-se... daqui a minutos 
estamos l fora. Mas a despeito do barulho feito por Maddy, Anne recara no sono e, em consequncia, o beb recomeou a chorar intensamente. Estava cansado, esfomeado 
e assustado. Maddy tambm.
As vozes cada vez soavam mais perto, a centmetros ao que parecia, e Maddy identificou-se. Descreveu, o melhor que pde, a toca onde estavam, e o estado de Anne, 
sem a aterrorizar por completo. A seu respeito, disse que estava bem e tinha o beb seguro.
O beb est ferido? perguntou outra voz, para saber qual o tipo de salvamento adequado
No sei. Julgo que no. E eu tambm no estou. Excepto um enorme galo e uma colossal dor de cabea. A me do beb era outro caso.
Todavia, apesar de as terem localizado, levou-lhes hora e meia a libert-las. Tinham de remover os detritos centmetro a centmetro, e a mesma lentido se aplicava 
ao cimento. Temiam que toda a estrutura desabasse sobre elas se trabalhassem depressa de mais, e Maddy gritou de alvio e de dor quando lhe apontaram aos olhos um 
potente feixe de luz, atravs de um buraco com o dimetro de um pires. No conseguiu suster os soluos e contou a Anne o que se passava. Mas no obteve reaco alguma.
O buraco foi aumentando de tamanho. Maddy observava os homens que iam falando com ela, e cinco minutos depois passou para fora Andy, podendo ento ver, quando o 
iluminaram com uma lanterna, como estava sujo. Tinha sangue seco na cara, proveniente de um pequeno golpe na bochecha, mas, fora isso, os grandes olhos estavam abertos 
e Maddy
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achou-o lindo. Beijou-o ao pegar-lhe para o entregar, e um par de fortes mos masculinas agarrou-o. E desapareceram. Ficaram outros quatro homens para prosseguir 
a tarefa de a libertar a ela e a Anne, e meia hora depois havia espao suficiente para Maddy rastejar, o que fez no sem primeiro acariciar a mo de Anne. A rapariga 
dormia, o que era uma bno. Ia ser penoso o trabalho de a soltar. Maddy deslizou at aos homens colocados junto ao buraco aberto e, dois deles passaram a ocupar-se 
de Anne enquanto um outro puxava Maddy; Maddy recuou, gatinhando, at  sada. A, mos fortes iaram-na e foi carregada por cima de cimento, destroos e pedaos 
de ao retorcidos que se amontoavam por toda a parte, formando como que uma floresta diablica. Num pice, achou-se  luz esplendorosa do dia.
Eram dez da manh, quase catorze horas depois de o centro comercial ter rudo e ela ter sido apanhada. Tentou perguntar a algum se o beb estava bem, mas o caos 
que a rodeava era tal que ningum dava mostras de a ouvir. Continuavam a ser retiradas pessoas, havia corpos cobertos com encerados, gente que chorava aguardando 
notcias dos familiares, salvadores a gritar instrues uns aos outros, e subitamente, no meio de tudo aquilo, viu-o, ali parado,  espera dela. Bill, quase to 
imundo como ela, devido aos seus esforos para salvar vtimas. Ao v-la irrompeu em soluos e arrancou-a ao homem que a segurava. S foram capazes de se abraar 
e chorar. No havia palavras para lhe dizer o que sentira, a que ponto fora imenso o seu medo, e terrvel o pavor dela. Levariam anos a explicarem-no um ao outro, 
e tudo o que tinham agora era o instante nico de amor e alvio desse momento inesquecvel.
Obrigado, meu Deus murmurou ele apertando-a contra o peito; e conduziu-a devagarinho a uma equipa de paramdicos. Miraculosamente, porm, no estava ferida; ento, 
esquecendo por momentos Bill, mas sempre com a mo dele firmemente agarrada, virou-se para um dos salvadores.
Onde est a Anne? Est bem?
Esto  volta dela respondeu o homem, num tom austero. Vira tanta coisa nessa noite! Todos eles tinham visto! Cada sobrevivente era uma vitria. Cada um que salvavam, 
uma ddiva por que todos tinham rogado.
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Digam-lhe que gosto muito dela pediu Maddy com fervor, aps o que se virou para Bill, com o olhar transbordante de tudo o que sentiam um pelo outro E por um terrvel 
instante, passou-lhe pela cabea que aquilo talvez fosse um castigo por se ter apaixonado por ele sem dever. Afastou energicamente tal pensamento como se se tratasse 
de um pedregulho a tentar esmag-la e ela no lho permitisse, tal como no deixara as paredes da minscula toca esmagar Anne ou o beb. Agora, era de Bill. Ficara 
viva para isso. Para ele E para Lizzie. Meteram-na ento numa ambulncia e, sem hesitar, Bill entrou com ela E quando ao partirem olhou para trs pela janela, Bill 
viu Rafe, que os observava e chorava Feliz pelos dois
CAPTULO 21
Quando Maddy chegou ao hospital puseram-na numa unidade onde se encontravam os outros que haviam sido resgatados do centro comercial. Perguntou logo pelo beb e 
foi-lhe respondido que estava bem. Os mdicos ficaram estupefactos por ela no ter ossos partidos, nem danos internos. Sofrera um forte abalo, alguns arranhes, 
uma dzia de contuses. Bill nem acreditava na sorte que Maddy tivera. Sentado a seu lado, contou-lhe o que conhecia do sucedido. Tudo o que at agora se sabia era 
que um grupo de militantes fizera explodir uma bomba. Numa mensagem ao presidente, apenas uma hora antes, diziam ser o seu protesto contra o governo. Parecia coisa 
de loucos. Tinham morto mais de trezentas pessoas, quase metade das quais crianas. Maddy estremeceu perante um horror to absoluto.
Contou a Bill o que vira quando o tecto ruiu e o que fora estar metida numa cova com Anne e o beb. A sua nica esperana era que ambos sobrevivessem. Anne preocupava-a, 
mas nem por sombras tanto quanto Bill se preocupara com ela. Fora to mau como o que passara com Margaret, e Maddy, complacente, comentou que no era justo ningum 
sofrer duas vezes na vida o que ele sofrera.
Conversaram mais uns minutos, at os mdicos quererem submet-la a mais exames, apenas para confirmar os seus diagnsticos. Ambos concordaram ento que Bill devia 
ir-se embora, para o caso de Jack vir v-la. Bill no queria causar-lhe mais problemas.
Volto daqui a umas horas. Inclinou-se e beijou-a. Fica calma.
Tu tambm. Dorme um bocadinho. Beijou-o outra vez, e foi contrariada que lhe largou a mo. Mal ele saiu, os mdicos levaram-na e completaram os exames. De regresso 
ao quarto, recebeu a visita de Rafe e uma equipa do noticirio. Fora Jack quem os mandara. Rafe no disse a Maddy a que ponto achava Jack um safado por no vir ele 
prprio v-la, e no lhe fez qualquer pergunta acerca de Bill. Nem
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precisava. O que quer que se passasse entre eles, era bvio para o produtor do seu programa que o homem a amava verdadeiramente, e agora igualmente bvio que Maddy 
tambm o amava
Ela contou-lhes o que podia sobre o atentado, do seu ponto de vista e, perante a cmara, acentuou quanto Anne fora corajosa.
Tem dezasseis anos acrescentou, impressionada e orgulhosa. Notou ento uma expresso estranha nos olhos de Rafe e, quando desviaram a cmara, perguntou-lhe: Ela 
est bem, no est, Rafe? Ouviste alguma coisa?
Rafe hesitou, teve vontade de lhe mentir, mas no foi capaz. De uma maneira ou de outra, acabaria por descobrir, e no parecia justo ocultar-lho.
O beb vai ficar bom, Mad Mas no conseguiram trazer a me c para fora
O que queres dizer com isso: no conseguiram trazer a me c para fora? Quase gritava as palavras. Mantivera-a viva catorze horas e agora diziam-lhe que no tinham 
podido libert-la? Era impossvel. Recusava-se a acreditar.
Teriam tido de usar dinamite. Estava em coma quando te tiraram a ti, Maddy. Prestaram-lhe os primeiros socorros mas ela morreu passada meia hora. Tinha os pulmes 
esmagados e sangrava tanto internamente que os mdicos da equipa disseram que nunca a teriam salvo. Foi um grito animal o som emitido por Maddy ao escut-lo. Um 
som agudo, rouco, como se a rapariga fosse a sua prpria filha. No suportava pensar nisso. E o que ia ser do beb? Rafe respondeu-lhe que no sabia nada a esse 
respeito. Depois deixaram-na, para que repousasse um pouco. Mas no sem antes Rafe lhe repetir, a soluar, quanto se alegrava por ela ter escapado
Todos estavam felizes, por ela. Lizzie desatou a chorar quando Maddy lhe ligou para Memphis para lhe dizer que se encontrava bem. Lizzie ficara a p toda a noite 
a ouvir as notcias e no vendo Maddy com as equipas de televiso, telefonara-lhe para casa, mas ningum respondera. Pressentiu que fora apanhada pela derrocada.
Phyllis Armstrong telefonou-lhe para lhe dizer como ela
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e Jim se sentiam aliviados; e comentou a enormidade da tragdia, especialmente as mortes de todas aquelas crianas. Ambas choraram ao evocar isso e, depois de ela 
desligar, Maddy perguntou pelo beb a uma enfermeira. Andy continuava no hospital, em observao e ficaria l mais uns dias. As entidades de proteco  criana 
ainda no o tinham ido buscar. Depois de a enfermeira sair do quarto, Maddy levantou-se calmamente e foi ao berrio v-lo. Parecia pouco mais do que recm-nascido 
e Maddy pediu a uma enfermeira licena para lhe pegar. As duas deram-lhe banho e pentearam-no. Era loiro, com grandes olhos azuis. Envolveram-no num cobertor azul. 
Estava imaculado e, ao olh-lo, Maddy imaginou quanto Anne devia ser bonita. E no tardaria que ele fosse entregue ao mesmo destino que a sua filha tivera, sempre 
nas mos de estranhos, passando de orfanatos para lares de acolhimento, sem pais autnticos para o amar. O corao de Maddy sangrava.
Nos seus braos, o pequenino olhou-a intensamente, e Maddy, que lhe cantava baixinho, ficou a pensar se ele reconheceria a sua voz. Um momento depois desinteressou-se 
e deixou-se adormecer ao colo dela. Maddy chorou, recordando Anne. Fora um estranho golpe do destino, o que as juntara no meio da derrocada. Deitou cuidadosamente 
o beb no bero do hospital e voltou para o seu quarto, ainda a chorar por Anne.
Sentia-se mal e dorida, e incrivelmente cansada, mas no havia leses graves. Que sorte tivera! A olhar pela janela, meditava em como era estranha a vida, que poupava 
uns, levava outros, sem qualquer ritmo ou razo aparentes. Era difcil adivinhar porque fora ela uma das felizardas, e Annie no. Teria tido tanta mais vida para 
viver do que Maddy! Reflectia ela sobre os mistrios da vida quando Jack entrou no quarto com uma expresso solene.
Acho que, desta vez, no preciso de perguntar-te onde passaste a noite. O "desta vez" era desnecessrio, mas tpico dele. Como vais, Maddy? Parecia, e estava embaraado. 
De incio, no acreditara realmente que a mulher se encontrasse no meio dos destroos. Soava-lhe a histeria, e ficou surpreendido ao saber que era verdade mas aliviado 
por
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ela ter sobrevivido. Deve ter sido terrvel, no? comentou, inclinando-se para a beijar. Uma enfermeira trouxe para o quarto uma enorme jarra de flores, dos Armstrong.
Sim, foi bastante assustador concordou ela, pensativa. Jack era mestre em minimizar a importncia dos factos. Mas aquilo era demasiado forte para ser menosprezado. 
Ficar catorze horas presa num edifcio que explodira podia ser classificado como um enorme trauma, mesmo por Jack. Esteve quase a falar-lhe em Anne e no beb, e 
em quanto isso a afectara, mas decidiu calar-se. Ele no compreenderia.
Todos se ralaram contigo. Eu imaginava que andasses por qualquer outro stio. No queria aceitar que estavas l. Porque havias de estar?
Fui comprar papel para embrulhar os presentes esclareceu ela, simplesmente, fitando-o. Afastara-se para o lado oposto do quarto, como se precisasse de se manter 
 distncia, e o mesmo fazia ela, para sua prpria salvao.
Tu detestas centros comerciais retorquiu ele, como se isso alterasse agora os acontecimentos. Maddy sorriu-lhe.
Acho que agora sei porqu. So tremendamente perigosos disse, e ambos se riram. Mas a tenso entre eles era elevada. At  noite anterior, Maddy no fizera ainda 
a sua escolha definitiva, mas mesmo presa nos destroos, tentando manter Anne viva, pensara nisso. Ocorreu-lhe que se sobrevivera quilo por que passara, teria afrontado 
o maior terror da sua vida. No precisava de mais nenhum, nem de imp-lo a si prpria, ou voltar a correr riscos. Teria enfrentado o maior inimigo, olhado a morte 
nos olhos. No havia razo para se castigar mais, e jurara que no o faria. E ao v-lo ali, desajeitadamente sentado do outro lado do quarto, teve a certeza de que 
no podia continuar. Ele nem sequer tinha no corao amor suficiente para atravessar o quarto, apert-la nos braos e dizer-lhe que a amava. No podia. Provavelmente, 
amava-a tanto quanto lhe era possvel, mas isso no significava nada. Como se sentisse que algo de estranho estava a passar-se entre eles Jack levantou-se, encaminhou-se 
para ela e entregou-lhe uma caixa muito bem embrulhada. Maddy recebeu-a sem dizer palavra, abriu-a e deparou-se-lhe uma pulseira estreita de diamantes. Era muito 
bonita, e agradeceu-lhe. 
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O que no sabia era que ele comprara duas no Blitz Carlton quando de l sara nessa manh. Uma para ela, pelo que sofrera no centro comercial, a outra para a rapariga 
com quem passara a noite. Mas mesmo ignorando o facto, Maddy devolveu-lha com uma expresso sria.
No posso aceitar. Desculpa, Jack disse, e os olhos dele estreitaram-se ao olh-la. Sentia a presa escapar-se-lhe devagarinho e por um instante Maddy pensou que 
ele ia agarr-la; mas tal no aconteceu.
Porque no?
Vou deixar-te. Surpreenderam-na as suas prprias palavras, mas no tanto como a Jack. Tinha o ar de ter sido esbofeteado por ela.
A que raio de propsito vem isso agora? Como de costume, cobria os seus prprios erros e fraquezas atacando-a.
No posso continuar a fazer isto.
A fazer o qu? Andava de c para l, incapaz de simplesmente aceitar e deix-la. Parecia um tigre  espreita da presa, mas no a assustava como dantes. Ali, sabia-se 
segura. Havia gente por toda a parte, mesmo atrs da porta do quarto. O que  que no podes fazer? Viver uma vida luxuosa? Ir  Europa duas vezes por ano? Viajar 
num jacto particular? Receber jias sempre que eu sou suficientemente idiota para as comprar? Que vida ruim para uma pega de Knoxville! Voltava ao mesmo.
 esse o problema, Jack retorquiu ela, fatigada, e encostando-se  almofada enquanto o observava. No sou uma pega de Knoxville. Nunca o fui. Nem quando era pobre 
e infeliz.
Tretas! No me recordo de que estivesses no caminho certo, ou soubesses sequer o que isso era. Que diabo, j em mida eras uma pega. Pensa na Lizzie.
Sim, penso nela.  uma garota formidvel, uma pessoa decente apesar de algumas faltas bem graves que suportou, por minha culpa. Estou em dvida para com ela. E para 
comigo prpria.
Deves-me tudo a mim. E espero que estejas consciente de que ficas sem emprego se me deixares. Os seus olhos tinham um brilho de ao.
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 possvel. Os meus advogados que tratem disso, Jack. Tenho um contrato com a estao. No podes correr comigo sem justa causa ou uma indemnizao. Tornara-se mais 
corajosa e mais esperta ao lutar pela vida nos escombros. Perguntava-se como podia o marido pensar que as palavras que pronunciava a convenceriam a ficar com ele. 
Em tempos, podiam ter convencido, por puro medo. Era essa a parte triste.
No me ameaces. No vais arrancar-me um cntimo com essas artimanhas. E no te esqueas do contrato pr-nupcial que assinaste. Sais de minha casa de mos a abanar 
 tudo meu, at as tuas cuecas. Viras-te contra mim Maddy, e tudo o que vai restar-te  a camisa de noite do hospital que tens vestida.
O que queres de mim? interrogou ela tristemente. Porque queres que eu fique? Tu odeias-me.
Tenho todo o direito de te odiar. Mentes-me. Traste-me. Sei que tens um namorado que te telefona todos os dias. Que raio de imbecil pensas que eu sou? Imbecil, 
no. Desprezvel. Mas no lho disse. Era corajosa, no era parva.
No  um namorado. At agora, temos sido apenas amigos. Nunca te tra. E a nica mentira que alguma vez te disse foi acerca da Lizzie
E  bastante grande! Mas estou disposto a perdoar-te. A vtima sou eu, no s tu. Sou o nico lixado nesta histria, e continuo disposto a remediar as coisas contigo. 
No sabes a sorte que tens. Espera at estares esfomeada e de regresso a qualquer buraco sujo em Memphis, ou Knoxville, ou onde quer que vs parar com a tua bastarda. 
Vais implorar-me que te deixe voltar. Aproximava-se lentamente da cama, Maddy reflectia no que iria ele fazer. Havia nos seus olhos uma expresso que nunca lhe vira 
e lembrou-se instantaneamente de tudo o que lhe haviam dito no grupo das mulheres maltratadas. Quando sentisse fugir-lhe a presa, faria tudo o que pudesse para a 
segurar. Fosse o que fosse. Tu no vais deixar-me, Mad. Maddy tremia. No tens tomates para tanto. s demasiado esperta para o fazer. No vais atirar pela janela 
fora uma vida dourada e toda a tua carreira, pois no?
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Alternava adulao e terror, e havia uma ameaa implcita no modo como a olhava. Talvez tenhas batido com a cabea a noite passada. Talvez tenha sido o que te aconteceu. 
Talvez eu deva insuflar-te algum bom senso para te obrigar a pensar de novo correctamente. O que achas, Maddy? Enquanto ele falava, algo crescia dentro dela; sentiu 
que se ele lhe pusesse a mo em cima, o matava. No ia permitir-lhe repetir o habitual, obrig-la a recuar e tortur-la e humilh-la e convenc-la de que era lixo 
e merecia todos os insultos e acusaes que lhe lanasse. E a expresso dos seus olhos t-lo-ia apavorado, se a percebesse.
Se me tocas, aqui ou em qualquer outro lugar, juro que te mato. Aturei-te tudo. Espezinhaste-me, mas acabou-se, Jack. No volto atrs. Arranja outra pessoa para 
te aparar o lixo, para agredires, para torturares.
Ah, olhem a rapariga crescida a ameaar o seu pap! Pobre criancinha! Meto-te medo, Mad? Riu-se-lhe na cara, mas ela sara da cama e enfrentava-o. Chegara o momento, 
o jogo terminara.
No, no me metes medo, meu filho da me. Enojas-me. Fora do meu quarto, Jack. Ou eu chamo a segurana e s levado  fora.
De p, Jack fitou-a por um longo momento. Depois, aproximou-se tanto que ela poderia ter-lhe contado os plos das sobrancelhas, se lhe apetecesse.
Oxal morras, grande prostituta. E hs-de morrer. Em breve, espero. Mereces. Maddy no poderia dizer se se tratava ou no de uma ameaa directa, o que a assustou, 
mas no ao ponto de a fazer mudar de ideias. Ao v-lo girar nos calcanhares e sair do quarto, por um instante insano quis det-lo e pedir-lhe perdo. Mas sabia que 
no podia. Era a sua parte doentia a tentar faz-la recuar, sentir-se culpada, desejar que ele a amasse a qualquer preo, fosse qual fosse o sofrimento por que viesse 
a passar. Todavia, essa parte j no a controlava. Viu-o sair, silenciosa, sem se mexer. E depois da partida dele, irrompeu em soluos de dor, de perda, de culpa. 
Por muito que o odiasse e ele fosse diablico, com uma malignidade que lhe invadia a alma, por muito fundo que o tivesse arrancado de dentro de si, sabia que nunca 
o esqueceria, e que ele jamais iria perdoar-lhe.
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CAPTULO 22
No dia seguinte a terem-na salvo, Maddy foi de novo ao berrio para tornar a ver Andy e informaram-na de que a assistente social viera visit-lo nessa manh. Iam 
lev-lo no dia seguinte para um lar de acolhimento, at lhe arranjarem colocao a longo prazo. Voltou para o quarto com o corao oprimido. Sabia que nunca mais 
o veria, como em tempos o soubera com relao a Lizzie Mas, com esta, Deus dera-lhe uma segunda oportunidade. Andy e a me teriam entrado na sua vida por uma razo 
determinada? Interrogava-se ela
Pensou nisso toda a tarde, falou no assunto a Bill quando ele chegou. Soubera da visita de Jack na vspera e ficara simultaneamente aliviado e preocupado. No voltara 
nesse dia ao hospital para no lhe provocar problemas. Agora que Jack sabia que ela ia deix-lo, no podia adivinhar-se qual seria a sua reaco, e Maddy tinha de 
redobrar de cautela. Ia a casa buscar as suas coisas quando deixasse o hospital e concordou em fazer-se acompanhar. Levaria um segurana da estao. Bill prometeu-lhe 
comprar roupas para poder sair do hospital. Jack no a assustava. Sentia-se surpreendentemente livre E embora a penalizasse ter-lhe dito o que dissera, surpreendia-a 
o facto de no se considerar culpada. Repeti-lo-ia, se fosse caso disso. Fora posta de sobreaviso Mas sabia que seguira o caminho certo. Jack era um cancro que a 
teria morto se ela lho permitisse
Obcecava-a o beb de Anne
Sei que parece maluquice admitiu, ao abordar o assunto com Bill, mas eu prometi-lhe tomar conta dele. Acho que devia, pelo menos, informar a assistente social de 
que gostaria de saber onde vo coloc-lo. Bill achou boa a ideia, e recomearam a conversar sobre a catstrofe no centro comercial. Um dos executantes fora apanhado. 
Era um rapaz de vinte anos com uma histria de distrbios mentais e registo criminal. Segundo parecia, agira em conjunto com dois outros, ainda no encontrados. 
Por toda a parte havia
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servios fnebres pelas vtimas, e ser quase Natal piorava o quadro. Bill dissera-lhe que estava a pensar em no ir para Vermont, ficar na cidade com ela.
No te preocupes comigo. Eu fico perfeitamente. Sentia-se surpreendentemente bem, com excepo de umas tantas equimoses e dores, e j decidira mudar-se para o apartamento 
de Lizzie com ela. A filha chegaria dentro de uma semana, passariam o Natal juntas. No se importava de partilhar um quarto com Lizzie, pelo menos nos primeiros 
tempos.
Podes ficar comigo, se quiseres sugeriu ele, esperanoso. Maddy sorria quando Bill a beijou. Fora extraordinrio para ela desde a calamidade no centro; alis, j 
o era muito antes.
Obrigada pela oferta, mas no tenho a certeza de que estejas preparado para ter uma companheira de quarto.
No era exactamente isso o que eu tinha em mente explicou ele, corando ao de leve. Maddy adorava a sua gentileza, a sua amabilidade para com ela. Tinham pela frente 
muito em que pensar e muito a descobrir mutuamente. No queria apressar as coisas. Precisava de se refazer de uma vida de agresso, nove anos de Jack, e Bill ainda 
recuperava do desgosto da perda de Margaret. Do que no restavam dvidas era que cada um deles tinha agora espao para o outro na sua vida. S o que Maddy no sabia 
era como enquadrar Andy, embora soubesse que queria criar um lugar para ele, mesmo que apenas com visitas ocasionais, mantendo assim a promessa que fizera  me. 
No ia esquec-la.
E nessa noite falou no caso a Lizzie, pelo telefone. Lizzie ficara to apavorada pela exploso no centro, que ligava  me vrias vezes por dia.
Porque no o adopta? perguntou, com a simplicidade dos seus dezanove anos. Maddy retorquiu-lhe que era ridculo. Agora, no tinha marido, talvez tivesse perdido 
o emprego, nem sequer possua um apartamento seu. Todavia, depois de desligar, a ideia comeou a rodopiar na sua cabea. E s trs da manh, sem ainda ter adormecido, 
foi ao berrio; sentou-se numa cadeira de baloio e pegou-lhe. O beb dormia calmamente nos seus braos quando uma enfermeira
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entrou e a aconselhou a voltar para a cama. Mas no lhe era possvel. Uma fora mais poderosa do que ela empurrava-a para a criana, era irresistvel.
Esperava, nervosa, na entrada quando de manh a assistente social foi busc-lo. Pediu-lhe uns minutos de ateno. Explicou-lhe a situao, e a mulher mostrou-se 
interessada mas estupefacta.
Viveu sem dvida um momento muito emocionante, Mistress Hunter. Todas as vossas vidas corriam perigo. Ningum esperaria de si que cumprisse uma promessa dessas. 
 uma deciso importantssima.
Eu sei que . Mas no  s isso... no sei o que ... acho que me apaixonei por ele.
O facto de estar sozinha no  uma desvantagem. Embora o beb pudesse vir a revelar-se um fardo para si disse-lhe a assistente. Maddy omitira que podia perder o 
emprego; mas tinha dinheiro suficiente em seu nome para viver bem durante bastante tempo. Fora cautelosa ao longo dos anos, juntara uma boa maquia para ela e Lizzie, 
e at para um beb. Est a dizer-me que quer adopt-lo?
Acho que sim. Inundou-a uma onda de amor pelo pequeno. A ela, parecia-lhe o rumo correcto. No fazia a mnima ideia do que Bill sentiria. Em qualquer caso, no podia 
renunciar aos seus sonhos por causa dele. Tinha de fazer o que para si era correcto. Se resultasse para ambos, seria uma bno para todos, no s para ela e para 
o beb. Mas queria ao menos pedir a sua opinio. Quanto tempo tenho para decidir?
Algum. Vamos coloc-lo num lar de acolhimento provisrio. E uma famlia que j nos tem ajudado. No esto interessados em adopo. Fazem-no de corao aberto, por 
razes religiosas. Mas um beb como este vai ser adoptado.  saudvel, de raa branca, tem oito semanas. O ideal para quem quer adoptar. No h muitos como ele actualmente.
Deixe-me pensar no assunto. Terei alguma prioridade?
Desde que no haja familiares que se oponham, pode ser seu muito rapidamente, Mistress Hunter. Maddy acenou afirmativamente e passados poucos minutos a assistente
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social saiu do quarto, depois de dar a Maddy o seu carto. Quando voltou ao berrio, apertou-se-lhe o corao por no o ver l. Foi ainda triste que Bill a encontrou 
ao ir visit-la um pouco mais tarde. Comprara-lhe umas calas cinzentas, uma camisola azul, um par de sandlias, roupa interior, um casaco, e alguns artigos de toilete 
e maquilhagem, alm de uma camisa de noite
Maddy felicitou-o pela sua capacidade de observao, tudo lhe servia perfeitamente. Sairia do hospital no dia seguinte e concordara em ficar com ele at o apartamento 
de Lizzie estar disponvel. Achava que levaria uma semana. Queria ir buscar as suas coisas a casa de Jack e precisava de regressar ao trabalho. Tinha imenso que 
fazer. Sentou-se a conversar com Bill sobre tudo isso e ento veio  baila o beb. Disse-lhe que estava a pensar em adopt-lo. Bill ficou atnito
Ests. Tens a certeza de que  o que queres, Maddy.
Certeza absoluta, no  por isso que estou a falar contigo. No sei muito bem se  a ideia mais louca que alguma vez me passou pela cabea, ou a melhor coisa que 
j fiz ou que pensei fazer. Sinceramente, no sei
A melhor coisa que alguma vez fizeste foi deixar o Jack Hunter afirmou ele, peremptrio. Esta poderia ser a segunda melhor coisa, depois da Lizzie. Sorriu-lhe. Devo 
dizer que me apanhaste desprevenido, Maddy. O facto sublinhava quanto era mais velho do que ela. Amara os seus filhos em crianas, amava agora os seus netos, mas 
encarregar-se de um beb da idade daquele era mais do que esperara, apesar de ser louco pela filha dela. No sei bem o que responder-te. Estava a ser sincero
Nem eu. No sei se estou a perguntar-te ou a informar-te ou se qualquer das hipteses  relevante. No fazemos por enquanto a mnima ideia de como as coisas iro 
correr entre ns, se no resultar, por muito que nos amemos. Tambm ela era sincera, pelo que Bill a admirou E o que dissera era verdade. Estava apaixonado, mas 
se iria ser um relacionamento para toda a vida, ou at mesmo se resultaria a curto prazo, nenhum dos dois poderia garanti-lo. Estavam apenas no incio. Nem sequer 
tinham ainda feito amor, apesar de a perspectiva ser sem dvida atraente. Um beb era
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um compromisso muito srio. No houve todavia qualquer discusso entre ambos. Toda a minha vida esforou-se ela por explicar-lhe, as pessoas me disseram o que fazer, 
nesta rea e em todas as outras. Os meus pais obrigaram-me a renunciar  Lizzie. O Bobby Joe obrigou-me ao princpio a fazer abortos, depois fi-los porque no queria 
filhos dele. O Jack proibiu-me de ter filhos, e laqueei as trompas. Depois, proibiu-me de ver a Lizzie. Agora, surge este beb e eu quero ter a certeza de que fao 
o que tem de ser feito, o que para mim  correcto, no apenas para ti Porque se eu desistir dele para te ter a ti, talvez fique sempre com o sentimento de que desisti 
de uma coisa de que no devia ter desistido. Por outro lado, no quero perder-te por causa de um beb que afinal no  meu. Percebes o que quero dizer. Era bvio 
que estava confusa. Ele sorriu-lhe, sentou-se a seu lado na cama, enlaou-a com um brao e puxou-a para si
Sim, percebo o que queres dizer Embora se afigure um bocado complicado. No quero que renuncies seja ao que for que aches bom para ti. Um dia odiar-me-ias por isso, 
ou sentir-te-ias defraudada Especialmente porque nunca tiveste um beb desde a Lizzie, no podes ter nenhum, alm de teres perdido dezanove anos da vida dela. Eu 
tive os meus filhos. No tenho o direito de te privar desse gosto. Era o que Jack deveria ter-lhe dito h sete anos, quando casara com ela, mas no dissera. No 
tinham alis sido honestos um com o outro, agora era totalmente diferente. Bill no tinha nada de nada em comum com Jack Hunter E a mulher que ela era agora tambm 
nada tinha a ver com aquela que casara com Jack. Por outro lado continuou Bill, querendo ser escrupulosamente sincero com ela, para no a iludir, no sei se sou 
capaz de recuar tantos anos no calendrio, ou mesmo se quero faz-lo. Sou muito mais velho do que tu, Maddy. Ests na idade de ter bebs Eu, na de ter netos.  um 
facto que tenho de enfrentar, e em que ambos devemos pensar. Nem sequer acho justo para um beb ter um pai com a minha idade. Entristeceu-a ouvi-lo, e no concordou 
com ele, mas tambm no queria impingir-lhe uma paternidade
No h nada de errado em ter um pai da tua idade
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contraps, convicta. Serias encantador com um beb. Ou uma criana. Ou seja com quem for. De qualquer modo, era uma conversa disparatada, nem sequer ainda haviam 
falado em casamento. Estamos a pr o carro adiante dos bois, no estamos? Era verdade mas ela tinha de tomar uma deciso antes que algum adoptasse o beb, dando 
origem a uma disputa por parte de Maddy. Sabia que no iria passar a vida a ansiar por um beb. Mas este era diferente. Era o produto de um acontecimento que alterara 
tudo. O aparecimento inesperado de Andy no seu caminho parecia obra do destino.
O que desejas tu fazer? perguntou-lhe Bill, simplesmente. O que farias se eu no existisse?
Adoptava-o respondeu sem hesitao.
Ento, adopta. No podes viver a tua vida em funo de outra pessoa, Maddy. Foi o que fizeste sempre. Eu posso morrer amanh ou na semana que vem. Podemos concluir 
que somos ambos pessoas formidveis mas que  prefervel sermos amigos do que amantes, embora eu espere que tal no acontea. Obedece ao teu corao, Maddy. Se for 
certo para ns, acabar por resultar. E quem sabe, talvez eu venha a gostar imenso de ter um garoto para jogar basebol comigo na minha segunda infncia. Perante 
a forma como se expressou, aumentou o seu amor por ele. E no discordava dos seus argumentos. No desejava renunciar a uma coisa que talvez lhe estivesse destinada. 
Sentia que havia uma razo para Deus lhe ter dado uma segunda oportunidade, no s com Bill, mas com Lizzie e com aquele beb.
Achas que sou completamente louca se o adoptar? Nem sequer sei se tenho emprego. O Jack ameaou despedir-me.
Esse no  o problema. Arranjas emprego em cinco minutos, se perderes o actual. A questo reside em quereres ou no tomar a teu cargo o filho de outra pessoa, e 
assumir uma responsabilidade para o resto da tua vida. Tens de pesar bem os prs e os contras.
Pois tenho. Bill conhecia-a o suficiente para saber que ela no se dicidiria de nimo leve.
Respondendo  tua pergunta, no, no te acho louca.
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Corajosa. E jovem. E enrgica E incrivelmente digna e decente e cheia de amor e de devoo. Mas no louca. Era tudo o que ela precisava de ouvir; ajudou-a na sua 
deciso
Deitada e ainda acordada, pensou no caso toda a noite, e de manh telefonou  assistente social e comunicou-lhe que queria adoptar Andy. A assistente social felicitou-a, 
dizendo-lhe que ia tratar dos papis. Foi um momento capital na vida de Maddy, que comeou por chorar de alegria e alvio e depois telefonou primeiro a Bill, a seguir 
a Lizzie. Ambos se mostraram felizes por ela, embora Maddy conhecesse as reservas dele. Mas se o objectivo consistia em as coisas resultarem entre ambos, no podia 
abandonar os sonhos da sua vida por causa dele Nem ele quereria que o fizesse. S o que no sabia era se iria apetecer-lhe treinar uma equipa infantil de basebol 
aos setenta anos, e no podia critic-lo por isso. Tudo o que podia era esperar que a adopo viesse a revelar-se uma bno para todos, no s para ela e Bill, 
mas especialmente para Andy
Quando nesse dia saiu do hospital, vestia a roupa que Bill lhe comprara e dirigiu-se directamente a casa dele. Surpreendia-a sentir-se ainda to cansada Embora no 
tendo ficado seriamente magoada, o trauma da exploso roubara-lhe qualquer coisa. Mesmo assim, ligou ao produtor e prometeu voltar ao trabalho na segunda-feira seguinte. 
Elliot telefonara-lhe vrias vezes, por respeito pelo que lhe acontecera e grato por ela ter sobrevivido. Dava a impresso de que toda a gente que conhecera na vida 
lhe mandara flores para o hospital. Era um lenitivo estar em paz em casa de Bill. No dia seguinte, iria buscar as suas coisas apesar das ameaas de Jack de que no 
ficaria com nada. Contratara um segurana seu conhecido para a acompanhar. No tivera notcia alguma de Jack desde que lhe dissera que ia deix-lo
E nessa noite, ela e Bill sentaram-se diante da lareira e conversaram horas a fio, enquanto ouviam msica. Ele fizera-lhe o jantar e servira-o  luz de velas. Mimava-a, 
acarinhava-a. Nenhum deles queria acreditar na sua boa sorte. De repente, Maddy estava instalada em casa dele, e livre de Jack. Tinham todo um mundo novo pela frente. 
Que estranho para Maddy! De um momento para o outro, era como se Jack
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no existisse, como se toda a vida que haviam vivido juntos se tivesse desvanecido.
Acho que o grupo das mulheres maltratadas funcionou mesmo. Sorriu-lhe. Agora, sou uma rapariga crescida. Mas, de tempos a tempos, o passado ainda a fazia vibrar. 
Preocupava-se com Jack, lamentava-o, receava que o tivesse deprimido o que lhe dissera, achava-se muito ingrata para com ele. No tinha maneira alguma de saber se 
ele passara o fim-de-semana com uma rapariga de vinte e dois anos que conhecera e com quem dormira em Las Vegas. Havia muitas coisas que Maddy no sabia a seu respeito, 
e jamais viria a saber.
Foi preciso fazer explodir todo um centro comercial para te chamar  razo brincou Bill. Porm, os dois sabiam quanto ele levara o caso a srio. Ficara desesperado 
ao ver as tragdias que se desenrolavam  sua volta, enquanto esperava que a resgatassem. Fora uma coisa to chocante que ambos sentiam a necessidade de aligeirar 
um pouco o drama. A propsito, quando te do o Andy?
Ainda no sei. Vo telefonar-me. E ento, fez-lhe uma pergunta em que matutava desde o momento em que decidira adoptar Andy. Aceitas ser padrinho dele, se no quiseres 
ser mais do que isso? Olhava-o muito sria; Bill tomou-a nos braos.
Ser uma honra. E, depois de a beijar, recordou-lhe: Eu no disse que "no seria mais do que isso" para ele. Ainda temos de acertar as agulhas. Mas, se vamos ter 
um beb, Maddy, h alguns pormenores preliminares a tratar. Maddy riu-se, percebendo de imediato onde ele queria chegar.
Puseram os pratos na mquina, apagaram as luzes, subiram calmamente as escadas juntos e entraram no quarto dele. Maddy colocara discretamente os seus poucos haveres 
no quarto de hspedes, no querendo que Bill se sentisse pressionado. Por tudo o que j lhe contara, sabia que no houvera outra mulher na sua vida desde a morte 
de Margaret, h pouco mais de um ano. O aniversrio fora pungente para ele, mas de ento para c parecera-lhe mais liberto, com o corao mais leve.
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Maddy sentou-se na cama, conversaram um bocado sobre o centro comercial, os filhos dele, Jack e tudo aquilo por que ela passara. No tinham segredos um para o outro. 
Bill olhou-a com um olhar repleto de amor e devagarinho puxou-a para si.
Sinto-me outra vez um garoto quando estou contigo murmurou. Uma forma de lhe dizer que estava assustado, mas tambm ela o estava, embora no muito. Sabia que dele 
nada tinha a recear.
E quando se beijaram, todos os fantasmas do passado de ambos se dissiparam, ou pelo menos foram momentaneamente afastados, tanto os bons como os maus. Era como comear 
uma nova vida com um homem h tanto tempo seu amigo que j no conseguia imaginar a vida sem ele.
Tudo aconteceu com naturalidade, com -vontade; deslizaram lado a lado na cama, ficaram deitados nos braos um do outro como se sempre tivessem estado juntos. E 
no fim, ele abraou-a, sorriu-lhe e repetiu-lhe quanto a amava.
Tambm eu te amo, Bill sussurrou Maddy, colada a ele. Ao adormecerem, enlaados, sentiam-se abenoados. Fora um longo percurso de duas vidas at se encontrarem, 
mas a viagem, e as tristezas, e a dor e at as perdas que haviam sofrido tinham valido a pena para ambos.
CAPTULO 23
O segurana que Maddy contratara encontrou-se com ela em casa de Bill no dia seguinte. Maddy explicou-lhe que tudo o que pretendia fazer era ir  casa que partilhara 
com Jack buscar as suas roupas. Tinha l suficientes malas vazias para as guardar e alugara uma carrinha para as transportar. Ia p-las no apartamento de Lizzie. 
As obras de arte, a moblia, as recordaes, em suma tudo o resto, deixava-as a Jack. No queria seno as roupas e objectos pessoais. Parecia correcto e simples. 
At chegarem  casa.
O segurana conduzia a carrinha. Bill oferecera-se para tambm ir, mas ela no achou que fosse correcto e garantiu-lhe que no tinha razes para se preocupar. Imaginava 
que lhe levaria poucas horas e partiram quando sabia que Jack j sara para o trabalho. Porm, mal chegou  porta da frente e rodou a chave na fechadura, apercebeu-se 
de algo de estranho. A porta no abriu. A chave adaptava-se perfeitamente, mas ao ser rodada no abria. Voltou a tentar, pensando que a fechadura estivesse avariada. 
O segurana tambm tentou. Ento, olhou para ela e disse-lhe que as fechaduras tinham sido mudadas. A chave dela no servia para nada.
Ainda de p do lado de fora da casa, serviu-se do telemvel para ligar a Jack, cuja secretria lhe respondeu que ia estabelecer de imediato a ligao. Por um momento, 
receara que ele no quisesse falar-lhe.
Eu estou em casa, para buscar as minhas coisas explicou, e a minha chave no funciona. Presumo que mudaste as fechaduras. Posso passar pelo escritrio a buscar a 
chave? Depois, vou levar-ta. O pedido era razovel e a voz soava equilibrada e jovial, apesar de lhe tremerem as mos.
Quais tuas coisas? interrogou ele num tom neutro. No tens "coisas" nenhumas em minha casa. Estranha afirmao!
S quero tirar as minhas roupas, Jack. No me refiro a mais nada. Podes ficar com o resto. Tambm tinha de ir
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buscar as roupas que deixara na Virgnia. E as minhas jias, obviamente Mais nada, o resto  teu
No s dona da roupa nem das jias. O dono sou eu. Tu no possuis nada, Mad, excepto aquilo que tiveres agora em cima do corpo. Fui eu quem pagou  tudo meu. Tal 
como costumava dizer-lhe que era dono dela. Maddy possua roupa e jias que fora adquirindo durante os ltimos sete anos e no havia razo para no poder retir-las, 
excepto se ele pretendia vingar-se.
O que vais fazer com isso? perguntou-lhe calmamente.
Mandei as jias para a Sotheby's h dois dias e chamei a Legio da Boa Vontade para levar as tuas coisas no dia em que me comunicaste que te ias embora. Disse-lhes 
que as destrussem.
Fizeste isso?
Claro que fiz. No me parece que quisesses que outras pessoas vestissem o que era teu, Mad respondeu, como se lhe tivesse prestado um grande favor. J no h absolutamente 
nada teu dentro de casa. E as jias nem sequer representavam um grande investimento. Nunca lhe dera nenhuma realmente valiosa, apenas algumas coisas bonitas de que 
ela gostava e que no lhe renderiam uma fortuna quando as vendesse.
Como pudeste fazer semelhante coisa? Era um autntico sacana. Maddy continuava em frente  casa, estupefacta pela mesquinhez do marido
Eu avisei-te, Maddy. No te metas comigo Se queres pr-te a andar, pagas o preo.
J paguei, com os anos em que vivi contigo, Jack replicou ela calmamente, mas toda a tremer. Tenho a sensao de ter sido roubada
Ainda no viste nada advertiu-a Jack. E num tom to maldoso que a assustou.
ptimo Desligou e voltou para casa de Bill. Encontrou-o l, a trabalhar. Ficou surpreso ao v-la regressar to depressa.
O que aconteceu? O Jack j tinha emalado tudo antes de tu l ires?
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. Bem podes diz-lo. mandou destruir tudo. Mudou as fechaduras, nem entrei. Telefonei-lhe. Diz que tem as jias para venda na Sotheby's e que mandou a Legio da 
Boa Vontade destruir todas as minhas roupas e objectos pessoais.
Era como se um incndio tivesse dado cabo de tudo. Nada lhe restara. Era to cruel e to mesquinho!
O filho da me! Ele que se lixe, Maddy. Podes comprar coisas novas.
Acho que sim. Mas de certo modo sentia-se violada. E iria ser caro refazer todo um guarda-roupa.
Abalara-a a aco de Jack, mas mesmo assim conseguiram ultrapassar o facto e tiveram um fim-de-semana estupendo que lhe incutiu foras para um inevitvel encontro 
com o marido quando voltasse ao trabalho na segunda-feira. Sabia que seria difcil trabalhar com ele, mas adorava a sua profisso e no queria perder o lugar.
Acho que devias despedir-te aconselhou-a Bill sensatamente. H montes de outras estaes de televiso que gostariam de te ter l.
Preferia manter o status quo por agora. Talvez no estivesse a ser sensata; mas ele no a contrariou. J sofrera traumas bastantes para uma semana, entre o atentado 
e a perda a favor do seu prximo ex-marido de tudo o que possua. No estava todavia minimamente preparada para o que se lhe deparou quando chegou ao local de trabalho 
na segunda-feira. Bill, que tinha uma reunio com o seu editor, deu-lhe boleia e ela encaminhou-se para a recepo com o distintivo posto e um sorriso corajoso, 
preparando-se para atravessar o detector de metais. E viu de imediato, pelo canto do olho, o chefe dos seguranas  sua espera. O homem chamou-a de parte e explicou-lhe 
que no podia subir.
Porqu? Haveria alguma simulao de incndio ou alguma ameaa de bomba, ou at uma ameaa contra si?
No est autorizada. Ordens de Mister Hunter. Desculpe-me, minha senhora, mas no pode entrar no edifcio.
No estava apenas despedida. Era persona non grata. Se o guarda lhe tivesse batido, no a deixaria mais atordoada do que com as palavras que acabara de dizer-lhe. 
Fora-lhe fechada a porta na cara. Estava sem trabalho, sem roupas, sem sorte, 
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e por um instante sentiu o pnico que ele quisera que experimentasse. S lhe restava um bilhete para Knoxville num autocarro da Greyhound
Respirou fundo ao sair e jurou a si prpria que, fizesse ele o que fizesse, no a destruiria. Estava a ser castigada por t-lo deixado. Afinal, no fizera nada de 
mal. Depois de tudo o que ele levara a cabo contra ela, tinha todo o direito  sua liberdade. Mas E se no arranjasse outro emprego, ou se Bill se cansasse dela, 
ou se Jack estivesse certo e ela fosse desprezvel. Sem pensar, meteu pernas a caminho e voltou a p para casa de Bill, o que lhe levou uma hora. Quando chegou, 
estava exausta
Ele j regressara e olhou para ela, branca como a cal. Rompeu em soluos mal o viu e contou-lhe o sucedido
Acalma-te, acalma-te, Maddy Vai correr tudo bem. O Jack no pode atingir-te de modo algum
Pode, sim. Vou parar  sarjeta, tal como ele disse E tenho de voltar para Knoxville. Palavras totalmente irracionais, mas Maddy passara por muita coisa num curto 
espao de tempo e entrara num pnico absoluto. Tinha dinheiro no banco, que poupara do seu ordenado sem dizer a Jack, e Bill estava ao seu lado, mas, a despeito 
de tudo isso, sentia-se rf, precisamente como Jack planeara. Sabia exactamente quais os sentimentos que a avassalariam, a que ponto ficaria destruda, aterrorizada, 
e era isso exactamente o que queria. Agora era a guerra
No vais para Knoxville. No vais a parte nenhuma, excepto a um advogado E no dos do Jack. Deixou-a acalmar e telefonou a um. Juntos, foram consult-lo nessa tarde. 
Algumas coisas o advogado no podia fazer, por exemplo recuperar as roupas dela Mas havia imensas outras possveis, para obrigar Jack a cumprir o contrato. Jack 
ia ter de pagar-lhe tudo o que destrura, explicou ele, ia ter de proceder a uma diviso de bens justa e indemniz-la por t-la expulso da estao. Falou mesmo em 
perdas e danos de milhes por no cumprimento de contrato, deixando Maddy boquiaberta. No era como de incio temera, nem uma desamparada, nem uma vtima dele. Jack 
ia ter de pagar caro pelo que andava a fazer, e a m publicidade que o caso lhe acarretaria tambm no era de molde a benefici-lo
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 assim, Mistress Hunter. A senhora pode fazer bem pior do que ele fez. Ele pode aborrec-la. Pode mago-la
pessoalmente, mas no pode ir mais longe.  um alvo fcil e uma figura pblica. Vamos obter dele um ajuste de contas muito vantajoso, ou ento o pagamento de perdas 
e danos, atravs de um jri. Maddy sorriu-lhe como uma criana com um brinquedo novo no Natal e, quando saram do escritrio do advogado, ergueu para Bill um olhar 
embaraado. Sentia-se mais segura do que nunca, com ele a seu lado.
Desculpa ter-me ido abaixo esta manh.  que fiquei to assustada, e foi to horrvel quando o guarda me disse que tinha de sair do edifcio!
Claro! Foi torpe da parte do Jack e por isso o fez. E no te iludas. Ainda no acabou. Ele vai chatear-te o mais que puder, enquanto o tribunal lho permitir. Talvez 
mesmo depois continue a tentar. Tens de te revestir de uma couraa.
Eu sei. O facto deprimia-a. Uma coisa eram as palavras, outra, passar pelas situaes.
No dia seguinte, a guerra continuou. Maddy e Bill tomavam calmamente o pequeno-almoo e liam o jornal quando de sbito ela suspirou. Bill fitou-a.
O que h? Com os olhos marejados de lgrimas, Maddy passou-lhe o jornal. Na pgina doze, um pequeno artigo informava que Maddy tivera de abandonar o lugar de apresentadora 
do seu programa em consequncia de um esgotamento nervoso que sofrera depois de ter estado presa catorze horas no centro comercial, objecto de atentado.
Meu Deus! exclamou Bill, que leu cuidadosamente o artigo e depois telefonou ao advogado. Este disse-lhes, quando ao meio-dia respondeu ao telefonema, que podiam 
processar Jack por difamao. Mas era agora claro que Jack Hunter lanaria mo de tudo, e que o seu nico objectivo na vida era descarregar a sua vingana sobre 
Maddy.
Na semana seguinte, Maddy voltou ao grupo das mulheres maltratadas e contou-lhes o que ele andara a fazer-lhe. No as surpreendeu. Avisaram-na de que iria ser pior 
e que ela precisava de se precaver tambm fisicamente. A chefe do grupo descreveu-lhe o comportamento sociopata, que assentava a Jack como uma luva. Um homem sem 
moral nem
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conscincia que, quando lhe convinha, dava a volta s coisas e se imaginava a si prprio como vtima. A descrio perfeita de Jack.  noite reproduziu toda a conversa 
a Bill, que concordou plenamente com elas
Quero que te acauteles quando eu no estiver c, Maddy Vou ficar preocupado de morte e gostava que viesses comigo. Insistira em que ele fosse passar o Natal a Vermont, 
como planeado, partia dentro de dias. Maddy queria ficar na cidade para instalar Lizzie no seu novo apartamento. Lizzie chegava no dia da partida de Bill E continuava 
a pensar em mudar-se para casa da filha Embora adorasse estar com Bill, no queria que este se sentisse pressionado ou amarrado. Alm disso, ainda esperava notcias 
do beb, que era a ltima coisa de que ele precisava para quebrar a sua existncia pacfica. Queria aproximar-se de Bill devagarinho
Fico bem sossegou-o. J no pensava que Jack fosse atac-la fisicamente. Andava demasiado ocupado a incomod-la por meios que a prejudicassem seriamente
O advogado fez com que o jornal publicasse um desmentido da notcia dada e depressa correu que ela fora despedida pelo seu ex-marido, num ataque de fria. Passados 
dois dias, recebia telefonemas das trs estaes mais importantes, e com ofertas excepcionalmente vantajosas. Maddy quis algum tempo para pensar. Desejava tomar 
a deciso certa e no agir  pressa. Mas pelo menos estava segura de que no ia ficar desempregada para sempre. As aluses dele a acampamentos de atrelados e quedas 
na sarjeta no passavam de outra forma de tortura
No dia em que Bill partiu, foi ao apartamento de Lizzie pr em ordem as coisas que comprara para ela e, quando  noite a filha chegou, achou-o alegre, acolhedor 
e arrumado na perfeio. Ficou radiante por ir partilh-lo com a me. Achou horrvel o que Jack lhe fizera Mas o facto de tentar afastar Lizzie de Maddy era para 
esta o seu pior crime. A lista das coisas odiosas por que a obrigara a passar era interminvel, todas agora muito claras para Maddy. Embaraava-a pensar nas imensas 
agresses que lhe permitira. A verdade  que sempre julgara, secretamente, que as merecia, e Jack sabia isso. Fornecera-lhe todas as armas de que ele precisava para 
a ferir
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Passou horas a conversar sobre o assunto com Lizzie. Bill telefonou-lhe de Vermont logo que l chegou. J tinha saudades dela
Porque no vm passar o Natal?
No quero intrometer-me no meio dos teus filhos
Eles adoravam ter-te c, Maddy
Que tal o dia a seguir ao Natal? Era uma proposta razovel e Lizzie estava ansiosa por aprender a esquiar. Bill exultou com a sugesto, e Lizzie tambm, quando Maddy 
lha comunicou
 noite, antes de ir para a cama, novo telefonema de Bill, para lhe repetir quanto a amava
Acho que temos de renegociar esse teu estilo de vida. No me parece que seja justo para ti viveres com a Lizzie num apartamento com um s quarto. Alm disso, vou 
sentir a tua falta. Na verdade, ela pensara em arranjar um apartamento para si, pela mesma razo por que no quisera ir passar as frias a Vermont No queria que 
ele se sentisse pressionado. Era uma pessoa muito sensvel Mas Bill parecia quase magoado por ela se ter ido embora para casa de Lizzie
Bem, tendo em conta o volume das minhas roupas de momento proferiu, rindo-se com uma certa amargura,  uma deciso que posso modificar em cerca de cinco minutos
ptimo. Quero que te mudes quando eu voltar para casa. J no  sem tempo, Maddy acrescentou meigamente. Ambos atravessmos suficientes perodos difceis solitrios. 
Vamos comear uma nova vida juntos. No sabia ao certo o que ele queria dizer e no teve coragem para lho perguntar. Teriam muitas ocasies para esclarecer tudo. 
No dia seguinte, era vspera de Natal, todos tinham imenso que fazer, apesar de ela j no ter um emprego com que se preocupar. Planeara dedicar por inteiro a Lizzie 
a sua ateno
Saram as duas, compraram uma rvore e decoraram-na juntas. Foi um grito profundo contra os seus feriados austeros com Jack, fechados na casa da Virgnia, ele ignorando 
o dia e obrigando-a a ignor-lo tambm. Sob certos aspectos, aquele era o Natal mais feliz da sua vida, embora ainda lamentasse bastante Jack, que to amargo se 
tornara Mas repetia regularmente
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para consigo que estava melhor sem ele. E quando lhe ocorriam recordaes boas, anulava-as com as ms, muito mais numerosas. Do que tinha acima de tudo conscincia 
era da felicidade de ter Bill na sua vida, e Lizzie.
s duas horas dessa tarde, na vspera de Natal, recebeu a chamada por que tanto ansiara, sem fazer a menor ideia do que ia ouvir. Tinham-lhe dito que podia levar 
semanas, mesmo um ms, pelo que tirara de momento o assunto da cabea, concentrando-se no prazer de estar com Lizzie.
Ele est pronto, mam anunciou-lhe pelo telefone uma voz familiar. Era a assistente social que a ajudara na adopo de Andy. Ganhou um rapazinho que quer ir para 
casa passar o Natal com a sua mam.
A srio? Posso ir busc-lo agora? Olhou para Lizzie, a abanar a mo freneticamente, mas Lizzie no fazia a menor ideia do que se tratava e limitou-se a rir.
 todo seu. O juiz assinou os papis esta manh. Achou que significaria muito para si, por ser Natal.  uma forma formidvel de passar o feriado, com um beb novo.
Onde est ele?
Aqui mesmo, no meu gabinete. Os pais de acolhimento acabam de mo deixar. Pode vir busc-lo a qualquer hora da tarde, mas eu gostaria de ir para casa ter com os meus 
filhos.
Estou a dentro de vinte minutos. Desligou e informou Lizzie. Vens comigo? perguntou-lhe, de sbito, muito nervosa. Nunca se ocupara de um beb. Tudo ia ser novidade 
para ela, e no lhe comprara nada. No quisera contar com o ovo antes de a galinha o pr, por assim dizer, e por qualquer razo julgara que a avisariam com maior 
antecedncia.
Vamos s compras depois de o irmos buscar disse Lizzie, sensata. Tratara de midos em todos os seus lares de acolhimento e sabia muito mais do que a me acerca de 
bebs e das suas necessidades.
Nem sei o que  preciso... fraldas, leite, acho eu... rocas... brinquedos... coisas dessas, no ? Sentia-se com catorze anos e to excitada que no parava quieta. 
Penteou-se e lavou a cara, ps o casaco, agarrou na mala e desceu a correr as escadas do apartamento, seguida de Lizzie.
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Quando chegaram, de txi, ao gabinete da assistente social, Andy esperava-as vestido com uma camisola branca com capuz e calas de veludo azul-claro; e os pais de 
acolhimento tinham-lhe oferecido um urso de peluche como presente de Natal.
Dormia como um anjo quando Maddy olhou para ele. Levantou-o com todo o carinho e aninhou-o nos braos. E tinha lgrimas nos olhos ao fitar Lizzie. Ainda era to 
grande o seu sentimento de culpa e de pesar por nunca ter estado perto dela! Dir-se-ia que Lizzie lhe leu o pensamento; enlaou-a e disse-lhe:
Tudo bem, mezinha... Eu amo-te.
Tambm eu a ti, querida retorquiu Maddy e beijou-a, precisamente quando o beb acordava e comeava a chorar. Maddy encostou-o cuidadosamente ao ombro, o pequenito 
olhou-a como se procurasse uma cara familiar e redobrou o choro.
Acho que est com fome opinou Lizzie, mais confiante do que a me. A assistente social entregou-lhes o saco dele, o leite, e uma lista de instrues. E a Maddy, 
um grande envelope com os documentos de adopo. Ainda tinha de ir ao tribunal mais uma vez, tratava-se de uma mera formalidade. O beb era dela. Maddy mantivera-lhe 
o nome prprio e decidira mudar o apelido para o seu de solteira, Beaumont. No queria mais ligao nenhuma a Jack Hunter. Mesmo que voltasse a ter um programa seu, 
f-lo-ia como Madeleine Beaumont. E o beb chamava-se agora Andy William Beaumont. Pusera-lhe o segundo nome em honra do padrinho. Ao deixarem o gabinete da assistente 
social, carregava o seu fardo precioso com um olhar perplexo.
A caminho de casa pararam numa loja para bebs e compraram tudo o que Lizzie e a empregada da loja disseram ser necessrio. O txi ficou to cheio que mal havia 
lugar para elas, e Maddy sorria, radiante, ao entrarem no apartamento, onde o telefone tocava.
Eu pego-lhe, mam ofereceu-se Lizzie, e Maddy detestou ficar sem ele mesmo por uns minutos. Embora tivesse duvidado de estar a tomar a deciso certa, tinha agora 
a certeza de que o fizera, de que era exactamente aquilo de que precisava e que queria.
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Onde estiveste? perguntou a voz familiar. Era Bill, falava de Vermont. Acabara de chegar de uma tarde de patinagem no gelo com o neto E no podia esperar para lho 
contar. Onde estavas, Maddy. repetiu, e ela sorria ao responder, orgulhosa
Fui buscar o teu afilhado. Lizzie acabava de acender as luzes da rvore de Natal, o apartamento era acolhedor, aconchegado Mas lamentava no passar o Natal com Bill. 
Especialmente tendo j Andy consigo
Por segundos, Bill no percebeu o que ela queria dizer, mas logo compreendeu, e sorriu. Pela voz de Maddy, podia avaliar a sua felicidade
Que belo presente de Natal! Como est ele. Como ela estava, j ele percebera
 to bonito, Bill! Olhou para Lizzie com o novo irmo nos braos e sorriu-lhe. No tanto como a Lizzie era, mas  um amor. Espera at o veres
Vais traz-lo contigo para Vermont.. Mal fez a pergunta, achou-a idiota. Ela no tinha qualquer alternativa, e o beb no era um recm-nascido. Tinha uns saudveis 
dois meses e meio. Faria dez semanas no dia de Natal
Se tu achas bem, eu gostaria muito
Tr-lo. Os midos vo ador-lo E acho melhor que ele e eu nos acostumemos um ao outro, j que vou ser o seu padrinho. No lhe disse mais nada, mas voltou a telefonar-lhe 
 noite e na manh seguinte Ela e Lizzie foram  missa do galo e levaram o beb, que no acordou uma s vez. Maddy p-lo no elegante carrinho azul que acabara de 
lhe comprar. Parecia um pequeno prncipe, vestido com o seu fatinho azul, novo em folha, e tapado com um fofssimo cobertor azul Aconchegado a seu lado, o urso de 
peluche
Na manh de Natal, me e filha abriram os presentes que tinham uma para a outra. Havia malas, luvas, livros, camisolas e perfumes Mas o melhor presente de todos 
era Andy, deitado no seu bero e a olhar para elas E quando Maddy se inclinou e o beijou, abriu-se num grande sorriso. Um momento que ela nunca iria esquecer. Uma 
prenda pela qual ficaria eternamente grata. Ao pegar-lhe, fez em silncio uma prece de agradecimento a Anne, a me dele, pela sua incrvel prenda
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CAPTULO 24
No dia a seguir ao Natal, Maddy e Lizzie partiram para Vermont num carro alugado, que mais parecia uma furgoneta de ciganos com todo o material para o beb. Este 
dormiu a maior parte do trajecto, e Maddy e Lizzie conversaram e riram. Pararam para comer um hambrguer, e Maddy aproveitou para dar o bibero a Andy. Nunca fora 
to feliz na sua vida, nem to segura de ter feito o que era correcto. Apercebia-se do que Jack lhe roubara quando a forara a laquear as trompas. Tirara-lhe muitas 
coisas, a audcia, a auto-estima, a confiana, o poder de decidir e organizar a sua prpria vida. Fora uma m troca pelo emprego e pelos bens materiais que lhe proporcionara.
O que vai fazer relativamente s ofertas de emprego que recebeu? perguntou Lizzie com interesse a caminho da casa de Bill em Sugarbush, e Maddy suspirou.
Ainda no sei. Hei-de voltar a trabalhar, mas quero desfrutar da tua presena e da do Andy por algum tempo.  a minha primeira oportunidade, e a ltima, de ser me 
a tempo inteiro. Uma vez de regresso ao trabalho, volta a cair-me tudo em cima. No tenho pressa. O seu advogado estava a organizar um importante processo contra 
Jack e a estao televisiva. Jack devia-lhe uma enorme indemnizao por despedimento, e havia ainda difamao, inteno malvola e vrias outras coisas que o advogado 
queria incluir no processo. Mas, acima de tudo, o que ela desejava era ficar um certo tempo em casa com Lizzie e o beb. Lizzie entrava para Georgetown dentro de 
duas semanas, o que a trazia excitadssima.
Chegaram a Sugarbush s seis da tarde, mesmo a tempo de conhecerem todos os filhos de Bill e jantarem com eles. Os netos ficaram doidos com o beb. Bill riu-se e 
sorriu-lhes, e o mais pequeno, que tinha dois anos e meio, brincou com Andy, que adorou a brincadeira.
No fim do jantar, Lizzie pegou no beb e declarou que ia ser ela a deit-lo. Depois de ter ajudado a filha e as noras
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de Bill a arrumar a cozinha, Maddy sentou-se com ele diante da lareira e ficaram um bocado a conversar. Quando todos subiram para se deitar, Bill sugeriu-lhe um 
passeio. Fazia imenso frio, mas as estrelas brilhavam e a neve estalava-lhes debaixo dos ps enquanto caminhavam pelo carreiro que o filho dele escavara. A velha 
casa era grande, confortvel, e obviamente todos eles a adoravam. Uma famlia encantadora, que gostava de se reunir. Ningum parecia chocado pelo relacionamento 
de Bill com Maddy. Fora para eles um ponto de honra acolh-la calorosamente e at com Lizzie e o beb eram adorveis.
Tens uma famlia maravilhosa felicitou-o ela; passeavam de mos dadas, com luvas caladas. Os esquis de todos eles estavam alinhados no exterior da casa, e Maddy 
ansiava por esquiar com ele no dia seguinte, se arranjassem algum para ficar com o beb. Era um novo aspecto da vida dela, que por um certo tempo iria estranhar, 
mas que lhe agradava.
Obrigado. Sorriu a Maddy e enlaou-a.  um amor de beb acrescentou. Era-lhe fcil perceber o quanto ela j o amava. Teria sido errado, se nunca tivesse podido passar 
por essa experincia. E tinha a possibilidade de dar ao pequeno uma vida que ele nunca teria tido com a sua verdadeira me. Deus sabia o que estava a fazer quando 
naquela noite juntara os trs nos destroos do centro comercial E quem era ele, pensou Bill, para a privar de tudo aquilo? Tenho pensado muito disse passado um bocado, 
quando j regressavam a casa. E notou o ar assustado dela ao olhar para ele. Maddy pensava saber o que se seguiria.
No tenho a certeza de querer ouvir-te... Brilhavam-lhe os velhos terrores nos olhos, que desviou para que ele no visse as lgrimas que se formavam.
Porque no? Voltou-se com meiguice, obrigou-a a encar-lo, e pararam sob a cobertura do carreiro. Cheguei a algumas concluses. Pensei que quererias conhec-las.
A nosso respeito? A voz dela tremia, receosa de que, mal comeara, tudo acabasse. No parecia justo, mas nada na sua vida fora to intenso como o que agora tinha. 
Bill, Lizzie e Andy. Eram o seu nico interesse. A sua vida com Jack j no passava de um sonho mau.
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No tenhas medo, Maddy. Sentia-a tremer nos seus braos.
Tenho. No quero perder-te.
No h garantias quanto a isso respondeu ele honestamente. Tens muito mais caminho pela frente do que eu. Mas acho que conclu que, neste ponto da minha vida, o 
que interessa no  quando se vai chegar l, ou com que rapidez, mas sim o percurso. Percorrermos juntos o caminho e faz-lo bem, talvez seja tudo o que possamos 
pedir. Ningum est nunca seguro daquilo que se lhe vai deparar ao dobrar da esquina. Aprendera a lio duramente, tal como Maddy.  uma espcie de caminho de f. 
Ela no estava ainda bem certa do ponto onde ele queria chegar. Mas o que Bill mais desejava era incutir-lhe segurana. No vou deixar-te, Maddy. No vou fugir para 
parte nenhuma. E no quero magoar-te nunca. De vez em quando, porm, magoar-se-iam, embora nunca intencionalmente. Ambos o sabiam.
Tambm no quero magoar-te replicou ela com doura, vagamente tranquilizada pelas palavras que lhe ouvira. Sentia que nada tinha a temer dele. Era uma nova vida, 
um novo dia, um novo sonho que haviam encontrado juntos e acalentado cuidadosamente.
O que eu estou a tentar dizer-te  que cheguei  concluso de que talvez me fizesse bem jogar basebol quando andar pela casa dos setenta. Se tudo o mais falhar, 
o Andy pode atirar-me a bola para a cadeira de rodas.
Maddy olhou-o com um sorriso divertido.
-me difcil imaginar que nessa altura estejas numa cadeira de rodas. Ele ria-se.
Quem sabe? Podes extenuar-me. J tentaste. S Deus sabe, exploses em centros comerciais, bebs, ex-maridos malucos... No h dvida de que trazes excitao  minha 
vida. Eu no quero ser apenas o padrinho. Ele merece mais do que isso. Todos ns merecemos.
Queres ser o treinador aquando do seu primeiro campeonato? proferiu em tom de provocao. Era como se o seu barco acabasse de chegar, um barco por que esperara muito 
tempo, de facto toda a vida. Com Bill, estava finalmente a salvo e em boas mos.
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Quero ser teu marido,  o que estou a tentar explicar-te. O que achas, Maddy?
O que iro dizer os teus filhos? Isso preocupava-a, mas a verdade  que tinham sido incrivelmente gentis com ela.
Provavelmente, vo dizer que eu estou louco, e com razo. Mas eu penso que  a coisa correcta a fazer para ns dois... para todos ns... H muito que o sei. S ignorava 
o que tu ias fazer, ou quanto tempo levarias a faz-lo.
Levei tempo de mais. Agora lamentava-o, mas a verdade  que no conseguira agir mais depressa.
Eu disse-te, Maddy, o que importa no  a rapidez.  o percurso. Ento, o que achas?
Acho que tenho muita sorte murmurou ela.
Tambm eu. Rodeou-lhe os ombros com um brao e encaminharam-se para casa. Lizzie, com o beb ao colo, observava-os da janela do primeiro andar. Como se o pressentisse, 
Maddy ergueu para ela o olhar, sorriu e acenou-lhe, enquanto Bill a conduzia para dentro, a fazia parar  entrada da porta e a beijava. Para eles, no se tratava 
de um princpio ou de um fim. Tratava-se de uma vida que partilhavam, e da certeza de que o percurso continuaria por muito tempo.

fim
